segunda-feira, novembro 25, 2019

Música Popular portuguesa antes de 1974

Não é fácil fazer uma resenha do que era a música popular portuguesa antes de 25 de Abril de 1974 ( nem depois...) na medida em que não há muitos elementos documentais disponíveis. Admira até que as escolas que agora estão carregadinhas de teses de mestrado e doutoramento, algumas delas arquivadas para o olvido permanente, não tenham estudos do género musical em causa, disponíveis para consulta.

Tal estudo deveria centrar-se nas obras musicais e artistas que havia nessa época e que vendiam discos gravados, afinal suporte dos registos de tais obras, bem como os respectivos editores.

Afinal, a música popular em Portugal tinha alguma expressão nas décadas dos anos 50 e 60 e não era apenas o fado, a canção de "revista" ou os ranchos folclóricos que dominavam o panorama musical.
Uma parte da dificuldade advém de nem existir registo certo de tabelas de vendas em discotecas ou no mercado regular dos discos então editados e passados muitos deles nos rádios.

Havia uma ou outra revista dedicada a temas de tv ou rádio, como a TV, por exemplo neste número de 5.3.1964 e que mostrava alguma coisa do que era a música popular da época. No caso António Calvário e as melodias de sempre, com Madalena Iglésias, Paula Ribas e outros que também cantavam fado e música ligeira, como Maria da Fé, António Mourão, o Trio Boral e alguns mais. No Porto era impossível não dar pelo Conjunto António Mafra e as músicas que saíam em singles e ep´s ( quatro musiquetas por disco em vez das duas usuais, nos singles). Foi também nesta altura, meados dos sessenta que apareceu um artista popular que procurava singrar nas letras maliciosas e nas músicas trazidas dos folclore mais chão ou de um estrangeiro já abrasileirado. Quim Barreiros. Marco Paulo, Gabriel Cardoso e outros viriam logo a seguir para enfeitar páginas e páginas da Plateia, revista da especialidade já com muitos anos de experiência.



Em Janeiro de 1969 a revista Plateia publicava resultados de um concurso nacional acerca dos rei e rainha do espectáculo e na quinta votação os resultados mostravam bem o panorama cultural, geral, em Portugal:


Mas havia outros gostos, a assegurar um certo ecletismo, mesmo na revista:


Em 1 de Abril de 1965 começara  no rádio ( Rádio Clube Português) um programa que representou uma alteração substancial no gosto comum aos demais programas e que se compunha com aqueles artistas que passavam geralmente em programas de "discos pedidos" depois de se dizer uma frase publicitária.
O Em Órbita, cuja história já se contou aqui, e ainda mais aqui, foi apresentado assim no Século Ilustrado de 14.1.1967:



Tinha gosto próprio que era o dos apresentadores e realizadores, jovens universitários que passavam geralmente música popular de expressão anglo-saxónica e até faziam listas de preferências anuais, neste caso do ano de 1966. Os Beatles eram então os reis destes tops que prescindiam do António Mafra ou do fado de Alfama e Mouraria e mesmo dos festivais das canções locais.


A partir de 1968 algo começou a mudar no panorama musical e de cultura popular e não teve a ver com a queda de Salazar e a modificação ligeira do regime, com Marcello Caetano.

Os costumes que vinham lá de fora e  eram seguidos por cá, com atraso de meses ou anos, também se reflectiam na mudança de gosto musical

Começou a aparecer um ou outro artista, fora desse panorama que lançava um ou outros single, com músicas interessantes.

Alguns desses singles, cantados em português e publicados até 1974:


Na segunda metade do ano de 1969, perfazendo agora 50 anos, surgiu outro fenómeno na música popular que foi ampliado por um programa de tv chamado Zip Zip: os cantores de baladas, ou os baladeiros, depois trasnformados em "cantores de intervenção", ou seja propagandistas políticos da esquerda comunista.

A reportagem da Flama de 6.6.1969:


Foi nesse programa que se publicitou com maior espavento o tal fenómeno dos "baladeiros", logo com um certo Manuel Freire que cantou Pedra Filosofal, um poema de António Gedeão, e que se tornou um tema muito popular na altura. A letra pouco tem de político mas começa com o verso "eles não sabem que o sonho...", como é próprio da ideologia certa a caminho da utopia, ou seja o comunismo.

O Zip Zip foi um fenómeno de comunicação televisiva porque era um programa inovador e bem feito, uma mistura de "talk show" com variedades escolhidas a dedo para mostrar o que havia de novo para alterar o status quo. Os autores- Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz- misturavam o conformismo com a inovação temática que rapidamente descambava na oposição ao regime manipulada pelos mesmos de sempre, ou seja, os comunistas e socialistas. Resultado: a Censura não deixou continuar, logo no final de 1969.
Os convidados eram todos do "contra", as ideias começavam a ser perigosas para o regime e em vez de se permitir a abertura, o regime fechou-se um pouco mais, deixando os censurados com queixas de almas sensíveis e vitimização contra o fassismo, razões para arremeter ainda mais, ajudando ao resultado que se viu logo a seguir a 25 de Abril de 1974.

