Porque é que isto acontece ciclicamente e com o PS como protagonista de sempre? Provavelmente por causa de um fenómeno que em 1988, num livro então publicado pela Europa-América se chamou Inumerismo, ou " o analfabetismo matemático e as suas consequências".
As três primeiras páginas explicavam o livro:
Em resumo, o horror às regiscontas provém daqueles que sempre tiveram dificuldade em fazer contas. É um reflexo de defesa patético e perigoso que espelha um complexo de inferioridade, ultrapassado pela sobrevalorização de uma certa "cultura" livresca e dispensável na maior parte dos casos.
E...no tempo de Salazar/Caetano estávamos melhor, relativamente? Tendo e pensar que sim, perante as perspectivas que então tínhamos, mesmo sem Ultramar e apenas com as nossas empresas que na época eram prósperas e geridas com "alta qualidade".
O país de então era muito mais pobre do que hoje, mas a riqueza de hoje é supérflua em muitos casos e tipicamente de "novo-rico" o que provoca a inquietação da instabilidade e insegurança do status quo. Muita da prosperidade actual parece oca e sem base de sustentação, como o excesso de auto-estradas, por exemplo.
Antes de 25 de Abril de 1974 a construção de auto-estradas era um projecto ambicioso que se iria fatalmente desenvolver, mesmo sem o assistencialismo da CEE ou de fundos estruturais europeus.
Assim o relata o Observador ( the real thing) de29.5.1971, em pleno marcelismo:
De notar o modo coerente, lógico e compreensível para o senso comum, como se planeavam estas coisas de se pensava executar.
Na época Observador, 9 de Novembro de 1973) Portugal tinha mais engenheiros do que a Espanha...
E a evolução mostrava-se em anúncios, assim, a carros populares, neste caso franceses e italianos:
Ou os carros japoneses, num anúncio de globalização avant la lettre ( Século Ilustrado 9.5.1973).
E também a um fenómeno de costumes importados: o uso do chiclete ( Século Ilustrado, 26.12.1970)...
Começava a dar-se atenção à formação profissional nas empresas de um modo que hoje duvido que aconteça com a mesma coerência e qualidade, como mostram estas imagens do Observador de 5.11.1971.
No entanto, o discurso do Humanismo versus tecnocracia colocava-se num registo parecido ao actual...como mostra este artigo de 9.11.1973
Quanto à tal cultura livresca, também não ficou para trás, com um fenómeno inesperado, advindo do lançamento em 1970 de uma série de 100 livros, a um ritmo semanal...e cuja história já foi contada aqui:
Em 1970, em colaboração com a RTP, a Editorial Verbo lança a Biblioteca Básica Verbo – Livros RTP , uma colecção de livros de bolso. A ideia surge de uma experiência idêntica que se havia realizado, com grande sucesso, em Espanha, com a televisão espanhola e uma editora madrilena.
O então Presidente da Direcção da RTP, depois de uma viagem a Espanha, vem muito entusiasmado com a ideia e é dirigido um convite à Verbo para ser a editora portuguesa a participar neste projecto.
Tratava-se de uma acção completamente inovadora no mercado português, da qual jamais, na altura, se teve noção da dimensão que o empreendimento iria tomar e na qual todos os detalhes foram cuidadosamente trabalhados. Foram estudados incansavelmente cada um dos 100 títulos a incluir; a periodicidade, acabando por se optar pela semanal; o papel a utilizar nos livros; a cartolina das capas; o tipo de letra; o formato do livro; o grafismo das capas (da autoria de Sebastião Rodrigues, o pai do design gráfico português) e a distribuição.
Também na distribuição este projecto se revelou extremamente inovador. Montou-se uma rede de distribuição inédita, com 3500 pontos de venda (note-se que então o número de livrarias registadas não ultrapassava o 600), para o abastecimento dos quais a Editorial Verbo teve que reforçar a sua frota de transporte com oito novos furgões.