segunda-feira, novembro 22, 2021

As reedições dos discos Orfeu de Zeca Afonso começaram mal

 Há uns meses foi notícia o interesse de algumas pessoas da família de José Afonso em reeditar o catálogo musical de 11 álbuns do artista, gravados entre 1968 e 1981 para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. As vicissitudes do negócio, em 1983, tinham  deixado tal catálogo Orfeu ao cuidado de outra editora, a Movieplay, de um tal José Serafim que se tinha tornado sócio daquele enquanto detentor de lojas de discos ( uma na Rua do Carmo, em Lisboa) e fábrica, para além de estúdios. 

Esta Movieplay portuguesa faliu e entre os seus "activos" encontrava-se o acervo original das gravações em fita, os "masters" que serviriam para reeditar com a máxima qualidade possível, as obras em disco do cantor e poeta. Sobre os méritos deste já escrevi em tempos algo que me parece definitivo, sobre o "prego e a fruteira" e nada mais tenho a acrescentar de relevante, para além do que vai no final.   

Quanto à reedição da obra do artista devo dizer que é algo difícil traçar o percurso exacto desde a publicação das edições originais dos discos, em lp, saídos entre o final dos anos sessenta até meados dos oitenta, passando pelas reedições dos lp´s. algumas delas a cargo de editoras marginais e as reedições em formato cd, ocorridas em 1987, 1996 e 2012.  Desde logo porque a informação é escassa e nem sequer o sítio oficial dedicado ao artista é fonte segura desse tipo de informação. 

Aliás o assunto destas reedições já é conturbado e embrulhado em querelas sobre os direitos de autor e talvez tal explique a estranha e manifesta escassez de informações nos discos respectivos que se teme venha a repetir-se na reedições que se seguirão, incluindo as do formato em lp. 

O projecto destas reedições assume assim um carácter pouco transparente e nem sequer as declarações do responsável pela nova editora- Lusitanian music, dedicada a obras de calibre completamente oposto e bizarro- esclarecem seja o que for, mormente o modo como se fez o trabalho de digitalização para produção dos cd´s e novos vinis. Nem sequer publicitam os discos na secção dos "news"...

O Discogs traça um roteiro interessante e informativo acerca das edições originais e sucessivas reedições, que não foram muitas, aliás. 

Assim, em 12 de Junho do ano passado o jornal i anunciava uma intenção para o "projecto" agora em curso, da reedição da obra discográfica, em cd e lp, ou seja em formato digital e analógico e também noticiava os desenvolvimentos do processo de classificação como sendo de interesse público e portanto "governamental" de tal obra de José Afonso. O processo de classificação parou no tempo, como é habitual nestas coisas que metem governos. E talvez afinal haja razões para isso, atendendo a que os interesses da Associação José Afonso não são necessariamente os mesmos de alguns membros da família do artista. 

Portanto há actualmente em curso uma "guerra" acerca dos direitos ( e rendimentos respectivos) atinentes a tal obra e o habitual non sequitur da entidade governamental, no caso o ministério da Cultura. O "processo está parado"





Para se perceber melhor como isto sucedeu, vale a pena ler a entrevista de Arnaldo Trindade à mesma edição do i em que explica em tom diplomático o habitual em Portugal...



 No artigo dava-se conta de um problema de monta: o paradeiro das fitas originais dos "masters" era desconhecido, depois da falência da Movieplay portuguesa. E o projecto tinha em vista recuperar a discografia através dos registos existentes em colecções privadas, mormente os discos propriamente ditos...em cd e lp. Como? Certamente em suporte digital, através de conversão informática, mas nada foi explicado quanto ao procedimento. 