Ainda assim quem é que publicava os discos de tais queixumes de almas censuradas? Havia um indivíduo no Porto que tinha uma editora fundada em 1956 e que se dedicava a todo o género de música, incluindo naturalmente a dos ranchos folclóricos.
A Orfeu era eclética e começou a publicar os singles dos cantores proibidos de exprimirem as verdadeiras ideias, ou seja, comunistas. O seu proprietário e patrocinador daquelas vítimas do fassismo era Arnaldo Trindade, aqui numa foto recente, por ocasião de uma comemoração da Orfeu, que aliás foi vendida logo no início dos anos oitenta à multinacional Movieplay. O Jornal de Notícias do Porto publicou no início deste ano uma entrevista que titulou "O burguês que deu voz á liberdade!", como se fosse mesmo assim e com a linguagem própria da música de intervenção:


A grande obra, de mérito, de Arnaldo Trindade nem é essa, mas sim esta: a publicação das cantiguinhas do Conjunto António Mafra, por exemplo e sans blague:


Ou mesmo esta, de qualidade mais duvidosa, mas popular:


Claro que misturar esta tema do Emigrante, com o tema Por terras de França daquele José Mário Branco é capaz de ser um golpe fatal na coerência, mas enfim, louve-se o esforço do senhor Arnaldo a quem a cultura popular portuguesa muito deve.

Outro acontecimento de vulto, no final de 1969 foi o lançamento da revista Mundo da Canção, também no Porto e com redacção pejada de comunistas então ainda encapotados. E quem figurou na capa do primeiro número? O inefável Padre Fanhais que também gravava para a Orfeu ( ver o primeiro disco, acima na imagem) .
Atente-se na letra da cantiga que este padre cantava...e que a revista publicou, tal como publicou o tema em francês de Jean Ferrat. Jean Ferrat? Quem é que conhecia este cantor francês? Ora, ora: os comunistas, como ele...e que prometiam na revista publicar mais letras desse disco de 1969 no caso de os pedidos se justificarem. Justificaram...








Aquele Fanhais também foi ao Zip Zip cantar À Saída do Correio, ou pelo menos esteve programado para tal uma vez que o disco que o programa editou,  em 1969 continha tal tema. Tal como continha o tema Frère, souviens toi! de um certo cantorileiro da faculdade de letras de Lisboa, de nome José Barata Moura. Comunista também.
E também "Fonte de água vermelha" cantada por Hugo Maia de Loureiro, dos festivais da canção.

Estes festivais organizados pela RTP todos os anos, nessa altura, eram o viveiro preferido dos poetas, cantores e artistas de oposição, incluindo muitos comunistas, com destaque para o poeta José Carlos Ary dos Santos.  E também Pedro Osório, este de pendo do socialismo democrático, já falecido e opositor ao fassismo, tal como outros. Havia ainda um tal Rui Ressurreição, amigo de quem? De Proença de Carvalho, um dos membros mais conhecidos do famoso trio los dos, ou o contrário que dá para tudo.

O Zip editou depois vários discos, incluindo um single magnífico, Ar Livre, de um esquecido Rui Silva. Do Zip também é a Pedra Filosofal cantada por Manuel Freire.


Mas outro disco fabuloso, neste caso de Fernando Tordo, outro antifassista notório e publicado em 1973, com o título O Café, é da...Orfeu.

E um dos melhores singles da música portuguesa, aliás para mim o melhor, foi publicado em 1970 por Luís Rego, pela Vogue-Pathé, em França e chama-se Amor Novo que muito pouca gente conhece.
E outro também fabuloso, do mesmo ano: "Ó pastor que choras", de Fausto, outro radical da extrema-esquerda e que gravava para a Philips, uma empresa benfeitora e mecenas destes artistas.


A revista Mundo da Canção cujo lançamento perfaz agora 50 anos, foi o veículo ideal para estes artistas, todos antifassistas e para a propaganda das suas ideias em letras de canções, desde 1969 até bem depois do 25 de Abril de 1974, apanhando o combóio de extrema-esquerda quando passou à porta, algures no Porto de um Pacheco Pereira e afins.


Em 1974 foi por isso o delírio na redacção! Mas durou pouco tempo. Durante o ano de 1974 praticamente a revista nem apareceu e só em Novembro surgiu com outra redacção, agora de um tal A. José Fonseca  que se insurgia contra a anterior, de um tal Mário Correia. Aquele de extrema-esquerda radical, este do comunismo ortodoxo...tendo vencido a ala dura do comunismo radical.

