segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Música Popular portuguesa antes de 1974

Não é fácil fazer uma resenha do que era a música popular portuguesa antes de 25 de Abril de 1974 ( nem depois...) na medida em que não há muitos elementos documentais disponíveis. Admira até que as escolas que agora estão carregadinhas de teses de mestrado e doutoramento, algumas delas arquivadas para o olvido permanente, não tenham estudos do género musical em causa, disponíveis para consulta.

Tal estudo deveria centrar-se nas obras musicais e artistas que havia nessa época e que vendiam discos gravados, afinal suporte dos registos de tais obras, bem como os respectivos editores.

Afinal, a música popular em Portugal tinha alguma expressão nas décadas dos anos 50 e 60 e não era apenas o fado, a canção de "revista" ou os ranchos folclóricos que dominavam o panorama musical.
Uma parte da dificuldade advém de nem existir registo certo de tabelas de vendas em discotecas ou no mercado regular dos discos então editados e passados muitos deles nos rádios.

Havia uma ou outra revista dedicada a temas de tv ou rádio, como a TV, por exemplo neste número de 5.3.1964 e que mostrava alguma coisa do que era a música popular da época. No caso António Calvário e as melodias de sempre, com Madalena Iglésias, Paula Ribas e outros que também cantavam fado e música ligeira, como Maria da Fé, António Mourão, o Trio Boral e alguns mais. No Porto era impossível não dar pelo Conjunto António Mafra e as músicas que saíam em singles e ep´s ( quatro musiquetas por disco em vez das duas usuais, nos singles). Foi também nesta altura, meados dos sessenta que apareceu um artista popular que procurava singrar nas letras maliciosas e nas músicas trazidas dos folclore mais chão ou de um estrangeiro já abrasileirado. Quim Barreiros. Marco Paulo, Gabriel Cardoso e outros viriam logo a seguir para enfeitar páginas e páginas da Plateia, revista da especialidade já com muitos anos de experiência.



Em Janeiro de 1969 a revista Plateia publicava resultados de um concurso nacional acerca dos rei e rainha do espectáculo e na quinta votação os resultados mostravam bem o panorama cultural, geral, em Portugal:


Mas havia outros gostos, a assegurar um certo ecletismo, mesmo na revista:


Em 1 de Abril de 1965 começara  no rádio ( Rádio Clube Português) um programa que representou uma alteração substancial no gosto comum aos demais programas e que se compunha com aqueles artistas que passavam geralmente em programas de "discos pedidos" depois de se dizer uma frase publicitária.
O Em Órbita, cuja história já se contou aqui, e ainda mais aqui, foi apresentado assim no Século Ilustrado de 14.1.1967:



Tinha gosto próprio que era o dos apresentadores e realizadores, jovens universitários que passavam geralmente música popular de expressão anglo-saxónica e até faziam listas de preferências anuais, neste caso do ano de 1966. Os Beatles eram então os reis destes tops que prescindiam do António Mafra ou do fado de Alfama e Mouraria e mesmo dos festivais das canções locais.


A partir de 1968 algo começou a mudar no panorama musical e de cultura popular e não teve a ver com a queda de Salazar e a modificação ligeira do regime, com Marcello Caetano.

Os costumes que vinham lá de fora e  eram seguidos por cá, com atraso de meses ou anos, também se reflectiam na mudança de gosto musical

Começou a aparecer um ou outro artista, fora desse panorama que lançava um ou outros single, com músicas interessantes.

Alguns desses singles, cantados em português e publicados até 1974:


Na segunda metade do ano de 1969, perfazendo agora 50 anos, surgiu outro fenómeno na música popular que foi ampliado por um programa de tv chamado Zip Zip: os cantores de baladas, ou os baladeiros, depois trasnformados em "cantores de intervenção", ou seja propagandistas políticos da esquerda comunista.

A reportagem da Flama de 6.6.1969:


Foi nesse programa que se publicitou com maior espavento o tal fenómeno dos "baladeiros", logo com um certo Manuel Freire que cantou Pedra Filosofal, um poema de António Gedeão, e que se tornou um tema muito popular na altura. A letra pouco tem de político mas começa com o verso "eles não sabem que o sonho...", como é próprio da ideologia certa a caminho da utopia, ou seja o comunismo.

O Zip Zip foi um fenómeno de comunicação televisiva porque era um programa inovador e bem feito, uma mistura de "talk show" com variedades escolhidas a dedo para mostrar o que havia de novo para alterar o status quo. Os autores- Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz- misturavam o conformismo com a inovação temática que rapidamente descambava na oposição ao regime manipulada pelos mesmos de sempre, ou seja, os comunistas e socialistas. Resultado: a Censura não deixou continuar, logo no final de 1969.
Os convidados eram todos do "contra", as ideias começavam a ser perigosas para o regime e em vez de se permitir a abertura, o regime fechou-se um pouco mais, deixando os censurados com queixas de almas sensíveis e vitimização contra o fassismo, razões para arremeter ainda mais, ajudando ao resultado que se viu logo a seguir a 25 de Abril de 1974.

