sexta-feira, novembro 19, 2021

Qual é a profissão da ministra da justiça?

 Público de hoje: 


O currículo desta senhora licenciada em Direito em 1977, de acordo com a Wiki e o sítio do governo é sucinto: 


O Público da altura em que a dita foi nomeada para o governo, por ser da confiança política dos socialistas, desde sempre segundo se supõe, o que diz algo sobre o que é ou deve ser um magistrado, fez um retrato mais elaborado, mas pouco, embora completamente apologético e sem qualquer nuance crítica ou sequer interrogativa sobre um percurso tão singular numa carreira tão meteórica: 




O que se depreende deste currículo tão enternecedor para alguns e deveras surpreendente ou misterioso para outros, é simples: a dita ministra da Justiça, com este percurso profissional, foi entretanto alcandorada ao STJ, tornando-se Conselheira,  com efeitos reportados ao ano de 2016,  o que ainda não consta do currículo, embora tenha sido amplamente publicitado assim: 



 Temos por isso uma Conselheira do STJ como ministra da Justiça e com o currículo que acima se expõe. Se calhar entende que a sua profissão é...é...qual?! Magistrada? Sem dúvida. Conselheira do STJ? Evidente que sim. Mas...como é que vai exercer tal profissão, enquanto Conselheira, decidindo e relatando em processos de última instância, depois de passar décadas em cargos de chefia e com alta voltagem burocrática e de representação? Como é que vai dirimir conflitos jurídicos, em direito penal ou civil quem provavelmente só lidou directamente com tais questões no exercício efectivo de uma profissão como a de magistrado, durante meia dúzia de anos, se tanto? E nem sequer lidou na prática com as sucessivas leis em aplicação corrente nos tribunais, instruindo processos, participando em julgamentos, desde a primeira instância, passando pelas relações, etc. etc. no que é efectivamente a profissão de qualquer magistrado de pleno direito e função? 
Não sei responder. Apenas me parece mais um caso de promoção honoris causa. Seja ela qual for, mesmo política e da preferência do actual poder onde toda a gente se conhece, como chegou a dizer publicamente um dia, numa entrevista. Um reflexo de Sombras passadas...num país de ética podre. 

A prova disso, também no Público de hoje:


Por vontade da SEDES, esta senhora iria exercer outra profissão, se quisesse, mas não a de magistrada. 

domingo, novembro 14, 2021

Os jornalistas vendidos ao poder

 Dois artigos, no Público de ontem e no CM de hoje mostram como é a informação em Portugal, generalizada e que influencia a opinião pública de quem não consegue ter opinião própria. 


No artigo de ECT ainda aparece como bónus a notícia acerca de um jornalista que se enquadra com perfeição neste esquema de favorecimento sistemático do poder, neste caso socialista. Um tal Filipe Santos vai para o Japão, a expensas da TVI e da CNN Portugal, porque tem lá a mulher, colocada num cargo de confiança governamental. A TVI é privada, do empresário turístico Mário Ferreira que casou com uma mulher que tinha uma mãe rica, mas é a estação de tv actualmente freteira ao serviço do governo. Daí a facilidade, porventura.



sábado, novembro 13, 2021

O PSD de Pacheco Pereira é cor de burro a fugir

 Artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje, de doutrinação política sobre a essência do PSD:


Lendo fica a ideia de que o PSD pode deixar de ser o que sempre foi, um partido social-democrata seja lá isso o que for e que Pacheco Pereira insiste em definir através de ideias simples e com três chavões: o liberalismo político da tradição prè-republicana, dos Garrets e Herculano; a doutrina social da Igreja e o personalismo cristão associado à social-democracia. 

Para explicar os chavões apresenta os exemplos do ambiente liberal no Porto, a figura do bispo do Porto exilado no tempo de Salazar por se opor ao regime e o "personalismo" simplificado por este escriba licenciado em Filosofia como "o homem e a mulher são ´pessoas` e não podem ser reduzidos à qualidade de cidadão". E até cita o programa do PSD sobre tal conceito em que se afirma ser a pessoa humana um valor anterior à sociedade e ao Estado. 