Logo em Maio de 1974 os cantores das baladas e do protesto, auto-apelidados  "trabalhadores culturais", reuniram-se em "Colectivo de Acção Popular" e assinaram assim, prenunciando um GAC, de um José Mário Branco:


Estavam lá quase todos e os que ainda são vivos nada esqueceram e nada aprenderam e continuam a bloquear ou a tergiversar...excepto um ou outro que preferiu abraçar causas mais concretas e confortáveis. Por exemplo, José Jorge Letria...

Esta história já foi contada por aqui em várias ocasiões, mas convém lembrar a quem já esqueceu e mostrar a quem não teve ocasião de saber porque era novo ou porque nunca se interessou por tal.

De resto  contributos para tal história, neste caso de um modo hagiográfico,  há em dois livrinhos de Eduardo Raposo, esgotados.



O saber não ocupa lugar, dizia a minha saudosa professora da escola primária e saber estas coisas ajuda a compreender porque somos ainda hoje uma sociedade atrasada. Ao contrário do que pretendiam esses cantores de intervenção não era bem a liberdade que nos queriam dar, enquanto povo, mas uma nova servidão, da que se praticava nos países de Leste e que os respectivos povos enxotaram de vez, no final dos anos oitenta do séc. XX.

Por cá, muito por culpa deste desconhecimento continuam a tratar estes lídimos representantes do totalitarismo comunista como arautos da Liberdade! Até o presidente da República que tinha obrigação de saber que isto é um embuste de todo o tamanho...

A  última do nosso presidente: está a pensar em condecorar Jorge Jesus, o treinador que ganhou a Taça dos Libertadores e o campeonato brasileiro de futebol, para o clube que representa, o Flamengo, brasileiro, por supuesto...ahahahah! Incrível!



domingo, novembro 24, 2019

25 de Novembro de 1975, 44 anos depois

Este artigo de Helena Matos, no Observador,  merece leitura. Um excerto:

Mas o 25 de Novembro nunca foi uma vitória da direita mas sim e sobretudo um acerto de poder dentro da esquerda: a chamada esquerda moderada entendeu que chegara a hora de travar a legitimidade revolucionária que os radicais pretendiam impor. Para o PCP essa não era necessariamente uma má notícia, pelo menos a médio prazo: com Angola já na esfera da URSS e sem o indispensável apoio dos soviéticos para construir uma Cuba na Europa, o PCP negociou o seu futuro com Melo Antunes e na madrugada do 25 de Novembro deixou só a extrema-esquerda na rua e mais solitários ainda os operários que na margem sul esperavam pela ordem para virem defender a revolução em Lisboa.


Lendo o que o Jornal de 5.12.1975, escrevia, citando um dos protagonistas do golpe falhado, percebe-se melhor a ideia básica: o PCP pôs-se de lado, mas a acompanhar os acontecimentos. Quando deu para o torto, fingiu que não tinha nada a ver com o assunto...


Afinal  esta ideia  seria expressa na semana a seguir, por um esquerdista que foi do PCP e se camaleonou sucessivamente em artigos atrás de artigos até desaparecer há uns anos atrás...

O Jornal, 12.12.1975:


A explicação do que se passou a seguir, até hoje, está aqui bem dada no mesmo número do O Jornal:


E o problema da inexistência de uma direita que agora se Chega a vislumbrar, também:


Aliás, o trotskismo militante nunca deixou de funcionar, como a ferrugem e tudo documentado no mesmo número de O Jornal:



Esta direita deixou de aparecer porque afinal nunca existiu:



E o resto já se sabe como foi, até hoje porque a Constituição é que manda e quem a fez sabia muito bem o que fazia, como se dizia no dia 1 de Abril de 1977:


Por isso mesmo, Marcello Caetano, do Brasil dizia o que pensava, em 18.8.1978, cerca de dois anos antes de desaparecer:




Por isso acho que o 25 de Novembro de 1975 e o que se lhe seguiu, fica assim melhor explicado. Se o Chega entende isto, não sei. Suspeito que não, mas devia entender.

sábado, novembro 23, 2019

Ao cuidado da Joacine que sabe pouco de Portugal...

...e da Van Dunem que não sabe muito mais:

Dá-se conta da morte de Eduardo Nascimento, um angolano e que tal como a tal Van Dunem, foi português e depois quis continuar a ser, depois de ter representado o país num festival da Eurovisão, quando este acontecimento mundano e musical significava muito mais que hoje no panorama cultural. Foi em 1967, ainda Salazar estava vivo e de boa saúde...
 Sec. Ilustrado de 8.4.1967:



As Joacines e as van Dunem não sabem que nessa altura, em Portugal não havia pretos e brancos, como raças distintas e discriminadas por isso. Havia pessoas e não se falava de racismo, como hoje essas falam.

