sábado, abril 26, 2014

Mário Soares e a sua "descolonização exemplar" precisa de ser explicada ao povo e lembrada às crianças...

 “Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.”
“Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.”

Marcello Caetano, sobre o 25 de Abril




Tirada daqui, fica esta imagem de um panfleto com uma notícia do jornal A Rua de 2 de Junho de 1977, numa altura em que ainda se faziam sentir as sequelas da "descolonização exemplar" levada a cabo por Mário Soares, Almeida Santos, Rosa Coutinho e os seus compagnons de route de tijolos vermelhos, do PCP e da esquerda com doença infantil.

Como essa "descolonização exemplar" passou sempre por ser isso mesmo, importa questionar este mesmo Mário Soares, agora em fim de validade, sobre o que disse publicamente sobre o assunto, antes de 25 de Abril de 1974 e logo a seguir.

Segundo o jornal A Rua ( fascista, claro e desprezível por isso mesmo...), Mário Soares terá dito qualquer coisa de ignóbil e bem pior que o que fez em Londres na mesma altura.
Pode ser que a fonte da Rua esteja inquinada e a tirada fatal sobre os tubarões seja falsa e provinda da propaganda "fascista", como é hábito dos antifassistas atribuir àquilo que lhes foge do controlo e não lhes agrada nada. Pode ser. Mas também pode não ser.
A única maneira de saber é perguntar-lhe e indagar as fontes originais, designadamente ouvir o relator do episódio ( se ainda for vivo) publicar a crónica do Jornal de São Paulo onde tal menção se fez e ouvir testemunhas que possam confirmar o facto. É para isto que servem os inquéritos, porque os crimes contra a Humanidade, ou seja, os apelos ao genocídio sérios e ponderados, devem ser investigados. Principalmente vindos de um indivíduo que anda por aí a vociferar contra qualquer coisa que não o deixe mandar outra vez e até apela a revolta armada para depor um poder legítmo, tendo a sorte de ninguém ligar a esse crime público de incitamento à violência.
Sorte é um modo de dizer. Se fosse um fassista já tinha um inquérito em cima, uma acusação planeada e uma condenação de preceito como antes nos tais "plenários".



Sobre este assunto já por aqui se abordou o modo como Mário Soares encarava a "descolonização", ou seja o abandono rápido das nossas províncias ultramarinas e a sua entrega aos movimentos de libertação marxistas que se digladiavam entre si e originaram a guerra civil que se conhece.
 Mário Soares, logo nos meses a seguir ao seu regresso do exílio dourado em Paris, deu algumas entrevistas a revistas estrangeiras sobre o assunto, designadamente à alemã Der Spiegel e que foram republicadas num livro editado em 1975 pela D. Quixote, na colecção Participar que tem outros dedicados a Sá Carneiro e Álvaro Cunhal.

É preciso lembrar a este desmemoriado e em passo acelerado para se tornar desmiolado, o que fez verdadeiramente pelo país e não o que gostaria que dissessem que fez. É preciso voltar a ouvir Rui Mateus, exilado e calado por motivos obscuros ( terá medo, como no fascismo?) a propósito deste Soares. É preciso lembrar o que escreveu Rentes de Carvalho e outros sobre este indivíduo para que a lenda não se transforme em mito e a realidade salte cá para fora, com o brilho da Verdade.

Ficam aqui algumas páginas desse livro com a entrevista à Der Spiegel, em que Soares não é tão explícito sobre os tubarões e a carne branca, mas não desiste da ideia da entrega rápida e em força...










Anonymous: what are you fighting for, anyway?

Ionline:

A página da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa foi ontem atacada por um grupo de piratas informáticos. Nomes, contactos de telemóvel e emails de procuradores foram tornados públicos e ficaram disponíveis no site de partilha de informação AnonFiles. A informação foi divulgada pelo site Tugaleaks, que avançou também que o ataque foi feito por "um grupo de Anonymous" ainda não identificado. 

Dois comentários com duas citações, apenas.

A primeira é de Bob Dylan, no grande disco Blonde on Blonde de 1966 e que nem é original do artista. .

 "To live outside the law you must be honest".