Sobre o "liberalismo" distingue a liberdade política e a económica, como factor diferenciador e rejeita a redução ao "liberalismo" que define como sendo a redução dessa liberdade económica ao estado mínimo. Abanca no conceito de lassez-faire, laissez passer o tal neoliberalismo, como inimigo do socialismo que  surgiu como reacção à luta de classes que é consequência do "fosso cada vez maior entre os burgueses e os que nada tinham, os proletários". O socialismo dividiu-se entre a versão russa e a alemã e nórdica, com a social-democracia. Ou seja, um neo-marxismo reciclado no politicamente correcto.

Em apoio da tese de que o PSD sempre foi social-democrata pró-socialista, até apresenta Sá Carneiro como exemplo! Em 1975 e 1978...

Qual o objectivo da catilinária contra o fantasma do "neoliberalismo" que o aflige por assolar o PSD actual numa tentação putativa de se definir mais à direita? Atacar os próceres dos tempos do "governo Passos-Portas-troika". Nada mais. 

É este caldo de cultura que borbulha na mente escrita de Pacheco Pereira que se esforça por aparecer como ideólogo do partido e conservador do seu imaginado ideário original. 

Uma forma de indagar se lhe assiste alguma razão seria por exemplo catar no "neoliberalismo" de Passos Coelho qualquer vestígio de veneno anti social-democrata ou apurar se Sá Carneiro foi assim como Pacheco Pereira gosta de o apresentar, contextualizando o tempo em foram proferidas as afirmações citadas, incluindo o tempo da famigerada "troika" e dos seus efeitos e causas. 

Para este efeito, o jornal Semanário- um órgão informativo dos anos oitenta, de que fez parte redactorial Marcelo Rebelo de Sousa e inequivocamente um jornal de direita onde até Paulo Portas escreveu- de 3 e 10 de Dezembro de 1983, no qual se compilaram várias declarações e escritos de Sá Carneiro com vista a mostrar o seu pensamento político, numa curiosa análise de prognose póstuma.

Para o efeito há mais recortes a apresentar, para além das escolhas selectivas do artigo de Pacheco Pereira:  







O pensamento económico de Sá Carneiro aparece definido num certo contexto que Portugal atravessava no momento, nos anos setenta, de predomínio socialista e comunista, com a nacionalização das principais indústrias portuguesas e a consagração constitucional da irreversibilidade de tal política económica e de regime. 

A ideia de Sá Carneiro, claríssima, em 1978,  era de que Portugal tinha que retomar a preponderância da "sociedade civil" em confronto com a estatização de índole socialista e comunista. O que significa tal opção pela preponderância da "sociedade civil" do que mais "liberalismo" e menos estatismo? 

A noção ressequida e já serôdia acerca do pretenso "neoliberalismo" do tempo do governo de Passos Coelho-Portas- troika" é um mito, construído e repetido por Pacheco Pereira eventualmente por razões que a razão não explica. 

Alguma vez, porventura, Passos Coelho ou mesmo Portas foram neoliberais ou quiseram aplicar receitas neoliberais em Portugal à semelhança do que eventualmente se tentou fazer noutros países, mormente nos EUA do tempo de Reagan? 

A fantasia de Pacheco Pereira ainda é mais perversa porque nem dá atenção à principal preocupação do então Sá Carneiro, expressa também claramente: transformar Portugal num "país verdadeiramente europeu, democrático, moderno, com um nível económico e cultural semelhante aos demais". 

Os países europeus dos anos setenta e oitenta foram constituídos por governos "neoliberais", ou sequer mais à esquerda do que o do "Passos-Portas-troika"? Portugal era um caso à margem da Europa de então, dominado por uma Constituição esquerdista e pró-comunista. 

Enfim, a obsessão pessoal com aquele grupo que faz parte do PSD e é tão social-democrata como os demais, é fantasia recorrente e ideológica de Pacheco Pereira e de uma esquerda ressequida por mitos e lêndias que já não deveriam ter curso. 

Nos artigos em causa, Sá Carneiro é  apresentado como tendo uma ideia clara dos partidos em causa: "o que é o PS? E o CDS? E o PSD? Aquilo que em cada momento, militantes e dirigentes quiserem fazer deles". 

