sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A invasão de Praga foi há 50 anos e o PCP apoiou

Passou no dia 21 deste mês a efeméride do cinquentenário da invasão da Checoslováquia e Praga pelos carros de assalto militar, soviéticos. Foi um acto de força do regime soviético a fim de mostrar o que sucederia se os checos continuassem a tentar abrir o regime para uma sociedade um pouco mais livre, sem censura e maior liberdade política. Os russos não permitiram tal veleidade que punha em causa a coerência do sistema soviético de domínio nos países de Leste.

Em Portugal, na mesma época existia Censura e limitação de liberdades políticas, aos comunistas de então. Precisamente ao contrário do que sucedia na Checoslováquia. Não obstante, o PCP apoiou a invasão e sufragou os motivos da União Soviética para tal. Alguém denunciou em Portugal, na época, o que o PCP fez e o seu significado? Não. O PCP era um partido legalmente inexistente...

O que se passou então serviu aos media, jornais e revistas para tecer considerações que contrastavam imediatamente com o que acontecia por cá. Ao escreverem sobre as atitudes dos checos na reivindicação de maiores liberdades políticas e suavização da Censura estavam implicitamente a dar ideias a quem por cá sentia os mesmos efeitos, ao contrário...e com a mesma justificação: segurança do regime e do sistema.
Por isso mesmo a discussão mediática era enviezada e com aspectos surreiais em alguns casos. Escrever sobre limitações de liberdade de expressão e associação política num país em que tal também sucedia e apelando implicitamente à superioridade de um regime democrático onde ele também não existia, convocava o óbvio...

Havia uma diferença, porém, e de tomo: a Censura e limitação de outras liberdades ditas democráticas, por cá, era menor e de eficácia mais reduzida do que nos países de Leste. Daí que se torne cómico e igualmente surreal a luta política revolucionária que o PCP então engendrava: afinal queria um regime muito pior do que aquele que existia em Portugal. E o caso da Checoslováquia, tal como o da Hungria, em 1956, comprovavam-no. E tal não podia ser dito nem escrito, então, em Portugal, mas podia ser proclamado em França, Itália e outros países.

Também por isso se torna incompreensível que uma juventude universitária que então apareceu na clandestinidade revolucionária tenha optado por uma ideologia comunista, de pendor maoista e cujos resultados práticos conduziria a ditaduras muito mais duras e mortíferas do que aquela que então existia em Portugal e que os mesmos denunciavam. ~
O contra-senso que tal implica sempre me impressionou, tal como impressiona a cara de pau de todos eles, agora, quando falam sobre o assunto. É como se fosse um devaneio de juventude...mas continuam a vituperar o regime que então combatiam, como se ainda fosse a época de o fazerem e talvez pelos mesmíssimos motivos, ocultos e insondáveis.



Sobre o modo como a imprensa portuguesa da época olhou para o caso, já escrevi aqui em tempos.

A principal revista que dedicou capa e páginas ao assunto foi a Vida Mundial.

A  edição de 30 de Agosto de 1968, escassos dias passados, era suficientemente categórica na mensagem:


Passados dois anos, na edição de 21 de Agosto de 1970, a mesma revista publicou 40 páginas sobre o assunto e assinadas por um enviado especial. A menção a "Primavera" descodificava o texto subjacente e o inter-texto, porque também por cá tínhamos vivido uma efémera "primavera" que a guerra no Ultramar não deixou prosseguir por muito tempo.

Sobre o PCP nem uma palavra. Estranho, claro.


Lá fora, as imagens da invasão dos carros soviéticos em Praga eram mais significativas e coerentes. Em Itália e França, tais acontecimentos deverão ter surtido um efeito diverso nos partidos comunistas desses países. Tanto o PCI como o PCF amoleceram o estalinismo latente e tornaram-se em poucos anos partidos mais próximos da social-democracia o que levou eventualmente ao seu desaparecimento. As ideias já tinham dono...

O Diário de Lisboa da época, dava estas notícias e nem isto serviu para o seu director A. Ruella Ramos ter inflectido de direcção ideológica meia dúzia de anos mais tarde. Não aprendeu qualquer lição. O jornal e principalmente outro rebento da mesma cepa- o Sempre Fixe- tornaram-se após o 25 de Abril de 1974 os mais sectários órgãos de informação ao serviço do comunismo e do PCP.

Tal servirá para demonstrar que a liberdade de expressão e de imprensa seria um modo muito relativo de assegurar a liberdade política. Quem era sectário e comunista em 1968 não o deixou de ser por causa da Checoslováquia e em 1974 viu-se a demonstração, em Portugal. Por outro lado, as armas ideológicas que o povo em geral teria para se defender desses sectários seriam mais eficazes e determinantes, como foram noutros países. Só  assim se explica o que continua a ser o PCP em Portugal e porque é que os antigos maoistas e esquerdista em geral, radicais livres, continuam a ter o livre curso nas ideias peregrinas que continuam a propalar, mormente sobre o regime anterior e a influenciar a política e a cultura em Portugal. O sustentáculo do actual regime são eles:


Em Itália ( todas as imagens são tiradas da internet e sem origem conhecida):



Em França





Resta uma pergunta: porque é que no passado dia 21 de Agosto, data da efeméride, o acontecimento foi muito pouco noticiado e nem sequer menções de relevo se puderam ler nos jornais de "referência"?

É um mistério em que o jornalismo português é fértil e julgo que tem a mesma explicação dos outros: os jornalistas não conhecem esta realidade porque não a aprenderam nas madrassas habituais dos cursos de relações internacionais e "comunicação social". Como a cultura de que dispõem é assim infusa, não têm sequer a noção disso.

Quanto aos directores dos jornais e afins que educaram esta classe jornalística que temos, a tal explicação pode acrescer outra: eram dos que apoiaram a invasão nessa altura e agora não estão dispostos a lembrar coisas tristes.

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