sábado, maio 14, 2022

Exile on Main Street, os Rolling Stones há 50 anos

 Ao ler este pequeno artigo sobre o disco duplo dos Rolling Stones, Exile on Main Street, publicado em Maio de 1972, fiquei a pensar como é uma desgraça ler algo que se sente ser tudo copiado, ou seja, ter sido escrito por outros, antes e de modo original. 

Não leio no artigo nada que se sinta ser pessoal, experimentado na audição do disco ou vivido com a sua descoberta e vertido como opinião pessoal. Antes se detecta uma espécie de relato histórico, neste caso de um disco de música rock em que as fontes de conhecimento são completamente alheias, algumas delas apócrifas, ainda por cima. Uma das informações, aliás, pode nem ser verdadeira e induzir em erro quem ler. É a que se refere às escapadelas furtivas da então companheira de Keith Richards que teria aproveitado as sonecas  deste para se enrolar com o cantor Mick Jagger, traindo aquele. A historieta de coscuvilhice foi aliás mencionada pelo próprio Keith Richards na sua biografia, Life, de 2010, mas referida a um tempo anterior, durante as filmagens de Performance e portanto não nesta altura. Enfim, vale o que vale, quase nada e a própria, antes de morrer em 2017 já tinha desmentido tal facto. 

Pode escrever-se daquele modo, sim, mas mostrando onde se foi buscar a informação e até a opinião, mas nem isso sucede porque o artigo aparece como sendo de veia original e destinado a ilustrar eventuais interessados quando se baseia em informação recolhida em sítios não identificados e alheios e que podem muito bem ser plagiados que não se queixam. 

De resto para que serve falar de um disco de rock, neste caso dos Rolling Stones, do longínquo ano de 1972, a propósito da efeméride redonda dos 50 anos? 

Uma razão pode ser, evidentemente, a de que tal disco foi importante para a música popular, nesse ano e vindouros, o que aliás é muito duvidoso, mas aceita-se. Outra pode ser uma variação disso: o disco marcou uma época e uma geração e tornou-se de algum modo mítico, nesse contexto. 

É essa a minha perspectiva e por isso apetece-me escrever sobre o mesmo e o contexto que o rodeou na altura, para lembrar como foi. 

Depois da publicação, no ano anterior, do lp Sticky Fingers, acompanhado da nova iconografia do grupo, de língua bem estendida e músicas para ouvir na jukebox, o novo disco foi outro estouro mediático. 

Era duplo e tinha uma capa ainda mais intrigante que o anterior, com uma colagem de pequenas fotos a preto e branco, com imagens circenses e as letras do título e nome do grupo inscritas como um carimbo, tal como o anterior, embora neste caso manuscritas a tinta rosada.

Uma imagem de um disco destes, num escaparate de discoteca nota-se e sobressaía, nessa altura:

Imagem do lp em versão original americana e inglesa ( esta, à direita,  mais escurecida pelo mesmo tempo) e duas edições em cd; a primeira de 1994,  de origem americana, "rematrizada" por Bob Ludwig e apresentada com réplica da capa original, incluindo os 12 postais em folio e a outra de 2010, de origem alemã, em digipack desdobrável e da Promotone/Polydor.

Por outro lado o disco, à semelhança do anterior, foi publicitado e acompanhado de pequenos posteres que me lembro de guardar; um deles com este aspecto intrigante e reproduzindo uma das fotos da capa. Durante algum tempo ficou colado com fita cola, na parte de dentro da porta do quarto. O original estragou-se por causa disso,  mas esta cópia serve para mostrar:


Quanto à música era do mesmo género do anterior, pouco ou nada acrescentava, mas com os Rolling Stones sempre fora assim, a partir do final dos sessenta e até antes segundo o crítico da Rock &Folk, Philippe Paringaux, um dos directores da revista. 