O mesmo tinha acontecido há uns anos atrás com o disco da Banda do Casaco, Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos, publicado originalmente em 1977 na editora Imavox, cuja falência e desaparecimento dos masters originais impossibilitaram a reedição por essa via e obrigou a recuperação do som do vinilo directamente para o formato digital, o que alias aconteceu em 2006 através do empenho dos seus autores ( Nuno Rodrigues e António Pinho) e colaboração pericial do engenheiro de som José Fortes. Neste caso, pelo menos tal intervenção pautou-se pelo cuidado dos autores que explicaram na edição do cd, em 2006 o que fizeram e como fizeram. Ou seja, que na impossibilidade de gravarem o novo "master" para a reedição a partir do original tiveram que gravar a partir de um simples disco de vinilo, com as limitações que tal implica. Uma delas, notória é a inversão dos canais de reprodução dos sons: no disco em vinilo o que aparece a soar à esquerda, como o do instrumento inicial, surge a soar à direita no cd e sem vantagem aparente. O mesmo se diga da gravação em geral, mais cansativa no cd do que no vinilo original porque geralmente com volume sonoro mais "puxado", mais estridente,  o que é defeito geral deste tipo de medium e gravações respectivas ( o mesmo acontece com as reedições recentes dos discos dos Beatles). No caso do disco da Banda do Casaco, no primeiro tema, Acalanto, logo que surgem as vozes em coro e os pífaros mais a percussão e cordas em uníssono, o equilíbrio é mais perfeito, detalhado  e audível no vinil do que no cd. Mais repousante e tranquilo. Em suma, melhor. 

Nas actuais reedições da obra de Zeca Afonso, no entanto, a audição do exemplo que é possível e disponível online, no caso o primeiro tema do primeiro disco, Natal dos Simples, a comparação é mais subtil. Na versão em vinil, original, comparando a versão digital, o tema em causa aparece bem equilibrado, sem troca de canais ou degradação sonora evidente. O único defeito que lhe aponto é aquele já indicado: o som geral é mais "puxado" no ficheiro digital, mais projectado ao ouvido de quem escuta do que o vinil, mais relaxado e mais repousante a meu ver e até mais definido. De resto é pormenor a que só alguns darão importância, como é o meu caso particular. Tirando isso, a gravação parece-me excelente, mesmo em formato digital necessariamente comprimido na resolução, pelo meio usado ( computador, internet e portanto com o som a sair a uma resolução aparentemente baixa, inferior à de um cd). O mesmo se passa no tema O Cavaleiro e o Anjo, igualmente excelente na nova gravação digital, para alguns superior ao do vinil original. 

Veremos como será o caso do disco Traz Outro Amigo também que sairá em vinil e cd no próximo dia 26 de Novembro e aí poderá comparar-se a qualidade sonora do vinil original de 1970 com aquela do vinilo agora republicado. 

Quanto ao resto, ou seja à apresentação dos artefactos, vendo pelos dois cd´s já publicados, dos primeiros discos, há uma ausência completa de informação acerca do modo como foram produzidos.  Os cd´s pouco mais têm que o objecto em si e a capa, com a indicação de terem sido "masterizados" no estrangeiro por um tal Florian Siller. 

A editora Movieplay tinha publicado logo em 1987, com o advento e desenvolvimento do formato cd, a discografia do artista, com um pormenor: as capas dos dois primeiros discos- Cantares do Andarilho e Contos Velhos Rumos Novos- foram modificadas relativamente às originais que apareceram em 1968 e 1969, respectivamente e tal como se pode ver na imagem acima. 

Não se conhece reedição em formato de lp, dos discos, pela Movieplay portuguesa, sendo que os lp´s que apareceram depois dos originais foram em alguns casos publicados pela editora Riso e Ritmo e num caso, o Cantigas do Maio, pela Círculo de Leitores, aliás a prensagem que tenho de tal disco. 

A Movieplay reeditou tal obra discográfica em 1987e cerca de dez anos depois, em 1996, sempre em formato cd. 

Assim, as capas originais dos dois primeiros lp´s em causa, publicados em 1968 e 1969,  são estas. tal como mostrado aqui:




As capas agora publicadas em reedição, desses dois primeiros discos não são por isso as originais mas as correspondentes às reedições da Movieplay, em cd, de 1987 e também no caso do segundo disco, em lp, publicado em data incerta algures no final dos anos setenta, início dos oitenta, pela Orfeu, eventualmente já com intervenção do tal José Serafim, associado de Arnaldo Trindade até a etiqueta Movieplay dar o estouro da falência, acarretando consigo a Orfeu de tão boa memória e espólio fantástico. 
Esta é a capa do lp então reeditado e a do cd actual é idêntica e da autoria de artista differente do que organizou a capa original. A original é da autoria de Fernando Aroso e a que agora se mostra em reedição é da autoria de José Santa-Bárbara. Confesso que não sei qual aprecio mais, mas a original é sempre a original, mesmo em fotografia. 


É por isso que este artigo no Público de 29.10.2021 a assinalar estas reedições peca por grande defeito ao não evidenciar estes pormenores que são essenciais, a meu ver.

Esta reedição da obra de José Afonso não só não é "definitiva" como nem sequer reproduz os originais, ao contrário do afirmado no artigo. E quanto ao som não se explica como foi obtido o som digital que se pode ouvir nos aliás excelentes exemplos apresentados. 

Será mesmo uma cópia digital e melhorada, já dos anos de 2012, altura em que se efectuaram reedições cuidadas das obras em causa? 

Dei-me ao cuidado de comparar o som do primeiro tema do disco Traz Outro Amigo Também, escutando e gravando o do vinil original de 1970, gravado em Londres, na Pye Records e cujo disco que possuo tem estampado no rótulo, "made in England", original,  portanto diverso da versão prensada em vinil, na Rádio Triunfo, estampada como "made in Portugal",  em 1973, eventualmente retocada. 

Ouvi e gravei a versão em cd de 1996, da Movieplay, apresentada numa caixinha de cartão com um livrinho catita no qual se explicam algumas coisas menos os pormenores da reedição. E ouvi também e gravei, comparando, a de 2012, da Orfeu, retocada novamente por António Pinheiro da Silva, que é autor da "masterização" para o cd, em "24 bits" e provinda dos "masters originais" o que provará que nessa altura ainda existiam e aliás foi reedição patrocinada pela RTP-Antena1. 

O resultado? Simples: o som do vinilo original conserva todas aqueles características acima apontadas: mais relaxado, tranquilo, eventualmente melhor definido e preferível a meu ver, ao som mais empurrado para os ouvidos, de ambos os cd´s. Quanto à "masterização" de 2012, eleva o som um pouco mais no patamar da qualidade digital, mas não suplanta o lp, a meu ver.  



  Assim, não espero para ouvir a versão agora publicada, em vinil e cd, porque suspeito que a conclusão irá ser a mesma: o original é  sempre preferível, embora as actuais versões sejam excelentes e adequadas a quem queira ouvir os discos intemporais de Zeca Afonso, mesmo com todos os caveat já aqui apontados na história da fruteira empenhada e na pobre transportadora que a carregava, a vários títulos. 

Para se complementar algo sobre a personalidade de José Afonso e o que representou para a música popular portuguesa vale a pena ler uma entrevista que o mesmo proporcionou a repórteres da revista Cinéfilo, tirada daqui, no contexto de um concerto realizado em 1973 e publicada no dia em que saiu o disco Venham mais cinco, ou seja em 22 de Novembro de 1973. Faz hoje 48 anos. Tantos como durou o fassismo...ahahah.









Os temas conversados, as ideias sobre a linguagem e costumes tradicionais, o gosto musical etc. etc. são absolutamente extraordinários e revelam alguém que pensava fora da caixa do comunismo e que ao mesmo tempo vivia na ilusão do "poder popular", o que aliás não resulta na entrevista porque na época ainda não estava na "ordem do dia". Só dali a meia dúzia de meses...

Num livro de Joaquim Vieira sobre a figura de José Afonso mostra-se a capa da revista e ainda de outras em que o artista foi figura de capa, o que aliás desmente a teoria de conspiração de que o mesmo foi alvo de censura feroz durante o fassismo, para além dos cortes de que foi vítima naquilo que consistia propaganda do comunismo.


