A propósito do lançamento do livro Cercado, da autoria de um jornalista da revista Sábado, Fernando Esteves, torna-se interessante tecer algumas considerações acerca do jornalismo caseiro.
O Observador publicou este excerto revelador:
José Sócrates é dono há 24 horas de uma maioria absoluta mas ainda não estreou o seu futuro gabinete em São Bento. No entanto, Caldeira não vai esperar que isso aconteça. Quer avançar já. Contacta Maria Rui, a assessora do líder do PS. Pretende confirmar as informações a que tivera acesso. A resposta é surpreendente: vão ajudá‐lo na procura da verdade.
Um dia depois, o professor recebe um telefonema da directora dos serviços jurídicos da Uni. Tem duas notícias para lhe dar: 1) claro que José Sócrates é licenciado; 2) obviamente que as informações pretendidas (notas, equivalências, resultados de exames, tudo o que fora colocado em causa no post do Porta Bandeira), são da reserva da intimidade da vida privada. Nada que trave Caldeira: no dia seguinte, a 23 de Fevereiro, publica mesmo o texto mais lido da história do Portugal Profundo: «Os cursos de Sócrates».
As acusações são esmagadoras. Se todas corresponderem à verdade, aproxima‐se do palácio de São Bento um tsunami político de considerável dimensão. Assim que a blogosfera toma contacto com o post assassino, a esquizofrenia instala‐se, nomeadamente entre os blogues políticos e jornalísticos. Uma agitação estranha, no entanto, porque se lhe segue um imenso, um estrondoso, um improvável silêncio. Ao contrário do que Caldeira espera, a imprensa mainstream não dá importância – leia‐se credibilidade – ao tema. Dentro das redacções, o autor do Portugal Profundo é visto como um senhor razoavelmente desequilibrado com demasiado tempo livre para escrever num blogue potencialmente irresponsável.
Assim que é informado da publicação, Sócrates fica furioso. Um «professorzeco» ousa colocar o seu estatuto em causa. Caldeira tinha feito o trabalho de casa. Ciente de que lidava com matéria inflamável, rodeou‐se de cuidados durante a investigação. Utilizava processos de comunicação encriptados e nunca usava o telemóvel ou o telefone fixo para conversas com fontes sensíveis – partia sempre do princípio de que poderia estar a ser escutado. Além disso, marcava os encontros pessoais com muito pouca antecedência. Objectivo: evitar preparativos de vigilância. Durante os encontros, desligava o telemóvel e removia a bateria. Escolhia frequentemente locais públicos, barulhentos e movimentados, de modo a complicar o trabalho de quem, eventualmente, pretendesse interceptar as conversas. A informação mais perigosa não era oralizada: escrevia‐a, codificada, à frente da pessoa com quem estava, destruindo o papel de seguida.
Teríamos de chegar a 2007 para que um jornalista de uma publicação de referência fizesse do assunto notícia. Ricardo Dias Felner, que era então responsável pela pasta de São Bento no Público, foi incentivado pela sua editora a pegar no tema. Pensou: e se isto for tudo verdade? E se o primeiro‐ministro tiver mesmo uma licenciatura irregular? Não tinha nada a perder. Decidiu avançar, mas não sem antes deixar um aviso ao director do jornal, José Manuel Fernandes:
– Vou fazer isto, mas vai dar merda. Vai ser violento, daqui a umas semanas não terei condições para continuar a fazer São Bento.
Os dias que se seguiriam seriam alucinantes – mesmo.
Tirando de lado a estúpida e suprema deselegância na descrição de António Caldeira como "um senhor razoavelmente desequilibrado", para dar uma imagem desnecessariamente subjectiva mas atribuída em modo desequilibrado a um putativo sentimento geral das redacções, vamos ao que interessa:
A investigação particular de António Caldeira, baseada em factos publicados e testados, marinou na blogosfera durante meses e meses. De facto, cerca de dois anos. E só veio a lume de jornal porque no Público estava um director que tinha ainda uma réstea de jornalista verdadeiro. Se fosse hoje, artsy, artsy e já estava tudo censurado interna e interiormente pelas barbaras reis e similares figueiredos. O Público é um dos instrumentos actuais da Nova Censura sempre actual. É uma censura de exame prévio às conveniências idiossincráticas de uma esquerda difusa que recusa investigar os seus.
Esta circunstância é que atesta o verdadeiro desequilíbrio da generalidade dos jornalistas, esse sim real e não inventado a preceito, porque eivado da ausência de postura vertical apanágio das colunas dos jornais honrados.
