No início dos anos sessenta do séc. XX. quando me dei conta
estava a ouvir falar dos americanos como indivíduos admiráveis e da nação
americana como a maior do mundo.
Em pequenos sinais mostravam-se coisas
que já tinham feito e nos influenciavam o gosto por motivos que a propaganda publicitária não explica
inteiramente.
Por exemplo, no domínio tecnológico, desde os
electrodomésticos, usando a electricidade cujo uso melhoraram até aos carros
cuja utilidade aumentaram.
Os nomes que comecei a ouvir em casa e fora dela soavam a
americano : Ford, Boeing, Nasa.
Os meios de divulgação destes fenómenos tornaram-se
inevitáveis com a publicidade e a invasão cultural através dos mass media, uma
expressão deles. O apelo da qualidade, apresentação e novidade era
irresistível.
A mostra que o cinema
dava do "american way of life", embora muito distante da nossa
maneira de viver era relativamente agradável
porque não tinha cheiro e a cor era
brilhante e solarenga. Mesmo nos dramas de Citizen Kane ou nas tragédias de E tudo
o vento levou, a estrutura da historieta prendia a atenção do espectador, pelo
modo profissionalíssimo da realização.
A aurea mediocritas americana suplantava
facilmente a nossa apagada e vil
tristeza vinda de um fado mourisco e por isso a colonização cultural pegou de
estaca no panorama nacional, desde muito cedo no séc. XX.
O nosso afamado cinema do pátio das cantigas dos anos 40 não
poderia competir com a indústria cinematográfica de Hollywood que impunha a
suas estrelas num planetário de fantasia. Os meios técnicos de produção, aliás,
eram deles, numa boa parte.
No jornal O Primeiro de Janeiro de 7 de Setembro de 1940, em plena guerra, há anúncio a filme de Edward G. Robinson e ao Tarzan de Johnny Weissmuller.
Poderá dizer-se que a partir do fim da II Guerra não há pai
para a disseminação na Europa da cultura
popular americana, de tal modo é invasiva e colonizadora.
E qual a razão principal? Salazar a disse em Novembro de
1946, na I Conferência da UNacional: "A história euro-americana que, para
os próximos decénios se afigura comum", porque o dilema consistia em
"fazer ou não o jogo russo para a destruição da Europa e a sovietização do
Mundo".
Os EUA tornam-se os lídimos representantes de uma nova ordem
internacional e para nosso azar estão contra nós...( capa da Time de 23 Julho
1946) e mesmo não sufragando a ideia de democracia que pretendem espalhar, perante
as nossas dificuldades económicas começamos a usufruir do plano Marshall.
Algumas imagens são do livro de Joaquim Vieira, Portugal anos 40.
Os anos 50 reforçam esta
participação económica americana na nossa economia, como o denotam
vários sinais do tempo. ( publicidade, carros, incluindo o que Salazar usava em férias e se encontra ainda hoje, num anexo da sua antiga propriedade no Vimieiro, como abaixo se mostra na última foto).
Imagem de O Mundo Ilustrado de Julho de 1952.
Imagem de O Mundo Ilustrado de Julho de 1952.
Até as histórias em quadradinhos têm cheiro americano a heróis e super-heróis,
mandrakes, tarzans e outros flash gordon.
O universo de Walt Disney já brilhava por cá há muitos anos e continuou nesse firmamento até hoje.
É por isso perfeitamente lógico que nos anos sessenta
ouvisse falar dos americanos como sendo "muito lá de casa" mesmo que
nos fossem estranhos no modo de vida.
Quando foi assassinado o presidente Kennedy, com quem
oficialmente tínhamos desaguisados por causa do Ultramar, o assunto tornou-se
consternação nacional, logo no rádio das primeiras notícias.
Portanto nesses anos sessenta Portugal estava já bem
colonizados culturalmente e não só pelos americanos.
Tal apresenta-se como facto e a questão é apenas saber se
foi bom para nós, tal coisa. Há quem
diga que não e que perdemos sempre na troca, porque nos abastardamos e vendemos espiritualmente a ideias mais fracas que as nossas.
Veremos se assim foi.