sábado, 25 de agosto de 2018

Alfarrabistas

Há alguns anos, em Lisboa e no Porto dei por mim a reparar nas lojas de livros usados e antigos. A entrar, folhear e encontrar por vezes  livros que já tinha visto muitos anos antes e outros que nem sabia da sua existência.
Quando comecei a interessar-me pela temática à volta de Salazar e o Estado Novo quase nem existia material bibliográfico disponível. Os primeiros livros, contemporâneos, sobre Salazar apareceram há menos de vinte anos. O livro Máscaras de Salazar de Fernando Dacosta apareceu em 1997 e conta já com várias edições ( para aí umas vinte).

Antes disso existiam  as memórias de Marcello Caetano sobre Salazar bem como a biografia de Franco Nogueira, em seis volumes, saídos em 1977. São obras fundamentais sobre a figura  e difíceis de encontrar senão em alfarrabistas.  Os discursos de Salazar, também em seis volumes, esses ainda são mais raros de encontrar.

Para arranjar obras sobre a temática os alfarrabistas tornaram-se locais imprescindíveis. Em Lisboa há pelo menos dois que vale a pena frequentar. Um na Calçada do Combro ( Letra1) e outro do Largo do Chiado ( antiga Livraria Sá da Costa). Há ainda um outro nas Escadinhas do Duque e outro ainda ali perto, quem sobe para o Largo do Carmo.
No Porto há vários na zona que vai dos Aliados à Praça Carlos Alberto.

Só no ano passado consegui arranjar os seis volumes e foi neste alfarrabista de Coimbra, agora estabelecido na Figueira da Foz e que hoje conta as suas mágoas ao Público. Foi a ele também que comprei a colecção completa e encadernada da revista Observador cujo primeiro número saído em Fevereiro de 1971 tinha comprado na época. A revista constitui a melhor fonte de informação acerca do que era a vida em Portugal nos anos imediatamente anteriores ao 25 de Abril de 1974. Sendo uma revista notoriamente apoiante do regime de Marcello Caetano, dava também os sinais que a chamada "Primavera Marcelista" deu: maior liberdade, maior cosmopolitismo e ao mesmo tempo procura de soluções económicas e culturais para um país que tinha ainda as guerras em África e o problema do Ultramar para resolver. E tudo dentro do quadro da legalidade vigente e sem concessões ao comunismo e socialismo que minavam o regime na clandestinidade:


Este alfarrabista de Coimbra que se mudou para a Figueira da Foz diz uma coisa interessante sobre a "cidade do conhecimento", como diz a pancarta à beira da auto-estrada poucos quilómetros antes da viragem para a cidade e para quem vem do Sul: "Coimbra tem mais de 1700 docentes universitários. Contava pelos dedos de duas mãos os académicos que iam à minha livraria e pelos dedos de uma os que realmente compravam"....

Tal significa um ou duas coisas: que os tais académicos ganham pouco e não podem gastar em livros velhos e que muitos deles, ainda por cima são os chamados doutores da mula ruça...

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