A segunda é de um filme americano, de Clint Eastwood, dos anos setenta.

  "go ahead, make my day".

Citando outra vez: "That´s all, folks". Esta é dos desenhos animados, também americanos. O Vasco Granja, adepto ferrenho das granjas del pueblo, dizia na tv de então: é tudo, amiguinhos...

Em ditados portugueses também os há adequados, mas como a imagética hacker é toda americana, fica assim.

sexta-feira, abril 25, 2014

A noção de democracia do Público

O Público dirigido por umas  inenarráveis ( no caso a directora e uma tal Anabela Mota Ribeiro que tem a mania que é entrevistadora),  financiado por Belmiro de Azevedo, como se fosse uma fundação, convidou Alexandre Quintanilha, André Gonçalves Pereira, Henrique Granadeiro, Irene Flunser Pimentel, João Constâncio, João Taborda da Gama, José Luís Barreto Guimarães, Maria de Fátima Bonifácio, Maria de Lurdes Rodrigues, Maria Manuel Leitão Marques, Nick Racich, Pedro Magalhães e Rui Pena Pires para botarem a sua particular identificação dos "momentos fracturantes de 40 anos de democracia".

Li por alto e concluo, pelos nomes indicados,  que esta democracia é de sentido único, à esquerda e muito estreito, pelo que de democracia tem o nome. Antes de 25 de Abril o jornalismo em geral ( quase todo de oposição) era mais eclético e portanto mais democrático.
Mas a direcção do Público não compreende porque esta é a noção de democracia que concebem.

O que nasce canhoto tarde ou nunca se endireita.

“Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.”
“Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.”

Marcello Caetano, sobre o 25 de Abril

CAVEAT! Esta citação acima colocada / lida na caixa de comentários deste blog e tomada como certa, afinal  é apócrifa e parcialmente falsa. Está tudo explicado aqui.

Logo em 29 de Abril de 1974, o jornal República, afecto ao PS, mostrava o que era este partido e ao que vinha. A linguagem estava tomada. O marxismo linguístico fixou os novos termos, a usar dali para a frente pela comunidade jornalística, ignara e colaborante.


O Diário de Lisboa dirigido em modo infamante, tal como o Sempre Fixe, da mesma oficina,  foi ainda mais longe e começou logo o prec. O termo preciso surgiu depois, mas a linguagem já era a novilíngua marxista que nos conduziu à realização plena da profecia de Marcello Caetano, acima transcrita.
Estes infames nem vergonha têm para reconhecer as asneiras e crimes que praticaram em nome de um ideal comunista sem eira nem beira. E continuam a apostar na mesma miséria e desgraça, húmus onde vicejam. O ódio ao "burguês", aos "monopólios", ao capitalismo agora "mercados", ao industrial e ao banqueiro, foi o combustível mental para a fogueira que fizeram. Queimaram um país e ainda querem louvores. São os que aplaudem a "Liberdade" porque eram precisamente quem a não tinha para fazer o que fizeram. Não admira que o 25 de Abril seja para essa gente o dia mais feliz da suas vidas. E nem três bancarrotas os demovem do sonho de voltar a fazer o mesmo e acabar a obra.O Jerónimo já o disse e o Arménio não quer outra coisa.
No Diário de Lisboa de 29 de Abril de 1974, noticiava-se o regresso dos desertores e refractários, os novos heróis.  Depois de amnistiados, claro. O regime anterior já era abertamente "fascista". Bastaram  três dias para o crismar mediaticamente.O Ruella já sabia o que queria: comunismo, já!


O Jornal de Notícias em 26 de Abril de 1974

A informação mais completa sobre o golpe de Estado chegou ao Norte no dia seguinte, depois das primeiras edições, logo no dia, distribuidas durante a tarde do dia 25 de Abril e esgotadas imediatamente.
O Jornal de Notícias de 26 de Abril de 1974 já relatava o que se passara no país, particularmente em Lisboa e Porto, com o  movimento das Forças Armadas a comunicar através de "considerandos".  Em quatro horas, desde as 4h e 20 da madrugada até às 8h e 45m, sairam quatro comunicados das Forças Armadas lidos no Rádio Clube Português. Por isso, durante as aulas da manhã, nas escolas secundárias e liceus já se sabia o que estava a acontecer.

No JN de 26 de Abril aparecia já a foto de Spínola e a menção à Junta de Salvação Nacional que no dia anterior, à noite, aparecera na tv, numa apresentação muito curta e com o tempo de um pequeno comunicado lido por Spínola e presenciado pelos restantes, mudos e quietos, sentados numa mesa esquisita e improvisada.

A edição consagrava sete páginas ao acontecimento, com esta primeira página:

 Este jornal, nesta edição,  foi o que me informou acerca dos acontecimentos. Porém, para além dessas informações lidas com avidez, o que realmente me prendia a atenção, nessa altura, era a penúltima página que trazia as os quadradinhos em banda desenhada das séries como "O agente secreto X-9" que seguia religiosamente desde o início da historieta desenhada então por Al Williamson.

 As tiras que apareciam diariamente no Jornal de Notícias ( excepto ao fim de semana ou ao Domingo, apenas) eram "sindicadas" da King Features Syndicate americana e estas provinham do ano anterior, de 1973 e tinham a sequência que é mostrada na edição IDW, no 3º volume de X-9 Secret Agent Corrigan, de 2011.



O meu 25 de Abril passou por aqui.

Ignorância SIC

SIC-N:

Ainda não estão apuradas as responsabilidades na derrocada que matou três estudantes da Universidade do Minho, mas a Polícia Judiciária terá afastado, para já, a hipótese de homicídio negligente.

A PJ já decidiu, provisoriamente,  e a SIC deu o mote... mas quem decide nos casos de morte violenta, como foi este, não é a PJ. E quem se pronuncia juridicamente em termos processuais não é a PJ. É o Ministério Público.
Portanto, a ignorância SIC é a do costume: não percebem e alardeiam o facto. É a SIC de Balsemão, 40 anos depois da Revolução.

Desertores e refractários


Ferreira Fernandes que se "lembra que", lembra-se  de explicar hoje, 25 de Abril de 2014,  a razão porque refractou ou desertou de ser português incorporado em forças armadas que lutavam pela manutenção da então província ultramarina Angola, onde aliás se encontrava.

Diz que foi por ser contra o "a guerra colonial", uma expressão inventada pelo comunismo para designar o que em Portugal se chamava "guerra no Ultramar".  Ao mesmo tempo diz que "não foi ideologia nenhuma" o que o levou a "dizer não" à guerra. Terá sido antes o "colonialismo", logo aos vinte anos.

Pois bem. Não tenho o dom de adivinhar pensamentos e muito menos cogitações internas sobre motivos pessoais. Mas permito-me duvidar de quem se adianta como refractário ou desertor, desistindo de lutar na sua terra pela pátria que era a sua por causa do "colonialismo".

Percebo bem quem se passa para o outro lado, para lutar pela pátria que adopta, mas não percebo quem foge da luta pela pátria e ainda menos com razões inefáveis e fáceis de apresentar. 
Percebo ainda melhor quem tem a coragem de assumir a cobardia ou o medo de lutar e poder morrer e por isso fugiu.

Mas não quero sindicar a razão de fundo daquela atitude pessoal. Apenas reflectir publicamente sobre as razões que a razão desconhece mas encontra sempre razões que explicam dignamente o que pode ser uma indignidade.

A tarde de 25 de Abril de 1974

No dia 25 de Abril de 1974 a informação foi sempre escassa. O rádio debitava música clássica e marchas militares e de vez em quando um comunicado seco das "Forças Armadas". A tv só à noite deu sinal de vida do que se passava e o principal sinal foi a apresentação das notícias com o jornalista ( Fialho Gouveia) sem gravata. Uma novidade semiótica.

A vontade em saber o que se passava era muita e na época ficava-se à espera dos jornais, principalmente os de Lisboa, com fotos do acontecimento. No Norte, a espera desesperava e por vezes as edições já estavam esgotadas no quiosque. "Já acabou", lembro-me de ouvir dizer sobre alguns jornais que procurei comprar. E revistas ( Século Ilustrado e Flama, por exemplo)  que tive porque reservei as edições.

Um dos primeiros jornais a trazer notícias sobre o que se passava ainda no próprio dia 25 de Abril, foi este, com esta primeira página do Diário de notícias, e, "2ª tiragem".
Às 10 horas da manhã ainda não sabiam onde estavam o Chefe de Estado e o presidente do Conselho. A caminho da Madeira, soube-se depois...


A manhã de 25 de Abril de 1974: militares de lencinho e de murro pronto

Esta entrevista à Sabado do passado dia 23, de Carlos Maia Loureiro, o então alferes em serviço no Terreiro do Paço, ao lado do capitão Salgueiro Maia, é muito reveladora do estilo do golpe que então foi desferido ao Estado Novo que já era Social, de Marcello Caetano.
Tal como a entrevista de Vasco Lourenço, dá-nos um retrato bem preciso do modo tosco como foi feito o golpe e dos seus protagonistas impreparados mas intrépidos. Na guerra a sério devia ser igual. Só um regime em estado de decomposição se deixaria cair como caiu, ao ler coisas destas.
Maia Loureiro diz que esteve 26 meses em Moçambique. Tal como Jaime Neves, um autêntico guerreiro, segundo testemunhos que também lá estiveram em 1972, a fazer dia sim, dia não, o percurso Tete-Cabora-Bassa, com as costureiras à espreita.  Jaime Neves foi o militar que em 25 de Novembro arrasaria com os doentes infantis do comunismo se o deixassem, mas foi também o militar que enfrentou omajor Pato Anselmo de um modo que contado por Maia Loureiro é incrível e ao mesmo tempo revelador da nossa maneira de ser.
Com Jaime Neves o PCP não tinha hipóteses...


Entretanto, no i de hoje, Vasco Pulido Valente diz o que tem que ser dito: Melo Antunes era um imbecil e os militares uns palermas que nem planear souberam. Iconoclasta, VPV? Não, apenas observador e leitor das entrevistas dos militares, por exemplo uma, recente, do lateiro Vasco Lourenço.

O mesmo i, para ilustrar um artigo de duas páginas sobre a imprensa estrangeira da época "quando Portugal parou o mundo",  publicou esta imagem:


A imagem, pelo menos, do "c´est Mai au Portugal", vinda da revista francesa Paris Match,   foi tirada daqui, indiscutivelmente. Mas não tem mal algum. Não tenho direito de propriedade sobre a mesma, o original quero dizer, e além disso farto-me de picar imagens do i, para ilustrar os meus postais.

Com uma diferença, porém: indico sempre, sempre a proveniência... por uma questão ética, ou moral se se quiser e é mais antiga.


quinta-feira, abril 24, 2014

Por este não havia prec...

António Pedro Vasconcelos em entrevista ao i de hoje deu a conhecer onde estava no 25 de Abril de 1974: na revista Cinéfilo que então dirigia.

A revista era uma lufada de ar muito fresco de modernidade no panorama editorial português e assemelhava-se, em 1973, ao que o Observador representava no jornalismo nacional uns anos antes: um produto do marcelismo. A Cinéfilo, sendo de esquerda, não era abertamente comunista e era por aí, por essa nesga cultural que a evolução política se iria desenvolver, no caso de não suceder o golpe do dia 25 de Abril de 1974, agora a perfazer a data redonda dos quarenta.

Quanto a António Pedro Vasconcelos, refere que nunca foi comunista porque leu coisas sobre os "processos de Moscovo" quando esteve em Paris e ficou vacinado contra o estalinismo tipo Cunhal. Muitos outros leram as mesmas coisas e não se deixaram influenciar ou tomaram os factos como propaganda anti-comunista. Até houve quem lá estivesse, em 1935 quando os factos ocorreram e não se deram por achados. É o caso de Francisco Miguel, o antifassista primário, secundário e de superior sectarismo comunista.

A entrevista ao i:

No 25 de Abril está em Lisboa...
Estava em Lisboa, era chefe de redacção de "O Cinéfilo". Vivia aqui na Lapa, na Travessa do Combro. Lembro-me de ter sido acordado por uma amiga minha a dizer-me o que se estava a passar, lembro-me de ter visto a Emissora Nacional, que era aqui no fundo da rua [Rua do Quelhas, onde mora actualmente António-Pedro Vasconcelos] com soldados em cima do telhado. E depois fui direito ao "Século", porque lá havia notícias. "O Século" foi o jornal que fez mais edições. Havia um frenesim de jornalistas e fotógrafos a entrarem e a saírem Fui directo à redacção de "O Cinéfilo", que era no edifício de "O Século" e mandei parar tudo o que estava nas rotativas para imprimir. Se ia haver uma revolução, a edição que ia sair tinha de dar conta daquilo que acontecesse. Depois andei entre "O Século" e o Largo do Carmo, que era ali ao pé. Aconteceu uma coisa extraordinária na manhã do 25 de Abril. Havia um indivíduo no "Século" que era o estafeta que levava todos os dias as provas à censura, que era ali em baixo, na Rua da Misericórdia. O papel dele há anos e anos era levar as provas à censura do "Século", do "Século Ilustrado", do "Cinéfilo". E ele bate-me à porta e diz: "Sr. Vasconcelos, já tem as provas para levar para a censura?" E eu disse: "Ó senhor (já não me lembro como se chamava) esqueça isso. A censura acabou, não vê o que se está a passar, a revolução está na rua." E ele começou-me a falar da censura e a dizer: "Ó sr. Vasconcelos, não brinque com estas coisas, eles estão lá." O homem estava obstinado. E eu disse: "Esqueça, vamos ali para o Largo do Carmo, isso acabou." E de repente eu vejo na cara dele que fica completamente em pânico e diz: "E agora o que é que eu vou fazer?" Foi a primeira vítima do 25 de Abril, foi o primeiro desempregado do 25 de Abril.
O homem, genuinamente, caiu em si: "A minha profissão há 30 anos é levar e trazer as provas da censura." Se um dia eu fizesse um filme sobre o 25 de Abril começava assim, se calhar. Eu sei que é uma banalidade dizer-se isto, mas se eu quisesse ilustrar o que é a felicidade é o dia 25 de Abril. Depois as pessoas começam a dividir-se, o que é normal. Havia a chamada unidade antifascista e depois, a partir do momento em que somos livres, as pessoas começam a tomar as suas posições. Há os tipos que são do PCP, os que são da extrema-esquerda, os que não são nem uma coisa nem outra, são só democratas...
E o que era na altura o António-Pedro Vasconcelos?
Eu não estava filiado em lado nenhum, fui a todas as reuniões de todos os partidos de extrema-esquerda. Fui ver e ouvir. Acho que era um social-democrata, mesmo que não me dissesse um social--democrata. Nunca fui comunista, tenho uma grande atracção por Marx, sobretudo o Marx jovem. Acho-o um escritor genial. Aliás, quis fazer um filme sobre ele. Comprei os direitos de um filme que o Rosselini queria fazer sobre Marx e morreu antes de o fazer. Comprei à viúva do Rosselini os direitos, mas nunca consegui fazê-lo porque não tive dinheiro. Mas, ao contrário de quase toda a minha geração, nunca fui comunista. Lembro-me de em Paris ter lido os processos de Moscovo, o que foi uma coisa que me chocou imenso. O estalinismo era uma forma de totalitarismo. Mas nunca tive militância política activa, tive aproximações, apoiei tudo o que fosse contra o regime. A seguir ao 25 de Abril nunca tive filiação partidária. 

E a Cinéfilo de que fala António-Pedro que tem uma capa em que se menciona a Censura:

Uma Visão estereotipada do 25 de Abril de 1974

A revista Visão, da Medipress de Balsemão, simula na edição de hoje um número putativamente saído há 40 anos. É uma "edição especial como se tivesse sido feita em 1974".

É uma tristeza de mediocridade. Para além de algumas fotos eventualmente inéditas e outras captadas por Eduardo Gageiro, Alfredo da Cunha, Carlos Gil, etc. pouco mais se aproveita e os textos são pobres. A imitação é pífia, uma miséria e sinal de que 40 anos depois, o jornalismo português está pior que antes.
Para mostra do que se fazia, fica uma imagem com publicações dessa época e os portugueses não ficavam atrás de ninguém. Vide por exemplo o fantástico grafismo da revista Cinéfilo, dirigida por António Pedro Vasconcelos que hoje dá uma entrevista ao i, onde fala no assunto da revista.


 Para além disso, a cor em jornal diário era já uma realidade em 1973 e de grande qualidade que só voltei a ver dali a uns bons anos.



Só em 1978 o semanário Expresso e também o Jornal publicaram uma pequena publicidade a cores, nas suas edições sempre a preto e branco. Era uma publicidade a uma caneta...e num quadradinho quase em roda-pé...




Portanto, a Visão faz-de-conta tem um grafismo bisonho, quase a preto e branco, estilismo nulo, uma vergonha para os artistas gráficos dos anos setenta que eram bem mais criativos do que este ersatz deixa adivinhar.
O logro começa logo na capa. Uma revista que se propõe fazer "como se tivesse sido feita em 1974" não viola a promessa logo na capa, assim, com um desdobrável publicitário que lhe custeou a edição faz-de-conta:



Por exemplo, a suposta reportagem da chegada de Mário Soares a Portugal, vindo de Sud-Express e chegado a Santa Apolónia em 28 de Abril de 1974 ( os aeroportos estavam fechados, desde o dia 25) é assim apresentada :

Agora vejamos a "real thing" e como se fez a mesma reportagem in illo tempore de 29 de Abril de 1974. Primeiro no jornal do socialismo encapotado, dirigido pelo maçónico Raul Rêgo, um ex-seminarista, quase padre, tornado anti-clericalista militante, herdeiro da tradição jacobina de Afonso Costa.



















A reportagem noticiosa da Visão começa logo mal, para quem faz de conta que escreve nessa altura ( edição de 2 de Maio de 1974). Mário Soares só mais tarde contaria a história do que pensou a propósito de que "tudo mudara em Portugal".
Na verdade, Soares nem sabia muito bem o que o esperava, quando ainda estava em Vilar Formoso. No entanto, a recepção foi "apoteótica", um adjectivo caído em desuso para designar fenómenos deste género, como conta o Jornal de Notícias do Porto do mesmo dia 29 de Abril e a imagem do República mostra.
A linguagem utilizada, diferente num jornal e noutro é exemplar da época e pouco tem a ver com o que escreve a Visão. 


Até nisto os 40 anos que passaram foram um retrocesso.

Mário Soares, o patrono de bancarrotas anda agora a espalhar veneno

Mário Soares ontem, em mais uma comemoração da data redonda, terá afirmado publicamente, segundo o i de hoje que "Caetano era mais fascista que Salazar". "Salazar era um ditador, o Caetano era fascista mesmo".

Este Soares desmemoriado e atoleimado não é o mesmo de há umas décadas, evidentemente.

Sobre Soares, Marcello Caetano desabafara já a Veríssimo Serrão, na obra publicada pela Verbo em 1985, do modo que segue:


Por outro lado, um amigo de Caetano, Jorge Tavares Rodrigues tinha divulgado em 1984 algumas "confidências de exílio" daquele, entre as quais um eventual entendimento com o mesmo Soares a propósito de uma transição para a democracia.
Jorge Tavares Rodrigues não hesita em classificar Caetano como um democrata-cristão que de fascista tem apenas o nome que este Soares agora lhe quer colar. E percebe-se porquê: Caetano, apesar daquela tentativa, nunca foi meigo com Soares e sempre o desprezou como estadista e até como indivíduo.
É um rancor que ficou e que justifica o vilipêndio que este patrono de bancarrotas anda agora a espalhar como veneno, aproveitando a ignorância de muitos e o esquecimento de outros.



Soares chama a isto (Observador, 27 de Julho de 1973)  fascismo...portanto uma multidão de fascistas no Terreiro do Paço, a escassos meses da libertação. Que patético, este Soares.


ADITAMENTO:

Ainda sobre Mário Soares, um autor português ausente na Holanda ( onde estava em 1974), José Rentes de Carvalho,  escreveu então um livro- Portugal- A flor e a foice, agora reeditado por cá.

Sobre Mário Soares, o autor, com 83 anos,  não poupa nas palavras, na Tabu ( revista do Sol) de hoje. Agora só falta o depoimento do desaparecido Rui Mateus.Curiosamente,  ninguém pergunta a Mário Soares por tal companheiro fundador do partido...


Brincadeiras de praxes: e vão nove.

 RR:


A queda do muro junto à Universidade do Minho, em Braga, matou três estudantes e feriu quatro.   
O acidente registou-se às 19h44.


A estupidez continua e a anomia também.As famílias ficam com as tragédias.

quarta-feira, abril 23, 2014

Um discurso de Marcello Caetano ao mundo do trabalho, há 40 anos


Há quarenta anos era assim, o discurso fassista.  Agora nem assim é. Quem manda é a troika Arménio Avoila e Jerónimo. E já me esquecia do Silva, que não corta o bigode "nem que a vaca tussa" e é assalariado do Ricardo do BES.
Grande evolução na continuidade...

Falsas razões para um golpe de Estado, segundo Marcello Caetano

Continuando a mostrar o que Marcello Caetano dizia do Brasil, onde se encontrava exilado, aos seus amigos mais próximos, sobre o Portugal que deixara, aqui ficam mais quatro páginas do livro de Veríssimo Serrão.



Esta aparente normalidade governativa que até daria algumas razões de segurança ao regime, para Marcello Caetano, a par do apoio popular sentido e sem grandes suspeitas de artificialidade, contrasta fortemente com a imagem surgida logo após o golpe de Estado dos militares, relativamente aos instrumentos de repressão política e policial do regime.

O jornal britanico Sunday Times, numa edição de 14 de Julho de 1974, no suplemento dominical, publicou uma série de fotos espantosas e inéditas sobre esse Portugal desconhecido e que também não é inteiramente reconhecido pelos opositores, uma vez que não encontro relatos tão dramáticos e cruéis sobre a repressão policial e política anterior ao 25 de Abril, mesmo entre os depoimentos agora surgidos "no limite da dor".

Para mim, as imagens que seguem são um mistério que o Sunday Times na época apresentou. E continuam a ser.

Em primeiro lugar as fichas dos agentes da DGS que não me lembro de ver em nenhum lado assim, a cores e em profusão. 


 Aparentemente os jornalistas entraram e fotografaram o que bem entenderam...porque na "pérfida Albion", na sede do MI5 seria igual. Então não era?!






















Depois, este poço convertido em masmorra, na prisão de Caxias, é indicado como lugar de morte de um número impreciso de vítimas, o que é estranho. Teria sido confusão com as vítimas dos "formigas" da primeira República?



Depois estes relatos em imagens parecem inéditos: um colaborador do regime infiltrado, em Paris, nos meios de oposição...humm, isto aqui há gato no largo dos ratos. Isabel do Carmo, essa, triunfante e impante , já desfilava, antes das bombas...e da dietética. 




ADITAMENTO sobre o custo da guerra, em 1973:

Fica aqui o artigo da revista Time de 5 de Novembro de 1973 e ainda um artigo do Jornal de Negócios de hoje ( edição oferecida, não sei quem pagou o almoço...)

Como se costuma dizer, os números falam por si, mas neste caso não explicam muita coisa. Gastar tanto dinheiro em esforço de guerra e mesmo assim guardar um pecúlio aforrado que nos salvou da bancarrota certa, dois anos depois, é coisa que nem todos conseguem. Estes governos democráticos não conseguiram e o resultado está à vista.  mas conseguiram uma coisa: denegrir, com sucesso, o regime anterior ao ponto de lhe assacarem as responsabilidades da nossa actual pobreza.
Foi o "fascismo", ideia que perdura há quarenta anos, o responsável pelo atraso. os que vieram depois só não fizeram melhor por causa da "pesada herança" que tinha 40 anos. Os últimos 40, com toda a liberdade, não conseguiram apagar os males dos outros...

E ainda há quem acredite nisto.


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso