Sobre a presença portuguesa em África, durante centenas de anos até à nossa saída atabalhoada e indigna, com prejuízos directos para centenas de milhar de portugueses e indirectos para milhões de outros, mormente indivíduos nativos de Angola e Moçambique , muito se escreveu, mas o discurso oficioso e politicamente correcto é no sentido da afirmação de que houve uma "descolonização exemplar".
Para entender melhor as causas desse descalabro torna-se necessário conhecer os antecedentes e nomeadamente os esforços diplomáticos de Portugal em lidar internacionalmente com tal situação.
Um livro recente- Portugal e o Fim do Colonialismo, edições 70, Maio de 2014, - que tem uma recolha de textos de vários autores sobre o assunto, ajuda a perceber tal contexto. Um dos textos é de Bruno Cardoso Reis, um "estudo" pós doutoral financiado pela UE ( 7º programa quadro) , intitulado As primeiras décadas de Portugal nas Nações Unidas- Um Estado pária contra a norma da descolonização.
A determinada altura o autor coloca em equação o problema colonial belga e o nosso e compara a atitude da Bélgica e de Portugal perante a ONU, após a entrada de Portugal ( em 1955) para a Organização.
A Bélgica era um pequeno país como o nosso. Tinha em África o Congo a que dava a mesma importância que Portugal às suas Províncias. Era tudo Nação. Porém, em 1960 saiu de lá, apressadamente, como Portugal o fez...15 anos depois.
Porquê a diferença de perspectivas e resoluções?
O autor escreve que nessa altura só a Grâ-Bretanha e Portugal mantinham a posição mundial de potências coloniais antigas. O governo britânico nunca ponderou seriamente resistir aos "ventos da História". Portugal, pelo contrário até fez gala nisso mesmo e aguentou a guerra durante 14 anos, desafiando a ONU a até com relativamente bons resultados, particularmente em relação aos americanos que nos anos setenta já se acomodavam à posição portuguesa, não interferindo nem insistindo muito com tal questão. Por causa dos Açores, deve dizer-se e o autor diz. Portugal não se vendeu, mas alugou-se, em parte, recebendo uma renda por isso.
Porém, a comparação entre os belgas e nós tem muito interesse porque mostra até que ponto Portugal construiu uma espécie de ficção, ao mudar a designação de colónias, em 1951, para "Províncias", com tudo o que isso trouxe de coerência à resistência aos ventos históricos e de enformação da ideia de Pátria, com a legitimidade para a defender.
Portanto, poderia indagar-se, e o autor tenta, sobre as razões por que Portugal mudou de alguma forma o sentimento que havia em relação aos territórios de África até aos anos cinquenta e a partir daí.
Ora neste sentimento tomou lugar, mais uma vez, o Mito da Nação e da Pátria dos antepassados. Serviu muito bem, esse Mito.
A Bélgica apresentava uma diferença de vulto em relação a Portugal: era um reino com democracia parlamentar. Portugal tinha o regime de Salazar. A Bélgica era, segundo julgo, um país essencialmente conservador e de velhos costumes. Portugal também. A Bélgica é o país de Hergé e Tintin que não era um modelo "progressista". Portugal ainda era o país dos salazaristas mais salazaristas que Salazar. E talvez isso tenha feito toda a diferença.
Nos anos sessenta, porém, o mundo mudou e as pessoas com ele. A prova: está nos costumes que a publicidade documenta e retrata.
Século Ilustrado de 8.4.1967
Flama, 19.5.1967
Século Ilustrado 21.9.1968
Flama, 4.12.1970
Este já não era o país de Salazar ou Franco Nogueira e foi isso que ditou o 25 de Abril de 1974. Salazar e Franco Nogueira nada poderiam fazer porque não fizeram o suficiente quando puderam. Marcello Caetano já é de outra época porque soube acompanhar o Tempo e ainda assim, lentamente.