Ainda assim quem é que publicava os discos de tais queixumes de almas censuradas? Havia um indivíduo no Porto que tinha uma editora fundada em 1956 e que se dedicava a todo o género de música, incluindo naturalmente a dos ranchos folclóricos.
A Orfeu era eclética e começou a publicar os singles dos cantores proibidos de exprimirem as verdadeiras ideias, ou seja, comunistas. O seu proprietário e patrocinador daquelas vítimas do fassismo era Arnaldo Trindade, aqui numa foto recente, por ocasião de uma comemoração da Orfeu, que aliás foi vendida logo no início dos anos oitenta à multinacional Movieplay. O Jornal de Notícias do Porto publicou no início deste ano uma entrevista que titulou "O burguês que deu voz á liberdade!", como se fosse mesmo assim e com a linguagem própria da música de intervenção:


A grande obra, de mérito, de Arnaldo Trindade nem é essa, mas sim esta: a publicação das cantiguinhas do Conjunto António Mafra, por exemplo e sans blague:


Ou mesmo esta, de qualidade mais duvidosa, mas popular:


Claro que misturar esta tema do Emigrante, com o tema Por terras de França daquele José Mário Branco é capaz de ser um golpe fatal na coerência, mas enfim, louve-se o esforço do senhor Arnaldo a quem a cultura popular portuguesa muito deve.

Outro acontecimento de vulto, no final de 1969 foi o lançamento da revista Mundo da Canção, também no Porto e com redacção pejada de comunistas então ainda encapotados. E quem figurou na capa do primeiro número? O inefável Padre Fanhais que também gravava para a Orfeu ( ver o primeiro disco, acima na imagem) .
Atente-se na letra da cantiga que este padre cantava...e que a revista publicou, tal como publicou o tema em francês de Jean Ferrat. Jean Ferrat? Quem é que conhecia este cantor francês? Ora, ora: os comunistas, como ele...e que prometiam na revista publicar mais letras desse disco de 1969 no caso de os pedidos se justificarem. Justificaram...








Aquele Fanhais também foi ao Zip Zip cantar À Saída do Correio, ou pelo menos esteve programado para tal uma vez que o disco que o programa editou,  em 1969 continha tal tema. Tal como continha o tema Frère, souviens toi! de um certo cantorileiro da faculdade de letras de Lisboa, de nome José Barata Moura. Comunista também.
E também "Fonte de água vermelha" cantada por Hugo Maia de Loureiro, dos festivais da canção.

Estes festivais organizados pela RTP todos os anos, nessa altura, eram o viveiro preferido dos poetas, cantores e artistas de oposição, incluindo muitos comunistas, com destaque para o poeta José Carlos Ary dos Santos.  E também Pedro Osório, este de pendo do socialismo democrático, já falecido e opositor ao fassismo, tal como outros. Havia ainda um tal Rui Ressurreição, amigo de quem? De Proença de Carvalho, um dos membros mais conhecidos do famoso trio los dos, ou o contrário que dá para tudo.

O Zip editou depois vários discos, incluindo um single magnífico, Ar Livre, de um esquecido Rui Silva. Do Zip também é a Pedra Filosofal cantada por Manuel Freire.


Mas outro disco fabuloso, neste caso de Fernando Tordo, outro antifassista notório e publicado em 1973, com o título O Café, é da...Orfeu.

E um dos melhores singles da música portuguesa, aliás para mim o melhor, foi publicado em 1970 por Luís Rego, pela Vogue-Pathé, em França e chama-se Amor Novo que muito pouca gente conhece.
E outro também fabuloso, do mesmo ano: "Ó pastor que choras", de Fausto, outro radical da extrema-esquerda e que gravava para a Philips, uma empresa benfeitora e mecenas destes artistas.


A revista Mundo da Canção cujo lançamento perfaz agora 50 anos, foi o veículo ideal para estes artistas, todos antifassistas e para a propaganda das suas ideias em letras de canções, desde 1969 até bem depois do 25 de Abril de 1974, apanhando o combóio de extrema-esquerda quando passou à porta, algures no Porto de um Pacheco Pereira e afins.


Em 1974 foi por isso o delírio na redacção! Mas durou pouco tempo. Durante o ano de 1974 praticamente a revista nem apareceu e só em Novembro surgiu com outra redacção, agora de um tal A. José Fonseca  que se insurgia contra a anterior, de um tal Mário Correia. Aquele de extrema-esquerda radical, este do comunismo ortodoxo...tendo vencido a ala dura do comunismo radical.

Logo em Maio de 1974 os cantores das baladas e do protesto, auto-apelidados  "trabalhadores culturais", reuniram-se em "Colectivo de Acção Popular" e assinaram assim, prenunciando um GAC, de um José Mário Branco:


Estavam lá quase todos e os que ainda são vivos nada esqueceram e nada aprenderam e continuam a bloquear ou a tergiversar...excepto um ou outro que preferiu abraçar causas mais concretas e confortáveis. Por exemplo, José Jorge Letria...

Esta história já foi contada por aqui em várias ocasiões, mas convém lembrar a quem já esqueceu e mostrar a quem não teve ocasião de saber porque era novo ou porque nunca se interessou por tal.

De resto  contributos para tal história, neste caso de um modo hagiográfico,  há em dois livrinhos de Eduardo Raposo, esgotados.



O saber não ocupa lugar, dizia a minha saudosa professora da escola primária e saber estas coisas ajuda a compreender porque somos ainda hoje uma sociedade atrasada. Ao contrário do que pretendiam esses cantores de intervenção não era bem a liberdade que nos queriam dar, enquanto povo, mas uma nova servidão, da que se praticava nos países de Leste e que os respectivos povos enxotaram de vez, no final dos anos oitenta do séc. XX.

Por cá, muito por culpa deste desconhecimento continuam a tratar estes lídimos representantes do totalitarismo comunista como arautos da Liberdade! Até o presidente da República que tinha obrigação de saber que isto é um embuste de todo o tamanho...

A  última do nosso presidente: está a pensar em condecorar Jorge Jesus, o treinador que ganhou a Taça dos Libertadores e o campeonato brasileiro de futebol, para o clube que representa, o Flamengo, brasileiro, por supuesto...ahahahah! Incrível!



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