Em relação aos seus amigos está aqui uma foto, tirada do mesmo livro com alguns deles, todos da extrema-esquerda comunista e do "poder popular". 




domingo, novembro 21, 2021

Diários de Salazar segundo o Público

 Uma senhora arquivista chamada Madalena Garcia passou nove anos da sua vida a transcrever em letra de forma e perceptível em formato e-book, agora disponível na Porto Editora, os diários que Salazar escreveu durante 35 anos. 

O Público conta a história no suplemento P2, de hoje, em artigo redigido pela suspeita Bárbara Reis. Suspeita de antizalazarismo primitivo e provindo dos ascendentes. 

Ainda assim, não consegue omitir algo que pode ser lido, designadamente retratando os "20 nomes com mais ocorrência nos diários de Salazar". É ver quem são e se encontram pessoas com perfil idêntico nos últimos 40 anos de democracia. E outra coisa: a jornalista antisalazarista podia informar-se sobre o que deixaram de seu para os seus, os indivíduos elencados. O que ganharam e como ganharam a vida durante o tempo em que viveram. E comparar com outros da democracia...





Nalgumas passagens pode notar-se que a História tal como tem sido contada pelos Rosas & Flunsers deixa muito a desejar ao rigor e à verdade. Afinal Salazar não era tão chegado a Cerejeira como o pintavam e as pessoas com quem mais se encontrava eram ministros dos governos e políticos do regime. 

Por outro lado, durante a II Guerra mostrava-se mais próximo dos ingleses que dos alemães e lia muitos livros relacionados com "ditadores e déspotas". 

 




sexta-feira, novembro 19, 2021

Qual é a profissão da ministra da justiça?

 Público de hoje: 


O currículo desta senhora licenciada em Direito em 1977, de acordo com a Wiki e o sítio do governo é sucinto: 


O Público da altura em que a dita foi nomeada para o governo, por ser da confiança política dos socialistas, desde sempre segundo se supõe, o que diz algo sobre o que é ou deve ser um magistrado, fez um retrato mais elaborado, mas pouco, embora completamente apologético e sem qualquer nuance crítica ou sequer interrogativa sobre um percurso tão singular numa carreira tão meteórica: 




O que se depreende deste currículo tão enternecedor para alguns e deveras surpreendente ou misterioso para outros, é simples: a dita ministra da Justiça, com este percurso profissional, foi entretanto alcandorada ao STJ, tornando-se Conselheira,  com efeitos reportados ao ano de 2016,  o que ainda não consta do currículo, embora tenha sido amplamente publicitado assim: 



 Temos por isso uma Conselheira do STJ como ministra da Justiça e com o currículo que acima se expõe. Se calhar entende que a sua profissão é...é...qual?! Magistrada? Sem dúvida. Conselheira do STJ? Evidente que sim. Mas...como é que vai exercer tal profissão, enquanto Conselheira, decidindo e relatando em processos de última instância, depois de passar décadas em cargos de chefia e com alta voltagem burocrática e de representação? Como é que vai dirimir conflitos jurídicos, em direito penal ou civil quem provavelmente só lidou directamente com tais questões no exercício efectivo de uma profissão como a de magistrado, durante meia dúzia de anos, se tanto? E nem sequer lidou na prática com as sucessivas leis em aplicação corrente nos tribunais, instruindo processos, participando em julgamentos, desde a primeira instância, passando pelas relações, etc. etc. no que é efectivamente a profissão de qualquer magistrado de pleno direito e função? 
Não sei responder. Apenas me parece mais um caso de promoção honoris causa. Seja ela qual for, mesmo política e da preferência do actual poder onde toda a gente se conhece, como chegou a dizer publicamente um dia, numa entrevista. Um reflexo de Sombras passadas...num país de ética podre. 

A prova disso, também no Público de hoje:


Por vontade da SEDES, esta senhora iria exercer outra profissão, se quisesse, mas não a de magistrada. 

domingo, novembro 14, 2021

Os jornalistas vendidos ao poder

 Dois artigos, no Público de ontem e no CM de hoje mostram como é a informação em Portugal, generalizada e que influencia a opinião pública de quem não consegue ter opinião própria. 