 Num artigo especial de recensão, com várias páginas, analisando canção a canção e publicado logo na edição de Junho de 1972, os Stones eram...rock e os discos de há dez anos a essa parte eram...rock. E continuariam a ser porque o do ano seguinte- Goat´s Head Soup- é mais do mesmo e ainda assim "i like it", talvez ainda mais do que este e o outro a seguir, de 1974- It´s only rock n roll- é mesmo isso, "but i like it" também:






Por cá a crítica de 1972 resumia-se à Mundo da Canção ( e a um Musicalíssimo que não tenho) e num anúncio de Setembro desse ano trazia o preço: 315$00. Mais que um par de calças Levi´s em bombazine, na mesma altura..



Portanto um novo disco dos Stones, em 1972 e a seguir a Sticky Fingers era mesmo um acontecimento cultural musical e foi-o certamente para mim e para muitos, nessa altura.  
A música no entanto era a mesma de sempre e assim ficou durante décadas. Algumas canções tornaram-se clássicos nos concertos do grupo, como Tumbling Dice ou All Down the Line, mas o que eu então- e agora- gostava de ouvir era mais o Sweet Virginia com tintas de country ou a seguinte, Torn and Frayed. Ainda não percebia as letras mas gostava da música e do ritmo e da aura à volta do disco, aliás como sucedia com outros discos desse tempo. 
A música tinha um significado mais completo que hoje porque se ouvia como novidade e era acompanhada pelo que a rodeava. Hoje é apenas a memória do tempo que vivi, como cantava Milton Nascimento na Saudade dos aviões da Panair, do disco Minas de 1975. 
Em 2010 para alimentar essa memória junto de outros que então experimentaram o mesmo, foi republicado o disco, com 10 temas suplementares, para comemorar antecipadamente a efeméride dos trinta anos  e as revistas inglesas e americanas não se fizeram rogadas e voltaram a escrever sobre o disco. 
A mais completa é da Guitar World, americana, de Junho de 2010:









 E também a Uncut inglesa deu uma achega, ajudando a entender o que rodeou a gravação do disco e o que o mesmo significou na época, ajudando à formação do mito, aliás agradável de rememorar:





E até Bill Wyman, um dos membros do grupo publicou um livro em 2002 mostrando como foi, em 1972:





Há mais documentação, da Record Collector, da Rolling Stone e outros e ainda de livros avulsos. mas por hoje chega esta, porque me aborreceu ler aquilo no Observador, sem chama, originalidade ou interesse. É pena.
Em complemento e como ajuda a plagiadores que podem querer dar a entender que ouviram as canções dos Rolling Stones e percebem o seu significado e origem fica aqui um volume de 2016, da autoria de  Philippe Margotin e Jean-Michel Guesdon que em cerca de 700 páginas explicam virtualmente todas as letras das canções do grupo bem como a sua origem e curiosidades acerca das mesmas. 


Como exemplo fica o verbete sobre a canção Sweet Virginia do aludido disco.


E já agora, o som do disco, incluindo o dos cd´s apontados? 

Pois o lp original de 1972 teve a edição inglesa, saída em 12 de Maio de 1972 e a americana, da mesma altura. Qual a melhor? 

Já comparei várias vezes, a dos discos acima mostrados. Influenciado pela opinião de um expert francês, Philippe Manoeuvre, tenho a dizer que a versão americana, na prensagem Monarch é a que se deve ouvir para extrair tudo o que o som do disco pode oferecer. A inglesa fica um pouco atrás no que ao som dos graves diz respeito. Mas apenas um pouco e só com alguma atenção se dá conta. 
Quanto aos cd´s, o melhor é esquecer se quisermos comparar com o som do vinil. A não ser que se arranje uma aparelhagem de alto coturno, do género que a Nagra suíça ou a dCS britânica vendem e que acopladas a amplificadores de igual gabarito possam restituir a fidelidade exigível. Mas para tal é preciso dispor de muitos milhares de euros...ou então arranjar a versão em sacd que aliás não tenho e nunca ouvi mas suspeito que seja muito melhor que o cd normal. 
Não é que o som do cd reproduzido por aparelhagens vulgares não seja bom. É. O problema é que o bom é inimigo do óptimo e para alcançar este, só mesmo com o vinil. De preferência original e prensado pela Monarch com matriz Artisan, americanas. Só este reproduz o ar do tempo e é isso que se torna precioso. 
E quanto a diferenças entre o cd americano de 1994, rematrizado pelo especialista Bob Ludwig e o produzido pelos alemães, em 2010, provavelmente com a mesma origem digital, o som diferencia-se a favor do americano, mais "cheio" e portanto com maior dinâmica, sobressaindo mais os graves. O som alemão é mais anémico. 
Se alguém se der ao trabalho, por curiosidade, em procurar saber o que pensam outros maníacos do som, como de algum modo- hélas!- me considero, pode confirmar tais impressões.
As mesmas questões se podem colocar em relação a um disco parecido no formato, na capa e nas prensagens e respectiva sonoridade: Physical Grafitti, dos Led Zeppelin, também com prensagem americana e inglesa sujeitas a escrutínio apertado. Mas é de 1975 e por isso a data redonda ainda vai demorar um bocado. Veremos então como será, se Deus quiser.

