sábado, maio 16, 2015

As opiniões mutantes

Recomenda-se a leitura deste texto, o qual comento do seguinte modo:



Marcello Caetano considerava ( no livrinho de que tirei alguns extractos, em baixo) que no conceito de opinião pública se integram  ideias melhor entendidas como "correntes", uma vez que existe um fluir constante nessas categorias.
Haveria por isso "correntes profundas ancoradas em crenças, hábitos e tradições, sentimentos e até preconceitos"  que alicerçam a vida social e são desta ordem  os juízos dominantes sobre a  família, a propriedade, a moralidade e a religião que caracterizam uma cultura.
Depois haveria correntes intermédias constituídas pelas "modas" que dominam épocas de maior ou menor duração. Apontava como exemplo o uso da palavra "fascismo" cujo significado e semântica variou ao longo de décadas. O mesmo ocorria com as palavras "colónias" , "Império" ou "progressista".  A força de determinação destas modas seriam vagas ideológicas que na Europa assumiram modas liberais ou autoritárias, liberais, socialistas, etc.
Por fim haveria a noção de "correntes superficiais" de opinião que variavam  frequentemente,  quase em ritmo quotidiano acertado em compasso com notícias sobre pessoas, factos, acontecimentos.
Ao mesmo tempo considerava Marcello que as transformações tecnológicas do séc. XX estavam a acelerar o ritmo das mudanças profundas, "prestando-se a transigência na moral, nos costumes e nos ritos" que entendia como preocupante.
No domínio das correntes intermédias, das modas, também as modificações no gosto decorreria  de forma mais acelerada quando as "belas-artes" ( literatura, teatro, cinema, pintura ou música)  entravam no jogo, porque "as ideias, no seu estado puro, actuam nos espíritos de élite, formam e conduzem os homens de escol e através destes influem poderosamente na vida corrente. Mas a doutrina abstracta não penetra nas consciências da grande massa e raramente impregna a inteligência comum enquanto não traduzida em fórmulas práticas ou soluções concretas".
Assim,   entre estas três correntes  haveria continuamente uma relação de sobe e desce,  entre as profundas e as superficiais e quando a influência das superficiais, das notícias, dos acontecimentos, etc.  é maior e mais penetrante naquela profunda e enraizada, cultural, a modificação pode operar-se criando uma crise de cultura.
O papel dos mass-media nestas modificações torna-se crucial porque nos dão a imagem do movimento das modas, tendências e ao mesmo tempo nos asseguram o ritmo dos factos e acontecimentos que por vezes os vão condicionando e modificando, alterando lentamente a cultura de uma sociedade.
Estas opiniões individuais que se vão formando neste processo dinâmico exprimem-se depois em sufrágio político.

Ora é neste resultado que se poderá revelar a alteração das "opiniões" que influenciam já a cultura geral de um povo ou sociedade.
Marcello e os governos do Estado Novo antes dele, tentaram condicionar a propagação de modas entendidas como subversivas para o bem estar social como o entendiam e criaram por isso uma censura permanente aos órgãos de informação, muito para além da estrita necessidade de o Estado defender os seus valores intrínsecos de segurança e estabilidade institucional, mormente em tempo de guerra com outros povos animados de  ideologia antagónica, como era o caso dos movimentos terroristas nas antigas províncias ultramarinas ( que tinham sido "colónias" durante algunas décadas na primeira metade do séc.XX).
Esta Censura permanente que atingiu aquele núcleo das "modas" propagadas pelos países que nos rodeavam geograficamente e em que estávamos inseridos culturalmente ( Europa e Estados Unidos)  foi fatal para  que em 25 de Abril de 1974 se deparasse ao povo que vota e escolhe politicamente,  uma ausência de referências precisas e esclarecidas sobre essas modas e tendências.
Ao invés do que acontecia nos grandes e pequenos países da Europa e nos EUA, Portugal era um país relativamente fechado e imune a certas modas, como o exercídio democrático do voto que congregasse representantes de ideias que fossem consideradas subversivas para o regime, tal como o comunismo e o socialismo ainda marxista.
Essa circunstância, a meu ver, condicionou de modo determinante o resultado do processo revolucionário que cursou durante a segunda metade do ano de 1974 e cavalgou todas as ondas no ano de 1975, transformando-o  em moda a seguir por toda a gente dos media e que por sua vez replicaram o fenómeno  em progressão geométrica.
Não obstante, permanece por esclarecer, para mim, por que motivo ocorreu essa mudança de moda de forma tão repentina e aparentemente súbita, com uma influência tão devastadora na cultura nacional que até então se vivia, modificando por isso a corrente profunda da opinião.
Das duas uma: ou já se tinha modificado internamente, no espírito das pessoas e portanto foi apenas uma revelação consequente ou então surgiu ex-nihilo , de rompante, como um furacão ideológico que varreu os ventinhos que sopravam antes.

Seja o que for, o que sucedeu nesses meses e anos posteriores foi um autêntico tsunami cultural, para ficarmos nas imagens meteorológicas que acompanham os "ventos da História", expressão típica de uma dessas modas. 

E que razões concretas teriam suportado tal mudança? E que motivos  a podem explicar?

Para mim, apresentam-se dois: a Censura anterior e o apelo ideológico da igualdade, fraternidade e solidariedade, do socialismo democrático, essencialmente. Ou da social-democracia que vai dar ao mesmo, anos depois, aqui em Portugal, tal como na Europa já tinha dado antes. Ou seja, o que resulta de uma das correntes de moda política dos tempos que então corriam.
Foi esse apelo ideológico irresistível que sufragou as escolhas políticas que então se fizeram, por uma razão, a meu ver: as pessoas em geral, realmente não estavam preparadas para a escolha totalmente livre, por desconhecimento.
Marcello e Salazar tinham inteira razão nesse aspecto,  mas paradoxalmente foram os obreiros principais desse "obscurantismo",  ao proibirem a difusão maciça de mensagens, notícias, ideias, debates e no fim de contas cercearem a propagação de outras modas que contrariassem aquelas, nefastas e que nos prejudicaram colectivamente nas últimas décadas.
E com um efeito perverso: não conseguiram impedir as "elites" de acederem a tais modas e cortaram efectivamente ao povo em geral, o que vê tv de concursos e telenovelas ou o que apreciava o "festival da Eurovisão" , a possibilidade de acesso a tais informações do mesmo modo que se fazia na Europa. 

A Censura extrema ao comunismo e socialismo marxista impediu que as pessoas ficassem a conhecer a verdadeira face de tais ideologias e pudessem escolher livremente quando lhe deram oportunidade para tal. Em Abril de 1975 tal fenómeno tornou-se notório, com as primeiras eleições ditas livres, em mais de 40 anos.
Livre foram, mas apenas naquele contexto das novas modas...


Questuber! Mais um escândalo!