No artigo de ECT ainda aparece como bónus a notícia acerca de um jornalista que se enquadra com perfeição neste esquema de favorecimento sistemático do poder, neste caso socialista. Um tal Filipe Santos vai para o Japão, a expensas da TVI e da CNN Portugal, porque tem lá a mulher, colocada num cargo de confiança governamental. A TVI é privada, do empresário turístico Mário Ferreira que casou com uma mulher que tinha uma mãe rica, mas é a estação de tv actualmente freteira ao serviço do governo. Daí a facilidade, porventura.



sábado, novembro 13, 2021

O PSD de Pacheco Pereira é cor de burro a fugir

 Artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje, de doutrinação política sobre a essência do PSD:


Lendo fica a ideia de que o PSD pode deixar de ser o que sempre foi, um partido social-democrata seja lá isso o que for e que Pacheco Pereira insiste em definir através de ideias simples e com três chavões: o liberalismo político da tradição prè-republicana, dos Garrets e Herculano; a doutrina social da Igreja e o personalismo cristão associado à social-democracia. 

Para explicar os chavões apresenta os exemplos do ambiente liberal no Porto, a figura do bispo do Porto exilado no tempo de Salazar por se opor ao regime e o "personalismo" simplificado por este escriba licenciado em Filosofia como "o homem e a mulher são ´pessoas` e não podem ser reduzidos à qualidade de cidadão". E até cita o programa do PSD sobre tal conceito em que se afirma ser a pessoa humana um valor anterior à sociedade e ao Estado. 

Sobre o "liberalismo" distingue a liberdade política e a económica, como factor diferenciador e rejeita a redução ao "liberalismo" que define como sendo a redução dessa liberdade económica ao estado mínimo. Abanca no conceito de lassez-faire, laissez passer o tal neoliberalismo, como inimigo do socialismo que  surgiu como reacção à luta de classes que é consequência do "fosso cada vez maior entre os burgueses e os que nada tinham, os proletários". O socialismo dividiu-se entre a versão russa e a alemã e nórdica, com a social-democracia. Ou seja, um neo-marxismo reciclado no politicamente correcto.

Em apoio da tese de que o PSD sempre foi social-democrata pró-socialista, até apresenta Sá Carneiro como exemplo! Em 1975 e 1978...

Qual o objectivo da catilinária contra o fantasma do "neoliberalismo" que o aflige por assolar o PSD actual numa tentação putativa de se definir mais à direita? Atacar os próceres dos tempos do "governo Passos-Portas-troika". Nada mais. 

É este caldo de cultura que borbulha na mente escrita de Pacheco Pereira que se esforça por aparecer como ideólogo do partido e conservador do seu imaginado ideário original. 

Uma forma de indagar se lhe assiste alguma razão seria por exemplo catar no "neoliberalismo" de Passos Coelho qualquer vestígio de veneno anti social-democrata ou apurar se Sá Carneiro foi assim como Pacheco Pereira gosta de o apresentar, contextualizando o tempo em foram proferidas as afirmações citadas, incluindo o tempo da famigerada "troika" e dos seus efeitos e causas. 

Para este efeito, o jornal Semanário- um órgão informativo dos anos oitenta, de que fez parte redactorial Marcelo Rebelo de Sousa e inequivocamente um jornal de direita onde até Paulo Portas escreveu- de 3 e 10 de Dezembro de 1983, no qual se compilaram várias declarações e escritos de Sá Carneiro com vista a mostrar o seu pensamento político, numa curiosa análise de prognose póstuma.

Para o efeito há mais recortes a apresentar, para além das escolhas selectivas do artigo de Pacheco Pereira:  







O pensamento económico de Sá Carneiro aparece definido num certo contexto que Portugal atravessava no momento, nos anos setenta, de predomínio socialista e comunista, com a nacionalização das principais indústrias portuguesas e a consagração constitucional da irreversibilidade de tal política económica e de regime. 

A ideia de Sá Carneiro, claríssima, em 1978,  era de que Portugal tinha que retomar a preponderância da "sociedade civil" em confronto com a estatização de índole socialista e comunista. O que significa tal opção pela preponderância da "sociedade civil" do que mais "liberalismo" e menos estatismo? 

A noção ressequida e já serôdia acerca do pretenso "neoliberalismo" do tempo do governo de Passos Coelho-Portas- troika" é um mito, construído e repetido por Pacheco Pereira eventualmente por razões que a razão não explica. 

Alguma vez, porventura, Passos Coelho ou mesmo Portas foram neoliberais ou quiseram aplicar receitas neoliberais em Portugal à semelhança do que eventualmente se tentou fazer noutros países, mormente nos EUA do tempo de Reagan? 

A fantasia de Pacheco Pereira ainda é mais perversa porque nem dá atenção à principal preocupação do então Sá Carneiro, expressa também claramente: transformar Portugal num "país verdadeiramente europeu, democrático, moderno, com um nível económico e cultural semelhante aos demais". 

Os países europeus dos anos setenta e oitenta foram constituídos por governos "neoliberais", ou sequer mais à esquerda do que o do "Passos-Portas-troika"? Portugal era um caso à margem da Europa de então, dominado por uma Constituição esquerdista e pró-comunista. 

Enfim, a obsessão pessoal com aquele grupo que faz parte do PSD e é tão social-democrata como os demais, é fantasia recorrente e ideológica de Pacheco Pereira e de uma esquerda ressequida por mitos e lêndias que já não deveriam ter curso. 

Nos artigos em causa, Sá Carneiro é  apresentado como tendo uma ideia clara dos partidos em causa: "o que é o PS? E o CDS? E o PSD? Aquilo que em cada momento, militantes e dirigentes quiserem fazer deles"

Aliás na altura da AD, em 1980, Sá Carneiro era apresentado como um sinistro representante, não do neoliberalismo, conceito que surgiria logo a seguir,  mas da direita mais reaccionária: 


A guerra ideológica que a esquerda manteve então contra Sá Carneiro visava o quê, afinal? Afastar o neoliberalismo ou o reaccionarismo de direita do dito? 

Enfim, onde estava então Pacheco Pereira?

quinta-feira, novembro 11, 2021

As notícias no jornalismo caseiro

 Hoje, no CM, com chamada na capa, notícia de Tânia Laranjo, com um título idêntico ao que aqui figura e me levou a comprar o jornal...


Notícia do Observador sobre o mesmo assunto, da autoria de Luís Rosa: 



As diferenças são óbvias, o rigor ou a falta dele é evidente e este jornalismo do CM deixa muito a desejar. 


E como estas coisas nem sempre são como parecem, aqui vai mais uma achega, desta feita do próprio CSM que vem mostrar a beleza intrínseca das leis que temos. Como o debate instrutório não se fará antes de Setembro do próximo ano, pela certa ( Ivo Rosa demorou mais de um ano em diligências no processo Marquês, assumidamente menos complexo...) , temos que se este juiz for efectivamente promovido à Relação, ficarão perdidos estes meses todos até lá, em termos de aproveitamento processual...porque então será nomeado outro juíz para a instrução. Brilhante!


Actualização: 

O CM de hoje, 12 de Novembro volta à carga para noticiar que este juiz  foi alvo de uma inspecção extraordinária em 2018, motivada por participação do MºPº quanto ao comportamento processual do magistrado. 

Pois bem! O inspector designado pelo CSM em 2018 ( onde mandava então Belo Morgado, na altura  putativo candidato a pSTJ) foi ver o trabalho do juiz e só teceu elogios! O inspector em causa nem sequer viu qualquer contundência crítica ( os célebres "arrasos" do CM...) no modo como as decisões do dito juiz eram anuladas na Relação e nos termos em que o eram. Por isso, ficou tudo como está e o juiz com "muito bom", o que lhe permite concorrer a cargos que exijam classificação de mérito. Sendo certo que uma simples classificação de "bom" impedia o juiz em causa de ocupar o lugar que ocupa. Ou seja, tinha resolvido o problema de fundo. Alguém não quis que tal acontecesse.

Portanto, o que há a fazer é averiguar como tal inspecção foi realizada e por quem. E o CM tem meios para isso...





quarta-feira, novembro 10, 2021

O muro de Berlim faz anos que foi derrubado...pelo povo.