quinta-feira, maio 12, 2022

Chique a valer!

 Sábado de hoje. O parolismo disfarçado de cosmopolitismo:


Já lá dizia o Eça: devemos falar bem uma língua: a nossa. As outras, orgulhosamente mal. Neste caso os responsáveis por uma escola de ensino superior optaram por se designarem numa língua estrangeira, com vista a algo que não se percebe muito bem. Dar nas vistas? Captar alunos anglófonos para frequentar em Portugal cursos de Direito e outras disciplinas? Treinar os alunos na língua franca dos negócios internacionais?

Será que a França, Itália ou Alemanha fazem o mesmo? Será porque na Holanda já será assim? Não sei a resposta, mas é sempre deprimente. 

Há 50 anos os cantores de música popular um pouco mais sofisticada que o fado e a canção ligeira, também achavam que era preciso cantar em inglês, porque afinal imitavam os anglo-saxónicos nos ritmos e musiquetas. Foi preciso chegar um Rui Veloso para demonstrar que era possível ter sucesso e cantar em português ritmos estrangeiros. 

Estes repetem a mesma toada da parolice nacional e em vez de cultivarem a língua mátria escolhem a língua estrangeira acabando fatalmente por falar mal...as duas. 

Porca miseria! Em italiano, para não destoar.

quarta-feira, maio 11, 2022

Clássico de sempre: a nossa História como europeus

 Há um pouco mais de 50 anos a cultura em Portugal tinha um significado um pouco diverso de hoje. Reportava-se a um saber ancorado em fontes que ainda provinham do universo escolar e era acompanhado por  outras formas de conhecimento em que a tradição continuava a ser o que sempre fora. 

Havia então uma instituição nacional, privada e com origem na fortuna de um turco de ascendência arménia que teve autorização para fazer uma Fundação como elas devem ser: com dinheiro privado e destinadas a proveito público. A Gulbenkian era e continua a ser de algum modo o paradigma de tal noção. 

Para divulgação cultural, livresca, a Fundação organizou uma rede de bibliotecas, incluindo ambulantes e que passavam periodicamente pelas aldeias do país rural, emprestando livros a crianças em idade escolar que assim aprendiam algo que complementava o que podiam saber da escola.

No início dos anos sessenta começou a publicar e distribuir um Boletim Informativa que a par das novidades trazia pequenos ensaios culturais sobre matérias de Humanidades, como História, Filosofia, Letras, Teatro, etc. 

Nesses boletins aprendiam-se noções culturais importantes e fundamentais que permitiam perceber quem éramos, na Europa e no mundo. 

A História de Portugal aprendia-se na escola, desde muito cedo e era substancialmente apologética dos nossos feitos e façanhas contra outros povos e noutras terras, com grande destaque para a gesta dos Descobrimentos dos séculos XV e XVI.

Nos boletins da Gulbenkian, dirigidos por pessoas de cultura universitária e nem por isso demasiado afeiçoadas ao regime, contava-se a História como me habituei a ler e perceber, complementando aqueloutra, escolar.

