domingo, fevereiro 16, 2014

Há 40 anos, Soljenitsine, um reaccionário anti-comunista primário.

Faz agora 40 anos que o escritor russo Alexandre Soljenitsine provocou uma grande polémica, mediaticamente mundial por causa da publicação, no Ocidente, de um livro que na antiga URSS não lhe era possível publicar: O Arquipélado Gulag. A URSS, pátria.farol dos nossos comunistas de então que vituperavam o "fascismo" por não os deixar falar, reunir e publicar livremente as suas ideias, não deixava falar, reunir e publicar as ideias de Soljenitsine e muitos outros que não estivessem de acordo com os cânones da Academia das Ciências.

O livro, segundo se conta, foi escrito nos anos 50 e 60 do séc.XX, na clandestinidade ( a liberdade na URSS era assim...) e passou para o Ocidente, na clandestinidade de um micro-filme, tendo sido publicado em 1973, em França nas Éditions du Seuil, em  três volumes. Primeiro em russo e depois, em Junho de 1974, em francês; no ano seguinte, saiu o segundo volume e em 1976, o terceiro. O primeiro é este:

O tema do livro é muito simples: a vida no Tarrafal da URSS, chamado Gulag, no tempo de Lenine e Estaline. Qualquer semelhança com o Tarrafal português é pura coincidência e deveria ser tão semelhante como isto e isto.

Não obstante, os mesmíssimos comunistas que apoiavam os que criaram os gulags são os que depois se indignam muito com o Tarrafal. E com razão, diga-se. Mas com falta de lógica, diga-se também. A Antena Um anda a passar um programa com testemunhos dos tempos vividos no Tarrafal. Seria possível comparar com os Gulags e perguntar directamente aos que se vitimizam ( Edmundo Pedro, um deles) o que dizer dessa comparação?  E se o Tarrafal era uma imitação dos campos de concentração nazis, os gulags eram o quê? Colónias de férias para o povo?

Mais: o que fariam em Portugal, se tivessem chegado ao poder em 1974-75? À semelhança de todos os países comunistas, sem excepção, criariam os seus tarrafais. Porventura nos mesmos lugares...e com as condições psicológicas dos gulags, está bom de ver.

Em Fevereiro de 1974, após a publicação do livro de Soljenitsine, em França, começou a perseguição ao dissidente que só não terminou outra vez no Gulag ( que ainda existiam e só fecharam em 1986, ao contrário do Tarrafal que fechou décadas antes)  porque  o escritor era um premiado Nobel, ganho em 1970.

Assim, foi resolvido o assunto de modo mais expedito: expulso da sua terra. Desterrado. E foi esse facto que originou as notícias da época, como esta capa da Time de 25 de Fevereiro de 1974 que se vendia por cá, ao contrário da URSS onde era expressamente proibida esta imprensa capitalista, imperialista e reaccionária ( portanto, não era censura, era selecção para bem do povo).




O artigo de fundo era escrito por Patricia Blake que tinha lido o livro no original russo, com as passagens que foram seleccionadas. 




E por cá, em Fevereiro de 1974 como é que se davam notícias destas coisas? O Diário Popular de 21 de Fevereiro de 1974 mostra, citando uma notícia do New York Times ( que na URSS nem se mencionava por ser um órgão reaccionário do imperialismo) que mostrava à saciedade como os comunistas costumam ( ainda é assim) lidar com estes pequenos problemas de imagem: devolver a acusação. O livro acusava-os de encarcerar em campos de trabalho forçado milhares e milhares de cidadãos? Pois então, esperem lá... também os americanos prenderam e mataram milhares de comunistas, logo após a II Guerra Mundial!  Daí a conclusão lógica, para os mesmos: o americanos não tinham autoridade moral...e será que os comunistas portugueses têm assim tanta autoridade moral para acusar o regime de Salazar de coisas que eles mesmos  apoiavam aos camaradas soviétricos e que o faziam de modo mil vezes pior?! E sabendo expressamente de tal coisa?



Ora sobre esta autoridade moral é que a porca está sempre a torcer o rabo, com o Tarrafal e outras ocorrências. Mas em 2003, altura da efeméride dos 30 anos da publicação da obra maldita., o Diário de Notícias mostrava numa página o estado das coisas sobre o assunto . O título é novilinguístico qb porque fala em "campos de detenção" em vez da pura e simples expressão "campos de concentração". Ficava mal,  a preto e branco...

Em 1989, Gorbatchev ( o renegado comunista que deixou mal o PCP e Álvaro Cunhal em particular) já tinha autorizado a publicação do livro na URSS e em  2008, o mesmo e Putin homenagearam-no, aquando da sua morte.

Por cá, aposto que nos "centros de trabalho" do PCP nem querem ouvir falar no nome do traidor reaccionário e aposto que nem uma das suas obras lá terão. Nem aquela que Krustschev considerou ser uma "obra-prima" com direito a citação no Pravda. Igualmente sobre os campos e chamada Um dia na vida de Ivan Denisovitch...publicado em Portugal, em 1971 numa edição de livros de bolso, da Europa-América.



Quanto à lógica do PCP e respectiva moral é assim mesmo e quem quiser que tire as conclusões.

Sobre Soljenitsine e os media, aqui em francês,  um extenso quanto interessante artigo que mostra as potencialidades da internet nestes assuntos e que nenhuma publicação em papel igualaria. Numa passagem cita-se Jean-François Revel que escreve e explica a táctica dos partidos comunistas, incluindo o português que nunca se dá por achado nestas coisas e Álvaro Cunhal era mestre nesta arte do embuste:

Cette tactique du PCF est dénoncée par Jean-François Revel dans L’Express :

" La psychologie de guerre froide [...] comporte l’assimilation de toute description réaliste de l’URSS à l’antisoviétisme de principe ; puis de l’antisoviétisme à un anticommunisme de préjugé ; enfin, de l’anticommunisme à une hostilité de contagion visant toute la gauche. De la sorte, ou l’on accepte en bloc et en détail les exigences communistes, ou l’on est réactionnaire. "



sábado, fevereiro 15, 2014

Portugal no prec comunista: "e tudo era possível".

Em 1975 Portugal caminhava para o socialismo comunista a passos largos. Isso era entendido lá fora, claramente. Lá fora quer dizer na Europa e EUA. Em artigos de revista que apareciam por cá, o panorama que nos relatavam contrastava nitidamente com o que era publicado aqui, pela imprensa da época.

O que lá fora, na Europa democrática e EUA era entendido como uma viragem política para o socialismo comunista, cá não passava da luta política de sempre e com os partidos da Esquerda e Extrema-esquerda integrados no "processo democrático".  Essa ilusão era perfeita para a generalidade das pessoas que não se apercebiam com nitidez do que estava para a acontecer e cujo processo só terminou claramente em 25 de Novembro de 1975.

A revista Time, num número de Agosto de 1975 não tinha dúvida sobre a natureza da "troika" que se preparava para entregar o país ao Bloco de Leste e à órbita de Moscovo.

Em França, a revista Le Nouvel Observateur, das bandas do socialismo democrático, ou seja da social-democracia, também não tinha grandes dúvidas, com mostra este artigo de 20 de Janeiro de 1975 e  outro de 10 de Fevereiro desse ano.







O L´Express também dedicou um número especial, em Janeiro de 1976, sobre a "tentação totalitária", a propósito da publicação de um livro de Jean-François Revel. Fica para amanhã porque são várias páginas claras e inequívocas sobre o que o PCP queria por cá.

Nessa altura, apareceram também por cá alguns "intelectuais" como Jean-Paul Sartre, acompanhado por Simone de Beauvoir e Pierre Victor, então já ex-director do Libération. Ao lado do filósofo do existencialismo esquerdista, pousavam alguns intelectuais portugueses que não consigo identificar.
Alguém saberá identificar os indígenas que em Abril de 1975 foram à conferência na Casa de Imprensa ( particularmente a senhora de óculos) , tal como publicado na Flama de 18 de Abril de 1975?



Em  1974 já cá tinha estado um cantor, Georges Moustaki, uma espécie de vagabundo anarca que falava assim, como mostra a imagem do Século Ilustrado de 3 de Agosto de 1974.


A ideia de Esquerda em desenhos de pintar a manta

Como as imagens valem mil palavras aqui ficam algumas da autoria de um comunista, João Abel Manta, sobre o modo como via o país, antes e depois de 25 de Abril de 1974.

As imagens foram retiradas do álbum João Abel Manta Cartoons, 1969-1975, publicado originalmente pelas Edições O Jornal, em 1975. Os desenhos foram originalmente publicados no Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Jornal.

O Portugal fascista era assim, para JAM.



 A metamorfose, tal e qual, a seguir ao 25 de Abril é assim explicada.




Esta última imagem, já publicada no Jornal, permite introduzir o próximo postal, sobre o modo como em 1975 nos viam, do estrangeiro ocidental e democrático. Repare-se na figura de Henry Kissinger em baixo, à direita, mais pequenino que os demais e com orelhas de burro...


Os submarinos ainda estão submersos...

 Sobre o caso dos "submarinos" e particularmente do processo das "contrapartidas" que hoje terminou em primeira instância ( vai haver recurso da decisão, já anunciado pelo MºPº, pelo que ainda é cedo para se andar a deitar foguetes como o faz o advogado Godinho de Matos...) leia-se este texto copiado do blog Luminária.

Estado comprou dois submarinos por 770 milhões de euros (sem o respectivo armamento) mas o negócio está minado pela corrupção
Alemães desconhecem acusações
DCIAP lançou caça ao contrato
Apesar de a investigação principal ao chamado caso dos submarinos ainda estar longe de conclusão, o Ministério Publico já deduziu acusação contra dez arguidos, alemães e portugueses, a quem foram imputados, em co-autoria, a prática dos crimes de falsificação de documento e burla qualificada. O MP, através de uma nota do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), revelou ainda que foi deduzido um pedido de indemnização cível, no montante de 33.989.796,91€.
Apesar das acusações agora conhecidas, extraídas da investigação principal via uma certidão judicial, o DCIAP continua a investigação – afastando a PJ de parte das diligências  – já que, até ao momento, não tem elementos suficientes no alegado financiamento do CDS-PP, partido cujo líder, Paulo Portas, era Ministro da Defesa na altura do processo de aquisição dos dois submarinos, “Tridente” e “Arpão”. O DCIAP é aliás acusado de ter esperado o final das eleições legislativas para avançar com buscas em três dos quatro escritórios de advogados que representaram as partes intervenientes na aquisição dos dois submarinos da classe 209PN.
A informação,  avançada ao 24horas por um dos investigadores, revela ainda que as diligências do DCIAP “chegaram a estar marcadas para uma data anterior” mas que “por causa das eleições só esta  semana tiveram lugar”. Uma “delicadeza política” que o DCIAP se recusou a comentar.

Ontem, o MP acusou três gestores alemães, todos da Man Ferrostal  – o vice-presidente Horst Weretecki; o director Winfried Hotten, e  Antje Malinowski – de crimes de burla qualificada e falsificação de documento.

O “Tridente” e o “Arpão”, os maiores submarinos construídos até hoje na Alemanha, foram construídos por um consórcio alemão constituído por dois estaleiros, a Howaldtswerke–Deutsche Werft AG (HDW) de Kiel e a Nordseewerke GmbH (NSWE) de Emden, mas também pela Ferrostaal AG (FS) de Essen.

Entre os acusados figuram ainda José Pedro Sá Ramalhos, Filipe José Mesquita Soares Moutinho, António Luís Parreira Holtreman Roquette, Rui Paulo Moura Santos, Fernando Jorge da Costa Gonçalves, António João Lavrador Alves Jacinto, e José de Jesus Mendes Medeiros.

O MP exige a todos os acusados, em co-autoria, uma indemnização de cerca de 33 milhões de euros, incluindo ainda diversas empresas como co-responsáveis: Howaldtwerke Deutsche Werft (HDW), a Thyssen Nordseewerke Gmbh (tnsw), a Ferrostaal AG (FS) Man Ferrostall Aktiengesellschaft, o Agrupamento Complementar de Empresas para a Indústria Automóvel (ACECIA) de Linda-a-Velha, a Comportest – Companhia Portuguesa de Estampagem, SA. da Trofa, a Inapal Plásticos SA de Leça do Balio, a Ipetex – Indústrias Pesadas Têxteis SA no Cartaxo, a Simoldes Plásticos, Lda. de Oliveira de Azeméis, a MCG -  Manuel da Conceição Graça, Lda. de Alenquer, a Amorim Industrial Solutions de Corroios, e a Sunviauto – Industria de Componentes Automóveis, SA em Vila Nova de Gaia.

O despacho das procuradoras Auristela Hermengarda e Carla Dias, que estiveram por diversas vezes na Alemanha, acusa o consórcio alemão GSC e um agrupamento de empresas portuguesas, a ACECIA, de terem concertado a burla do Estado português bem como de terem falsificado documentação em relação com as contrapartidas de um bilião e 210 milhões de euros, previstas no concurso público de atribuição do contrato ao consórcio alemão.

“O GSC/Man Ferrostaal através da conduta concertada com a ACECIA, que conduziu à aprovação por parte do Estado português de projectos que careciam de causalidade, logrou criar a aparência de que cumprira parcialmente o programa de contrapartidas, situação que reduziu necessariamente o impacto potencial dos referidos factores de risco sobre a sua actividade”, indica o despacho das duas procuradoras acrescentando que “em resultado da inclusão no programa de contrapartidas dos projectos que não tinham tido qualquer intervenção do GSC/Man Ferrostall, estes lograram obter vantagens que não lhes eram devidas e que se consubstanciaram na redução de custos, redução de exposição ao risco e reforço da sua imagem internacional”.
Investigação alemã começou nos jornais
De acordo com o Procurador de Schleswig-Holstein, as autoridades alemãs começaram  a interessar-se pelo “caso dos submarinos” em 2007, depois de terem conhecimento “pelos jornais portugueses” da existência de suspeitas ao negócio. Foram aliás as autoridades alemãs a dar o primeiro passo, e em 2007 enviaram ao Eurojust um pedido de mediação com o Ministério Público português. O pedido foi na altura encaminhado para Lisboa mas encontra-se actualmente arquivado naquele organismo europeu, já que os magistrados portugueses, depois de alguns meses sem darem qualquer resposta, acabaram por estabelecer contacto directo com as autoridades alemãs. Em Kiel, na Alemanha, fonte ligada ao procurador, confirmou que “existem contactos com as autoridades portuguesas” mas que os resultados obtidos até ao momento “não estão há altura das expectativas”, o que, dada a indemnização agora exigida pelo MP, é difícil de compreender.
Já a investigação portuguesa começou logo depois da polémica causada pela atribuição do contrato ao consórcio alemão – atribuição que esteve igualmente na origem de protestos e queixas do consórcio preterido no concurso, o francês DCNI, que recorreu da decisão pedindo a suspensão do processo, mas o Supremo Tribunal Administrativo acabaria por dar razão ao executivo português. Apesar dos desenvolvimentos agora conhecidos, o (DCIAP) continua sem elucidar as suspeitas de alegados pagamentos ilícitos ao CDS-PP.

O DCIAP quer esclarecer se o depósito de quase 1,1 milhões de euros em donativos nas contas do CDS-PP entre 27 e 30 de Dezembro de 2004 terá sido um benefício por via do negócio dos submarinos, o que o então ministro da Defesa, Paulo Portas, sempre negou garantindo que foram passados recibos referentes a todos os donativos.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

A Esquerda é uma ideia e Baptista Bastos um seu profeta




“A esquerda é uma ideia”. Assim define Baptista Bastos a Esquerda.  E complementa: “ De igualdade, de fraternidade, de equidade. De trabalho.”   É este o vademecum que lhe permite posicionar alguém à esquerda ou à direita.
Será isto suficiente para definir uma ideologia? Não é e nunca foi, mas é assim que  esta Esquerda entende que deve ser.  Um conceito que prescinde de  factos que o contradigam.
O entrevistador pergunta-lhe qual a prática dessa esquerda e a resposta é que  “não existe”.
Será talvez por causa desse desinteresse pelos factos que as experiências socialistas reais, nos países que se proclamaram como tal os não afectam muito.Falar da Coreia do Norte ou de Cuba, ou da antiga RDA ( e da terrível STASI) ou dos demais países ditos socialistas é música de Cage para os ouvidos de um comunista fossilizado. Não entra.
Baptista Bastos visitou a URSS três vezes e nunca descobriu a raiz do mal comunista. E até proclama agora que “tenho pena que a União Soviética tenha implodido. Agora percebeu-se que era um travão a muitas das coisas que estão a acontecer”.
As tais muitas coisas que estão a acontecer não são enunciadas por BB mas é fácil de perceber porque redundam sempre no mesmo:  no modo como se produz riqueza e se distribui e no capitalismo, imperialismo, globalização etc etc..
BB acredita no comunismo, ainda hoje porque sim:  “revejo-me no PC”.
Portanto, há um “mundo” em BB e pessoas semelhantes que são muitas  e se revêem  num sistema de ditadura em que uns tantos iluminados do Partido único, com tendência para se perpetuarem no exercício do poder, mandam politicamente nos demais cidadãos. 
N o exercício desse poder, de partido único, há uma necessidade imperiosa de cercearem liberdades que os sistemas democráticos ocidentais consideram fundamentais.  A liberdade de expressão de pensamento não conta como valor, porque é cerceada pela censura efectiva e real, permanente e actuante. A liberdade de circulação, reunião e associação é igualmente cerceada de modo grave e claro, uma vez que não se admitem partidos que professem ideologias “fascistas” nem partidos que simplesmente tenham por missão assegurar uma alternância das pessoas que estão a excecer o poder. 
A liberdade de confissão religiosa fica limitadíssima quando a doutrina oficial do Estado é o ateísmo.  A liberdade individual de iniciativa privada fica desde logo reduzida ao mínimo na medida em que toda a propriedade é do Estado. A produção de bens passa a ser função do Estado, com toda a lógica daí decorrente.
Este sistema político, com muitas mais características, como por exemplo uma ferocíssima repressão policial sobre qualquer dissidente da linha justa do Partido foi a realidade vivida por milhões de cidadãos durante décadas na antiga URSS e nos países do bloco de Leste.
Baptista Bastos a estes factos responde com os conceitos aludidos porque ainda acredita na eficácia de tal sistema, para impedir “as muitas coisas que estão a acontecer”. 
Há porém várias contradições que atentam contra a lógica mais elementar.

Quem defende um sistema político deste jaez que autoridade moral tem para condenar um sistema político como o que existia antes de 25 de Abril de 1974 em Portugal? Nenhuma, claro.No entanto, paradoxalmente são eles quem se acha no direito moral de vituperar o "fascismo" e de tornar tal luta a bandeira para os que " não apaguem a memória". Neste caso, das prisões fascistas, da repressão fascista e da ditadura fascista, como proclamam, sem qualquer pejo ou vergonha.
A admiração por um sistema em tudo semelhante ao verdadeiro fascismo não deveria alertar qualquer consciência inteligente para a incongruência e monstruosidade da contradição? 
A própria vituperação do “fascismo”, apontado como sendo o sistema político do Estado Novo não deveria fazer corar de vergonha sempre que tal ideia é expressa, como o faz BB ao referir-se ao “fascismo”? Estas ideias e argumentos, tipicamente comunistas vêm já dos anos 50 ( no tempo da II Guerra, Estaline fez um pacto de não agressão com Hitler, coisa que não gostam de lembrar...) e são agora replicadas nos mesmíssimos termos de então pelos comunistas que conseguiram que outros não comunistas as adoptassem de igual maneira.
E então porque continuam a mostrar aquela fé inabalável na crença contraditória? Porque são estúpidos e maus?  Nem tanto. São apenas sonhadores da utopia que se contentam com “ a ideia” e desprezam os factos que lhes destruiria a ideia sonhadora.
Enquanto desprezam o “fascismo”,   idolatram o comunismo que partilha com aquela ideologia os métodos de exercício de poder. Tudo se passa como se o fascismo, ao qual associam regimes como o de Salazar e Caetano que pouco tiveram a ver com o verdadeiro fascismo, fosse o Mal absoluto e indiscutível perante o qual ou aparência do mesmo, tudo fica explicado  e injustificável. 
O fascismo é a palavra mágica para se encontrarem no lugar imaginário que ocupam e com ela argumentam para delimitar fronteiras.
Designando o regime de Salazar como fascista não precisam de nada mais para o desacreditarem e relegarem para os regimes hediondos da História. Como Salazar de facto prendia quem fazia propaganda subversiva em nome do comunismo, perseguindo nos terríveis Tribunais Plenários e condenando quem a praticava de facto ( e não consta que houvesse erros judiciários nessa matéria) tanto basta para a diabolização completa e sem remissão do regime.
Se lhes fizerem ver que os tribunais da antiga URSS e os métodos de obtenção de confissões e as condenações em reclusão em campos de concentração ( Gulag) ou em hospitais psiquiátricos para toda  a vida, foram coisas que aconteceram, em modo muito mais terrível que por cá, mesmo com tarrafais, tais factos são relegados em primeiro lugar para a propaganda fascista e em segundo, se as evidências se tornarem indesmentíveis para os “exageros” revolucionários ou a relativização dos encarceramentos vitalícios.Ou então se lhes fizerem notar os milhões de mortos estalinistas, a resposta aparece rápida com a comparação dos milhões de mortos à fome nos países capitalistas.
Há uns anos foi publicado um Livro Negro do Comunism. Pouco depois aparecia a resposta com um Livro Negro do Capitalismo, como se a lógica fosse a mesma.
A menção ao fascismo de Salazar serve para arredar qualquer discussão sobre o Estado Novo, mas a menção à repressão de cariz verdadeiramente fascista nos países de Leste é-lhes indiferente como tema de argumentação. E esta "ideia" fez caminho durante as últimas décadas em Portugal, tornando o partido Comunista uma força política "democrática" e consensual, relegando para o esquecimento o programa, as ideias escritas trimestralmente no O Militante, arrancadas das catacumbas do comunismo mais serôdio e fossilizado e que contradizem plenamente aquele ideário tacticamente exposto para a democracia ver e deixar passar.

Estes factos não têm a menor consequência lógica no pensar comunista, na “ideia” comunista que continua pura e bela como sempre a entenderam: "De igualdade, de fraternidade, de equidade. De trabalho". E os comunistas como Baptista Bastos são os detentores da patente ideológica desta ideia que não cedem a mais ninguém, e muto menos à horrenda Direita que é, naturalmente, o oposto.

Provavelmente, como acreditam piamente nesta patranha com décadas ideológicas em cima e já com a patine necessária para se tornar "ideia-feita", desdenham todos os factos e acontecimentos históricos que a desmentem. E arranjam argumentos sediciosos para conseguirem conviver com a contradição fatal: vão buscar as ditaduras da América latina ou o sistema económico e de saúde americano ( como se os pobres na antiga URSS tivessem a mínima hipótese...) e lá se acomodam às contradições porque subjaz sempre a bela ideia a raiar na imaginação dos amanhãs a cantar. 
Será isto uma loucura? É. Só pode ser porque não tem explicação razoável e racional.

E é isto que se torna terrível. Porque pessoas como Baptista Bastos há-as aos milhares em Portugal e a figura simbólica de tudo isso e do terror comunista, Álvaro Cunhal anda a ser transformado em herói nacional por essas escolas fora. 

Na crónica que o jornal lhe publica, hoje, Baptista Bastos dá exactamente a ideia que se lhe atravancou definitivamente nas meninges que lhe protegem o pensamento fossilizado. Sá Carneiro visto por BB só poderia ser um...fascista. Aliás, como o PCP de Cunhal o classificava em 1979.

Será isto apenas terrível e patético? Não, é perigoso também porque deriva de um sectarismo sem remédio. Mais ainda: o PCP fartou-se de fazer destes "saneamentos" do partido e sempre teve os "controleiros" para zelarem pela ortodoxia dos comportamentos. Logo que saem do Partido, os apóstatas são considerados traidores ( Mário Soares é um deles) e nunca perdoados democraticamente. Que o diga Zita Seabra.

Baptista-Bastos não sabe disso? Então por que se indigna com a expulsão de um militante de um partido que acha de "direita"? Não foi isso, exactamente o que o Partido fez sempre aos seus militantes desalinhados da "linha justa"? E na URSS tal desalinho, nos anos  estalinistas tinha que consequências? Um Tarrafal? Não: a morte. BB não sabe que era assim?



quinta-feira, fevereiro 13, 2014

A História "meme"

A Cofina ( Correio da Manhã e Sábado, entre outras publicações) começou hoje a publicar uma colecção de oito livros de ensaios sobre "os anos de Abril". O volume de hoje versa "o fim do marcelismo" e vale a pena ler o sumário:



Trata-se de um compêndio de História "meme", mais do mesmo de sempre. Não vale a pena ler muito porque a História é contada sempre do mesmo modo de há quarenta anos a esta parte. É o "fascismo" e o "colonialismo" e a "guerra colonial" e ainda "o imperialismo" e o "capital monopolista".

A História dos últimos anos de Caetano é deixada por conta de Fernando Rosas ( está tudo dito) e também de João Bosco Mota-Amaral,  o natural candidato a PR que só o não é por causa de sabe Deus porquê...
Ainda assim o artigo de Mota Amaral destoa apenas um poucochinho da habitual lenga-lenga antifassista dos Rosas&Pereira.

Este tipo de História gannhava muito mais em objectividade se fosse contada por historiadores comunistas, fossilizados, que ainda os haverá por aí a escrevinhar no O Militante.

No fim de contas, a versão histórica que nos é contada sobre o que ocorria antes de 25 de Abril de 1974 e o que se passou depois, já foi contada no Avante. Até antes de 1974. E se o fosse ficaríamos todos mais esclarecidos sobre a perspectiva histórica de quem conta o quê.

A imagem que segue, retirada do primeiro volume, tem uma imagem inserida do Avante, na sua última edição "clandestina". A linguagem, como se pode ler, é a de sempre. "Não dar tréguas ao fascismo". É o motto que pegou de estaca. 


Agora outra coisa mais pessoalizada: há por aí algumas almas sensíveis que fazem o favor de ser das minhas amizades pessoais e que aparentemente se chocam ao ler isto ( a última deve ter a ver com a comparação que faço entre o antigo regime e o actual da democracia que temos e que alguém achou que "era demais").
Pois será mesmo demais, mas explico sempre porque escrevo o que escrevo e neste caso, a comparação é com o nível de corrupção geral entre sistemas- o antes e o depois de 25 de Abril. E parece-me consensual, indiscutível e pacífico que o regime de Salazar e Caetano não tinham uma fracção mínima dos índices de corrupção que agora temos, com os exemplos que por aqui tenho deixado e que só não vê quem não quer.

Por outro lado, a minha perspectiva política, sempre frontalmente contra o comunismo, abertamente primária e fundamentalista ( isto é dar armas a quem não tem argumentos, mas vai assim mesmo)  tem uma explicação e  passo a expor, para quem ainda não percebeu e se interessa por isso:

Sou abertamente anti-comunista como os comunistas o são contra o dito fascismo que não é nada fascismo, mas uma construção conceptual que arranjaram para liquidar de uma palavra só o inimigo ideológico.

A palavra "comunismo" devia ter entre nós, como tem em alguns países, uma conotação idêntica a nazismo ou mesmo fascismo, o verdadeiro, italiano.  Não tem. E não tem porque os comunistas se precaveram em devido tempo contra tal perigo que sabem muito bem estar presente por causa dos horrores que historicamente aconteceram nos países de Leste, superiores provavelmente e em escala aos dos nazis. Só isso deveria bastar para relegar a palavra "comunismo" para o caixote de lixo mais hediondo da História.

E não acredito que haja alguém com coragem, sabendo isto que é um facto histórico, e não pense que deveria ser de outro modo, seguindo a sua própria lógica.

Apesar disto tudo, separo evidentemente as pessoas da ideologia em que acreditam. Assim como não hostilizo pessoalmente um ateu, também não gosto de o fazer a um comunista. Creio sempre que as pessoas podem enganar-se nas suas opções e por isso não são merecedoras de desprezo pessoal que voto à ideologia. E isto que é uma coisa tão simples de entender é por vezes muito difícil de aceitar.
Mais ainda: tendo amigos comunistas "empedernidos" não me parece que os deva distinguir por tal facto e deixar de os ter como amigos. Desde que as discussões não passem de certo nível, até são saudáveis porque obrigam a raciocinar e pensar com lógica, a fim de ultrapassar os dogmas das crenças.

Deste modo a minha insistência em mostrar o que foi o regime de Caetano e Salazar e a minha simpatia pelas personagens e até certo ponto valores, não implica que seja saudosista desse tempo e que não tenha ficado satisfeito com o advento de uma maior Liberdade em 25 de Abril de 1974. O regime de Caetano estava de facto a finar-se e o único modo de se salvar teria sido acabar com a guerra no Ultramar.  Esta é a minha visão da História e julgo que todos ficariam a ganhar se rebobinassem as memórias do tempo e passassem a raciocinar como acontecia antes do 25 de Abril em relação a vários problemas com que nos defrontamos: Educação, Família, Iniciativa Privada, Valores de Honra e Dignidade do país que temos e somos e que as Forças Armadas então representavam. Ironicamente veio daí a raiz do Mal...e é para entender tal coisa que me dedico a estes "recortes" que por aqui aparecem. Mais nada.


Sombras no regime

A propósito do estudo académico sobre os apaniguados do sistema, torna-se importante entender as raízes profundas do mesmo sistema que se mantém inalterado há quase quarenta anos e que fatalmente tem de ser apontado como o causador dos nossos males sociais económicos e morais ( a árvore conhece-se pelos seus frutos, é sabedoria do Evangelho...).
 Para entender as diversas teias de influência política que ao longo dos anos foram tecidas e aguentam sempre o regime, impedindo de facto a sua renovação, há diversos nomes que importa elencar, muito para além do estudo genérico dos apaniguados do sistema que são aos milhares.

Estes nomes são singulares porque se destacaram neste período de tempo "democrático" aproveitando todas as virtualidades que se foram apresentando ao som da evolução política que é de uma continuidade atroz.
Na estrutura do verdadeiro poder em Portugal, aquele que tem influência nas escolhas políticas mais importantes, e as apresenta ao povo para votação, ou seja o sistema político-partidário, confluem diversos e poucos nomes.

Um deles é Vasco Vieira de Almeida, advogado desde 1976.

Já por aqui se escreveu sobre a personagem mas nunca é demais contar estas histórias a quem não sabe e lembrar a quem já se esqueceu.

A história começa logo em 1974, antes mesmo, porque este "esquerdista" começou logo como funcionário superior bancário, com atestado marxista. Conta o Expresso de 17 de Dezembro de 1975


VVA tinha estado preso pela "PIDE", no Aljube, por ter ajudado "antifascistas" e tal valeu-lhe imediatamente um reconhecimento automático de valor democrático, com direito a prebenda: foi ministro em governo provisório, com a legitimidade revolucionária. Portanto, bem marxista.

Em 1974-75 logo no período do PREC em formação, VVA foi enviado especial a Angola para tratar de assuntos da "descolonização" ( tal como Manuel Alegre, aliás).  Em 23 de Agosto de 1975 VVA já sabia o que iria acontecer com a "descolonização exemplar", mas não foi capaz de suster a onda revolucionária e de se opor aos rosas coutinhos, comunistas, esquerdistas de várias cores e tal como Almeida Santos, Mário Soares e outros embarcou na grande nau do descalabro nacional.


E não foi apenas nesse mar que a nau iria naufragar. Tal como dizia ao O Jornal de 16 de Janeiro de 1976, VVA sabia o que iria acontecer ao país dali a pouco: a primeira bancarrota, como nunca tinha acontecido nos quarenta e tal anos antes, com Salazar e Caetano. Sabia mas pouco fez politicamente para travar o descalabro. Em Portugal, nessa altura, quem tinha um olho de visão política e estofo intelectual bastante era rei e VVA conseguiu ser um príncipe que saiu logo da corte, apesar de nunca ter abandonado os demais cortesãos. VVA, tal como Sérvulo Correia, só não foi mais longe na política porque provavelmente não quis e preferiu enriquecer no trabalho jurídico. Nesta pequeníssima nomenklatura do sistema, Rui Machete é o parente pobre. 

Em 1976 fundou a sociedade de advocacia e como bom profissional singrou, deixando já o filho a tomar conta da barca.

Em 2012 deu uma entrevista ao Jornal de Negócios que já foi comentada aqui.

Porém, a actividade da firma de advocacia, uma das maiores de Portugal e de quem José Miguel Júdice dizia ser uma das três consultáveis obrigatoriamente pelo poder político, sempre conduziu o indivíduo para mares encapelados de dúvidas democráticas que foram já analisadas por aqui quanto à ética dos pareceres de que são clientes certos dos governos e por aqui relativamente a assuntos mais obscuros e ainda por dilucidar.

Quem não conhecer esta personagem central do Portugal democrático dos últimos 40 anos não conhece o país. E é o conhecimento do que fizeram pessoas como esta e como se enquadraram democraticamente que se torna essencial estudar para entender melhor com podemos sair do beco onde nos encontramos.
Tal como Camilo Lourenço escreve:  "saiam da frente!"

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

O atestado de óbito do regime: a história dos seus apaniguados.

 
Investigadora da Universidade de Aveiro foi analisar as nomeações feitas entre 1995 e 2009 e conclui que estas são, sobretudo, uma recompensa por serviços prestados.
Uma investigadora da Universidade de Aveiro analisou 10.482 escolhas para dirigentes no Estado entre 1995 e 2009. Por trás delas detectou dois tipos de motivações: o controlo de políticas públicas e a recompensa por serviços prestados anteriormente ou em antecipação aos mesmos.

O estudo, realizado por Patrícia Silva, é divulgado esta quarta-feira, 12 de Fevereiro, pelo Público e pelo Diário de Notícias e as conclusões são transversais a vários Governos, de Cavaco Silva a António Guterres, Durão Barroso e Santana Lopes.

“Os resultados sugerem que, embora as nomeações possam ser usadas para efeitos de controlo de políticas públicas, tende a persistir a utilização das nomeações como uma forma de recompensa por serviços prestados anteriormente ou em antecipação  aos mesmos, esperando-se que a filiação partidária ou o relacionamento pessoal com o ministro sejam centrais neste processo”, escreve a investigadora, citada pelos jornais.

E continua: as escolhas são “utilizadas para cooptar apoio de indivíduos com redes de conhecimento que podem ser relevantes para o partido”.

A investigação ouviu testemunhos de 51 intervenientes no processo de nomeação, desde ministros a dirigentes partidários e todos reconhecem que as pressões são reais, confirmando esta influência partidária.

O estudo “Novos dilemas, velhas soluções? Patronagem e governos partidários” refere que “as motivações de recompensa surgem associadas às posições intermédias e a posições nos gabinetes ministeriais ou nos serviços periféricos da administração pública, bem como a posições menos visíveis, mas igualmente atractivas do ponto de vista financeiro”.

 Este estudo académico sobre as nomeações daquele grupo da meia dúzia de milhares de "boys & girls", na designação infeliz de Guterres ( "no jobs for the boys", foi um motto que lhe permitiu ganhar as eleições de 1995 a um muito desgastado Cavaco Silva)  mostra bem as causas reais do nosso sub-desenvolvimento atávico.
Essa meia dúzia de milhar de apaniguados( a palavra mais adequada) do regime que se revezam e acumulam em lugares do Estado pagos por todos nós,  são a desgraça da administração pública, os causadores das PPP´s, dos BPN´s e das bancarrotas e do nosso atraso endémico. No fim de contas, são esses apaniguados quem controla o Estado, porque os políticos que os nomeiam obedecem à sua lógica porque em tempos o foram também e por isso são pares.

É preciso dizer por isso mesmo claramente: este regime democrático com esta escumalha ( termo usado pelo MRPP) não presta. Melhor era o regime do Estado Novo e do Estado Social de Marcello Caetano porque não assentava nesta miséria moral.
E isso é tão evidente que nem adianta que os "antifassistas" do costume venham por aí  branquear essa escumalha que se alimenta de corrupção como os moscardos do sangue dos seres vivos.

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso