quarta-feira, 7 de agosto de 2019

José Afonso, o prego, a fruteira, o velho capote emprestado e o património cultural imaterial

Um antigo governante de Passos Coelho, Barreto Xavier, apareceu ontem no Público com um artigo curioso:


Barreto Xavier parece que ensina algo no ISCTE sobre assunto que é estranho ao seu curso de Direito ( políticas culturais e "indústrias criativas") . Não sei qual o programa de tais cursos mas suspeito, vindo do ISCTE que será qualquer coisa com travo a esquerda marxista. Só assim se compreende este escrito algo ridículo.

O artigo começa logo com um erro conceptual. José Afonso nunca foi um arauto da liberdade de expressão. Foi apenas o arauto da liberdade de expressão do seu pensamento e ideologia contra aquela que queria censurar e reprimir, a suposta ideologia do capitalismo e da "opressão da burguesia".
José Afonso foi um arauto do chamado "poder popular" o outro nome do esquerdismo comunista de extrema-esquerda, hoje em dia configurado pelo BE, mas no seu tempo espalhado pelas organizações como a LUAR ou o PRP-BR ou mesmo a UDP e FSR.

Ideologicamente José Afonso nunca foi mais que isso, objectivamente: um comunista com todos os tiques do comunismo sectário e repressor. No máximo um libertário utópico, prenhe de ideias falsas, presa fácil das garras do comunismo estalinista e repressor.
Não esteve sozinho nessa luta porque ainda andam por aí os camaradas de percurso: um padre Fanhais, católico que prega o ateismo comunista; um utópico sempre agastado de frustração, José Mário Branco; um apagado e ausente desta miséria intelectual, Fausto e o manhoso Sérgio Godinho, da mesma laia mas disfarçado de democrata.

Tirando isso que é quase tudo na idiossincrasia de José Afonso, o mesmo tinha um talento que se aproximava do génio para compor melodias e arranjar músicas populares em canções.
A sua obra discográfica é notável e memorável, por causa disso.
Não obstante, as letras de tais canções são meros panfletos destinados a convocar força politica para alcançar o tal "poder popular".
Com o tempo e a patine devida, tais letras tornaram-se emblemáticas e algo inócuas  per se, integrando o valor da música que as suporta.
Em tempos escrevi sobre isso e contei esta história deliciosa da contradição de um homem de esquerda: 

José Afonso, segundo os conhecidos da época, entre os anos cinquenta e sessenta, era essencialmente pobre. Necessitado. Carenciado de meios económicos. O pai era juiz, na jurisdição ultramarina e ganharia pouco, porque os magistrados antigamente eram muito mal pagos. Tinham casa de função e eram obrigados a andar com as trouxas às costas, por vezes literalmente, de seis em seis anos. Ainda por cima, o pai de José Afonso foi um pai ausente, eventualmente por necessidade. Esteve em Angola, Moçambique e Timor e os filhos sofreram muito com isso, particularmente José Afonso que cedo despertou para a arte musical.
Nos primeiros anos da década de cinquenta, casou-se com uma costureira de origem humilde e sem meios económicos. Como os dele eram também parcos e sobrevivia ensinando particularmente, em explicações e em trabalhos ocasionais ( revisão de textos num jornal local, de Coimbra), viu-se por diversas vezes em apertos financeiros.
Para completar os dias de alguns meses demasiado longos, o casal obrigou-se a recorrer ao prego, às lojas de penhores.
Como conta um amigo antigo, no documentário, a única peça que o casal tinha com algum valor venal era...uma fruteira, em vidro, com base em latão. Oferecida pelo casamento.
Pois foi essa fruteira que serviu o prego diversas vezes, segundo conta o amigo e que coloriu a narrativa com o pormenor de ambos ficarem a ver, da janela de casa, a mulher de José Afonso, grávida, com a peça vidrada, embrulhada a caminho do prego. Então comentava para o amigo, em tom jocoso que se calhar era melhor ser ele a lidar com tal tarefa para o ouvir dizer que não tinha jeito para essas coisas.

Outra pequena história sobre José Afonso foi contada noutro local e revela o mesmo género de desprendimento das coisas materiais. Um dia, no final dos sessenta ou já nos setenta, José Afonso ia cantar à Holanda e precisava de roupa quente. Como não tinha sobretudo, pediu um emprestado a...Manuel Alegre. Porque lhe tinham dito que por lá fazia frio. Este cedeu-lhe o melhor que tinha para o ver pouco tempo depois do regresso. Ao ver o estado lastimoso do seu agasalho emprestado parece que terá comentado que o capote parecia ter andado na guerra do 14...
São estes pequenos pormenores, para além de outros, pessoais, da vida de José Afonso que contrastam com a retórica ideológica de firmeza de princípios contra a "burguesia", o "grande capital", a "luta armada" e o "poder popular" e outros refrões cantados e proclamados em entrevistas que ajudaram a formar toda uma esquerda portuguesa que o admira e propõe como símbolo de uma "luta de classes" que ainda não esqueceram e cuja actividade artística assume apenas o fenómeno lateral de uma circunstância.


José Afonso enquanto artista de músicas e canções publicou essencialmente isto ( há outros discos  que não me interessam tanto- Fura-Fura, de 1979; Como se fora seu filho, de 1983 e Galinhas do Mato, de 1985). Estes são os imprescindíveis, faltando ainda um dos primeiros LP´s, de 1969, Contos Velhos, Rumos Novos:


Está aí tudo o que é importante, musicalmente, na obra discográfica de José Afonso e é muito. Ao longo de todos esses discos que nem chegam à dúzia, tem várias pequenas composições simplesmente geniais, na música popular e ao nível de qualquer compositor de âmbito mundial.
Uma boa parte das gravações anteriores a 25 de Abril de 1974- até ao disco Venham mais cinco- foram captadas  no estrangeiro, em França, Inglaterra e Espanha embora a editora do artista fosse portuguesa e do Porto, a Orfeu.

Esta editora Orfeu foi muito importante nos anos sessenta, para a música popular portuguesa, publicando obras musicais dos artistas nacionais em voga e com muitos discos do repertório do folclore dessa época e respectivos grupos populares até à raiz do amadorismo de aldeia.
Falta um estudo aturado desse acervo e do trabalho dessa editora de Arnaldo Trindade. Um estudo que gostaria imenso de fazer se tivesse ocasião para isso.

Tal editora foi um dos pontos de simbiose entre o tradicionalismo da música popular e a inovação dos cantores de intervenção de finais dos anos sessenta, como era o caso de José Afonso.

Se há instituição que mereça efectivamente um galardão de mérito cultural e um apoio a tal património é a Orfeu, com o seu proprietário e mentor, Arnaldo Trindade. Mais que José Afonso. Sem Arnaldo Trindade e a sua apetência pelo lucro capitalista não existiria a obra de José Afonso tal como se conhece, o que não deixa de ser uma ironia.

Esta foto da revista Mundo Moderno, nº 26 de 15 de Dezembro de 1969 mostra um José Afonso em convívio mundano com o referido Arnaldo Trindade, por ocasião de um evento em Ofir ( que também deu nome a etiquetas de discos single e ep publicados por Arnaldo Trindade), Esposende, no final desse ano. 


A obra musical de José Afonso tem um contorno específico que demarca a intenção panfletária do artista em proclamar uma mensagem comunista. Quase todas as letras dos discos publicados durante o PREC, de 1974 a 1977, contém mensagens explícitas ao incitamento revolucionário para instauração do poder popular.
Tal utopia expressa em canções serve ainda hoje de banda sonora à extrema-esquerda comunista do Bloco de Esquerda para anunciar comícios ou sessões de propaganda.
Tal mensagem é indissociável da obra do artista e condiciona o seu valor artístico, tal como a de um Pete Seeger.
Porém, no caso de José Afonso a melodia, harmonia e composição global das suas canções, incluindo naturalmente a voz de timbre agradável do cantor, conferem-lhe um valor sobreposto a tal mensagem.

Assim e precisamente por isso a obra do artista resume-se ao que gravou e fixou em disco. Não há mais nada de José Afonso para além disso que mereça ser preservado como património. A não ser aquela historieta da fruteira ou do capote do camarada Alegre, esfarrapado na guerra dos cantos livres.

A vida de José Afonso é um marasmo de inconsequências e só a obra artística lhe sobrevive. A mensagem ideológica de José Afonso é uma miséria intelectual e uma desgraça trágica que o mundo presenciou e testemunhou.
A sua  obra artística foi gravada em fita magnética, em master original que serviu depois para prensar os discos de vinilo e posteriormente os cd´s que entretanto se esgotaram no mercado.

Para reeditar tais discos, mesmo em cd, com a qualidade exigível pelo mercado, faltam os tais "master". as fitas magnéticas originalmente gravadas nos estúdios e passadas de mão em mão aos sucessivos proprietários dos respectivos direitos.

Parece que por último acabaram nas mãos dos gestores de uma tal Movieplay, apanhada na voragem da crise discográfica e entrada na falência no tempo em que ainda nem se chamava insolvência.
Não é caso único. Outro grupo seminal da música popular em Portugal, a Banda do Casaco dos grandes António Pinho e Nuno Rodrigues também  tem um disco perdido nessa voragem, chamado Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos, publicado em 1977 pela extinta editora Imavox, SARL, cujos "masters" se perderam na mesma trapalhada de gestores de insolvência e de acervo de activos desencontrados. Alguém os terá, pela certa.

Nestes casos torna-se essencial efectuar o habitual trabalho de sapa: ir aos processos de falência/insolvência, depositados nos tribunais de comércio e procurar saber quais os activos reunidos na massa falida e por quem. Falar com os responsáveis, os tais administradores de insolvência e tentar recolher elementos sobre o assunto. Estou certo que esta tarefa relativamente simples resultaria em algo mais que o habitual "não se sabe o que aconteceu". Há sempre quem saiba...

Neste contexto, defender a classificação da obra discográfica de José Afonso como "património imaterial" é apenas estulto, para obrigar o Estado a custear despesas relacionadas com a recuperação dos "masters" eventualmente perdidos no vórtice de insolvências e depositados algures em lugar ignoto.

Para além do património cultural de José Afonso, reduzido a uma obra discográfica fixada em fita magnética, há outras obras cuja preservação é muito menos custosa e difícil e que ninguém está interessado em classificar como tal.

Por exemplo esta:


A nível estritamente cultural a obra escrita de Salazar, para não dizer mais, tem muito mais interesse e valor do que o património cultural de José Afonso.

Porém, estes livros acima mostrados, tendo sido reeditados em 2016, num único volume pela Coimbra Editora , não merecem o mesmo desvelo que a obra discográfica de um cantor de protesto comunista...

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Mais do mesmo de há 48 anos.