 Aquando da efeméride do 30º aniversário do derrube do muro de Berlim já escrevi este postal. Como hoje se repete a efeméride, volta a ser actual falar do assunto que os comunistas portugueses fazem de conta que nunca existiu...

Em Berlim-Leste, segundo a revista italiana Panorama do final de 1989, havia este stand de carros Volvo, destinado aos dirigentes da classe operária, no poder. O chefe do governo democrático segundo os critérios comunistas, esse tinha direito a prebendas que nem um nababo do tempo dos czares. O povo em geral andava de transporte público e os poucos que podiam aceder a veículos particulares, tinham os celebérrimos Trabants, cujo aspecto e mecânica só vistos ( estão aliás expostos num museu na actual Berlim unificada e perto do antigo Reichstag): 


Por estas e muitíssimas outras razões,  no dia 11 de Novembro de 1989 o jornal francês de esquerda bloquista, Libération tinha esta capa: 


Em 1974, o PCP acoitado nos media nacionais, no caso o Século Ilustrado de 13 de Julho de 1974, gabava os méritos da "Alemanha Democrática" como país a descobrir. Os comunistas portugueses mesmo agora, ainda não descobriram o que era aquela pouca-vergonha de um sistema e regime político totalitário e ainda hoje querem transplantar tal sistema para Portugal. Ainda hoje!





 

sábado, novembro 06, 2021

PCP: o labirinto da saudade totalitária

 Artigo de Fátima Bonifácio no Sol de hoje: 


Imagem tirada da net por ocasião de um encontro com esse comunista declarado que se comporta como um pequeno milionário do humor nacional, ou seja um palhaço rico, com acrónimo RAP. Um palhaço tout court que goza com a inteligência alheia e se esconde na cobardia de uma ideologia em que intimamente não  acredita mas que lhe serve os propósitos evidentes, da avidez capitalista. As pessoas mostradas saberão o que foi o comunismo nos antigos países de Leste? E querem o mesmo para Portugal? Acharão que seria diferente?! Certamente que sim e daí a grande ilusão. 


A ideia básica do comunismo é sempre esta, aqui em alegoria de 1975 do comunista João Abel Manta, outro sectário da causa fóssil. A "luta de classes" entre o que designam por "burguesia" e onde incluem os que pretendem ostracizar, prender, deportar, matar, aniquilar e o "povo" que mitificam para se legitimarem no totalitarismo. O segredo de funcionamento deste truque ignóbil e de falsidade total: a "direcção", o "colectivo" de comité central onde manda quem pode e consegue aceder ao poder total, comportando-se como ditador. O exemplo mais flagrante: Estaline. 


Por cá teve um discípulo bem comportado que se adaptou ao velho recado de um passo a trás para dar dois em frente. Ainda hoje é recado seguido pelos fósseis, como Domingos Abrantes. 


Os "homens de mão" da estratégia de aranha comunista, em 1975:


Os herdeiros da ideologia totalitária, fóssil:


Há mais de quarenta anos que andamos nisto...

sexta-feira, novembro 05, 2021

No clima ideológico o apocalipse é já amanhã

 Duvido que em Portugal fosse actualmente possível publicar algo com  impacto mediático e com esta capa e artigo respectivo, sobre as "alterações climáticas". O discurso está tão enviesado que se torna manifestamente impossível ter outra visão senão apocalíptica. E no entanto há quem negue tal ideia feita e pronta a consumir. E ainda por cima não seja um troglodita qualquer, mas alguém considerado pela revita Time, em 2008, como um herói do ambiente e que escreveu um livro- de que se transcrevem algumas passagens- acerca do ambiente e biodiversidade com ideias algo contra a corrente, mas baseadas no bom senso e razoabilidade. O livro, intitulado Apocalipse Zero, já foi traduzido em Portugal com o título Apocalipse Nunca e o sítio da FNAC publicita-o assim:

Edição de 28 de Outubro da revista Valeurs Actuelles: 








E uma entrevista com o autor: 






Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso