Aqui se explica melhor o que sucedeu:
No período conturbado dos finais do século XIX
português, a bancarrota de 1892, as intensas lutas políticas, o
entendimento do rumo seguido pela política externa após o ultimatum
britânico e a aproximação anglo-alemã para partilha dos territórios
ultramarinos portugueses, tiveram repercussões de fundo na acção
política dos sucessivos governos. Após o ultimatum britânico
grassam em Portugal, sobretudo em Lisboa, manifestações e clamores
contra a Inglaterra, numa clara pressão sobre o governo. Um primeiro
tratado entre a Inglaterra e Portugal foi rejeitado pela Câmara dos
Pares do Reino e pela Câmara dos Deputados e pela opinião pública em
geral. Face a esta situação, o governo de Luciano de Castro, do Partido
Regenerador, pediu a demissão.
Quando
estala a guerra anglo-boer, a opinião pública e alguma classe política
vêm uma oportunidade para mostrar o descontentamento com os britânicos.
“As principais fases do conflito, às quais o governo português esteve
directa ou indirectamente ligado”25, foram alvo de amplo debate político e dos principais periódicos portugueses.
É
através dos periódicos que se jogam as influências e as expressões
políticas. A orientação das redacções dependia da influência que os
maiores partidos exerciam através das suas equipas redactoriais. Era
através das redacções dos jornais que se captavam as opiniões públicas.26 Este facto é muito importante porque só os alfabetizados podiam votar.
Após os efeitos do ultimatum
e da aproximação anglo-alemã de 1898, a guerra anglo-boer foi
aproveitada pelos principais partidos, através das redacções dos
jornais, para a luta política, para influenciarem os decisores políticos
e mostrar aos governos estrangeiros a posição da opinião pública
portuguesa. Este facto não era bem visto aos olhos da diplomacia
portuguesa e britânica. Para o Marquês de Soveral, a actuação da
imprensa teve como impacto “ […] tirar a força moral aos representantes
do paiz [sic] junto dos governos das nações contendoras.”27
Os
ataques da imprensa à actuação da Inglaterra eram de tal maneira
contundentes que levaram o ministro de Inglaterra em Lisboa, Mac Donell,
a pedir ao Governo Português que interviesse de forma a não hostilizar o
governo de uma nação sua aliada. Aquele diplomata chegou a referir que,
à excepção de algumas personalidades políticas onde incluía D. Carlos, a
generalidade dos políticos era adversa aos interesses britânicos, como
consequência dos acontecimentos de 1890-91. Contudo, o gabinete de
Luciano de Castro nada podia fazer contra essa tendência sob pena de ser
conotado como subserviente da política britânica. De uma forma geral,
os principais partidos criticavam a actuação do governo de Luciano de
Castro face à sua posição, tirando partido da opinião pública pró-boer
quanto à neutralidade portuguesa, sendo mais contundente o Partido
Republicano, através do jornal diário A Pátria.
Para mostrar o que era a tal imprensa da época, nada melhor que o jornal satírico A Paródia do ano de 1900.
A Paródia de Junho de 1900:
A Paródia de Junho de 1900:
A Paródia de 9.5.1900
A Paródia de 17 Outubro 1900
40 anos depois, durante a II Guerra, Portugal tinha uma posição de neutralidade vigilante, muito por mor de Salazar e desta vez os ingleses não nos comeram as papas na cabeça. Mas esteve quase...como se pode ler nestas páginas de Os lugares tenentes de Salazar, recentemente publicado por Manuel de Lucena ( Aletheia). A questão centra-se em Armindo Monteiro, o embaixador português em Londres que acreditava numa vitória dos Aliados e por isso entendia que Portugal não deveria ficar neutral:
E como é que isto se explicava então aos portugueses que leram O Século, edição especial sobre o "duplo cententário"? Bem, tinha havido altos e baixos, mas estávamos num mar de rosas. Já lhes tínhamos dado Cochim e Tânger mais uns milhões de cruzados no séc. XVII, mas isso...se calhar na altura nem fazia parte da Pátria. E foi como dote de casamento de uma dama ilustre da Casa de Bragança, com um inglês de gema.
Aliás sobre os britânicos e as suas idiossincrasias nada melhor que este artigo de William Boyd, escritor escocês, publicado no jornal francês desdobrável ( literalmente), Le Un 1 e que é um jornal semanário e que já vai no nº 58, sendo quase todos eles coleccionáveis. Este tem data de 6 de Maio do corrente ano e o que o autor diz dos seus primos ingleses é que são tudo menos igualitaristas e se distinguem pelo sotaque. Sim, pelo modo como pronunciam o inglês que aprenderam, eventualmente nas escolas privadas. São aristocratas desde as classes mais baixas até às superiores que descendem directamente da realeza.