Aliás na altura da AD, em 1980, Sá Carneiro era apresentado como um sinistro representante, não do neoliberalismo, conceito que surgiria logo a seguir,  mas da direita mais reaccionária: 


A guerra ideológica que a esquerda manteve então contra Sá Carneiro visava o quê, afinal? Afastar o neoliberalismo ou o reaccionarismo de direita do dito? 

Enfim, onde estava então Pacheco Pereira?

quinta-feira, novembro 11, 2021

As notícias no jornalismo caseiro

 Hoje, no CM, com chamada na capa, notícia de Tânia Laranjo, com um título idêntico ao que aqui figura e me levou a comprar o jornal...


Notícia do Observador sobre o mesmo assunto, da autoria de Luís Rosa: 



As diferenças são óbvias, o rigor ou a falta dele é evidente e este jornalismo do CM deixa muito a desejar. 


E como estas coisas nem sempre são como parecem, aqui vai mais uma achega, desta feita do próprio CSM que vem mostrar a beleza intrínseca das leis que temos. Como o debate instrutório não se fará antes de Setembro do próximo ano, pela certa ( Ivo Rosa demorou mais de um ano em diligências no processo Marquês, assumidamente menos complexo...) , temos que se este juiz for efectivamente promovido à Relação, ficarão perdidos estes meses todos até lá, em termos de aproveitamento processual...porque então será nomeado outro juíz para a instrução. Brilhante!


Actualização: 

O CM de hoje, 12 de Novembro volta à carga para noticiar que este juiz  foi alvo de uma inspecção extraordinária em 2018, motivada por participação do MºPº quanto ao comportamento processual do magistrado. 

Pois bem! O inspector designado pelo CSM em 2018 ( onde mandava então Belo Morgado, na altura  putativo candidato a pSTJ) foi ver o trabalho do juiz e só teceu elogios! O inspector em causa nem sequer viu qualquer contundência crítica ( os célebres "arrasos" do CM...) no modo como as decisões do dito juiz eram anuladas na Relação e nos termos em que o eram. Por isso, ficou tudo como está e o juiz com "muito bom", o que lhe permite concorrer a cargos que exijam classificação de mérito. Sendo certo que uma simples classificação de "bom" impedia o juiz em causa de ocupar o lugar que ocupa. Ou seja, tinha resolvido o problema de fundo. Alguém não quis que tal acontecesse.

Portanto, o que há a fazer é averiguar como tal inspecção foi realizada e por quem. E o CM tem meios para isso...





quarta-feira, novembro 10, 2021

O muro de Berlim faz anos que foi derrubado...pelo povo.

 Aquando da efeméride do 30º aniversário do derrube do muro de Berlim já escrevi este postal. Como hoje se repete a efeméride, volta a ser actual falar do assunto que os comunistas portugueses fazem de conta que nunca existiu...

Em Berlim-Leste, segundo a revista italiana Panorama do final de 1989, havia este stand de carros Volvo, destinado aos dirigentes da classe operária, no poder. O chefe do governo democrático segundo os critérios comunistas, esse tinha direito a prebendas que nem um nababo do tempo dos czares. O povo em geral andava de transporte público e os poucos que podiam aceder a veículos particulares, tinham os celebérrimos Trabants, cujo aspecto e mecânica só vistos ( estão aliás expostos num museu na actual Berlim unificada e perto do antigo Reichstag): 


Por estas e muitíssimas outras razões,  no dia 11 de Novembro de 1989 o jornal francês de esquerda bloquista, Libération tinha esta capa: 


Em 1974, o PCP acoitado nos media nacionais, no caso o Século Ilustrado de 13 de Julho de 1974, gabava os méritos da "Alemanha Democrática" como país a descobrir. Os comunistas portugueses mesmo agora, ainda não descobriram o que era aquela pouca-vergonha de um sistema e regime político totalitário e ainda hoje querem transplantar tal sistema para Portugal. Ainda hoje!





 

sábado, novembro 06, 2021

PCP: o labirinto da saudade totalitária

 Artigo de Fátima Bonifácio no Sol de hoje: 


Imagem tirada da net por ocasião de um encontro com esse comunista declarado que se comporta como um pequeno milionário do humor nacional, ou seja um palhaço rico, com acrónimo RAP. Um palhaço tout court que goza com a inteligência alheia e se esconde na cobardia de uma ideologia em que intimamente não  acredita mas que lhe serve os propósitos evidentes, da avidez capitalista. As pessoas mostradas saberão o que foi o comunismo nos antigos países de Leste? E querem o mesmo para Portugal? Acharão que seria diferente?! Certamente que sim e daí a grande ilusão. 


A ideia básica do comunismo é sempre esta, aqui em alegoria de 1975 do comunista João Abel Manta, outro sectário da causa fóssil. A "luta de classes" entre o que designam por "burguesia" e onde incluem os que pretendem ostracizar, prender, deportar, matar, aniquilar e o "povo" que mitificam para se legitimarem no totalitarismo. O segredo de funcionamento deste truque ignóbil e de falsidade total: a "direcção", o "colectivo" de comité central onde manda quem pode e consegue aceder ao poder total, comportando-se como ditador. O exemplo mais flagrante: Estaline. 


Por cá teve um discípulo bem comportado que se adaptou ao velho recado de um passo a trás para dar dois em frente. Ainda hoje é recado seguido pelos fósseis, como Domingos Abrantes. 


Os "homens de mão" da estratégia de aranha comunista, em 1975:


Os herdeiros da ideologia totalitária, fóssil:


Há mais de quarenta anos que andamos nisto...

sexta-feira, novembro 05, 2021

No clima ideológico o apocalipse é já amanhã

 Duvido que em Portugal fosse actualmente possível publicar algo com  impacto mediático e com esta capa e artigo respectivo, sobre as "alterações climáticas". O discurso está tão enviesado que se torna manifestamente impossível ter outra visão senão apocalíptica. E no entanto há quem negue tal ideia feita e pronta a consumir. E ainda por cima não seja um troglodita qualquer, mas alguém considerado pela revita Time, em 2008, como um herói do ambiente e que escreveu um livro- de que se transcrevem algumas passagens- acerca do ambiente e biodiversidade com ideias algo contra a corrente, mas baseadas no bom senso e razoabilidade. O livro, intitulado Apocalipse Zero, já foi traduzido em Portugal com o título Apocalipse Nunca e o sítio da FNAC publicita-o assim:

Edição de 28 de Outubro da revista Valeurs Actuelles: 








E uma entrevista com o autor: 






domingo, outubro 31, 2021

O projecto global da selecção de magistrados.

 Sol de ontem: um FP do ISCTE integrou um júri de selecção de magistrados para os tribunais administrativos e fiscais:


Em resumo: um indivíduo que fez parte das FP25 e foi condenado por actividade terrorista contra o Estado de Direito é actualmente professor de sociologia no ISCTE e foi escolhido por alguém do CEJ para integrar um dos vários júris que seleccionou magistrados, entre 2017 e 2019, para os tribunais administrativos e fiscais e também para seleccionar candidatos à magistratura tout court nos concursos do CEJ.  

O perfil do indivíduo revolucionário dos anos de brasa dos oitenta era escasso, nesta reportagem do O Jornal de Julho de 1985 que mostrava os acusados em tal processo e do projecto global terrorista associado:


É preciso dizer uma coisa desde já: a selecção de magistrados em causa, em 2018 e 2019,  era para frequência de um curso de preparação para integrarem tribunais administrativos e fiscais, de há muito carente de "quadros". E tal selecção incidia já, para além do mais,  sobre magistrados de carreira que tendo optado por integrar os tribunais administrativos e fiscais careciam também de preparação teórica para tal e daí a organização de cursos apropriados. A selecção operada em 2017, segundo o jornal era mesmo para o ingresso na magistratura de opositores aos concursos para tal. 

A questão que se coloca é simples: deverá um ex-condenado em pena de prisão maior, como se dizia dantes, por crimes de natureza política e não só, integradores de atentados ao Estado de Direito, ter idoneidade e perfil suficientes para avaliar magistrados? 

Para além disso, o indivíduo em causa é actualmente professor de Sociologia, no ISCTE, estabelecimento aqui identificado várias vezes como uma "madrassa" da esquerda ultra que temos por cá e viveiro de estudos nocivos a um certo entendimento social do nosso modo de viver habitual, por ser importador de ideias esquerdistas radicais e também sustentáculo ideológico do que se chama politicamente correcto. 

A resposta também parece simples: não sendo o actual ou antigo estatuto do indivíduo em causa impeditivo da sua escolha como membro de tais júris, deverá ter-se por assente e assumido que o CEJ é o que é, actualmente. E mais não é preciso dizer porque está tudo dito.  

sábado, outubro 30, 2021

Caso Cabrita: uma investigação de merda?

Observador: 


 

Segundo a notícia, a GNR, com poderes delegados do titular do inquérito, o MºPº, anda a proceder a averiguações que passam pela análise biológica de "fragmentos" relativos a algo que se percebe imediatamente: dejectos humanos, no sentido de determinar se pertencem à vítima do acidente. A ideia, mágica na mente dos investigadores fantásticos da GNR é a de que alguém que se encontrava a fazer as necessidades não se encontraria a trabalhar e portanto estaria ausente do local de trabalho e portanto tal circunstância diminuiria a culpa de quem atropelou. 
A estupidez é tanta que até dói, se for verdadeira. Bastaria aos ignorantes lerem o que é o conceito legal de acidente de trabalho para perceberem a inutilidade da investigação de...merda. E perceberem que há circunstâncias bem mais estranhas que ainda assim não afastam a caracterização de acidente de trabalho. 



Por outro lado, a responsabilidade deste inquérito sensível cabe por inteiro ao MºPº, no caso da localidade onde ocorreu. No caso, Évora onde está o Procurador Regional Osvaldo Pina. 
Esta notícia tem interesse público e o caso é manifestamente de relevância social elevada. O que faz a PGR?

sexta-feira, outubro 29, 2021

Declarações arrojadas num país amordaçado

 Ver estes 50 minutos de video custa pouco porque o discurso é fluido e as verdades surgem como punhos.





O SNS na urgência do S. João

 Entrevista no Inevitável de hoje ao "responsável pela unidade de gestão da Urgência e Medicina Intensiva do Hospital de São João, no Porto". 

Não conheço o indivíduo que é médico há duas dúzias de anos e continua a "fazer" 500 horas de trabalho suplementar para complementar o ordenado, em exclusividade. Com tanta hora extra e serviço  médico de duas dúzias de anos, tem o dever de saber o que se passa no SNS e particularmente no serviço de urgência que dirige. Mal, muito mal, a meu ver e explicarei porquê a seguir.

De acordo com uma experiência particular de que tive conhecimento, nesse serviço de urgência, há uns meses, poderão extrair-se ilações a propósito da competência profissional deste médico dirigente de um serviço, a contrastar com este tipo de afirmações que sacodem água do capote habitual, para cima de um "sistema" que pelos vistos o indivíduo não domina e apenas entrevê.  Procurarei fundamentar as razões para que se não diga que as críticas são gratuitas e infundadas.






Este médico "responsável pela unidade de urgência" entende que os sistemas de urgência funcionam mal porque se permite que as pessoas lá vão, por dá cá aquela palha de queixas anódinas. E também porque a maioria esmagadora dos médicos que prestam serviço de urgência são "tarefeiros" e sem especialidade que o mesmo julga ser necessária e até encontra uma explicação: interesses corporativos de médicos "internistas". Na primeira página da entrevista, são estas as razões essenciais que topa para o mau funcionamento das urgências, mormente no hospital central em que trabalha. Só estas razões deveriam ser mais que suficientes para se demitir ou nem sequer ter aceite o cargo, pois denotam uma má vontade contra o sistema que não controla e que não aceita como funcional. E tal com reflexos na mentalidade de gestão, obviamente, pois quem não gosta do sítio onde está e não consegue fazer melhor, não está lá a fazer nada de jeito. Antes pelo contrário.  

Na segunda página lá vem a comparação parola com a "Europa" e a insistência que o serviço de urgência deveria ser apenas para urgências verdadeiras, como acontece "lá fora", no "Norte da Europa". Até dá um exemplo da sua particular noção de urgência: na Suécia um braço partido não é situação de urgência! 