Foi assim que me identifiquei como português "aqui e agora", como dizia um esquerdista das proclamações baladeiras dos anos setenta ( um tal José Fanha) e aprendi que somos o fruto dos nossos antepassados que vieram de longe e de muito longe, alguns deles e por isso o nacionalismo só tem sentido nessa perspectiva relativa aos povos que colonizaram os que por aqui se encontravam e com eles misturaram os genes.

E se antropologicamente assim foi em modo biológico, culturalmente foi semelhante e por aqui, nestes recortes de tais boletins se pode ver como foi.

Em 1970, o Boletim nº 18 dava uma noção do que era a cultura, neste caso portuguesa, de um modo que agora não vejo escrito:





Como aqui se escreve "à data da fundação de Portugal não existia na Europa uma cultura original, coesa e irradiante como no decorrer dos milénios fôra a cultura greco-latina". 

Aliás, tal cultura europeia demoraria séculos a formar-se. Portanto, o que existia no tempo dos nosso afonsinhos deste condado inicial era a velhíssima cultura greco-latina temperada por outra coisa: o cristianismo. Assim, tivemos os trovadores que foram influenciados pela cultura provençal e depois apareceu a literatura de "viagens" e dos "descobrimentos" culminando na epopeia dos Lusíadas fortemente influenciada pelos mitos do classicismo greco-latinos. 

Assim, começando pelo início e com ajuda do Boletim nº 8 de 1967, podemos ler um resumo do "milagre grego":




Seguido pelo "romano",  já decadente:

Mas que nos legou algo que ainda hoje é matriz do nosso viver social:


E foi através de Roma que sentimos este fenómeno avassalador e fundamental para a nossa civilização ( Boletim 10 de 1968): 



E que originou ainda outro fenómeno que precede em muitos séculos a fundação da nossa nacionalidade, aliás das mais antigas da Europa e enquanto nação com fronteiras definidas, mesmo a mais antiga ( Boletim 9 de 1967):


Como se lê, os beneditinos da Ordem de S. Bento, foram os primeiro frades estabelecidos em mosteiros, com regras próprias e tal sucedeu logo no século VI, em Monte Cassino, muito antes de sermos condado portucalense, pois nessa altura por cá ainda estavam os suevos, vindos das terras germânicas e que se converteram ao cristianismo, antes daquela ordem ser quem foi. A ordem veio para Portugal nessa altura da nossa fundação, tal com outras, incluindo as de vertente militar e que iam para a Terra Santa combater os mouros. Logo, a nossa civilização local e de índole europeia, foi sempre de combate e guerra a tais "infiéis". É uma matriz que nos acompanha desde então.  
 
E outras ordens religiosas existiam nos tempos anteriores à fundação da nossa nacionalidade que ocorreu assim ( Boletim 10 de 1968):







E assim se formou Portugal que foi acompanhada do desenvolvimento de outra região civilizacional, Bizâncio,  aparentada com a nossa porque também cristianizada, apêndice a Leste do cristianismo ocidental, construtora da catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, hoje Istambul, dominada pelos turcos a partir de meados do século XV, precisamente quanto começámos as nossas "viagens e descobrimentos".
Enquanto durou o Império Romano, Bizâncio foi a capital a Leste, tendo sobrevivido à queda de tal império, embora com as particularidades de pretender assumir uma independência e distanciamento  face a Roma e à romanização. Pendeu sempre mais para o lado helénico.
Bizâncio foi sempre bizantina, diversa e sujeita a outras influências, mormente as dos que nós combatíamos por cá. A religião cristã, em Bizâncio não era exactamente a mesma que por cá, devido aos rituais mais próprios da cultura grega em detrimento da romana. Por isso mesmo se separaram da hierarquia apostólica e romana, desde muito cedo, praticamente desde os primórdios da nossa nacionalidade. 
Foi Bizâncio e a ortodoxia de lá que deu origem aos patriarcas que por causa disso têm outra cultura em aspectos que são distintos dos nossos. 
E porquê? Talvez aqui se encontre a resposta ( Boletim 9 1967):


Está lá escrito que as primeiras universidades são ocidentais, inteiramente europeias: Paris, Bolonha, Oxford, Cambridge, Varsóvia, Upsala, Pádua, Utreque, Salamanca e Lisboa, depois Coimbra.
Quanto às catedrais, o primeiro modelo é bizantino, o de S. Sofia e depois há outras que surgem nos países com influência do império bizantino, incluindo regiões da Rússia. 


As catedrais que tempos por cá, em Braga, Lisboa ou Coimbra, são romano-góticas. Porém este estilo gótico surgiu apenas na altura do início da nossa nacionalidade e em Portugal manifestou-se mais em Alcobaça ou Batalha. Ou seja, em mosteiros. O de Alcobaça, do tempo da fundação é de uma ordem que teve origem na beneditina. 
O mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, da mesma altura, foi uma escola e importante centro difusor de conhecimento e cultura medievais. Talvez por isso estão lá os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal. Depois terá sido mesmo local de estudo de um certo Camões e a sua importância pode ver-se na mistura de estilos arquitectónicos posteriores. A igreja de Santa Cruz, em Coimbra, a par dos Jerónimos e da Batalha é o nosso verdadeiro Panteão.

É um retrato da nossa identidade dos tempos medievais até à posteridade do século XIX em que ocorreu a extinção das ordens religiosas por força dos políticos de então. Os "mata-frades". Um dos principais até figura em estátua a poucos metros daquele mosteiro de Santa Cruz. 
Porém, apesar destes iconoclastas e terroristas culturais e religiosos, foi destes centros de conhecimento e outros que surgiu a cultura portuguesa e a nossa identidade. 

terça-feira, maio 10, 2022

Os americanos correm em pista própria...

 Editorial da Marianne de 5 de Maio 2022. Os franceses já toparam a estratégia democrata americana e não apreciam muito:



domingo, maio 08, 2022

A grande cabala contra a santa Rússia...

 Sapo: 



Segundo alguns que se informam através das Kremlin news andamos todos a ser enganados por estes que agora decidiram encostar Putin a um parede. O Japão é que estraga tudo... 

A Justiça do povo

 Em Outubro de 1975, em pleno PREC, Portugal vivia um período revolucionário em que a Justiça era assim, como mostra esta reportagem de uma "okupação" em que o direito de propriedade do Código Civil passou a ser coisa fascista, assim qualificada se os titulares fossem também designados fassistas. Por quem? Pela esquerda comunista e popular. Um "pide", neste novo código só podia ser um fassista, coisa que ninguém contestaria. Daí o à-vontade deste texto jornalístico que segue e reflecte tais concepções. 

A linguagem poética ( "cresce a vontade popular nos jardins") mistura-se com o fervor revolucionário que a alimenta a ódio ( "é corrente comparar a Revolução a uma fogueira"). A fogueira é símbolo de purificação, já o era no tempo da inquisição. 

Flama 3 de Outubro de 1975. A mentalidade aqui mostrada está viva e actuante no Bloco de Esquerda e no PCP, actualmente. Apenas se esconde nas entrelinhas dos seus programas, à espera de oportunidade para saltarem para o texto principal. 

A propriedade em causa era privada, pertença de alguém que a tinha herdade de modo legítimo. A proprietária era casada com um "pide". E só por isso, a família ficou sem a propriedade, okupada por revolucionários com discurso igual ao que o texto jornalístico transmite. O texto é assinado por Eurico Gonçalves e reflecte o espírito da época e o que viria a ser Portugal no caso da esquerda social-comunista ter vencido o 25 de Novembro de 1975. 








sábado, maio 07, 2022

Conhecer Salazar através de Cerejeira

 No Jornal de Letras de 4 de Maio, o cineasta João Botelho volta a falar do filme que prepara, para as comemorações do cinquentenário. Da deposição do regime anterior, entenda-se. 

E volta a falar de Salazar de um modo caricato e que revela o partis-pris que vai determinar que o filme que vai fazer seja antecipadamente uma porcaria. Ora leia-se:


Adoptando ideias avulsas e alheias, "Salazar era mesquinho, tinha 500 galinhas em S. Bento, 13 criadinhas no sótão e levava aquelas injecções." 

E porque é que este cineasta formado em mecânica e com um curso de cinema, abomina Salazar?  Porque "sofri muito com o salazarismo. Andei numa escola pública que era o único que tinha sapatos, os outros andavam descalços na neve...as taxas de analfabetismo brutais, a miséria absoluta". 

Estas ideias de pobre de espírito nem por um momento permitem facilitar o raciocínio de  que Salazar chegou ao poder em 1926 com um país ainda pior, fruto da obra dos seus comparsas ideológicos ou aparentados, mas enfim, vamos a outro aspecto mais interessante.

Em 18 de Maio de 1973, a revista Flama entrevistou o cardeal Cerejeira, então ´com 84 anos e recolhido numa casa de repouso para idosos, do Patriarcado.

O que diz na entrevista é revelador de algo que qualquer cineasta culto e bem intencionado deveria ler e meditar para tentar perceber um homem no seu tempo, no caso Salazar. 

Cerejeira era amigo de Salazar e conta como foi o início de tal amizade: conheceu-o quando se matriculou em Direito, em Coimbra. E depois tenta definir quem foi Salazar. 

Uma pessoa que nunca foi rapaz e viveu uma vida repleta de austeridade, "tomando frequentemente um aspecto exterior que não lhe pertencia. Foi o homem mais complexo, ainda que o mais rico em dotes intelectuais, de toda a minha geração, em Coimbra. O político pouco tinha a ver com o homem". 

Para além disso o mesmo Cerejeira recorda alguns factos, contados pelo repórter Alexandre Manual que dali a meses iria dar uma volta ideológica completa. Veremos como foi.

Um dos episódios teve a ver com a circunstância de talvez não poder ir ao funeral da mãe, quando ainda estava em Coimbra, por não ter sapatos que lhe servissem, por ter os pés inchados de estar ao pé da mesma, durante os últimos dias de vida. 

Segundo Cerejeira, Salazar nunca fora um homem feliz por causa das suas ambições. Que ambições? Cerejeira não o diz, mas não eram certamente pessoais, no sentido da riqueza ou engrandecimento, pelo que sobra o resto que era fatalmente a dedicação aos assuntos de Estado e da Pátria. Ou seja, o que nunca mais tivemos do mesmo modo, ou parecido, nos últimos 48 anos, antes pelo contrário. Nem é preciso exemplificar porque basta pensar em qualquer um dos que ocupou a cadeira respectiva. 

Para explicar isto que dizem os Botelhos da vida actual? Que Salazar era mesquinho porque tinha 500 galinhas no quintal. 

E que dizem das relações entre Cerejeira e Salazar? Pois há uma caricatura de João Abel Manta que os define no que dizem: 


O que esta caricatura represente é a perversão completa de uma realidade em prol de uma visão ideológica em que os prelados aparecem com cabeça de alho chocho, atrás de um Salazar de terço e chapéu na mão. Quem se revia nesta imagem? Os social-comunistas, apenas.  Que se replicaram depois e ainda não abandonaram o credo.

Para entender o que Cerejeira diz de Salazar em 1973, depois de ter renunciado ao Patriarcado em 1971,  é necessário saber que Salazar tinha morrido em 1970 e quem assim o define é um padre, neste caso cardeal, no seu tempo, crente em Deus e dedicado ao múnus religioso durante toda a vida. 

Aliás, já em tempos coloquei aqui um escrito da revista Observador, de 1973, acerca do cardeal Cerejeira.

O que diz sobre o seu relacionamento pessoal com Salazar também é interessante porque desmente a ideia-feita que ambos se entretinham a orientar o país, em comunhão de ideias, propósitos e combinações. 





Sobre a Concordata vale a pena ler o que diz, tal como o que dizia um frade de Terras de Bouro, que ainda está vivo, e que em 1974 deu uma extensa entrevista a um jornal comunista. Frei Bento Domingues, um "teólogo da libertação", dos pobres. Teólogo dos pobres, entenda-se. Felizmente tem um irmão que pensa de outro modo...


Há um mundo a separar estas concepções. E uma realidade que não se entende se não for assim contextualizada. 

E que dizer do entrevistador chamado Alexandre Manuel que em Maio de 1973 se mostrava solícito e aparentemente compreendedor de tal contexto, e passado um ano se revelava um dos comunistas mais radicais da ortodoxia do PCP? 

Nada mais que isto e principalmente isto, na mesma Flama mas em 17 de Maio de 1974: 


E este de 9 de Agosto de 1974 ainda é mais explícito, sobre o tema. Incrível!



Este  Alexandre Manuel meteu-se depois no ISCTE e lá parece ter elaborado uma tese de doutoramento sobre o jornalismo regional...

Na altura escrevi assim, sobre este indivíduo e o fenómeno da viragem de casaca ao contrário: "já se alargava nas considerações escritas sobre o sindicalismo, "porque a história, a verdadeira, ainda não começou a ser feita". Até então a História tinha sido uma farsa. Como agora, pelos vistos...Alexandre Manuel, um dos jornalistas portugueses que aprendeu depressa a lição: a Esquerda é quem mais ordena, dentro de ti, ó...! ( ia a escrever palonço, mas recuei a tempo). "Reinvidicação", por seu lado, faz jus pleno ao "irradicar"..."

Putin acossado

 A edição desta semana da revista francesa Obs, dirigida por simpatizantes de Israel e do Ocidente , tem este artigo interessante sobre Putin em que conclui o que parece óbvio: falhou. Putin é um falhado! E por isso perigoso...








Para além disto há estas notícias, neste caso da Itália. Julgo que não se deve pensar que é conspiração descarada do Ocidente para desacreditar um presidente digno de honrarias deste calibre...que passa pela detenção de facto de coisas como esta, atentatórias da dignidade de quem pretende dar lições de moral ao Ocidente. O que os italianos revelam é uma indignidade moral que deveria ser denunciada por quem está de boa fé. 



E depois há isto ainda mais indigno e intolerável, seja para quem for:



Claro que haverá sempre os que duvidam disto e se tornam cépticos. Porém, o cepticismo, bom conselheiro, a partir de certa altura deixa de o ser...

A Justiça em nome do povo

 DN de hoje:


É preciso dizer que o arguido José Sócrates, através do seu incrível advogado de Braga, Pedro Delille, acusou o juiz C. Alexandre de ser um criminoso e que tinha prevaricado gravemente com a prática dos crimes de abuso de poder, p. e p. pelo artigo 382.o do Código Penal, falsificação praticada por funcionário, p. e p. pelo artigo 257.o, alínea b), do mesmo código, e denegação de justiça e prevaricação, p.e p. pelo artigo 369.o, nrs. 1, 2, 3 e 4, do Código Penal. 

O tribunal de Instrução, neste caso na Relação de Lisboa entendeu simplesmente que  a versão de Sócrates/Delille era uma fantasia e que não se mostrava minimamente fundada na prova produzida, sendo até incongruente e inconciliável com o objectivo teor dos documentos que comprovam a intervenção do IGFEJ, na sequência de solicitação da arguida com vista a remover o constrangimento que impedia que se efectuasse a distribuição de forma automática.

Ou seja, isto revela ipso facto, o dolo na imputação de factos que tinham obrigação de saber que eram falsos e só com temeridade inadmissível, ainda para mais num jurista, mesmo em defesa dos interesses do cliente acusado da mais grave corrupção e que prejudicou o povo e o país.

Tal significa que esse arguido, José Sócrates deveria ser indiciado pela prática do crime de denúncia caluniosa, coisa que o juiz de instrução em causa nem sequer ponderou... 

No entanto, deu como certo que  nas declarações dos ora arguidos ( Carlos Alexandre e a funcionária)  não detectou contradições e incoerências que levassem a excluir a respetiva versão, por assentar em 
factos que não pudessem ter-se por verificados em conformidade com os dados da experiência comum.

É a mesma experiência comum que deveria obrigar a extrair certidão para instauração de inquérito contra o referido arguido Sócrates pela prática de mais esse crime. Grave, porque pretendeu com tal actuação colocar em causa a honra profissional e pessoal de um magistrado. 

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso