segunda-feira, outubro 14, 2013

Mário Soares: recordar é viver...

Mário Soares anda muito esquecido e atingido por uma qualquer camoeca indefinida. Por isso mesmo importa recordar velhos tempos em que era primeiro-ministro e tinha chamado cá o FMI para socorrer as nossas finanças, pela segunda vez na bancarrota.

Em 1985, pouco antes da adesão à CEE, as condições de vida das pessoas, em Portugal degradaram-se imenso devido às políticas socialistas dos governos de Soares. Nessa altura, como não lhe dava jeito assumir responsabilidades descartava-as com argumentos de senso comum. Havia pobres? E onde é que não os há? Havia fome? Sempre houve disso. Etc.etc. etc.

A revista Grande Reportagem dessa época entrevistou-o, na defensiva e a proclamar ideias que agora renega porque sempre foi um politiqueiro de trazer por casa.

Por outro lado, o seu ajudante de campo, o sobrinho Barroso que de vez em quando vai à tv de Mário Crespo comentar umas banalidades, também desvalorizava o panorama que se via por todo o país...dizendo que "fome há na Etiópia e no Brasil"...



Mário Soares: o delinquente excelentíssimo...

 Em complemento do postal anterior, fica aqui o de 30 de Janeiro de 2009:

Depois de ter sido condenado no caso do fax de Macau, Rui Mateus, desaparecido do combate, dado como tolo, escreveu um livro intitulado Contos Proibidos. Quem quiser ler, pode fazê-lo porque está disponível em Rede.

Em 1990, Rui Mateus prestou declarações no processo e terá contado a sua versão dos factos que implicava bem mais alto politicamente que o pobre do governador do território ultramarino. Almeida Santos e Mário Soares foram nomes pronunciados.
A publicação do livro poderia ter obrigado à reabertura do processo, nos termos da lei processual, para reinvestigação do que ficara esquecido.
O investigador Rodrigues Maximiano já faleceu e não se pode defender de acusações. Mas na altura em que as mesmas foram feitas, não respondeu convenientemente à réplica que Rui Mateus lhe deu, com três anos de intervalo, depois de ter comentado o livro Contos Proibidos, dizendo que nada de novo trazia ao assunto.

Estes dois textos- ambos do Independente, de 9.8.1996 ( a entrevista a Maximiano) e de 14.7.1999 ( a carta de Rui Mateus)- revelam o problema principal da nossa investigação criminal, sempre que encontra pela frente o poder político de topo: cede. Tem medo. Não avança.
É um problema grave e que a generalidade das pessoas adivinha, perscruta, mas nada faz para a mudança. E é preciso uma mudança, de facto. A independência do poder judicial e a autonomia do MP, não se afirmam: praticam-se. Souto Moura praticou-a, sem a afirmar muitas vezes.

 Mário Soares safou-se sempre destas alhadas. Porquê? Quanto a mim, por uma única razão: ninguém o queria ver como um delinquente ( ao contrário do que anda agora a propalar sobre alguns membros do governo). Eppure...

domingo, outubro 13, 2013

Mário Soares, o inimputável do sistema

Mário Soares, mais uma vez, aparece hoje na TSF e no Diário de Notícias, que se prestam ao frete habitual, em entrevista prolongada, a dislatar disparates e a anunciar o apocalipse ao governo que está. Até denuncia os "delinquentes" do governo, esquecendo as suas delinquências denunciadas por um camarada de partido e co-fundador do PS, Rui Mateus, o qual é agora censurado e apagado à boa maneira estalinista, dos registos do partido. O livro, esgotada a primeira edição num ápice, em 1996, nunca mais foi reeditado e ninguém se rala com isso. Censura era no "fassismo". Agora é outra coisa. Disso não fala Soares e ninguém parece interessado em perguntar-lhe, muito menos os media  da Controlinvest que já foi do "amigo Joaquim" e agora é de outros por aquele se ter afogado em dívidas.

Numa das passagens da entrevista, só justificada pelo frentismo de esquerda e do sistema de privilégios que Soares tem perdido ( mas ainda faltam muitos...) que domina aquele jornalismo desportivo, um dos dislates mais arrepiantes, parece ser este:

Defende, como já tinha feito no passado, que Portugal, à semelhança da Argentina, não deve pagar a dívida à troika de credores internacionais, a quem acusa de estar a “roubar” o país, pressionada pela “malandragem dos mercados e dos usurários”. 

Portanto, "não pagamos" e já está. O que aconteceu à Argentina por não pagar, isso não explica Soares.  E foi este indivíduo presidente da República! E por causa disso anda com seguranças da PSP permanentemente; carro do Estado às ordens, com motorista ao dispor e telefones pagos, para além de outras mordomias escandalosas que só não acabaram porque a condescendência dos portugueses está intimimamente ligada à ignorãncia destes factos. Falasse nisto a TSF ou o DN pusesse estas coisas na primeira página e não demorava muito a reunir-se o consenso necessário para acabar com esta piolheira inenarrável de privilégios absolutamente injustificáveis. Então é que a Soares lhe dava a apoplexia mestra!

Para conhecer bem Mário Soares é sempre necessário lembrar o livro que Rui Mateus, um dos fundadores do PS e camarada de Soares durante os seus governos, para lhe servir de intérprete,  escreveu em 1996 a que na altura foi dado um destaque modesto mas relevante. Aqui fica o que o Expresso de então, em 27 de Janeiro de 1996  publicou. Mário Soares devia ter vergonha disto mas é evidente que não tem.
Para além disso, o lugar que a História lhe reserva parece já assegurado: inimputável da República. Fez o que quis e ninguém o aborreceu. Responsável por chamar a Portugal o FMI, por duas vezes, nunca se desmanchou na sua ignorância das coisas de governo. Politiqueirice bastou-lhe para chegar onde chegou: à sede da pouca-vergonha.O resto, ou seja, a condescendência dos media em geral, pagou-a o povo português, em verbas do Orçamento gastas em barda com viagens, prebendas, distinções e malfeitorias com um tal Maxwell e outros. O pobre Graça Mourra, condenado a pagar três centenas de milhar de euros, ao pé deste figurão, é um gestor exemplar e austero. A História ainda o não julgou, mas já não faltará muito.


sábado, outubro 12, 2013

A cartilha de Carrapatoso

Há pessoas em Portugal que merecem ser ouvidas ( ou lidas, no caso). Uma delas é António Carrapatoso que tem uma idade ( 56) suficiente para ter algum juizo e "fez parte de um grupo de gestores que propunha um plano para liberalizar a economia nacional". Foi o Compromisso Portugal. Na altura, 2004, os objectivos eram os mais ambiciosos possível. Passos Coelho é do mesmo ambiente, assim como alguns dos seus ministros. Para compreender o actual momento do país, com o governo que temos, é necessário retomar esta memória de há cerca de dez anos. Em menos tempo que isso, nos anos trinta, Portugal recuperou de um caos económico e social. E agora?
Obviamente, o tal movimento,  falhou em toda a linha. Atrevo-me a alvitrar que falhou porque não tinha raízes portuguesas genuínas. Não compreenderam o país e andamos estes anos todos a enganarmo-nos uns aos outros.   Em Portugal, em 2005 entrou o governo do PS, com José Sócrates a mandar. Se houve governos fora da realidade comezinha de um país pobre, foram esses. Foi, no dizer de uma das ministras desse governo ( a senhor Lurdes Rodrigues que me recuso a titular como licenciada no que quer que seja) "uma festa". A conta está aí para ser paga, agora.
Em 2006, a intelligentsia do Compromisso,  voltou à carga, com outra convenção ainda mais ambiciosa. Falhou tudo outra vez, porque as ideias não passaram nem para a "sociedade civil" ( basta ver a ascensão da troika Jerónimo, Arménio e Avoila, mai-lo assessor Silva do bigode que não corta nem que a vaca tussa...) nem para o governo ( o do Inenarrável Sócrates foi o melhor exemplo disso).