 Só esta menção é uma confissão de incompetência atroz, porque denota uma ridícula ausência de posicionamento geográfico e cultural.  Os portugueses não são do norte da Europa, são do Sul, mediterrânico, sempre o foram e nunca irão mudar! E isso é condição sine qua non para alguém entender um problema e o poder resolver. Querer à viva força que os portugueses tenham a cultura, rotinas, ambiente e hábitos dos povos estrangeiros é parolice pura. A comparação entre o Sheraton e o Ibis denota algo que não compreende e a médica citada identificou muito bem: as pessoas vão às urgências dos hospitais, em vez de ir a outros sítios porque podem e noutros sítios não são atendidos nem sequer o podem ser devidamente. O problema, para o "responsável" é dos "governos", das "autoridades". E portanto fora do seu âmbito de responsabilidade. O que está a fazer no cargo?!

Na terceira página continua a catilinária contra os "utentes" que o vão incomodar nas urgências e o problema do "covid" que afinal serviu de desculpa a muita coisa. Na página seguinte continua a sacudir a água do capote acusando a ausência de planificação central dos "governos" do sector. E até considera que "isto não é um problema de número de profissionais, mas de organização", como se soubesse resolver o problema! E é alguém que já foi "responsável pelo apoio de emergência médica ao Euro", em 2004, altura em que tomou conhecimento acerca do sistema de urgências da Suécia, pelos vistos. 

 Na última página faz profissão de fé no SNS apesar de o ter denegado nas páginas anteriores, batendo palmas a si próprio pela performance na "pandemia". Enfim. Conclui que "não tem nenhuma visão messiânica sobre como alterar o sistema, mas qualquer mudança teria de ser muito sustentada e reflectida". Claro, como se mostra nas páginas anteriores...

Agora um caso concreto em que este médico responsável pela urgência concreta do São João deveria ter reflectido em vez de alvitrar putativas visões não messiânicas sobre o sistema. 

Há uns meses atrás um casal do Norte, vindo do Algarve, necessitou de ir ao serviço de urgência da responsabilidade directa deste médico. O caso que afligia a mulher era aparentemente grave na medida em que a prostrou durante os dias anteriores e durante toda a viagem, com dores lancinantes, não lhe permitindo andar e obrigando-a a fazer a viagem deitada, no banco de trás do carro particular. 

Ao chegar ao serviço de urgência da responsabilidade deste médico,  a meio de uma tarde, deparou-se que não estava quase ninguém, nem sequer o habitual corropio de ambulâncias, típico de um serviço que segundo aquele médico atende "100, 150, 200" doentes por dia". Deveria por isso mesmo ser um dia atípico, no bom sentido e susceptível de permitir um melhor atendimento aos doentes. 

Ao chegar à porta da urgência, um qualquer doente ou acompanhante do mesmo, depara imediatamente com os "seguranças", ou seja, os elementos de uma empresa privada, aos pares que fazem de facto a "triagem" inicial. Como é sabido, estas pessoas de empresas de segurança privadas são geralmente carentes do mais básico dos sentidos de simpatia, afabilidade, cuidado e atenção e empatia, porque são recrutadas por empresas específicas para quem tais qualidades são absolutamente dispensáveis e porventura indesejáveis. Por esse motivo é vulgar encontrar nas suas fileiras ex-cadastrados já com ficha limpa como dizem os brasileiros. Conheço casos singulares e que deveriam fazer reflectir estes responsáveis pelos serviços de urgência e outros lugares. 

Pois bem! São estas pessoas e este género de gente que o responsável pelo serviço de urgência no hospital de São João tem a cargo para atender em primeira mão os "utentes" e pelos vistos tal não lhe provoca o mínimo reparo ou cuidado. Se lhe perguntarem qual a razão, dirá certamente que não são escolhas da sua responsabilidade, mas da administração. 

Porém é da sua inteira responsabilidade saber ou procurar informar-se como é que estas pessoas actuam em concreto e quantos casos de mau atendimento ou de queixas não apresentadas pelos utentes que farão parte dos tais  "100, 150, 200" doentes por dia". Muitos, certamente. E muitos mais que partem sem deixar registo de queixas porque "não vale a pena". E parece mesmo não valer. 

No caso particular do casal, cujo relato fidedigno me merece confiança, foi pedido a um desses "seguranças", infelizmente o que aparentava o ar de burgesso mais aperfeiçoado,  perante a prostração da mulher, no banco de trás do carro, aliás estacionado junto à porta de urgência, porque havia espaço e ocasião para tal, que "por favor" disponibilizasse uma maca para transportar a doente que não podia deslocar-se a pé por sentir muitas dores e lhe ser muito difícil tal deslocação. Resposta do "segurança": arranja-se uma cadeira de rodas! "Obrigado, mas a cadeira de rodas não serve para o caso, porque a dificuldade é em estar de pé ou sentada. Era mesmo precisa a maca". Na ausência de resposta, para além do evasivo "vou ver", passaram alguns minutos até que surgiu o mesmo dito cujo à porta, tendo-lhe sido então perguntado pela maca. "Ah! A maca! Estou a tratar disso, mas arranja-se uma cadeira de rodas...". "Não é a cadeira de rodas, mas a maca".  E depois de mais de cinco longos minutos de espera: " tem que ir fazer a inscrição primeiro e depois é que se pode ver se precisa da maca...". Pois, perante a indiferença do indivíduo, alheado totalmente do problema do "utente" a não ser para informar que era preciso fazer a "inscrição", lá foi o homem fazer a "inscrição". Como não estava ninguém na bicha dirigiu-se directamente ao guichet onde um funcionário com ar e cara de reforma lhe disse imediatamente: "já tirou a senha?" E perante a circunspecção do interessado, já aflito com as dores da mulher, deitada no carro e com a inoperância dos "responsáveis" pela "segurança", perguntou onde se tirava a senha, tendo obtido o gesto vago indicador de um sítio para ali, por trás de qualquer esquina visível. Lá tirou a senha e só depois é que recebido o papelinho o funcionário enfastiado e com ar de reformado, designou um número, não sem antes ter desatendido novo pedido de uma maca, porque tal incumbência não era dele, reformado com ar de funcionário, mas da "triagem". Nisto passou um bom quarto de hora. 

Perante a impossibilidade de se conseguir uma maca dos serviços da responsabilidade directa daquele médico dirigente da urgência, e o desespero de quem sofre, a mulher lá teve que sair ajudada pelo homem, com sofrimento visível e desesperado numa caminhada de algumas dezenas de metros, com a passividade e indiferença dos "seguranças" a ver o espectáculo, enquanto a mulher se contorcia de dores e sentava numa cadeira à espera da chamada, pelo sistema sonoro.

Felizmente e uma vez que não havia mais ninguém "à frente" ( devia ser um dia simpático para a urgência, talvez um daqueles com 100 doentes em vez dos 150 ou 200) lá foi chamada a mulher para a "triagem" quase a seguir, sempre com dores irreprimíveis,  insuportáveis e visíveis na expressão.  Dirigiu-se então para um sítio, distante alguns metros,  onde se encontravam alguns indivíduos não identificados, atrás de um écran de computador e o que atendeu, estava literalmente refastelado, mais propriamente esparramado ( segundo se apurou)  na cadeira, perguntando logo o que tinha a "utente". O homem acompanhante, perante a dificuldade da mulher em falar sequer,  lá tentou explicar que vinham do Algarve e nos dias anteriores já tinham ido às urgências de Albufeira e Faro e tinha diagnosticado uma inflamação no ombro, possivelmente uma luxação ( sério!, na urgência de Albufeira foi esse o diagnóstico) e talvez uma  "possível tendinite" e até tinha os registos dessas urgências, mostrando-os.  Como entretanto a mulher pedia para se deitar numa maca e tal ainda não lhe fora disponibilizado, o homem insistiu com o funcionário não identificado, com toda a evidência o responsável pela "triagem", para arranjar uma maca, antes de proceder a registos, devido às dores evidentes. Debalde! O mesmo funcionário, desinteressou-se e recusou depois que lhe fossem mostrados os registos dos "episódios de urgência" recolhidos naqueles hospitais, apesar de conterem toda a informação necessária para a aludida "triagem". 

Perante a impaciência do homem e a indignação por tamanha insensibilidade e incompetência, vinda logo da porta de entrada no serviço de urgência de que aquele médico é responsável, continuada na triagem, o mesmo disse que o serviço era de terceiro-mundo e que afinal se a mulher se tivesse deitado no chão teria sido bem melhor. O que o homem foi dizer! " Senhor Segurança! Ponha este senhor daqui para fora que está a perturbar o serviço!",  foi o resultado a impertinência. E o homem lá foi escoltado pelos dois seguranças da porta de entrada, enquanto lá ao fundo se mostrava atento um dos polícias da PSP de serviço. 

Uma vez que tal procedimento se mostrava abusivo, o homem entendeu fazer queixa ao polícia de serviço. É bom que se diga que o serviço de urgência do hospital de São João albergue nas mesmíssimas instalações de tal urgência, a escassos metros dos "guichets" de atendimento dos "utentes" um mini posto da PSP, com elementos vindos da esquadra do Bompastor. 

A administração do hospital achou por bem colocar nesse local um posto de PSP, a somar aos referidos elementos das empresas privadas de segurança para reassegurar a segurança do local. E o responsável pela urgência também deve estar de acordo porque não consta que seja o contrário. E os elementos que o compõem são de gabarito idêntico aos "seguranças", em formação humana, sensibilidade e empatia para com os "utentes", tal como só os agentes de polícia sabem ser. E daí a inutilidade de qualquer queixa contra os serviços e responsáveis, com quem os mesmos lidam ali mesmo, diariamente. Escrever no livro amarelo? Para quê?! E com que estado de espírito, em tais circunstâncias?

Então imagine-se: um serviço que atende todas as pessoas que lá vão em busca de socorro para doenças, desastres, acidentes, maleitas etc.  etc., desesperados alguns deles, com dores e padecimentos que obrigariam a um atendimento humano e humanitário, o mais possível próximo da afabilidade, tem logo na recepção, se calhar, um burgesso qualquer formado em "segurança" e com formação nula noutros aspectos e para reforço de tal aparato ainda pode dispor dos serviços da polícia! Será disto que têm nos países do Norte?! Será isto que o responsável pela urgência do São João, acima entrevistado, pretende mesmo?

Para concluir e não alongar mais, a mulher foi atendida por um médico, porventura dos tais "tarefeiros" de que se queixa amargamente o responsável pela urgência do São João. Só pode ter sido, aliás, perante a incompetência demonstrada e a arrogância escrita no registo do "episódio de urgência". Para além de não ter diagnosticado nada de acertado à mulher, receitou-lhe cortisona e morfina em dose substancial. 

E mandou-a para "o médico de família". Dali a alguns dias e um padecimento atroz, apenas minorado com quantidades de medicação ineficaz, a mulher foi diagnosticada num hospital particular, onde pagou a respectiva TAC que o SNS se recusa a fazer nos hospitais públicos,  com duas hérnias discais, passíveis de provocar dores lancinantes. Quanto ao "médico de família" teria ocasião de ver a "utente" cheia de dores e carente de medicação urgente, dali a dois meses. Ou mais. 

No registo do episódio de urgência feito por tal "tarefeiro", ainda ficou mencionado, para além de outras pérolas de boa educação,  que a utente tinha vindo do Algarve apesar de para lá ter ido quando já sentia algumas dores e que era de outra região do Norte do país, como se o serviço de urgência do São João não devesse aceitar utentes em carência de atendimento médico urgente. 

Ah! E a maca surgiu logo depois do atendimento pelo "tarefeiro", sendo certo que havia mais de meia dúzia delas, disponíveis nos corredores e visíveis para quem as procurasse...

Enfim, este é o retrato aprimorado de umas horas num dia qualquer de há uns meses atrás, no Verão, do serviço de urgência do hospital de São João do Porto de que aquele médico é responsável e que na entrevista se farta de dizer mal do SNS enquanto organização e ainda assim faz parte do mesmo. Sendo certo que este tipo de episódios de urgência, com estas pessoas, não devem ser caso único. 

Sobre isto é que o mesmo médico deveria ter sido entrevistado, porque sobre isto é que poderia e deveria dizer alguma coisa. Sobre o resto, enfim, já sabemos que não é da sua responsabilidade...

 

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso