Marcello Caetano considerava ( no livrinho de que tirei alguns extractos, em baixo) que no conceito de opinião
pública se integram ideias melhor entendidas como
"correntes", uma vez que existe um fluir constante nessas categorias.
Haveria por isso "correntes profundas ancoradas em
crenças, hábitos e tradições, sentimentos e até preconceitos" que alicerçam a vida social e são desta
ordem os juízos dominantes sobre a família, a propriedade, a moralidade e a
religião que caracterizam uma cultura.
Depois haveria correntes intermédias constituídas pelas
"modas" que dominam épocas de maior ou menor duração. Apontava como
exemplo o uso da palavra "fascismo" cujo significado e semântica
variou ao longo de décadas. O mesmo ocorria com as palavras
"colónias" , "Império" ou "progressista". A força de determinação destas modas seriam
vagas ideológicas que na Europa assumiram modas liberais ou autoritárias,
liberais, socialistas, etc.
Por fim haveria a noção de "correntes
superficiais" de opinião que variavam frequentemente, quase em ritmo quotidiano acertado em
compasso com notícias sobre pessoas, factos, acontecimentos.
Ao mesmo tempo considerava Marcello que as transformações
tecnológicas do séc. XX estavam a acelerar o ritmo das mudanças profundas,
"prestando-se a transigência na moral, nos costumes e nos ritos" que
entendia como preocupante.
No domínio das correntes intermédias, das modas, também as
modificações no gosto decorreria de
forma mais acelerada quando as "belas-artes" ( literatura, teatro,
cinema, pintura ou música) entravam no
jogo, porque "as ideias, no seu estado puro, actuam nos espíritos de
élite, formam e conduzem os homens de escol e através destes influem poderosamente
na vida corrente. Mas a doutrina abstracta não penetra nas consciências da
grande massa e raramente impregna a inteligência comum enquanto não traduzida
em fórmulas práticas ou soluções concretas".
Assim, entre estas três correntes haveria continuamente uma relação de sobe e
desce, entre as profundas e as
superficiais e quando a influência das superficiais, das notícias, dos
acontecimentos, etc. é maior e mais
penetrante naquela profunda e enraizada, cultural, a modificação pode operar-se
criando uma crise de cultura.
O papel dos mass-media nestas modificações torna-se crucial
porque nos dão a imagem do movimento das modas, tendências e ao mesmo tempo nos
asseguram o ritmo dos factos e acontecimentos que por vezes os vão
condicionando e modificando, alterando lentamente a cultura de uma sociedade.
Estas opiniões individuais que se vão formando neste
processo dinâmico exprimem-se depois em sufrágio político.
Ora é neste resultado que se poderá revelar a alteração das
"opiniões" que influenciam já a cultura geral de um povo ou
sociedade.
Marcello e os governos do Estado Novo antes dele, tentaram
condicionar a propagação de modas entendidas como subversivas para o bem estar
social como o entendiam e criaram por isso uma censura permanente aos órgãos de
informação, muito para além da estrita necessidade de o Estado defender os seus
valores intrínsecos de segurança e estabilidade institucional, mormente em
tempo de guerra com outros povos animados de ideologia antagónica, como era o caso dos
movimentos terroristas nas antigas províncias ultramarinas ( que tinham sido "colónias"
durante algunas décadas na primeira metade do séc.XX).
Esta Censura permanente que atingiu aquele núcleo das
"modas" propagadas pelos países que nos rodeavam geograficamente e em
que estávamos inseridos culturalmente ( Europa e Estados Unidos) foi fatal para que em 25 de Abril de 1974 se deparasse ao
povo que vota e escolhe politicamente, uma ausência de referências precisas e
esclarecidas sobre essas modas e tendências.
Ao invés do que acontecia nos grandes e pequenos países da
Europa e nos EUA, Portugal era um país relativamente fechado e imune a certas modas,
como o exercídio democrático do voto que congregasse representantes de ideias
que fossem consideradas subversivas para o regime, tal como o comunismo e o
socialismo ainda marxista.
Essa circunstância, a meu ver, condicionou de modo determinante
o resultado do processo revolucionário que cursou durante a segunda metade do
ano de 1974 e cavalgou todas as ondas no ano de 1975, transformando-o em moda a seguir por toda a gente dos media e
que por sua vez replicaram o fenómeno em
progressão geométrica.
Não obstante, permanece por esclarecer, para mim, por que
motivo ocorreu essa mudança de moda de forma tão repentina e aparentemente súbita, com uma influência
tão devastadora na cultura nacional que até então se vivia, modificando por isso a corrente profunda da opinião.
Das duas uma: ou já se tinha modificado internamente, no
espírito das pessoas e portanto foi apenas uma revelação consequente ou então
surgiu ex-nihilo , de rompante, como um furacão ideológico que varreu os
ventinhos que sopravam antes.
Seja o que for, o que sucedeu nesses meses e anos posteriores foi um autêntico tsunami cultural, para ficarmos nas imagens meteorológicas que acompanham os "ventos da História", expressão típica de uma dessas modas.
E que razões concretas teriam suportado tal mudança? E que motivos a podem explicar?
Para mim, apresentam-se dois: a Censura anterior e o apelo ideológico da igualdade, fraternidade e solidariedade, do socialismo democrático, essencialmente. Ou da social-democracia que vai dar ao mesmo, anos depois, aqui em Portugal, tal como na Europa já tinha dado antes. Ou seja, o que resulta de uma das correntes de moda política dos tempos que então corriam.
Foi esse apelo ideológico irresistível que sufragou as escolhas políticas que então se fizeram, por uma razão, a meu ver: as pessoas em geral, realmente não estavam preparadas para a escolha totalmente livre, por desconhecimento.
Marcello e Salazar tinham inteira razão nesse aspecto, mas paradoxalmente foram os obreiros principais desse "obscurantismo", ao proibirem a difusão maciça de mensagens, notícias, ideias, debates e no fim de contas cercearem a propagação de outras modas que contrariassem aquelas, nefastas e que nos prejudicaram colectivamente nas últimas décadas.
E com um efeito perverso: não conseguiram impedir as "elites" de acederem a tais modas e cortaram efectivamente ao povo em geral, o que vê tv de concursos e telenovelas ou o que apreciava o "festival da Eurovisão" , a possibilidade de acesso a tais informações do mesmo modo que se fazia na Europa.
A Censura extrema ao comunismo e socialismo marxista impediu que as pessoas ficassem a conhecer a verdadeira face de tais ideologias e pudessem escolher livremente quando lhe deram oportunidade para tal. Em Abril de 1975 tal fenómeno tornou-se notório, com as primeiras eleições ditas livres, em mais de 40 anos.
Livre foram, mas apenas naquele contexto das novas modas...
Seja o que for, o que sucedeu nesses meses e anos posteriores foi um autêntico tsunami cultural, para ficarmos nas imagens meteorológicas que acompanham os "ventos da História", expressão típica de uma dessas modas.
E que razões concretas teriam suportado tal mudança? E que motivos a podem explicar?
Para mim, apresentam-se dois: a Censura anterior e o apelo ideológico da igualdade, fraternidade e solidariedade, do socialismo democrático, essencialmente. Ou da social-democracia que vai dar ao mesmo, anos depois, aqui em Portugal, tal como na Europa já tinha dado antes. Ou seja, o que resulta de uma das correntes de moda política dos tempos que então corriam.
Foi esse apelo ideológico irresistível que sufragou as escolhas políticas que então se fizeram, por uma razão, a meu ver: as pessoas em geral, realmente não estavam preparadas para a escolha totalmente livre, por desconhecimento.
Marcello e Salazar tinham inteira razão nesse aspecto, mas paradoxalmente foram os obreiros principais desse "obscurantismo", ao proibirem a difusão maciça de mensagens, notícias, ideias, debates e no fim de contas cercearem a propagação de outras modas que contrariassem aquelas, nefastas e que nos prejudicaram colectivamente nas últimas décadas.
E com um efeito perverso: não conseguiram impedir as "elites" de acederem a tais modas e cortaram efectivamente ao povo em geral, o que vê tv de concursos e telenovelas ou o que apreciava o "festival da Eurovisão" , a possibilidade de acesso a tais informações do mesmo modo que se fazia na Europa.
A Censura extrema ao comunismo e socialismo marxista impediu que as pessoas ficassem a conhecer a verdadeira face de tais ideologias e pudessem escolher livremente quando lhe deram oportunidade para tal. Em Abril de 1975 tal fenómeno tornou-se notório, com as primeiras eleições ditas livres, em mais de 40 anos.
Livre foram, mas apenas naquele contexto das novas modas...