A generalidade do jornalismo nacional é bastardo e filho por isso de pais incógnitos que o alimentam. E esse é que é o verdadeiro desequilíbrio que aqueles jornalistas não denunciam porque nem querem vislumbrar.
Se não fosse o trabalho de A. Caldeira que afinal não foi mais do que persistência e tenacidade a par de meticulosidade na análise, não teríamos os factos como os conhecemos e tudo ficaria nas águas de bacalhau que é o prato que nos servem habitualmente, porque pensam que tal nos basta.
Se este jornalismo tivesse vergonha de si próprio e da desonra que representa, teriam já encetado mais investigações porque assuntos não faltam, em vez de dar a voz aos proenças de carvalho de vários matizes e que mandam neles como carreteiros, através de conselhos de administração.
Se assim não fosse, o jornalismo teria já evoluído na investigação, também encetada por António Caldeira, ao caso do apartamento de António Costa na Avenida da Liberdade e ao modo como o terá arrendado, para além de tudo o mais.
Obviamente é matéria de interesse público, relevante e até importante, na medida em que António Costa se considera já um primeiro-ministro virtual. Porque é que o Público não pega agora no assunto como pegou no caso da licenciatura de Sócrates nos idos de 2007?
A resposta está dada: o critério editorial não permite, tal como em 1973 ou nos primeiros meses de 1974 um Diário de Notícias não se metia por caminhos ínvios de investigação dos então "subversivos" ou de qualquer matéria melindrosa que putativamente pudesse ofender um poder que estava e tinha legitimidade legal para censurar previamente.
Agora não há essa legitimidade mas existe a de facto, real e plausível, todos os dias experimentada impunemente nas redacções cada vez mais uniformes dos jornais que existem. Com uma agravante: é exercida pelos próprios jornalistas internos em função das idiossincrasias ideológicas e até partidárias.
O jornalismo independente em Portugal não existe ou se existe é clandestino e nem aparece à luz das redacções. Aparentemente há medo nesses locais e a liberdade é menor do que a que existia em 1973. Exagero? É perguntar no Diário de Notícias, no Público ou até no Jornal de Notícias.
A propósito desta liberdade inexistente, aqui há uns meses surgiu um livro já por aqui anunciado. Como então escrevi, "Aurélio Cunha, um jornalista sem peneiras e que escreve de modo
escorreito, pegou em assuntos que lhe cheiravam a esturro e tentou
descobrir a origem do lume e a causa do odor."
Li algumas reportagens do livro que consignam a vida profissional deste distinto jornalista ( porque diferente de outros intelectuais do jornalismo e que se julgam provavelmente acima dessas tarefas de repórter, preferindo emitir opiniões) e recomendo vivamente a todos os jornalistas que o leiam. Para aprender e possivelmente despertar vocações escondidas de autênticos repórteres.
Aurélio Cunha era então e julgo ainda ser, um indivíduo de esquerda e que tinha preocupações sociais por causa disso, mas as suas reportagens estão isentas da pecha indigna da propaganda a favor da causa ou do enviesamento ideológico programado.
O ambiente jornalístico no então Jornal de Notícias, talvez o melhor jornal do país, de sempre, e portanto ainda hoje, no que se refere a jornalismo puro e duro, seria este:
O actual director do JN, Afonso Camões, foi lá colocado por indicação de quem se sabe. Em 2005 onde andava o Camões?
Afonso Camões foi administrador da Agência Lusa desde 2005, após a
vitória de José Sócrates nas eleições legislativas. Na altura foi
nomeado do lado da Controlinveste, a principal empresa privada no
capital da agência de notícias. Depois, em 2009 passou a presidente do
Conselho de Administração, cargo de onde saiu para a direção do JN em
maio de 2014
Pergunta-se ociosamente: em 2005 Camões não leu o que António Caldeira escreveu? Quis saber do assunto para alguma coisa, ou seja, foi jornalista, enquanto administrador da Lusa?
Não, claro que não porque era amigo do dito Sócrates e se tal fizesse tinha os dias contados nas administrações de jornais.
Porém, é deste jornalismo que se fazem as notícias em Portugal. Ainda hoje. Temos por isso um jornalismo cerceado, deixando espaço para que os verdadeiros repórteres como António Caldeira façam o que deveria competir aos profissionais da reportagem. Um mundo ao contrário? Nem por isso porque é o mundo nacional após o 25 de Abril de 1974.
Não há censura prévia mas persiste a censura das conveniências ideológicas, tácticas partidárias, interesses pessoais de alguns e uma pobreza informativa paradoxalmente ornada de profusão de notícias como nunca houve.
A prova? A completa ausência de sindicância à vida pessoalmente pública de António Costa, nos aspectos acima mencionados.