A música panfletária de José Mário Branco, antes de 1974


Observador, crónica de Alberto Gonçalves, sobre JMB:

(...)
Mantenho que JMB era melhor músico do que os seus pares do “canto de intervenção”. Não é grande proeza: quase todos os pares eram de uma indigência medonha. Por muito que tentem, os militares de Guantánamo não arranjam forma de tortura comparável à “Pedra Filosofal” de Manuel Freire. E quem diz o sr. Freire diz as dezenas de “baladeiros” que, de tanto educarem as massas, não aprenderam quatro ou cinco acordes. A verdade é que em Novembro de 2019 as canções de JMB soaram-me insípidas, derivações suburbanas das “recolhas” de Giacometti com uns pozinhos ocasionais de “chanson”. As letras, para lá do programa ideológico, são sentimentalismo adolescente. Os arranjos, às vezes curiosos, são puro 1970 e puro Terceiro Mundo. A voz é fracota e zangada. O GAC é repugnante. “Inquietação”, não fosse cantada naquele tom de fiscal antipático e não tivesse subtraído a imagem central a Pessoa, não é má. Em suma, é possível que JMB seja um dos nomes maiores da música popular portuguesa, o que é igual a falar nos vultos imortais da ópera do Sudão. Para efeitos práticos, tirando Amália e talvez Carlos Paredes, a relevância da música popular portuguesa a leste de Badajoz é comparável à da Web Summit.
(...)

Croniqueta de VPV no Público de hoje sobre o mesmo artista:


Quinta coluna do artista José Jorge Letria, um dos companheiros do E tudo era possível, no CM de hoje e que aparece em destaque nas imagens da Flama que abaixo aparecem nos outros postais sobre o assunto: 

Obituário no SOL sobre José Mário Branco: 


Com esta salsaparrilha de escritos o que fazer? Ouvir os discos de JMB e voltar ao tema...

Em primeiro lugar é necessário mostrar um contexto histórico e artístico relativamente à figura de JMB, o que Alberto Gonçalves de algum modo faz, embora não concorde com a apreciação crítica de algumas obras da mpb, mormente o Pedra Filosofal de Manuel Freire, a cantar o poema de António Gedeão que é um achado de trocadilhos e muito bem feito como resenha histórica de feitos antepassados.

O contexto é o ambiente anterior a 1974, com a oposição comunista e de extrema-esquerda acantonada em alguns órgãos de comunicação e alguns destes artistas, todos no meio dos "cantautores" como dizem os espanhóis e por cá cantores de intervenção, se moviam.
É desse movimento artístico e político de que se trata e não é possível separar tais coisas porque estão interligadas. É por isso sumamente manhoso o artiguinho do José Jorge Letria, um jornalista comunista que se reconverteu às delícias do socialismo democrático e que agora faz como os crocodilos que voam: muito baixinho...
Nem se trata aqui de mencionar a música posterior a 1974, com a "cantiga era uma arma" que este Letria afeiçoava, tal como muitos.
Aqui é apenas a música da primeira metade dos anos setenta, no tempo de Marcello Caetano. Nem sequer o tempo de Salazar, mas para esta gente era tudo fassismo...

O primeiro disco grande que JMB publicou, intitulado Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, no Natal de 1971, foi gravado em França e fabricado aí, embora editado pela Guilda da Música. Começa com sons ambientes na gare de Austerlitz e basta ouvir dois minutos desse primeiro tema Cantiga a pedir dois tostões para concluir que o disco é uma pequena ( sim, não exageremos...) obra-prima musical. Até está bem gravado, para o meu gosto. Melhor que o segundo LP. 
Claro que a apreciação é subjectiva, mas sujeita a experiências de muitos sons ao longo de décadas e portanto com alguma fundamentação prática.

Essa primeira letra é de Sérgio Godinho e fala de coisas assim: "inauguras monumentos ao passado que está morto e enterrado" e nem é preciso dizer mais. É uma cantiga antifassista contra o regime de então, com Marcello Caetano no poder. 
Quem ouvia tal música e foram muitos os que tal fizeram em sessão pública num cinema de Lisboa em Novembro de 1971, ficava logo a saber que o assunto era protesto contra o regime.

A canção seguinte, "Cantiga do fogo e da guerra" é ainda mais interessante melodicamente e só um ouvido duro não conseguirá achar  graça à melopeia critpo-medieval. A letra também é do mesmo Sérgio Godinho que escreve assim a dado passo: " ao circo da guerra chegam piromagos".( sic e não se pergunte se é neologismo)..e toda a gente percebia a que guerra se referia, a tal de "colonial" que para os que ficaram por cá e foram mesmo defender a pátria, era do Ultramar. A diferença é de vulto...

Na cantiga seguinte, um dos temas clássicos de JMB e também cantada pelo autor da letra ( no seu disco Os Sobreviventes) , o mesmíssimo Sérgio Godinho, fala-se de algo sobre o Charlatão. É um hit, um tema digno dos top ten musicais. Tão boa ou melhor que qualquer uma de Bob Dylan.  Quem duvidar que aponte uma...mesmo do Blonde on Blonde. É quase um solidó mas as de Neil Young também são...

E depois aparece o tal da Queixa das almas censuradas que o palerma do João Miguel Tavares que evidentemente nunca a ouviu como deve ser, usa como exemplo para mostrar aos filhos para lhes ensinar  o que era a "ditadura". Enfim.  Musicalmente, porém, deveria servir para mostrar como se compunha uma balada, do mesmo estilo da Pedra Filosofal e agora não se vê ninguém por aí a fazer igual. Será caso para dizer bendito fassismo...

O autor JMB tem depois duas canções com letras suas: Nevoeiro e Mariazinha. São duas composições em que avulta o pífaro na primeira, com ademanes de instrumentação avulsa, em toada cripto-medievalizada mas com naipes de órgão ( Hammond? Farfisa?) . Mariazinha é uma belíssima cantiguinha com o som do baixo a contrapontuar de modo jazzístico e um pequeno solo de guitarra eléctrica etérea e segura. Belíssima canção e que nada tem de politicamente comprometido. 

Casa comigo Marta, com letra daquele Sérgio Godinho é uma brincadeira em ritmo marcado a um género de clavicórdio ( cravo-farfisa) usado pelos Beatles no Martha my Dear ( et pour cause?)

O tema seguinte antes do último é de um poema de Alexandre O´Neill, o poeta iconocolasta que um dia saiu de casa, para sempre, ou seja, durante 16 anos, porque o pai insistia com ele para levar o guarda-chuva, contra vontade. Diz tudo sobre quem era o O´Neill. Perfilados de Medo é um poema críptico que serve para tudo e para nada porque é um jogo de palavras. A música é uma marcha marcial com pouco interesse mas execução ritmada  como um cante alentejano. É o tema mais comprido e menos conseguido do disco. 

O último é o Mudam-se os tempos, do poema de Camões. Em tom de marcha em ritmo quaternário ou mais, é um fim de disco com pífaro e bombo que soaria bem numa filarmónica de aldeia em volta ao coreto no fim da festa. 

E é isto o primeiro disco. Obra-prima? Para mim, sim.

E o segundo? É o Margem de Certa Maneira, fabricado em Portugal e editado pela Sassetti, Guilda da Música, de 1972. 
O primeiro tema retoma o tema da imigração "Por terras de França" e diz que "não foi por vontade nem por gosto que deixei a minha terra...". Então porque foi? Para fugir à "guerra colonial"? Enfim, tretas de fujões e cobardes ou indiferentes. 

Há uma pequena canção de 1970, de outro destes imigrados, no caso Luís Rego que chegou a trabalhar com os Les Charlots nessa altura e que editou um single fabuloso, porventura o melhor da MPB, chamado Amor Novo que tem uns versos assim: "Viver é saber da vida o mesmo que sabe o mar; vai-se uma onda perdida; outra onda a enrolar...".

Quase todos os temas deste Lp são da autoria de JMB. O segundo chama-se Engrenagem e é uma melopeia com rima suavemente subversiva- "pra ter um companheiro nesta viagem, vou meter um pauzinho na engrenagem". 

O terceiro tema, Aqui dentro de casa é uma pequena maravilha de composição e outra pequena obra prima musical do autor , mesmo com referências explícitas a luta de classes, ao "patrão que te paga um salário de fome e que te rouba o que come", obviamente motivo de Censura na época. Que queria JMB e os esquerdistas? Propaganda do comunismo assim tão explícita?  O primeiro disco não tinha nada disto e é um disco melhor. Bob Dylan soube afastar-se desta armadilha e não escrevia letras panfletárias acerca da luta de classes, mas sim It ain´t me babe! Ou "Like a rolling Stone". 

O tema seguinte sobre a Margem de Certa Maneira ainda era ideologicamente pior no capítulo panfletário e musicalmente é mais pobre apesar de mais elaborada e com insistências em demasiados recortes pianísticos. 

O segundo lado abre com outra obra-prima, a principal de JMB: Cantiga da Velha mãe, com letra de Sérgio Godinho ( que também a cantou no seu disco Os Sobreviventes). Em tom de balada de viola acústica ritmada a preceito. A letra falava dos irmãos que partiram e "voltaremos trazendo connosco a vitória" E para não deixar qualquer sentido implícito respondia sobre o que era tal vitória: " de lutar para ter a justiça como lei" e para "ver o mundo girar de um modo diferente" . E para tal ainda "sei gritar e arreganhar o dente". E ainda mais: " mas se é o teu próprio irmão que te faz viver de joelhos, faz o que tens a fazer"...num prenúncio de apoio aos gacs e outros FP25 de anos vindouros. 

Enfim, com estas letrinhas assim tão explícitas que esperava JMB e os cantautores? Complacência de Marcello Caetano no regime que existia e que mantinha a Censura por causa da guerra no Ultramar e por mero atavismo cultural? Até houve. O disco andou por aí e foi ouvido, mas quanto a propaganda das ideias que a revista Mundo da Canção queria fazer isso é que já não foi possível. Censura portanto. 

Logo a seguir uma cantiguinha infantil do género das que eram apreciadas por outro comunista da época, José Barata Moura ( o da Joana come a papa...), com o tema Sant´Antoninho com letra inócua ou quase. 
A penúltima é A morte nunca existiu, com letra de António Joaquim Lança. Musicalmente é tema do género afeiçoado por JMB, aparentemente simples mas com subtilezas melódicas e instrumentais interessantes, embora com muito poucos acordes.  Com uma letra que incluía " pra matar milhares ao mesmo tempo uns no estrangeiro outros cá", a referência era muito explícita e portanto...censura. 

Finalmente a outra pequena obra-prima de JMB, com letra de Sérgio Godinho,   Eh Companheiro é uma composição que qualquer grande artista reconhece como tal. 
Mas a letra não engana ninguém: " Só tem medo desses muros quem tem muros no pensar todos sabemos do pássaro cá dentro a querer voar..."

Pois foi: "cortaram as asas ao rouxinol", como cantava o padre Fanhais um Eh Companheiro ainda mais radical que estes...

Este Eh Companheiro é tema de comício do Bloco de Esquerda ( tal como o Barnabé de Sérgio Godinho e outras, do Fausto) ,tal como outros de alguns dos companheiros de JMB...e por isso esta gente não deve enganar ninguém nem a gente que os acolita deve tentar fazer o mesmo e mencionar a liberdade que eles apregoavam. 

Liberdade para esta gente é construir outro muro para não deixar sair ninguém de dentro da fortaleza que construíram para si mesmos: a do totalitarismo comunista. E isso não foi suficientemente denunciado naqueles obituários...

Porque afinal o que dizia JMB ainda há muito pouco tempo? Isto:

"Eu continuo a achar que o motor que comanda isto tudo é a luta de classes, a exploração do homem pelo homem." (...)
A humanidade tem de pensar como é que se resolve este problema de vez. Não é cá com outra cantiguinha qualquer. É o sonho do Antero de Quental: "Não disputéis, curvado o corpo todo, as migalhas do banquete. Erguei-vos e tomai lugar à mesa". O Antero disse isto nos anos 70 do século XIX. Na altura era o sonho socialista.
(...)
continua a haver a exploração do homem pelo homem. Tendencialmente a esquerda é a favor do progresso e a favor de quem trabalha, dos mais pobres, é contra as injustiças sociais, como a acumulação de riqueza por poucos.





Nota: escrevi isto enquanto ouvia em gira-discos os Lp´s originais de José Mário Branco e confirmar a ideia que tinha: são dois dos melhores discos da música popular portuguesa. Mas há outros, do mesmo género. 
Quando tiver tempo...vou recensear. 

sexta-feira, novembro 22, 2019

O mal que José Mário Branco fez a muita gente...

Público de ontem:


Este cromo repetido de uma direita que não se demarca da esquerda comunista e que escreve no Público, pertence ao beautiful people da gente que quer saber estar na tv e ganhar dinheiro com isso. Por essa razão tem que escrever coisas destas, de animação cultural dessa esquerda perdida numa direita que nunca se encontrou.

Com que então, José Mário Branco foi um farol da iluminação política acerca da noção de liberdade! Imagine-se! Antes de 25 de Abril de 1974 JMB era um paladino da liberdade, mesmo sendo comunista e de extrema-esquerda radical!
Pois foi o que este cromo repetido de uma direita que quer ser de esquerda, escreveu!
E ensinou aos filhos tal noção de elevado significado para afugentar ditaduras. Como? Mostra aos rebentos, coitados, a letra da Queixa das jovens almas censuradas, um "poema" de uma certa Natália Correia.

Que diz o "poema"? Isto:

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte.~


É isto que o cromo repetido de uma direita que quer ser de esquerda mostra aos filhos para lhes "explicar o que é viver em ditadura" !

Meninos! Quando o vosso pai quiser explicar-vos outra vez "o que é viver em ditadura" e vos mostrar este "poema", mandai-o pentear macacos. Ou dai-lhe um pente e um espelho para se ver melhor nas tristes figuras que anda a fazer para vos dar uma vida melhor...

A UMAR nem sequer sabe contar...

Observador:

De 1 de janeiro até ao dia 12 de novembro. Nesse período, e tendo como fonte as notícias publicadas pela imprensa nacional, o OMA contou 28 mulheres assassinadas em contexto de relações de intimidade ou familiares, além de outras duas mortas em diferentes contextos, e 27 tentativas de homicídio.
Em 12 de Novembro o Correio da Manhã publicou esta estatística, indicando nomes, factos e lugares. 33 mortos por violência doméstica durante o corrente ano. Ah? Também há homens?! OMOessa! E esses contam para alguma coisa?



O OMA, que é uma coisa da UMAR, cheia de projectos e certamente também financiada por impostos do erário público, segundo o mesmo método, ou seja, lendo jornais, indica agora que são...28! 

Enfim, nem sequer sabem contar vítimas e só contam mulheres.

Chega-lhes, André!

Artigo da antiga directora do Público, a inteligentíssima Bárbara Reis, hoje no mesmo jornal e que a define bem, porque foi escrito à pressa e é estúpido qb:


Nem se percebe bem onde quer chegar ao Chega de André Ventura. Optou pela sindicância factual de motivos avulsos quando pretendia mesmo atacar o "o populismo"  e a ilegitimidade na intervenção do deputado em defesa da causa dos polícias em manifestação.
A argumentação está aí para se ver e já tresanda desespero de causa...

De resto não é a única a acentuar a tónica da ilegitimidade naquela intervenção. Ontem na tv o sabujo Teixeira qualquer coisa de barbas de molho na sic-n, habituado a lamber botas ao poder instalado, dizia o mesmo.

De resto é preciso lembrar que o sindicalismo na PSP teve o seu momento áureo em Março de 1989, digo Abril de 1989 ( a revista é de 23.4.1989) como mostra esta reportagem de época, da revista Sábado, na primeira versão dirigida por Joaquim Letria e que já nem me lembrava que tinha por aí:


Quem é que estava no Governo? Cavaco Silva, um fassista ou quase, para esta gente. Para além disso tinha no MAI um tipo que parecia bronco todos os dias, Silveira Godinho.
Quem é que apoiava a manifestação da polícia pelo sindicalismo organizado? A UGT, com Torres Couto à cabeça, principalmente e também a CGTP, com o agora inefável  docente dos isctes,  Carvalho da Silva, tal como mostram as imagens. E já andava engravatado...

Quem representavam estes dirigentes sindicais? Haverá alguém que tenha dúvidas? Haverá alguém que não saiba que a UGT era uma espécie de correia de transmissão do Largo do Rato, com pequenas roldanas noutras sedes e a CGTP ainda se apoiava no Partido que não caiu com a queda do Muro?

Nessa altura não houve qualquer discurso contra a ilegitimidade desses dirigentes sindicais nessa intervenção, antes pelo contrário...

Como noutras ocasiões não houve. Algumas bem recentes como lembra bem o Blasfémias...



De resto o sindicalismo nacional começou com as ligações partidárias a esses dois dinossauros da política democrática, o PCP e o PS.

Por isso mesmo a PSP tem agora milhentos sindicatos e um deles sem dirigentes estáveis e conhecidos, que é o Movimento Zero ao qual André Ventura se associou.

O Público não se esquece de informar que o símbolo gestual de tal movimento é comum a organizações de "extrema-direita" por esse mundo fora...e o recado fica dado: Ventura, Zero, Extrema-Direita. Nazi. Fascista. O horror, em suma! "Não se fala dele!"...mas estão sempre a falar, claro.

E no entanto são os mesmos e descendentes dos mesmos que apoiaram a unicidade sindical em 1975, o movimento agitado pelo PCP, exclusivamente, durante o PREC, com o objectivo de tomar conta exclusiva e para efeitos político-ideológicos bem definidos de todo o sindicalismo nacional.
São eles, os comunistas, os apoiantes dos josés mários brancos e outros que defenderam tal coisa em 1975 e que originou aliás a separação entre o PS e o PCP nessa altura, que culminou com a manifestação da Fonte Luminosa, contra o PCP e a extrema-esquerda.
Foi aí que o PS acordou para o perigo do totalitarismo comunista.

São exactamente esses que o fundaram e animaram que agora acusam André Ventura de ser de extrema-direita e de se aproveitar politicamente do movimento sindical e inorgânico das políticas em prol de melhores condições de trabalho.

Um pouco de história recente torna-se por isso necessário expor e mostrar com os recortes habituais que são como o algodão com a sujidade, nunca enganam porque as imagens valem mil palavras.

Logo em Junho de 1974 Cunhal expunha o seu leninismo de raiz:


O sindicalismo era coisa de esquerda, não era de direita ou de extrema-direita e por isso não se admite que alguém de direita como André Ventura defenda ideias sindicais porque isso é ser de extrema-direita...e portanto pior que os cães vadios com sarna.


O sindicalismo começou em Maio de 1974 ( Flama de 17.5.1974) organizado e "livre" porque antes era fassista e corporativo. As pessoas ganhavam melhor mas era coisa fassista...e portanto seria preferível o que sucedeu a seguir, a bancarrota, a miséria de todos e o atraso ainda mais acentuado ao longo das últimas décadas.


Flama 21.6.1974




Em 23 de Janeiro de 1975 não havia dúvidas para a Vida Mundial: sindicalismo só o único, exclusivo do PCP e esquerda radical. O resto era fassismo...e o PS abria as "hostilidades".



Em Outubro de 1975 o sindicalismo estendeu-se a outra corporação, a militar pela obra de um jornalista que por aí anda e ensinou muitos que andam por aí, Ferreira Fernandes, o bravo encapuçado dos SUV:


Tal actividade só podia terminar mal, mas em Setembro de 1975,  ainda tinham ilusões os mentores das bárbaras reis que agora escrevem aqueles artigos no Público subsididado pelo capitalismo da SONAE:


E o que é que deu isto tudo depois do dia 25 de Novembro de 1975 prestes a (não) ser comemorado mas que vai ser lembrado pelo mesmo André Ventura no Parlamento ou algures?

Deu isto essencialmente, como explicava o mesmíssimo mentor principal da Intersindical ao O Jornal de 5 de Dezembro de 1975: mais do mesmo mas em registo mais soft. Um passo atrás para poder dar dois à frente. Andam nisto há décadas, ainda não saíram do passo atrás, com passinhos curtos à mistura, sempre à espera do salto quântico e o artigo da Bárbara insere-se neste esquema geral:



quinta-feira, novembro 21, 2019

A luta contra a corrupção tem novo paladino e não é a fazer de conta...

Álvaro Santos Pereira, Observador:


Tinha chegado da Áustria no dia anterior; já tinha ido ao Algarve, onde tem residência; e já tinha regressado a Lisboa. Esse rodopio de viagens não o impediu de chegar à redação do Observador bem-disposto ou não tivesse já visitado uma boa parte dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) como diretor do Departamento de Estudos. Com o mandato recentemente renovado, Álvaro Santos Pereira defende, em entrevista ao programa “Sob Escuta” da Rádio Observador, uma autêntica revolução no combate à corrupção.

Contrariando a aposta exclusiva do Governo em medidas de natureza preventiva e educacional, o economista propõe, entre outros pontos, a criação de um tribunal de competência especializada para crimes económico-financeiros, a execução de penas de prisão após o encerramento da matéria de facto na segunda instância e antes do trânsito em julgado, o reforço dos meios orçamentais e humanos do Ministério Público e Polícia Judiciária, a criação de uma Agência Nacional Contra a Corrupção e insiste na criação do crime de enriquecimento ilícito. Para o ex-ministro da Economia, Portugal não conseguirá atingir um crescimento económico estrutural sem determinar o combate à corrupção como uma das principais prioridades do regime.



O segundo Governo de António Costa assume no seu programa de Governo querer combater a corrupção com uma aposta exclusiva na área da prevenção, em vez de tomar “soluções simples e populistas” que “não funcionam”. Concorda que é possível combater a corrupção sem ter novos instrumentos legais ou mais meios para a Justiça?


O combate à corrupção tem de ser feito por todos os meios possíveis. Acima de tudo, temos de promover uma cultura de integridade e não a prática da impunidade, que é o que temos neste momento. Como é que podemos adotar as melhores práticas internacionais? Temos que, em primeiro lugar, reforçar os meios de combate à corrupção. O relatório da OCDE [“Economic Survey”, publicado em fevereiro de 2019] demonstra claramente que Portugal gasta menos do que outros países.

Investimos menos no combate à corrupção do que outros países?

Sim, investimos menos. É preciso haver mais meios. Por exemplo, Portugal vai ter muitos procuradores e investigadores que vão atingir o limite de idade e reformar-se. Temos de os substituir atempadamente e treinar os novos quadros. É essencial perceber, acima de tudo, que não pode haver crescimento económico e uma democracia sustentada, assim como uma Justiça credível, sem haver um combate sem tréguas à corrupção.


Como deve ser construída uma estratégia global de combate à corrupção e quais as suas áreas prioritárias?


Essa estratégia é essencial e tem de ser feita em cooperação com os agentes do setor e de forma muito rápida: em seis meses podemos ter uma estratégia concreta, propostas claras, mecanismos e datas para implementar as mesmas.

Diga-me duas ou três medidas dessa estratégia global de combate à corrupção.

Temos de ter uma Agência Nacional Contra a Corrupção, que tem funcionado bem noutros países. Sou insuspeito para propor uma nova estrutura porque, desde há muitos anos, defendo que temos de emagrecer o Estado. Simplesmente, há áreas em que o Estado tem de estar presente, nomeadamente no combate à corrupção. Outra medida importante é a criação de um tribunal de competência especializada no combate à criminalidade económico-financeiro — o que foi salientado no relatório da OCDE. Sei que há um problema de constitucionalidade, mas Portugal já tem um tribunal especializado — o Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão — que, por acaso, foi criado no tempo em que estive no Ministério da Economia.

Os vários lacerdas, costas, rios, advogados dependentes do Estado, como alguns pazes que por aí andam e outros apaniguados do sistema,  não gostam deste discurso. O problema é que são eles quem manda...

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso