domingo, outubro 30, 2016

Os funcionários públicos e o tempo que gastam a escrever em blogs...



Rui Pereira, agora komentador de serviço permanente na CMTV, em horário nocturno, aliás com grande mérito porque sabe do que fala, teceu ontem um comentário fugidio acerca dos bloggers e do tempo que gastam na ocupação.
O tema  do assunto era o famigerado Abrantes que Rui Pereira conhece sob o apelido de Peixoto, com quem falou algumas vezes, quando o mesmo seria assessor algures num ministério do tempo do primeiro governo de Sócrates. Aí, por 2006-2007, referiu Rui Pereira, quando andava em trabalhos preparatórios para a revisão das leis penais que saíram depois, em consequência directa do terramoto do caso Casa Pia.
Como se sabe, Rui Pereira foi um dos artífices silenciosos da manobra  engendrada para prevenir ocorrências futuras com tão elevado grau de magnitude política. Uma das medidas avulsas consistiu em proteger o primeiro-ministro de escutas espúrias por polícias a mando do MºPº e JIC de primeira instância. Ficou tudo entregue aos cuidados do STJ que é pessoa colectiva de bem e distinta dos flibusteiros  que não respeitam nada nem ninguém. Enfim, adiante.
O comentário em causa referiu-se com a brevidade suficiente e a imponderação necessária ao tempo que as pessoas que escrevem em blogs gastam nessa tarefa.
Subliminarmente entende-se que quem trabalha, mormente os funcionários públicos não devem ocupar o seu tempo de trabalho a escrever nessa coisa que como dizia o saudoso Pinto Monteiro…”é uma vergonha”. Nada que se pareça com almoços regulares com advogados de prestígio que defendem entalados de  prestígio ainda mais relevante e que o MºPº anda a investigar. Ou outras ocupações mais dignas que essa e teria uma miríade de exemplos que me escuso a elencar.  Enfim, outra vez e já são duas.
É recorrente ouvir essa farpa agarrada a súbita  incompreensão de quem não escreve e apenas lê,  para quem escreve e ocupa tempo precioso a fazê-lo na tal “vergonha” que é a internet dos blogs e afins. O tempo de leitura é um tempo diverso do da escrita e este é mais pernicioso que aquele destinado ao escrutínio do tempo de quem escreve.

Subentende outra coisa mais propícia à crítica de inspector: o tempo de funcionário público não é para desperdiçar em coisas privadas ou, pior, publicamente inadmissíveis por implicar um roubo de tempo à função e ao múnus. É um peculato mental o que se imputa ao funcionário faltoso. Rouba tempo precioso à função para o gastar em ocupações estranhas e até nocivas à reputação do funcionário ideal, modelo de destino em geringonça afinada.

Rui Pereira não é pessoa destituída e deveria, tal como outros, falar por si. Não seria capaz de escrever com a frequência diária de vários postais, em blogs? E fazê-lo sem ser a horas mortas, de noite ou em noitadas de insónia, e portanto  sem roubar tempo ao horário de trabalho efectivo?  Pois será pena essa confissão de impotência. Poderia sempre experimentar a hora de almoço, depois de uma sandes rápida e ainda a sujar o teclado com molho de tomates.

Quem escreve em blogs fá-lo-á por diversos motivos. Cada um deve outra vez voltar a falar por si. De Rui Pereira sabemos agora que conhecia um dos Abrantes da Câmara Corporativa. Falou com ele meia dúzia de vezes, foi-lhe apresentado por um advogado e trabalhava perto de si, num local conveniente num ministério qualquer da Administração Pública. Nem se lembrava bem do nome ( caramba, 60 anos e já assim?!) e enfim, nem sabia que alguém lhe pagava um ordenado igual ao que auferiria em funções públicas para fazer o trabalho de sabujo habitual. Sobre este desconfio que Rui Pereira sabia porque confessadamente era leitor de blogs, dos tais que o mesmo não compreende como é que os autores arranjam tempo para escrever. No caso, nem era a feijões...mas na maioria é apenas isso. Um hobby como outro qualquer. Há quem prefira outros, como olhar bovinamente para o tempo a passar.
Olhe, Rui Pereira: até aqui demorei meia hora a escrever isto, cronometrado e incluindo o fazer o café para o pequeno almoço.E tomá-lo, quase frio, acompanhando uma maçã quase portadaloja ( royal gala de Alcobaça).
A seguir só me resta dizer o seguinte: os funcionários públicos são em Portugal muitos e muito por causa dos amigos políticos de Rui Pereira. Reduzindo e restringindo aos juristas da função pública, incluindo os magistrados, o seu tempo de trabalho pode ocupar-se de formas diversas.
Alguns nem horário fixo têm porque até trabalham em casa ( magistrados de tribunais superiores por exemplo). Esses gerem o tempo como sabem e podem. Consta que alguns, muito mal.
Os professores universitários da área jurídica também é um pouco assim: fazem do seu tempo o que verdadeiramente querem. E assim estará bem se assim for, sem prejuízo para ninguém. E ainda podem trabalhar em horário nocturno, pago principescamente como tal.
Então para quê chagar subliminarmente pessoas que gerem o seu tempo de modo que sabem e podem, sem prejuízo para o erário público ou a respectiva função?
Depois de passar uma noite a pensar nisto cheguei a uma simples conclusão: pura hipocrisia ou puro despeito. Ou outra ainda, que remete para uma das últimas palavras dos Lusíadas.  Nada recomendável, qualquer uma das opções.
Sete minutos mais foi o tempo que isto durou.
Enfim, pela última vez.

Questuber! Mais um escândalo!