E no entanto, basta reparar nos nomes que intervieram nos debates. Por exemplo, na Justiça, João Vieira de Almeida de uma das firmas de advogados do regime ( filho de Vasco Vieira de Almeida). Na "competitividade" intervieram outros pesos-pesados da nossa intelligentsia nacional: António Mexia e o Ricciardi do BES. A história desses dois nomes associados às respectivas firmas ( a advocacia de negócios que os arruinou e a banca que o incentivou) mostra bem o que foi o país nestes últimos dez anos.
 Que esperar destas pessoas, em 2006?  O mínimo seria esperar que tivessem senso comum. Algum deles teve, para evitar a deriva despesista, faraónica, parola, numa palavra? Nenum deles teve. E nem é preciso apontar exemplos porque bassta lembrar o papel do BES no incentivo às obras públicas que desenbocaram nas PPP´s e nas ruinosas rendas que o senhor Mexia tão bem conhece. O resultado desta visão desta gente? A entrega da EDP aos chineses e a ruína do país com mais uma bancarrota à porta.

Se esta nossa elite, com centenas de nomes, é como foi, estamos bem arranjados. Será possível arranjar outra? Onde?
Como é que foi possível, nos anos vinte do séc. XX arranjar um Salazar e mais alguns indivíduos que conseguiram colocar o país fora da bancarrota da I República e hoje em dia nem vislumbramos sequer quem no-lo possa fazer?

Restam-nos os Carrapatosos. Num trocadilho de mau-gosto, são piores que os carrapatos. Porque nos enganam sempre com ideias que não funcionam. Não é nas escolas de gestão que se aprende a gerir um povo ou um país. Uma empresa não é um país. Salazar vinha do povo humilde que tinha ideias aprendidas no senso comum: poupar; não gastar mais do que se tem; respeitar uma autoridade necessária para se tornar suficiente; organizar as coisas segundo uma tradição que mostrou ser eficaz e adequada;ensinar em profundidade o que é essencial nas letras e ciências;  aprender com os velhos e antigos e não mudar a linguagem por tudo e por nada; trabalhar e trabalhar; atender aos pobres mas sem "solidariedades" de cartilha. Etc etc etc.

Ainda iremos a tempo de retomar as velhas ideias? Duvido. Estes gestores não aprenderam e portanto não conseguem ensinar. Basta ler a entrevista, publicada no Diário de Notícias de hoje.


sexta-feira, outubro 11, 2013

Um caso paradigmático, o de Miguel Graça Moura

Público de hoje:

O maestro Miguel Graça Moura que foi fundador do grupo Pop Five Music Incorporated, do Porto na transição dos anos sessenta para os setenta, foi condenado, duas vezes ( na primeira instância e na Relação) numa pena de prisão de cinco anos que poderá suspender-se no caso de o mesmo pagar a indemnização de 210 mil euros, ao Estado, no prazo de um ano.
E tudo isso porquê? Já foi noticiado e por aqui comentado. Assim:

O colectivo de juízes da sétima Vara Criminal de Lisboa considerou o maestro culpado por ter gasto mais de 500 mil euros de dinheiros públicos. Miguel Graça Moura estava acusado de utilização indevida de 720 mil euros do erário público e de falsificação de documentos.  (...)

Graça Moura presidiu à Associação de Música, Educação e Cultura, de 1992 a 2003. foi acusado pelo Ministério Público de ter gasto 720 mil euros em artigos de lingerie masculina e feminina, compras em supermercado, mobiliário, gravadores, aparelhagens áudio, vinhos, charutos, joias, viagens e obras de arte. O Ministério Público destacou que Miguel Graça Moura não fazia distinção entre despesas da Associação e pessoais. Utilizava indistintamente os cartões da Associação que integra a Orquestra Metropolitana e de contas de que era titular. A acusação dizia também que o maestro viajou para os Estados Unidos, Argentina, México, Tailândia e Singapura, despendendo um total de 214.377 euros. Em despesas de restaurante, em Portugal e no estrangeiro, Graça Moura gastou mais de 80 mil euros. e em livros, mais de 52 mil euros em livros. 

 
A condenação de Graça Moura por estes factos levanta uma onda de questões sobre os outros gestores públicos e administradores de instituições públicas que praticaram factos idênticos ao longo dos anos e se safaram sem processos ou vilipêndio público ou mediático.  Graça Moura passa assim como um bode expiatório ou como dizia alguém ligado a um certo processo mediático, representa a rês que é atirada ao rio infestado de piranhas, para a manada passar incólume...

As perguntas que ficam e  se tornam ensurdecedoras no silêncio dos responsáveis, mormente do município de Lisboa, fonte do processo, são efectivamente as de saber se a actuação de Graça Moura, durante dez anos, foram assim tão escandalosas em termos relativos que tornem outras actuações de responsáveis por instituições públicas, negligenciáveis e sem relevância criminal.
Lembro que no final do governo Sócrates foram instaurados processos-crime para averiguar a correcção ( não apenas a legalidade formal mas se atingiram a fronteira criminal do peculato, crime devidamente catalogado no Código Penal) das despesas efectuadas pelos gabinetes governamentais, com cartões de crédito em barda ( como no caso Graça Moura) e outras mordomias carecidas de justificação. Lembro ainda o caso singular da senhora Lurdes Rodrigues indicada pelo anterior governo para presidente da Fundação Luso-Americana, o que foi aceite pelo actual ministro dos Negócios Estrangeiros, o improvável Machete. Lembro ainda os casos singulares de pessoas ligadas à mesma senhora Lurdes que enquanto ministra da Educação achou a sua actuação política e eventualmente pessoal, "uma festa".
Tal como Graça Moura que não se enxerga, agora, sempre que escreve no Diário de Notícias, crónicas sobre despesas nos "altos cargos públicos"...também essas pessoas deverão ser confrontadas com os factos carecidos de apuramento rigoroso. Se prevalecer uma qualquer "raison d´état" para abafar ou de algum modo desvalorizar estes comportamentos lesivos do erário público, algo vai mal no MºPº. Algo de muito grave e que se suspeita possa aflorar a mente de quem dirige os processos, tendo em conta outras situações ( caso da violação de segredo de justiça no Face Oculta que nunca foi esclarecido publicamente e ficou no segredo dos deuses).

O que é feito desses inquéritos, alguns deles no DIAP? São segredo de Estado ou ainda vigora a norma processual  que permite a quaquer cidadão constituir-se assistente para ajudar o MºPº? Onde estão os comunicados da PGR ou do DIAP a dar conta destes escândalos?
Será que o MºPº precisa de ajuda nestes casos? Se sim, o que deve fazer em primeiro lugar é publicitar o que pode ser publicitado e que já demora. É outro silêncio ensurdecedor.

Que Graça Moura não fique como exemplar único da moralização. Seria terrivelmente injusto e portanto, contrário à ética, ou moral, como prefiro dizer e...ilegal.

ADITAMENTO em 2 de Novembro de 2013:

No Diário de Notícias de 2 de Novembro de 2013, quase um mês depois do escrito no Público, Miguel Graça Moura respondeu à autora do artigo. Assim:

quarta-feira, outubro 09, 2013

Escutas, mas nem tanto

RR:

“Não me parece nada natural que a autoridade marítima, a autoridade de segurança ASAE, a Autoridade da Concorrência, a CMVM, a Inspecção de Actividades Culturais, os órgãos da administração tributária, os órgãos da administração da segurança social, a direcção-geral dos Impostos especiais para o consumo, os guardas florestais, quer dizer, tudo isto faz escutas?”, questiona Paula Teixeira da Cruz. “Não me parece um sistema muito saudável, um sistema em que temos 19 polícias a poderem fazer escutas”, frisou a ministra. 

 Embora a ministra da Justiça esteja tão alarmada com a proliferação de entidades capacitadas a fazer escutas, a verdade é que tal não será bem assim. Quem ouvir a ministra julgará que isto é assim "à lagardère". E não é.
Ainda está em vigor o artº187º do CPP ( e o artigo seguinte) que diz como se fazem escutas telefónicas em Portugal e não me parece que algumas daquelas entidades o possam fazer assim como a ministra referiu...

Artigo 187.º
Admissibilidade
1 - A intercepção e a gravação de conversações ou comunicações telefónicas só podem ser autorizadas durante o inquérito, se houver razões para crer que a diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível ou muito difícil de obter, por despacho fundamentado do juiz de instrução e mediante requerimento do Ministério Público, quanto a crimes:
a) Puníveis com pena de prisão superior, no seu máximo, a 3 anos;
b) Relativos ao tráfico de estupefacientes;
c) De detenção de arma proibida e de tráfico de armas;
d) De contrabando;
e) De injúria, de ameaça, de coacção, de devassa da vida privada e perturbação da paz e do sossego, quando cometidos através de telefone;
f) De ameaça com prática de crime ou de abuso e simulação de sinais de perigo; ou
g) De evasão, quando o arguido haja sido condenado por algum dos crimes previstos nas alíneas anteriores.
2 - A autorização a que alude o número anterior pode ser solicitada ao juiz dos lugares onde eventualmente se puder efectivar a conversação ou comunicação telefónica ou da sede da entidade competente para a investigação criminal, tratando-se dos seguintes crimes:
a) Terrorismo, criminalidade violenta ou altamente organizada; b) Sequestro, rapto e tomada de reféns;
c) Contra a identidade cultural e integridade pessoal, previstos no título iii do livro ii do Código Penal e previstos na Lei Penal Relativa às Violações do Direito Internacional Humanitário;
d) Contra a segurança do Estado previstos no capítulo i do título v do livro ii do Código Penal;
e) Falsificação de moeda ou títulos equiparados a moeda prevista nos artigos 262.º, 264.º, na parte em que remete para o artigo 262.º, e 267.º, na parte em que remete para os artigos 262.º e 264.º, do Código Penal;
f) Abrangidos por convenção sobre segurança da navegação aérea ou marítima.
3 - Nos casos previstos no número anterior, a autorização é levada, no prazo máximo de setenta e duas horas, ao conhecimento do juiz do processo, a quem cabe praticar os actos jurisdicionais subsequentes.
4 - A intercepção e a gravação previstas nos números anteriores só podem ser autorizadas, independentemente da titularidade do meio de comunicação utilizado, contra:
a) Suspeito ou arguido;
b) Pessoa que sirva de intermediário, relativamente à qual haja fundadas razões para crer que recebe ou transmite mensagens destinadas ou provenientes de suspeito ou arguido; ou
c) Vítima de crime, mediante o respectivo consentimento, efectivo ou presumido.
5 - É proibida a intercepção e a gravação de conversações ou comunicações entre o arguido e o seu defensor, salvo se o juiz tiver fundadas razões para crer que elas constituem objecto ou elemento de crime.
6 - A intercepção e a gravação de conversações ou comunicações são autorizadas pelo prazo máximo de três meses, renovável por períodos sujeitos ao mesmo limite, desde que se verifiquem os respectivos requisitos de admissibilidade.
7 - Sem prejuízo do disposto no artigo 248.º, a gravação de conversações ou comunicações só pode ser utilizada em outro processo, em curso ou a instaurar, se tiver resultado de intercepção de meio de comunicação utilizado por pessoa referida no n.º 4 e na medida em que for indispensável à prova de crime previsto no n.º 1.
8 - Nos casos previstos no número anterior, os suportes técnicos das conversações ou comunicações e os despachos que fundamentaram as respectivas intercepções são juntos, mediante despacho do juiz, ao processo em que devam ser usados como meio de prova, sendo extraídas, se necessário, cópias para o efeito.

terça-feira, outubro 08, 2013

E por isso estamos sempre em prec...


O presidente não executivo do Banif e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de José Sócrates, Luís Amado, afirmou hoje que Portugal é um dos poucos países europeus que conta com "forças revolucionárias" no Parlamento.
"Não nos podemos esquecer que nós temos no Parlamento forças revolucionárias", afirmou o socialista numa conferência promovida em Lisboa pela consultora A.T. Kearney, especificando que se referia à "extrema-esquerda parlamentar".
Luís Amado procurava justificar as cautelas que o Partido Socialista, o maior partido da oposição, tem que ter em termos de posicionamento político, tendo realçado que Portugal é dos poucos países europeus que conta com esse tipo de partidos com representação parlamentar.

Luís Amado precisou de ser banqueiro para dizer em público o que é óbvio há décadas: Portugal é um caso único na Europa porque manteve uma extrema-esquerda sempre presente no panorama político-parlamentar e com o apoio explícito e permanente da maioria dos media, com destaque para os do sistema, como o Expresso e outros ( grupo Visão que saiu do O Jornal, por exemplo)  que ao longo dessas décadas deram um apoio claro e apologético a esses extremistas políticos. A prova está no que se passou no início dos anos oitenta, com o caso PRP/BR e aqui mostrado há dias.

Machete e o meio mentiroso


Rui Machete, o ministro improvável, queixa-se de assassinato político. Coitado. Queixa-se de alguém pretender matar um ministro que se suicidou politicamente. Venha o Columbo, da tv de antanho e que passou há poucas semanas, no RTP Memória,  para deslindar esta farsa.

Machete move-se num meio mentiroso e por isso a meia verdade que hoje repetiu no Parlamento, a propósito do que afirmou sobre a SLN e sobre as declarações em Angola são apenas o estertor da cicuta que já tomou.

segunda-feira, outubro 07, 2013

A História contemporânea já foi contada- por António José Telo

Este livro passou-me ao lado, quando saiu em 2007 e só agora reparei no mesmo. É um livro de História contemporânea, escrito por um professor de História na Academia Militar- António José Telo- e ao folhear, agora, dei-me conta que conta a História portuguesa dos primeiros dez anos a seguir ao 25 de Abril de 1974, como penso que deve ser contada. Aliás, tem sido isso que tento fazer por aqui em modo diletante e sem recurso a outras fontes que não os jornais, revistas e livros da época e principalmente a memórica do tempo que vivi.
O autor conseguiu com este livro resumir o que se passou em Portugal nesses anos, num testemunho precioso e quanto a mim com a  objectividade necessária porque suficientemente subjectivo.


sábado, outubro 05, 2013

Machete: pata na poça.

Rui Machete, o ministro que nunca o deveria ter sido arranjou um sarilho diplomático, institucional e patético.

O Diário de Notícias de hoje mostrava num título de primeira página que Machete tinha pedido desculpa aos angolanos por causa do... Ministério Público português. Não era assim que aparecia na notícias mas vai dar ao mesmo.
Na realidade a notícia de Carlos Rodrigues Lima dizia isto:
Rui Machete pediu desculpa a Angola pelas investigações judiciais. MP português está a investigar altas figuras do regime angolano. Porém, o ministro Rui Machete garantiu que tudo não passa de burocracias e formulários
O Governo português pediu “desculpas diplomáticas” ao Estado angolano pelas investigações judiciais que atingem altas figuras deste regime. A revelação foi feita por Rui Machete, ministro dos Negócios Estrangeiros português, numa entrevista à Rádio Nacional de Angola (RNA). Rui Machete adiantou ainda saber que nos inquéritos em curso em Portugal, os quais, na sua maioria, envolvem suspeitas à volta de avultadas transferências de dinheiro, “não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal, para além do preenchimento dos formulários e de coisas burocráticas”.

Ouvindo o  próprio, naquela voz entaramelada por muitos cargos em assembleias gerais, percebe-se melhor, porque não há dúvidas sobre o modo como este ministro improvável meteu a pata na poça...

 A PGR já desmentiu as palavras do ministro improvável, pelo modo adequado: A Procuradoria faz questão neste comunicado de lembrar que em Portugal "vigora o princípio da separação entre os poderes legislativo, executivo e judicial, estando constitucionalmente consagrada a independência dos tribunais e a autonomia do Ministério Público, designadamente no que respeita ao exercício da acção penal"
 Perante esta bordoada que deveria bastar para Machete se afastar pela esquerda baixa, o mesmo já deu o dito por não dito, como aliás aconteceu como o famigerado caso BPN e SLN e presidências de Assembleias gerais com presenças pagas com senhas manhosas ( com dinheiro de offshores e destinadas a apólices de seguro). Agora, para explicar as explicações que teriam sido dadas pela PGR, cita um comunicado do DCIAP, de Novembro de 2012...
O Expresso escreve: "A minha resposta resulta da interpretação que fiz do comunicado do DCIAP de 13 de novembro de 2012 sobre a investigação em causa, não tendo naturalmente qualquer intenção de interferir com as competências do Ministério Público".

E que comunicado é esse do DCIAP? É este, muito sucinto e que não suporta qualquer aldrabice:
 
Na sequência de notícias vindas a público sobre a existência de um processo-crime contra altos dirigentes angolanos, o DCIAP esclarece, nos termos do n.º 13, do artigo 86.º do Código de Processo Penal, que corre uma investigação com o NUIPC 142/12.0TELSB sem que, contudo, nela estejam constituídos quaisquer arguidos.
O processo encontra-se em segredo de justiça, pelo que não é possível, neste momento, prestar quaisquer outros esclarecimentos.

Portanto, mais valeria a Machete estar calado e sair pela tal esquerda baixa, porque o comunicado não diz o que Machete diz que diz.

De resto o assunto de fundo explica-se rapidamente porque já foi abordado por aqui:

" Há uns largos meses, no final de 2010, o Estado angolano apresentou uma queixa criminal por burla, uma fraude gigantesca de cerca de 100 milhões de dólares que se evaporaram do Banco Nacional de Angola e vieram aqui parar...dinheiro sujo, portanto e cujas transferências integram a prática de eventual crime de branqueamento de capitais, para além do mais. Crime que se consuma aqui, em Portugal e incomoda agora o Estado angolano.

Como se contava aqui, "Álvaro Sobrinho,é suspeito no âmbito da investigação portuguesa aos 48 milhões de euros ilegalmente transferidos do Banco Nacional de Angola (BNA) para os principais bancos nacionais através do BES. Três empresários portugueses estão também a ser investigados pela Polícia Judiciária (PJ).

Nas buscas que o Departamento de Burlas da PJ realizou nos arredores de Lisboa, foram apreendidos a Álvaro Sobrinho um automóvel e uma moto, no valor de cerca de 200 mil euros. A investigação detectou também dez milhões de euros transferidos ilegalmente para contas de vários bancos portugueses.

O esquema fraudulento começou por ser investigado em Luanda em 2010 e no rasto de mais de 90 milhões de euros desviados do BNA, através do BES de Londres, chegou-se a várias contas em Portugal. Álvaro Sobrinho e os empresários portugueses que estão sob suspeita serão alguns dos beneficiários das transferências realizadas. O dinheiro era depois desviado para várias contas de empresas e sociedades offshore.""

Este esquema de branqueamento de capitais, denunciado pelas próprias autoridades angolanas, foi posteriormente alterado com uma intervenção directa do próprio PGR de Angola que escreveu uma carta ao DCIAP na qual defendia o antes acusado, o tal Álvaro Sobrinho. Se calhar arrrependeram-se da queixa por nem nem conhecerem devidamente o crime de branqueamento de capitais com esta dimensão e contorno e as chatices que lhes poderia acarretar..."

Para além disto, os desenvolvimentos posteriores deram origem a complicações para o próprio PGR de Angola, João Maria de Sousa e que o Expresso vilipendiou por causa do seu jornalismo tipo para quem é, bacalhau basta.

Depois disto tudo e do demais que ainda não é possivel saber, Machete vai a Angola e pede "desculpas diplomáticas" aos angolanos por causa da actuação do MºPº português e relativamente ao qual não se inibe de questionar quanto ao modo de actuação. Machete diz mesmo que pretende "perceber o que é que aconteceu do lado do nosso Ministério Público"...

Machete devia perceber melhor o que a PGR lhe disse hoje, para entender o que aconteceu "do lado do nosso MºPº"...
Se tinha informações particulares, guardava-as e assim já não metia a pata na poça.

quinta-feira, outubro 03, 2013

À margem, de qualquer maneira: os revolucionários de papel.

Há algumas semanas atrás comprei o livro de José Jorge Letria "E tudo era possível". Já li boa parte do mesmo e espanto-me sempre ao ler o retrato de um mundo paralelo ao vivido por uma maioria da população portuguesa das cidades e dos campos. É um mundo de papel e de referências em papel. Um mundo em que as palavras saltam dos conceitos aprendidos com grandes frases para explicar pequenos mundos de fantasia e utopia, sempre ancorados a uma palavra mágica- Liberdade- com um apêndice suspeito-Igualdade. A fraternidade era um acrescento inevitável, entre esse pequeno mundo em que todos se conheciam.

O autor começou cedo nas lides jornalísticas e artísticas ( teatro e música) e ainda estudante de Direito em Lisboa, acompanhava o ritmo dos tempos a ouvir rádio ( os programas que também eu ouvia na época- Página Um, Tempo Zip, PBX, etc, com a mesma música que também eu gostava). Antes, aos 16 anos perdeu o pai num avc e "zangou-se com Deus" por causa disso. JJL escrevia poesia e em 1968 escreveu as primeiras canções e tal levou-o a juntar-se aos cantores-autores da época, os baladeiros e revolucionários da canção como arma. As actividades teatrais e de escrita com cantigas, de JJL, abriram-lhe as portas do gotha da intelectualidade lisboeta que era então quase a portuguesa. Tudo de esquerda e tudo do reviralho, da oposição e da subversão ao regime.

No livro quase que não há um único nome citado e são dezenas e dezenas que fuja a esse parâmetro ideológico e portanto JJL começou na melhor escola da esquerda portuguesa: o jornalismo. Vale a pena ler o relato que se estende por diversas páginas e que publico, enquanto vou reflectindo neste estranho fenómeno que deve ser único na Europa inteira: como é que um punhado de intelectuais dos jornais deu a volta a "isto", no início dos anos setenta e conseguiu uma lavagem ao cérebro colectivo da nossa maneira de ser português que o regime de Salazar e Caetano enformava. Vou reflectindo e escrevendo e talvez publique aqui as reflexões, se para tanto  tiver o engenho e arte.
Para já ficam as páginas que testemunham melhor que outra coisa qualquer esse fenómeno que me parece evidente e gritante.

N.B.Para ler as páginas em tamanho maior, clicar com o botão direito do rato e abrir um novo separador. Aí voltar a clicar, com um toque no rato, no sinal + que aparece na imagem.




Um novo RERT!

ECONÓMICO:

Regime excepcional de regularização de dívidas prevê perdão de juros e custas para que contribuintes que paguem dívidas ao fisco e à Segurança Social até 20 de Dezembro.
O novo plano extraordinário regularização de dívidas ao fisco e à Segurança Social prevê o pagamento integral das suas dívidas de natureza fiscal e contributiva até a próximo dia 20 de Dezembro, permitindo que empresas e particulares evitem as consequências da falta de cumprimento, nomeadamente penhoras. Os contribuintes que optarem pelo pagamento total das suas dívidas, já detectadas ou auto denunciadas voluntariamente, serão dispensados de pagar juros de mora pelo atraso no pagamento e juros compensatório, ficando ainda dispensados de pagar custas devidas no processo de contra-ordenação. Já ao nível das coimas contarão com reduções substanciais.

Portanto, um novo RERT, desta feita para os pequeninos...e grandinhos também. ( 8,5 milhões de euros é para os grandes...)
Estes RERT´s já na sua quarta edição ( desde 2005...) configuram-se como dantes as amnistias penais. O efeito é semelhante: apagavam-se os crimes de alguns, perdoavam-se penas de outros e em pouco tempo aumentava a criminalidade, num efeito paradoxal.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Morreu Silvino Silvério Marques

Soube agora que ontem morreu o general Silvino Silvério Marques. Este militar, general dos antigos, escreveu em 1984 um artigo sobre o nosso esforço de guerra no Ultramar. Já foi aqui publicado mas repete-se:


A RTP e as "amplas liberdades"

Passou há minutos na RTP2 um programa sobre o futebol da Académica, de Coimbra, de final dos anos sessenta, que pouco ou nada teve a ver com futebol e tudo com política ( até a final da Taça, com o Benfica, é transformada num evento político e mediatizado como tal), nomeadamente as greves estudantis de 1969.
O programa parte do relato de alguns dos antigos jogadores do clube ( Vítor e Mário Campos, por exemplo) e mistura alguns personagens da então academia estudantil, como Alberto Martins e Celso Cruzeiro, socialistas de gema antiga e ainda outras pessoas que participaram em eventos ocorridos na época.
Curiosamente, os protagonistas do programa são todos da então oposição ao regime deposto em 25 de Abril de 1974 e as únicas pessoas que aparecem em figura de regime são figuras de pantalha televisiva, como o então ministro da Educação, José Hermano Saraiva, pronto a levar com os epítetos habituais e da praxe televisiva deste género de documentários.
O programa é todo construído para dar a imagem actual dos factos ocorridos então, seguindo o roteiro habitual da récita daqueles. Nem um defensor do regime de então aparece para explicar a razão dos factos ocorridos e uma eventual  justificação que o jornalismo isento exigiria. Os realizadores do programa da estação pública limitam-se a relatar a versão dos factos tal como é contada pelos protagonistas que então eram perseguidos pelo regime deposto, em virtude de actividades políticas de oposição socialista e eventualmente comunista.
Por exemplo, relata-se a ânsia de liberdade que aqueles sentiriam como se tal fosse desejo legitimo e irrecusável pelo regime e não se explica que liberdade pretenderiam. Alberto Martins era então de esquerda, mas só aderiu ao PS depois do 25 de Abril de 1974. Um outro Alberto, neste caso Costa e também de esquerda, na mesma altura era...comunista. Certamente defendia a liberdade de se meterem pessoas em campos de concentração, os "reaccionários" e "fascistas", por suposto.Um dos protagonistas do programa, Celso Cruzeiro, actual advogado ( defendeu Paulo Pedroso da "cabala") era evidentemente de esquerda.
Todos pretendiam alterar o satus quo, em 1969. Queriam derrubar a "ditadura"; queriam acabar com a "guerra colonial" e queriam no final de contas o que os esquerdistas de sempre querem: ficar a mandar segundo a cartilha marxista. E queriam, para tal que era claro e explícito para o regime de então que este permitisse livremente tal coisa e sem entraves. Não queriam ser proibidos de falar em assembleias para as quais não estava previsto que o fizessem. Não queriam que o regime lhes vigiasse as actividades subversivas, segundo a lógica do mesmo regime. Não queriam que lhes fosse coarctado o direito de reivindicar uma liberdade que segundo a lógica do mesmo regime era de opressão ( e a experiência posterior demonstrou ser acertada) e não queriam afinal que o regime se defendesse, limitando essa liberdade de actuação.
É esta a lógica dos programas de tv que relatam estes acontecimentos: os maus são os antigos governantes do regime deposto e os bons são os então opositores que pretendiam, muitos deles, instaurar um regime de ditadura comunista e tal nem é discutido em termos de princípio.

Sendo certo que em 1969 eram proibidas actividades entendidas como subversivas, designadamente as decorrentes de acções com vista ao derrube do mesmo regime e tais eram facilmente perceptíveis por quem as praticava, era lógico que quem se metia nessas actividades fosse preso. Era esse o regime e todos sabiam as regras porque era essa a legalidade vigente e que os tribunais tinham o dever de fazer respeitar ( os tais "plenários" que funcionavam na Boa-Hora).Tudo o que respeite a esta legalidade vigente é apresentado como se fosse sinal evidente do despotismo autoritário de um regime sem legitimidade de espécie alguma em que os heróis são apenas os que o queriam derrubar. Em nome, muitas vezes, de um despotismo mil vezes pior.

Sendo esta a lógica das coisas os programas deste tipo animados por este roteiro habitual do antifassismo primário, redundam sempre no mesmo argumento: os lutadores contra o regime deposto em 25 de Abril eram lutadores pela Liberdade. Ponto e final.E nem precisam de explicar mais nada, porque o jornalismo caseiro é mesmo assim.

No final do programa,  en passant, dá-se conta de outro fenómeno só tornado perceptível depois do 25 de Abril de 1974: os mesmos desportistas da Académica de 1969, de repente ficaram a saber como eram as tais "amplas liberdades" reivindicadas pelos opositores ao regime deposto em 25 de Abril. Estes que aparecem no programa e outros, todos da tal esquerda que se posicionava contra o "fassismo".
Em 1975, numa assembleia organizada pela nova academia, evidentemente toda comunista, meia dúzia de "dirigentes" decidem e fazem aprovar de "mão no ar", o fim do clube Académica, essencial e exclusivamente estudantil e amador, substituindo-o pelo clube Académico, aberto a outras latitudes desportivas em nome do combate à "clubite" e alargado ao "desporto de massas".

Os antigos  jogadores que participaram no programa e que em 1969 se animavam a combater o regime, lamentam que depois do 25 de Abril, com o tal regime deposto e supostamente restauradas as "liberdades" tenham assistido a uma manipulação ideológica daquele tamanho.
Lamentam mas não tiram conclusões...

Salazar, anos sessenta

A biografía política que Filipe Ribeiro de Menezes fez de Salazar, em 2009, dá algumas pistas para se entender o Portugal de Salazar durante os anos sessenta, ou seja os da guerra no Ultramar e o começo do desenvolvimento português que se seguiu, com Marcello Caetano.

O livro de FRM procura uma distanciação objectiva que não se lê nos Rosas&Pereira mas ainda assim cai no erro de julgar por escrito o tempo de Salazar sem o ter vivido ( FRM nasceu precisamente em 1969, o que lhe retira o sopro da vida da época), mostrando ao mesmo tempo alguns dos clichés que os Rosas&Pereira aproveitam para refazer a História portuguesa.
Aqui ficam oito páginas de leitura interessante.

terça-feira, outubro 01, 2013

O pior inimigo dos bancarrotas

Salazar foi no seu tempo o pior inimigo dos bancarrotas porque foi exactamenter por esse motivo que foi para o governo, em 1928.

"Para avaliar a obra de Salazar é preciso comparar o Portugal que ele recebeu, ao assumir o Governo, com o Portugal que ele deixou. Recebeu um país arruinado, dividido, convulso, desorientado, descrente nos seus destinos, intoxicado por uma política estéril. Deixou o País ordenado, unido, consciente, seguro dos seus objectivos e com capacidade para os atingir" - Marcello Caetano, na televisão, em 30 de Julho de 1970, após a  morte de Salazar.

Salazar ao morrer deixou um país que os comunistas e socialistas, mais os democratas moderados, queriam mudar ( estes por dentro e aqueles à bomba revolucionária) , porque se atrasara efectivamente em relação aos mais avançados na Europa. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal e era difícil conservar ordem nas ruas, nas finanças e paz social a par de desenvolvimento económico acelerado. Porém, no início da década de setenta, com Marcello Caetano era exactamente isso que sucedia, o que conduziria necessariamente à abertura política, num futuro próximo e à resolução das guerras no Ultramar, obrigatoriamente.
 Em 1974 e 1975 os críticos do regime mudaram-no e aquela esquerda fez o que queria, até um certo ponto. O país que nos legaram os socialistas e comunistas, mais os democratas de todos os matizes que se ocupam em denegrir constantemente o regime de Salazar, apodando-o de fascista, obscurantista e outros mimos, nos últimos quase 40 anos ( Salazar esteve no poder outros tantos e fez o que é público e notório e os Rosas&Pereira se esforçam por denegrir) é o que temos.
Basta comparar o que se fez em igual período de tempo, nessas duas épocas, e avaliar objectivamente, para se entender quem percebeu melhor o país, quem o governou melhor e quem procurou sempre atingir o bem comum. Com um pormenor de tomo: com uma guerra no Ultramar, a partir dos anos sessenta, durante 13 anos, portanto e que nos consumia recursos que aqueles comunistas e socialistas entendiam serem suficientes para nos tirarem do subdesenvolvimento que teríamos. Acabou a guerra e as despesas inerentes e viu-se: duas bancarrotas em menos de uma década, salvando-se o país, in extremis, por intervenção estrangeira que nos custou austeridade que nunca acabou verdadeiramente;  e outra que agora se explica pelos memos motivos: gastar à tripa forra, vivendo de empréstimos e sem produzir o suficitente para o serviço dessa dívida.
Com uma curiosidade de vulto: todos os principais protagonistas da democracia que vituperam o regime de Salazar vivem à grande e à francesa, geralmente à custa do Orçamento. Uma boa parte deles, os principais que ocuparam cargos de poder em diversos sectores,  têm depósitos milionários ( centenas de milhar de euros em depósitos a render) e auferem rendimentos mensais substanciais, para além de património que acumularam ao longo de décadas. Deixam para os filhos e netos um pecúlio que Salazar não tinha quando morreu...


segunda-feira, setembro 30, 2013

Os "bancarrotas" perceberão isto?

Em finais de 1984, em plena crise de finanças públicas, com a fome instalada na cintura industrial de Lisboa e com o FMI mais uma vez à nossa perna, trazido pelo inefável Mário Soares, o governante das bancarrotas,  mais uma vez, houve alguém que decidiu agir contra os governantes gastadores e que não respeitavam a legalidade democrática, no caso a lei orçamental.

Salgado Zenha e Alípio Dias foram os dois políticos que decidiram agir, mas antes já Magalhães Mota tinha feito o mesmo. Assim:

Imagine-se hoje em dia, uma queixa deste teor, apresentada por um político de relevo ( não apenas um dirigente da Juventude Social-Democrata como aconteceu no fim do governo Sócrates e com comentários do antigo PGR lamentáveis e despropositados)...

sábado, setembro 28, 2013

Os bancarrotas não percebem isto?

João César das Neves tem hoje no Diário de Notícias, suplemento Dinheiro Vivo, uma entrevista que mostra em que Estado estamos. Não percebo por que razão os variados bancarrotas que temos, com ambição de poder de mando, não percebem isto que é dito. Ou não querem perceber, vivendo num mundo de fantasia; ou,  percebendo, pretendem apenas aldrabar as pessoas para alcançar o "pote". Os demais, acantonados na troika Avoila, Arménio e Silva dos bigodes ( empregado do Salgado), não contam porque a táctica é a de sempre: quanto pior, melhor para eles. E só para eles.

E porque é que os bancos "não ajustaram"? Há uma explicação que JCN dá, nas entrelinhas: porque ninguém os obrigou a tal. É preciso recuar uns anos, não muitos, para perceber a mentalidade dos banqueiros, do género Salgado e afins. Em Abril de 2009, quando já estávamos mergulhados em crise económica grave, este Salgado que já ameaçou por duas vezes sair da gerência do banco, tendo sido salvo pelos RERT´S à medida, dizia esta coisa extraordinária que toda a gente agora reconhece ser uma das causas directas da bancarrota:



Segue a entrevista de JCN:

Nesta quinta-feira, recebeu na sua Faculdade o ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, para falar sobre um assunto tão atual como polémico: a reestruturação da dívida do Estado.
Escreveu, recentemente, que quem pede perdões de dívida sabe o que diz mas não sabe o que faz. O que quer dizer com isto?
As pessoas são míopes, olham para o imediato.  E isto não é um almoço grátis, porque terá enormes custos no futuro. Por isso é que os países andam a tentar o  impossível para não pedir o perdão. Se fosse tão fácil como as pessoas dizem, toda a gente pedia perdões. O perdão faz com que as pessoas fiquem a arder com o seu dinheiro. E é importante dizer, que são donas de casa, funcionários, pessoas como nós, que puseram dinheiro no banco. Aliás somos mesmo nós, porque a maior parte da dívida do Estado está, neste momento, em bancos portugueses e, portanto, é o nosso dinheiro, que está depositado nos bancos, que ficaria a arder. Quem fala de perdão nem sequer está a perceber esse ponto. Mas, sobretudo, o que estão a esquecer é que isto tem custos durante muito tempo. Um país que renuncia à sua dívida, ou que pede perdão, vai ter que pagar isso com língua de palmo, durante muito tempo, por não ter acesso ao crédito, o que, aliás, estrangularia o país, e depois, por ter taxas de juro muito mais altas, que se pagariam durante muito tempo. É por isso que não anda toda a gente a pedir perdão da dívida. Se fosse assim, era fácil, endividávamo-nos e depois olha, azar, não pagávamos. A maior parte das pessoas não sabe qual é o custo verdadeiro do que está a dizer.
Segundo alguns economistas, reduzir a dívida sem taxas de crescimento consideráveis será impossível. Cristina Casalinho escreveu esta semana: “Para se reduzir a dívida pública nos próximos 20 anos, seguindo as novas regras orçamentais europeias, a manutenção do défice público da última década exige um crescimento económico real de 8%”. E agora?
Isso é verdade.
Crescer 8% ao ano é impossível.
Claro.
Qual é a solução?
Nós metemo-nos num grande buraco, agora só há más soluções. A solução do perdão é uma má solução. Há outras soluções e são todas más. Há várias maneiras de um país reduzir a sua dívida. Uma delas é pagá-la, com austeridade, que vai gerar custos enormes; outra maneira, é aldrabar os credores. E há várias maneiras de aldrabar os credores. Uma delas, é dizer “não pago”- é raro acontecer isto -, outra é restruturar a dívida, pagar mais tarde, pagar com outras condições, e ainda outra, é inflacionar, ou seja, pagar ao credor com dinheiro que não vale nada, desvalorizar a moeda.
Isso já não podemos fazer...
O Banco Central Europeu (BCE) pode continuar a fazer. Eu acho que, a nível europeu, era importante arranjar um mecanismo, e há vários a serem discutido, todos eles maus, de aliviar o peso da dívida dos países. Isto é uma coisa completamente diferente de Portugal, sozinho e arrogante, dizer assim :“eu quero perdão da dívida”. Isso é estúpido. Portugal, sozinho, avançar e pedir o perdão da dívida, é um disparate enorme, vai ter o custo todo. Agora, os europeus, em particular, os credores, estão a começar a perceber que estrangular os devedores é mau para todos. É preciso arranjar aqui uma maneira de aliviar o custo dos devedores e também, de passar esse custo para os credores. Neste caso, até é relativamente fácil, porque temos um árbitro evidente, que é a Comissão Europeia, a União Europeia, o BCE. Isto foi feito nos anos 80 com a dívida dos países do terceiro mundo e aí não havia um árbitro evidente, foi o governo americano.
Não se trata de perdão mas de outros mecanismos, como alargamento de prazos, perdão de juros.
Há várias maneiras e técnicas de fazer. Eu nem sequer domino o tema, porque não sou financeiro. O ponto fundamental é retirar o estigma de pedir o perdão e, no fundo, roubar os credores. Isso já não é possível fazer porque foi isso que aconteceu na Grécia. A Grécia, por duas vezes, faliu. Quando um país vai à falência não é a mesma coisa que quando uma empresa vai à falência, porque não é vendido em hasta pública. Portanto,  restruturar a dívida é falir. Agora, há reestruturações e reestruturações. O que devia acontecer era a Europa perceber que fez um disparate enorme, toda a Europa, os devedores e os credores, e que este desequilíbrio interno está a pôr em risco a própria União Europeia, e de que os custos sobre todos de uma longa estagnação, ou pior ainda de uma partição de isto tudo, que aliás a longa estagnação provavelmente gerará, são enormes.
Mas Portugal não deve tomar a iniciativa? 
O ultimo interessado em fazer isso é Portugal, porque os custos serão brutais.
Para não lançar o pânico.
Em Portugal, as coisas correram mal porque fomos os últimos a perceber o problema. Enquanto a Grécia e a Espanha começaram, a sério, a apertar o cinto em 2008, nós só em 2011. E, pelos vistos, alguns ainda não cortaram mesmo, porque, como estamos a ver, alguns grupos protegidos - os piores são os que estão escondidos - conseguiram não ter cortes tão significativos quanto deviam. Isto está a estrangular-nos a todos.
Portugal vai precisar de algum desses mecanismos que mencionou para aliviar o peso da dívida? 
Neste momento, ninguém pode dizer isso. Posso dar um palpite mas é importante dizer que palpite é palpite. Provavelmente, não vamos conseguir sair deste primeiro programa em 2014. De facto, as coisas correram mal, algumas coisas correram bem, mas outras bastante mal. E estamos a poucos meses do fim do prazo, pelo que o mais provável é que precisemos de outro resgate. Não é ainda a falência, não é a restruturação da dívida, é pagar com a ajuda dos amigos. Continuamos a honrar todos os nosso compromissos, mas os nossos amigos na União Europeia e o FMI continuam a dar-nos mais um tempinho para isso. Será preciso vir a reestruturar a dívida? Toda a gente está a apostar que não. A reestruturação da dívida é uma coisa extraordinariamente penosa, que já aconteceu duas vezes na Grécia e que ninguém quer que aconteça outra vez. Se acontecer em Portugal, a derrocada será muito grande para Portugal e será muito grande para o que se segue. Existe um efeito dominó e, portanto, as pessoas começam a olhar para quem vem a seguir, e a seguir a Portugal é a Espanha, e a Espanha já não é a feijões, como Portugal e Grécia. E depois, a Itália. É muito importante para toda a Europa que Portugal não caia, ou seja, que Portugal honre os seus compromissos, com mais ou menos ajuda. Para isso, era preciso que os portugueses colaborassem, e o que temos aqui é uma data de gente a fazer birra. Não são os portugueses, que a maioria dos portugueses até já está a apertar o cinto e a dar a volta. Existe um grupinho de elite, que todos conhecemos, que está a fazer birra, como se isto fosse uma coisa imposta pela Europa.
Nunca deixa nada por dizer. Que grupinho de elite é esse? 
Há dois grupos claríssimos, uns mais visíveis, outros menos. O primeiro, é feito de interesses à volta do Estado. Estou a falar dos médicos, dos professores, dos funcionários, das câmaras, os que vemos nas ruas aos gritos. Não se veem manifestações de pobres e desempregados em Portugal, não se veem manifestações de emigrantes. Os verdadeiros oprimidos, os verdadeiros proletários, desses, ninguém fala. Infelizmente, em Portugal, não temos nenhum partido a defender os pobres. A maior parte das manifestações, dos protestos dos partidos, são para defender a manutenção de benesses que, evidentemente, são pagas pelos impostos dos pobres. Depois há um outro lado, mais oculto, e que tem a ver com empresas, sobretudo, as grandes empresas, que estão próximas do Estado, as que têm no Estado um grande cliente. Os bancos são claramente uma entidade, as construtoras, e outras, enfim, a EDP, as rendas da EDP, toda a gente fala nisso. Um conjunto de grandes empresas, que ainda por cima, são as mais visíveis, essas andam contentes, não reestruturaram muito, não se vê grande reestruturação. Já nas pequenas e médias empresas (PME), toda a reestruturação foi brutal, mas nas grandes não se vê muito isso. A começar pelos bancos, mas depois, espalha-se por diferentes sectores. É um problema gravíssimo da economia, porque, ao contrário do que acontecia antigamente, desta vez há um grupo importante de empresas que não ajustou.
A crise chegou menos a esses sectores, essas grandes empresas estão protegidas?
Estão protegidas e com acesso ao crédito, coisa que as PME não têm há muito tempo. Há aqui uma elite que se instalou, e isto tem muito a ver com a atitude portuguesa. Nós temos em Portugal um conjunto de interesses que são muito mais baixos do que parece. Muitos dos que estão a protestar estão a protestar precisamente porque o seu interesse está em cheque. E isso está a bloquear o país a um nível que não aconteceu nas crises anteriores. A questão aqui é saber se o ajustamento muito intenso das famílias, das PME e que os mercados em geral fizeram chega para se poder ultrapassar esta crise, sem mexer naquilo onde não se está a conseguir mexer. Porque o Tribunal Constitucional bloqueia, porque o Governo recua, porque se faz uma lei muito dura e depois, quando sai, já é uma coisinha de nada. Isto é a Grécia, é a Grécia com mais 20 anos, em maior, e o drama da Grécia é uma tragédia brutal, um país sacrificado e destroçado, como há muito décadas não víamos.
Vamos falar de Vítor Gaspar, que recebeu esta semana, na sua Universidade Católica, para uma conferência sobre restruturação de dívida. O ex-ministro das Finanças defendeu sempre, e fê-lo mais uma vez esta semana, que Portugal deve passar por um processo de emagrecimento e austeridade para que a seguir viesse uma segunda fase de crescimento económico. Concorda? 
Claro, tem de ser.
A crise de junho foi precipitada pela saída de Vítor Gaspar, que tornou públicas as razões pelas quais deixava o Governo. Fez mal em sair naquelas condições e naquele momento, devia ter ficado? 
Primeiro, não faço ideia, porque não sei as pressões que estava a sofrer, é uma questão que só ele poderá contar. Provavelmente, não contará tão cedo qual era exatamente a circunstância em que ele estava, aliás, imediatamente a seguir, Paulo Portas mostra que a coisa era muito mais profunda. Portanto, não consigo julgar a ação da pessoa, mas posso dizer que foi a pior coisa que poderia ter feito naquela altura. Pelo menos, até ao fim do resgate, devia ter continuado. O dano que isso fez na nossa imagem juntos dos credores, foi enorme. O IGCP, que anda a tentar colocar o dinheiro lá fora, foi a cair pela escada a baixo. Tudo o que tínhamos andado a conseguir, de repente, recuou porque, de facto, ele tinha uma imagem de grande seriedade e rigor.
A isso, soma-se o conteúdo da carta que ele tornou pública. O seu conteúdo não pode ser interpretado como o admitir do falhanço da política nos primeiros dois anos do resgate? 
Eu conheço o professor Vítor Gaspar há imenso tempo e ele gosta muito de dizer uma data de frases que podem ter umas quatro interpretações possíveis e a gente não fica muito bem a saber o que é que ele quis dizer. É uma linguagem típica de banco central. Vítor Gaspar é um mestre nisso e, portanto, aquela carta tinha vários significados possíveis. Não sou capaz de especular e acho que essa carta não teve grande efeito, sinceramente.
Do ponto de vista político.
Eu estou a falar de uma outra coisa, que é o impacto nos mercados, do impacto na economia. Que lá dentro, se tenham zangado as comadres, provavelmente sim, aí a carta deve ter tido algum efeito, mas enfim, eu acho que isso tudo é secundário. Isto não podia ter acontecido. É verdade que havia uma enorme quantidade de forças à volta do Governo, que estavam ansiosas para que isto acontecesse, o que é muito estúpido porque as vitimas somos nós, não é o Governo. O Governo vai-se embora amanhã, os ministros mudam, os líderes partidários desaparecem, e nós ficamos com o problema no colo.
E afinal a pergunta do momento, até porque o próprio primeiro-ministro já lançou a questão mais do que uma vez. Portugal vai precisar ou não de um segundo resgate? 
Ninguém sabe, saberemos no próximo ano.
Mas qual é a sua convicção? 
Acho que sim e, aliás, até acho que é bom, porque é a única maneira de nós, finalmente, virmos a fazer alguns movimentos no sentido dos tais poderes empedernidos que estão à volta do Estado e que, de facto, até agora conseguiram sempre evitar que as coisas fossem alteradas.
Mas não era isso que se dizia no início do primeiro resgate? 
Era e a esperança falhou.
O primeiro resgate falhou por pressão desses grupos?
Parece-me evidente que foi isso que aconteceu. Como digo, a economia ajustou, as empresas ajustaram, é preciso ser justo, alguma coisa se fez, algumas mudanças estruturais fizeram-se. Agora, o governo fez um erro gravíssimo que foi o erro de começar com medidas conjunturais, em vez de começar com medidas estruturais. Não era preciso fazer estudos, que está já tudo estudado e mais do que estudado. Era preciso fazer mais algumas coisas, cortar salários e subir impostos não resolve problema nenhum, adia o problema. Isso é preciso numa emergência mas, como é óbvio, não resolve problema nenhum. É preciso ir mexer na máquina, alterar as coisas, e na altura, com a troika acabada de chegar, com o governo acabadinho de tomar posse, se calhar conseguia-se algumas coisas.
O governo deveria assumir já esse segundo resgate? 
Essa é uma questão política. Neste momento, o governo está com a troika a rosnar por cima do ombro e com os grupos instalados, triunfantes e felizes, a dizerem-lhe “se mexeres qualquer coisa eu digo ao Tribunal Constitucional”.
O Tribunal Constitucional (TC) deveria ter em conta o contexto do país, quando se pronuncia sobre a constitucionalidade das leis? 
Não, o TC tem uma função jurídica e a única coisa que tem de atender é à Constituição. Não percebo nada da Constituição, por isso nem vou comentar as decisões do TC. Agora, quando vejo que o TC, em vez de invocar detalhes jurídicos, invoca o princípio da igualdade, que é um principio genérico que qualquer cidadão percebe, e vários dos juízes lá dentro votaram contra isto, as coisas afinal não são assim tão óbvias, e, portanto, sem entrar em manipulações da lei, era possível perceber uma coisa, que aliás era óbvia, que é que o lado privado da economia está a sofrer cortes brutais não de um salário, mas de 12 ou 14, desde 2008. Quando, finalmente, cortam um salário aos pensionistas e aos funcionários, o TC diz não, porque isto não é equalitário. Está a promover exatamente o oposto daquilo que diz estar a promover, está a contribuir para a desigualdade, porque não está a olhar para o quadro completo. O TC está, claramente, a funcionar em termos políticos, temos um outro Parlamento ali e, por acaso, curiosamente, a maioria é da oposição, que também é curioso. Como é que isto aconteceu? Não faço ideia.
Em relação ao segundo resgate, tem alguma ideia de qual poderia ser o montante e o prazo?
Não faço ideia, a questão é muito complicada, até porque não é uma questão meramente financeira, é também política. Até é possível que não lhe chamem segundo resgate, mais uma vez digo, prever o que vai acontecer é impossível, então entrar nos detalhes das quantidades e dos tempos é impossível.
E o governo deveria utilizar o dinheiro para quê?  
A questão não é essa porque o governo está esganado com falta de dinheiro. O dinheiro está a entrar para tapar, o que já está. Não há escolha.
O dinheiro será só para manter a máquina? 
Pois é. É isso que está a acontecer.
Não haverá dinheiro para promover crescimento? 
Eles vão inventar algumas coisas dessas e eu espero que inventem pouco.
Não haverá margem para aliviar a carga fiscal dos contribuintes? 
Todas as vezes que o governo tenta criar crescimento, estraga crescimento ou esbanja dinheiro. Temos visto isso ao longo dos últimos 10 anos. Portugal foi o país na Europa que cresceu menos. Fartámo-nos de ter programas de crescimento, de ter combate ao desemprego, como é que a gente ainda acredita nisso?!
Temos de desistir de promover o crescimento em Portugal?
Não, o governo tem de emagrecer, para não esmagar as empresas. O governo não faz crescimento, faz coisas muito importantes, mas crescimento não é uma delas. E o governo, com os seus anseios de promoção de crescimento, esmaga empresas, destrói.
A reforma do IRC também é isso? 
Sou a favor de qualquer descida de impostos. Eles falam muito, estão sempre a dizer, mas nunca vi nenhuma, ouvi poucas. Agora, o governo alguma vez sabe quais são os sítios em que vai fazer crescimento? Costumo dizer aos meus alunos que, se o governo soubesse não era governo, era rico.
Na sequência do caso dos swaps, Maria Luísa Albuquerque tem a credibilidade necessária para continuar a a conduzir a pasta das Finanças?
Não conheço a senhora, mas posso dizer duas coisas: primeiro, tecnicamente, parece ser uma pessoa bastante capaz; segundo, politicamente, a credibilidade dela ou de qualquer outra alternativa depende do primeiro-ministro. O professor Vítor Gaspar tinha essa confiança e conseguiu enfrentar grandes obstáculos. Quando, de repente, aparece uma outra entidade, chamada vice-primeiro-ministro, que tem várias funções, conflituantes com a da ministra das Finanças, a questão que aqui se levanta é saber quem manda. A única pessoa a responder a esta pergunta é o primeiro-ministro. Ainda não percebi quem manda.

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso