quarta-feira, 21 de agosto de 2019

A ideologia híbrida do director do Público

O editorial do Público do outro dia, acerca da morte de Alexandre Soares dos Santos dá que pensar...

Manuel Carvalho, director do jornal, tem um curso de jornalismo no Cenjor e cursilhos vários. Entrou para o Público em 1989, como estagiário e por lá ficou até ser director. É de esquerda mas escreveu este editorial no outro dia, em que celebra as virtudes de um capitalista português dedicado aos negócios da distribuição alimentar.
Tal como o da mão que lhe dá de comer, na Sonae, o que só pode ser coincidência...

Alexandre Soares dos Santos morreu num tempo em que os exemplos da sua carreira e da sua condição de homem livre fazem mais falta do que nunca. Porque raramente como nos últimos anos se viu tanta amplitude e tanta veemência no discurso contra a iniciativa privada, a criação de riqueza, o lucro ou liberdade empresarial. A devastação da troika, a obsessão com as rendas fáceis, a corrupção e a destruição do pouco valor acumulado pelo capitalismo português podem explicar a mudança da forma como o país vê os seus empresários. É por isso importante dar um passo atrás e lembrar que, para lá dos danos causados pelos outrora donos disto tudo, houve milhares de empresários que ajudaram a salvar o país da crise financeira. Como Alexandre Soares dos Santos.

Visionário, corajoso e arrojado, o homem que transformou a Jerónimo Martins numa multinacional faz parte daquela estirpe de homens de negócios rara em Portugal que privilegia as regras dos mercados em detrimento dos favores políticos. A sua intervenção pública jamais se pautou por qualquer tipo de seguidismo ou reverência para com os poderes. Essa irreverência fez dele um alvo prioritário do discurso de uma certa esquerda que continua a associar o lucro privado a um crime colectivo — os salários dos seus gestores ou a decisão de levar a sede fiscal da holding para a Holanda também ajudaram. O velho Portugal de mão estendida ao poder político não perdoa o sucesso nem estimula a liberdade dos que pensam contra a corrente — mesmo os que pelo mecenato criam instituições com a valia social da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Gente da estirpe de Alexandre Soares dos Santos faz cada vez mais falta porque o país precisa de criar riqueza capaz de alimentar o Estado social e de gerar empregos qualificados. Esse é o grande desígnio nacional que foi subalternizado na legislatura que acaba. Não porque não faça parte programa do PS, mas porque o PS está no que diz respeito ao mundo dos negócios atado pela ortodoxia dos seus parceiros da esquerda. O discurso contra as grandes empresas e os grandes empresários que o Bloco e o PCP alimentam não se instituiu no poder, mas condicionou a acção do Governo. Continuamos por isso a discutir muito a distribuição de riqueza e muito pouco a melhor forma de a criar. Neste contexto, Alexandre Soares dos Santos teve uma história exemplar. Homenageá-lo é uma forma de recusar a cultura de dependência e o miserabilismo que trava a iniciativa privada e impede o país de dar o salto em frente de que tanto precisa.


Acho verdadeiramente extraordinário que um esquerdista notório, que detesta Salazar e todos os que o apoiam, que esportula ideias esquerdistas contrárias às vertidas no editorial, escreva o que escreveu: uma ode a um capitalismo feito de distribuição de produtos alimentares e não só, que marginaliza por vários modos pequenos e médios produtores nacionais de produtos genuínos e que os impede ipso facto e através de condições leoninas de distribuírem e venderem livremente os seus produtos.

Quem quer cerejas de Resende ou da Cova da Beira, na época delas, compra-as à beira da estrada. Quem quer queijos de qualidade, vindos da Serra ou vai ao queijeiro de Contenças, do finório do PS ou procura lá perto. Quem procura amêndoas de Trás-os-Montes e Alto Douro ou do Algarve e doces correspondentes vai aos sítios e às feiras locais. Quem quer azeite "caseiro"  de fábricas artesanais, compra algures. Mas não há disso nos pingos doces e continentes. Aí só "produtores seleccionados" que deixaram o couro e o cabelo nas mãos destes capitalistas que Manuel Carvalho defende...e não tenho qualquer dúvida que se tivesse idade, em 1974, para se pronunciar sobre os verdadeiros capitalistas portugueses dessa época, tê-los-ia rejeitado liminarmente como fizeram os seus patronos ideológicos da época...e de agora.

Incrível!

Sem comentários: