sábado, outubro 22, 2016

O chique radical continua actual




No outro dia estava a ler esta entrevista com Tom Wolfe, na edição desta semana da L´Express e tal conduziu-me a outras paragens de leitura que glosam o fenómeno muito burguês do "chique radical". A "Esquerda caviar" é uma variante do fenómeno que assenta bem nos fradecas do BE, mas esta perversão do "chique burguês"  vem lá de fora e já tem décadas.

E entrevista de Tom Wolfe revela que o mesmo considera o seu escrito sobre a "radical chic" um dos seus melhores artigos de sempre.



Apareceu originalmente na revista New York, em 8.6.1970  e teve este enquadramento temporal:

"On the evening of January 14, 1970, Felicia Bernstein hosted approximately 90 people in the Bernsteins' home to raise funds to support the families of the "Panther 21," a group of twenty one Black Panther Party members arrested on April 2, 1969 and charged with conspiring to kill police and bomb New York police precincts, department stores, and other public buildings. The Panther 21 had been held in jail for nine months—many on bails set as high as $100,000—without a trial and without adequate resources to prepare for their defense.

The Black Panther Party, a radical, socialist organization committed to the empowerment of African Americans, was a source of anxiety for many Americans. FBI Director J. Edgar Hoover called the Black Panther Party "the greatest threat to the internal security of the country." Yet to civil libertarians, the arrest of the "Panther 21" appeared to be a case of government engaging in preventive, political detention and ignoring due process. A group of concerned New Yorkers established a fund to help with legal expenses and to assist the families of the accused while the prisoners awaited trial; the gathering at the Bernstein apartment was held to raise awareness and contribute to this fund.

What was intended as a serious meeting to address a violation of civil liberties became a sorely misunderstood event that led to a media frenzy and extensive personal attacks on the Bernsteins. Years later, it was further understood to be a glaring example of FBI intrusiveness at its very worst.

In attendance at the Bernstein apartment on January 14th were numerous prominent figures in the arts and media, including Otto Preminger, Jean vanden Heuvel, Peter and Cheray Duchin, Sidney and Gail Lumet, Cynthia Phipps, Barbara Walters, Bob Silvers, Mrs. Richard Avedon, Mrs. Arthur Penn, Julie Belafonte, Peter Stone, Sheldon Harnick and Burton Lane. Also present were Black Panther Party members Robert Bay, Donald Cox and Henry Miller, as well as some wives of the accused. Members of the press were not invited to the event, but Charlotte Curtis of the New York Times and Tom Wolfe of New York Magazine somehow managed to slip in.
"

A crítica acerada de Tom Wolfe acerca da festa que os Bernstein deram na sua casa de luxo aos esquerdistas do activismo negro, socialistas de comunismo tipo americano, na altura, fundou-se no mesmo fenómeno da actualidade de sempre, espelhada hoje no artigo do tal Melo, no Sol, acerca de Che Guevara: uma condescendência para com uma esquerda radical cujos métodos de acção se relevaram muitas vezes criminosos em termos de direito comum e passaram para o lado do terrorismo.
Actualmente, em Portugal, as organizações revolucionárias dos anos sessenta e setenta, todas de índole comunista e de extrema-esquerda gozam de uma boa imprensa e de uma imagem de romantismo revolucionário a toda a prova. Um dia destes veremos ainda a recuperação de imagem das FP25...

Frequentemente vemos ouvimos e lemos relatos na primeira pessoa, como os do pirata Mortágua, acerca dos feitos antigos em prol do derrube do "fassismo" e da recuperação de uma pretensa liberdade que fatalmente   conduziria a outros gulags...mas enfim.
Este fascínio pelos revolucionários de bombas feitas e rebentadas que chegaram a matar pessoas inocentes,  revela uma mentalidade que ainda não se ultrapassou, em Portugal , eventualmente pela simples razão de que os que escrevem sobre isso ou viveram esses tempos do lado dessa barricada ou são filhos dos seus autores, espirituais que sejam.

Esta mentalidade começou algures nos anos sessenta e há mostras das suas manifestações.Tal como Tom Wolfe mostrou no seu escrito antológico, o chique radical assenta numa grande hipocrisia: a celebração de um romantismo revolucionário cujas consequências reais conduziriam ao seu desaparecimento, com vastas consequências que aqueles nunca admitiriam.

Então porquê a celebração? Porque "é chique a valer", como diria um Dâmaso Salcede.

Em 1970 o maestro e compositor Leonard Bernstein era popular em Portugal por causa dos "concertos para jovens" , série de televisão que a então RTP adquirira em 23 episódios e destinada a divulgar música erudita sem o peso de casacas e com explicações avulsas acerca das peças de Mozart ou Stravinsky.

E por isso foi capa da Nova Antena de 28 de Agosto de 1970. Esta capa e artigo apareceu alguns meses depois do artigo de Tom Wolfe na New York e é muito improvável que tivesse algo a ver com o mesmo. Porém, mostra bem a influência mundial, no mundo da cultura que Bernstein tinha na altura.


Aliás, nesse tempo já tinha sido publicado por cá, na editora Livros do Brasil, o livro de Bernstein, O Mundo da Música ( The joy of music) publicado originalmente em 1954 e por cá também nessa altura, reeditado várias vezes ( a edição actual tem capa verde e azul). Um livrinho muito recomendado aos jovens de então e depois.



Uma obscenidade no Sol



Este artigo sobre Che Guevara  no Sol de hoje é perfeitamente obsceno na medida em que exalta um assassino como se fosse um tipo porreiro que gostava muito de futebol, esquecendo as outras coisas mais. Até o captor do assassino é apresentado como um pobre diabo...e é caso para perguntar quem é este Melo que assim escreve estas barbaridades dignas do BE, para se saber se desconhece isto que vai a seguir.


Em 17.2.2013 escrevi aqui isto:

Ao ler isto, sobre Che Guevara, um símbolo esquerdista para os idiotas úteis ao comunismo, ocorreu-me um texto já antigo sobre o assassino e que publiquei aqui:



El Che

Faz hoje 40 anos que El Comandante, Che Guevara, morreu, executado por um comando de rangers bolivianos treinados pelos americanos para perseguir e executar o guerrilheiro, como aconteceu. Em 1967, nos EUA era presidente Lyndon B. Johnson.
O relato da sua morte, em directo e pelo seu executor, fica por aqui, em facsimile, tirado da revista L´Express, de 27.9.2007.
A primeira vez que ouvi falar da morte do Che, foi na revista Selecções do Reader´s Digest, no final dos anos sessenta. O relato impressionou-me logo pela perspectiva do vencedor, os americanos, directamente envolvidos e as fotos não enganavam, porque houve o cuidado de fotografar o morto, para o mostrar ao mundo e tentar acabar com o mito. Engano. Começou aí mesmo.
Em 5 de Março de 1960, um repórter fotográfico do jornal cubano Revolución, tirava a chapa que serviria de poster para ser tirado aos milhões, como estandarte do mito Che Guevara, El Comandante.
Esse poster, correu mundo e em Portugal, depois de 1974, foi afixado em muitas paredes. Também tive um, afixado na parede. Porquê?
Porque Che Guevara, esquerdista e revolucionário, incarnava ainda um espírito de aventura, na época. Uma libertação individual e uma imagem apelativa ao empenho social e político, generoso e altruista. Romântico até, porque apresentado como um cavaleiro andante da libertação de gentes pobres e humildes. Um Robin dos Bosques moderno. Um cavalheiro da pureza revolucionária.
Por outro lado, o comunismo em 1975, em Portugal, era uma força dominante e o espírito de PREC contagiava muita gente que ainda assim, nada tinha a ver com projectos revolucionários de deposição do sistema político-social, pela democracia popular.
Para além da propaganda e da linguagem completamente dominada pela esquerda, ninguém falava publicamente nos crimes do comunismo. Crimes, só os do “fascismo”, propalados, aliás, sem corpo de delito. Os antifascistas não cometiam crimes e a denúncia da barbárie estalinista surge bem depois e com força apenas no final dos anos oitenta.
As revelações sobre os crimes do comunismo surgem nessa altura e ainda agora falam e escrevem. Entretanto, o mito do Che, arreigara-se já, bem firme, às paredes e muros, no poster estilizado de Korda.
Ainda há meia dúzia de anos, num filme bem feito tirado do livro Viagens de motocicleta, a figura do Che, é apresentada de modo edulcorado e mistificado. É impossível não simpatizar com a figura do El Comandante avant la lettre e por extensão, do Che.
E no entanto, Che Guevara falhou em toda a linha política. O comunismo porque lutou, soçobrou e em nenhum dos lugares por onde andou e lutou, o sistema marxista conseguiu implantar um exemplo de sociedade apresentável ao mundo.
E ainda assim, a imagem perdura. Será um retrato de realismo autêntico ou apenas fantástico?
Pelo que se pode ler ultimamente, a opção é pela perplexidade. Um livro recente, La face cachée du Che, de Jacobo Machover, é uma das publicações de denúncia.
A revista L´Express, de 27.9.2007, foi entrevistar os companheiro do Che, actualmente exilados em Miami e outros lugares. “As suas narrativas provocam frio nas costas”. Porquê?
Segundo um deles, Huber Matos, um dos comandantes da revolução, preso em 1959, por ter criticado os excessos revolucionários, nem hesita: "Acho,definitivamente, que lhe agradava matar gente." As pequenas histórias que alguns deles contam, são efectivamente o reverso do poster romântico do esquerdismo militante.
Che Guevara, lidou com a morte, na prisão de Cabana, para onde foi como comandante do presídio, nomeado por Fidel Castro, em 1959. Às centenas, os presos são enviados ao paredón e muitas das execuções sumárias de pretensos contra-revolucionários, são da própria autoria do Che, num exercício de crueldade testemunhado pelos antigos companheiros. Contam-se em número superior a 200 essas execuções, o que faz do Che, um dos maiores matadores da Revolução, um pouco atrás do actual líder de Cuba, Raul Castro, responsável por mais do dobro das mortes.
Luciano Medina, impedido do Comandante, também exilado: " Matava como quem bebia um copo de água. Nós, a tropa, ficávamos descoroçoados".

Na reportagem ainda há o relato de uma entrevista com Felix Rodrigues, o antigo agente da CIA que prendeu o Che e o mandou directamente fuzilar, sob ordens superiores e de quem ouviu as últimas palavras: "Diz à minha mulher que volte a casar e tente ser feliz".
Aleida, parece que seguiu a recomendação e publica este ano as suas memórias.

Quem tiver dúvidas sobre este assassino que se transformou em herói revolucionário do comunismo em geral e certos idiotas do Bloco em particular, pode sempre ler aqui relatos da violência extrema desse perverso.

Miguel Abrantes, que coisa rasca, pá!



Em 17 de Fevereiro de 2010 escrevi isto que não me apetece alterar Por uma razão: acredito que o Miguel Abrantes era verdadeiramente um anónimo conhecido e era quem era no tal Câmara Corporativa, blog que estourou quando já não servia para se opor a quem estava e fazer a propaganda sevandija e rasteira, típica dos desejos de um avariado.  Haveria outros no tal blog, incluindo peixotos e afins, mas Abrantes era Abrantes.

Abrantes até gostava de música de John Fahey...e pareceu-me sempre correcto e de ética ajustada, sem as albardas de um Jumento, esse verdadeiramente intragável na ética e na correcção nos blogs e que ainda escouceia por aí.
Ou seja, não acredito que Miguel Abrantes seja o tal Peixoto que recebia "por fora" para fazer jeitos ao patrão, numa atitude que desacredita seja quem for que tenha um pingo de vergonha. Não é coisa para quem gosta de John Fahey.

Por isso mesmo dedico ao Abrantes estas duas páginas da revista Tintin de Dezembro de 1972, tiradas da historieta de Lucky Luke, Mamã Dalton.  E que se cubra de vergonha se é que ainda lhe sobra alguma...
Receberem dinheiro vivo, escondido ainda por cima, para fazerem fretes a um governo...puff, que coisa rasca.



ADITAMENTO:

Correio da Manhã de hoje, Domingo:



Segundo a dama de Formentera, Miguel Abrantes existe. Jantou com o admirador de John Fahey e sabia que não era assessor do Governo. Também acho que não. Miguel Abrantes era um técnico superior da antiga Inspecção Geral da Administração Pública, até 2006, data em que se transformou em Inspecção Geral de Finanças. Era então um daqueles técnicos com valor que por lá havia. O seu nome vinha na lista oficial que estava publicada na Internet e foi lá que o vi. Não acredito que alguém tenha copiado esse nome para se esconder em nick anónimo.
O que sucedeu e agora estas reviravoltas rocambolescas permitem especular foi apenas o costume: no blog Câmara Corportativa, além do tal Miguel Abrantes passaram a escrever outros "abrantes" em antonomásia.
Este então fedelho que agora se nota como assessor, -actual, note-se!-  do presidente da Câmara, Medina de seu nome, e que receberia estipêndio em nome do pai,  para este escrevinhar no tal blog coisas de sabujo,  é que se torna rasca.

Distinga-se o que deve ser distinto. Se o Abrantes sabia, tanto pior. Por outro lado, isto mostra ainda com maior evidência o estilo do antigo acompanhante da dama de Formentera. Coisa rasca também.

Ironicamente, nenhum deles, seja a dama de Formentera seja o Abrantes real, eventualmente já reformado e a ouvir música folk americana,  podem vir aqui esclarecer o imbróglio... o que não deixa de ser delicioso e deixa um ar de vingança etérea  a propósito das ignomínias que se escreveram no blog que pelos vistos funcionava como aquela pequena casinha no Texas do cinema...you know what i mean e este articulista do CM de hoje também notou...





"Sweet revenge" ( John Prine), pá! Mas no hard feelings, really.


SEGUNDO ADITAMENTO:

Entretanto, o visado que anda noutro planeta mental já desmentiu através dos seus magníficos advogados cuja credibilidade está acima de qualquer suspeita: não tem nada a ver com o tal blogger. Só o conheceu em 2012...ahahahaah!
E está tudo em segredo de justiça, apesar de o juiz Rangel ter dito que acabou...

Esta gente toma todos os demais por parvos, está-se mesmo a ver.

sexta-feira, outubro 21, 2016

Ufa!

 Observador:


Tudo na mesma. DBRS mantém “rating” acima de “lixo” e “estável”.

quinta-feira, outubro 20, 2016

Dez dias depois, nada...e a vergonha continua à solta

 O homicida de Aguiar da Beira continua a iludir centenas de agentes policiais...e não sai do seu meio ambiente.

Isto é uma vergonha para a PJ, a GNR, o Ministério Público e a Ministra da Justiça.

Esta última, também magistrada do MºPº do escalão mais alto, disse isto, hoje, em vez de estar calada ou pesar as palavras melhor:

RR:
A investigação aos homicídios de Aguiar da Beira “não é um ‘reality show’”, afirma a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem.

À margem da sessão comemorativa dos 71 anos da Polícia Judiciária, em Lisboa, Francisca Van Dunem invocou a delicadeza da situação e garantiu que não há descoordenação entre as polícias envolvidas.

“Este é um caso de uma grande delicadeza em que já se perderam várias vidas humanas e em que está a ser desenvolvido um trabalho que envolve delicadeza porque pressupõe que se está a fazer tudo para que não se percam mais [vidas humanas].”

“Infelizmente, isto não é um ‘reality show’, e não pode ser tratado como tal. É preciso dar espaço para que as polícias trabalharem e, sobretudo, é preciso que não nos ponhamos a criar factores laterais, ideias de que há problemas de descoordenação. Não há problema rigorosamente nenhum”, sublinha a ministra da Justiça
.

quarta-feira, outubro 19, 2016

O Rocha vai borda fora...


Observador:


Polémica sobre lista de escusas no Governo é “quase absurda”, diz Rocha Andrade: “Todos, temos essa lista”.

Fernando Rocha Andrade insiste na existência da lista de incompatibilidades. "Eu e todos os meus antecessores, todos, temos essa lista", reiterou à margem da conferência onde participa em Lisboa.

Rocha, o  assistente de Direito armado em político voltou a mijar fora do caco. Desta vez, vai mesmo borda fora, ou me engano muito.
Os estragos da afirmação serão tantos que vão ser os colegas do Rocha a empurrá-lo para fora da Geringonça.

Se é assim como este diz e ele diz como é, assim como ele diz, assim é...

 Em Economia não me atrevo a comentar muito porque não sei. Desconfio que muitos sabem a mesma coisa.
Ora segundo escreve este comentador, a Geringonça de esquerda alcançou uma quadratura de um círculo que se julgava impossível ou seja a de que havia uma alternativa ao que aparentemente não era suposto existir.
Veremos se se confirmam os resultados e afinal a Economia de Esquerda dá os frutos prometidos. Se assim for, os partidos mais à direita que não são de direita mas interessa encostar a esse lado para marcar a diferença, têm algo a aprender. E depressa.


Observador, Luís Aguiar-Conraria:

O assunto da semana é, naturalmente, a proposta de Orçamento do Estado apresentada pelo governo. Nesta proposta, a “devolução” de rendimentos é acompanhada por um aumento dos impostos indirectos e patrimoniais. Ainda assim, muitos não conseguem perceber muito bem como é que isso é suficiente para chegar a um défice de 1,6% do PIB em 2017. O debate é particularmente interessante porque, no início do ano, (quase) ninguém acreditava que o governo conseguisse cumprir com as metas para 2016. Mas, com a proposta do Orçamento para 2017, veio também a previsão para este ano: um défice de 2,4% do PIB. Naturalmente, como (quase) todos os comentadores se enganaram na catástrofe anunciada para 2016, poucos arriscam dizer que a meta para 2017 é inalcançável. Politicamente, o exercício orçamental de 2016 significa que, de facto, havia uma alternativa à austeridade aplicada nos anos de Passos Coelho e Portas. E, claro, confirma que a alternativa não era nem abrir trincheiras, nem lutar por perdões de dívida, mas sim, dentro do quadro institucional europeu, cumprir as regras através daquilo a que agora se chama “austeridade de esquerda”.
Já há muitos anos que defendo a progressiva substituição dos impostos directos pelos indirectos. Por diversos motivos. Em primeiro, porque os impostos indirectos, ao penalizarem o consumo, funcionam, de certa forma, como um incentivo à poupança. Sendo a poupança essencial para financiar o investimento, é grave que Portugal seja dos países desenvolvidos que mais baixas taxas de poupança têm. É especialmente grave na actual conjuntura, em que a capacidade da economia portuguesa se financiar no mercado externo anda pelas ruas da amargura. Em segundo lugar, os impostos directos penalizam os rendimentos do trabalho e do capital, ou seja, penalizam a produção. E Portugal precisa de produzir mais e não de penalizar quem produz. Finalmente, alguns dos impostos indirectos justificam-se a si próprios. Por exemplo, o imposto específico sobre produtos petrolíferos é uma forma economicamente eficiente de obrigar as pessoas a ter em consideração os custos ambientais quando enchem o depósito do automóvel. Na gíria, dizemos que o preço ao consumidor deve reflectir os custos privados (i.e., os custos de produção), mas também outros custos sociais (como os ambientais). Ou seja, são impostos que melhoram a eficiência económica. Por estes motivos, não tenho problemas com o aumento dos impostos indirectos. Aplaudiria até se o governo fosse mais arrojado neste domínio, por exemplo acabando com várias das isenções e reduções de IVA para produtos específicos.
O resultado orçamental de 2016 veio mais uma vez confirmar uma ideia que tenho há algum tempo. No que respeita à responsabilidade orçamental, não existe uma clivagem esquerda/direita — excluamos da análise os últimos anos de loucura de Sócrates. Isto apenas confirma a literatura académica sobre o assunto, mostrando que o preconceito de que a esquerda é mais irresponsável é falso. Há, aliás, vários trabalhos académicos que desmentem esta hipótese e até alguns que concluem o oposto. Por exemplo, James Alt e David Lassen, respectivamente das Universidades de Harvard e Copenhaga, usando dados para os países da OCDE, concluíram que os défices orçamentais tinham tendência a aumentar com governos de direita. Vale a pena referir que Ricardo Reis chegou a conclusões semelhantes para Portugal, num pequeno ensaio que escreveu em 2009. São os governos liderados pelo PSD que são os campeões do aumento da despesa, mesmo não aumentando tanto quanto as oposições quereriam.
Na verdade, nada disto é surpreendente. No assunto da irresponsabilidade orçamental, a clivagem não é entre esquerda e direita, mas sim entre ser governo e ser oposição. Basta ver as reacções dos partidos de direita à proposta do Orçamento de Estado para 2017. Cristas, secundada por Maria Luís Albuquerque, quer alargar os aumentos de pensões propostos pelo governo, sem impor qualquer condição de recursos, arriscando-se a, verdadeiramente, esbanjar dinheiro. Já Passos Coelho acusa este Orçamento de ser um embuste e que o governo está a “transformar em impostos permanentes aquilo que tinha sido apresentado como uma solução de emergência, num quadro muito especial” a que “se chamou austeridade”. Ou seja, Passos Coelho diz-nos que seria possível atingir as metas do Tratado Orçamental recorrendo a medidas extraordinárias e temporárias. Convenhamos que reduzir a dívida pública de 130% do PIB para 60% recorrendo a medidas temporárias e extraordinárias é obra.
A conclusão é simples: bastou ao PSD e ao CDS irem parar à oposição para se tornarem tão irresponsáveis como o PCP e o Bloco durante a legislatura anterior.

domingo, outubro 16, 2016

O iconoclasta está de volta

Vasco Pulido Valente começou a escrever no Observador e fez hoje o balanço da semana passada. Na entrada de quarta-feira, escreveu sobre o livro que José Sócrates se prepara para lançar com o seu nome na lombada:

Consta por aí que o eng. Sócrates vai publicar outro livro. Por descargo de consciência li o primeiro. É um exercício escolar sem originalidade ou rigor, que, como lhe compete, exibe uma enorme incultura filosófica. Não valia a pena tornar a falar dele se Sócrates não aparecesse agora com uma nova prestação dos seus pensamentos, desta vez sobre o “carisma” (um assunto que tresanda a pretexto para o auto-elogio). Depois do que se disse sobre a autoria e as vendas da sua alegada tese, nenhum académico com vergonha se atreveria a lembrar a sua presença sobre a terra, sem o reconhecimento de uma universidade idónea. O problema de Sócrates é que está morto, intelectual e politicamente morto, e se recusa a reconhecer esse facto simples. A agitação em que anda chega a confranger. Sossegadinho na Covilhã ou no diabo ficava melhor.

PS. Nestes entretempos, VPV perdeu isto como motivo de glosa...e oportunidade de recensão crítica.

sábado, outubro 15, 2016

A Esquerda é a dona disto tudo e faliu-nos como país

O ministro das Finanças que Pedro Ferraz da Costa considera um "coitado" porque anda a fazer na política quase tudo ao contrário daquilo que estudou e escreveu, disse agora que este Orçamento de Estado é de Esquerda.

É notável que um ministro das Finanças que estudou e escreveu tudo ao contrário diga algo tão sintomático como a referência a uma palavra mágica. "Esquerda" tem sido uma dessas palavras porque concita logo um capital de simpatia nos supostos beneficiários ideológicos que num país pobre em tudo tende a constituir maioria eleitoral.  

Isto não é de agora. De agora é apenas a arrogância da superioridade da ideia de Esquerda que afasta qualquer veleidade dos que não partilham a epifania. De agora é apenas a falta de vergonha em colar um conceito a algo que não tem raiz nessa Esquerda a não ser nas causas.

O Orçamento de Estado deste ano é apenas um compromisso com os ditames que recebemos da União Europeia em que estamos inseridos. Esta UE não quer saber de orçamentos de esquerda para nada. Quer apenas que paguemos o que devemos e demos garantias disso.
E o que estes pataratas da mistificação permanente fazem é mascarar a nossa desgraça colectiva de que aliás foram autores directos, em vitórias de uma ideologia que nos conduzirá novamente ao desastre.

Isto tem décadas. Primeiro começou com os intelectuais esquerdistas pró-comunistas, no tempo do Estado Novo. Nessa altura estavam escondidos nas catacumbas clandestinas a copiar avantes e merdas parecidas do  género que um qualquer Pacheco Pereira escondia por baixo do capote de inverno para sabotar o regime.
A par desses pírulas ideológicos caminhavam alegremente os "compagnons de route" que liam tudo o que vinha de França e queixavam-se depois da Censura que nunca os impediu de tal.

Esta actividade granjeou-lhes o estatuto de "esquerda" de que agora se ufanam. Com o advento do golpe que acabou com o fassismo e o ar livre da estrumeira em que transformaram culturalmente o país a capitalização ideológica prosseguiu ainda mais afoita até chegarmos a isto: a Esquerda é que manda ideologicamente em tudo.

Até quando?

Eduardo Lourenço, um dos expoentes da estumeira ideológica apontada, já o previra e explicara a um dos órgãos máximos do fedor mediático ambiente: "A partir de 1940 a esquerda intelectual domina culturalmente o panorama português. Será assim praticamente até à Revolução." Claro como água.

Expresso de 16 de Março de 1985, escassos dez anos após o golpe de Esquerda.


Impunidade assegurada no SIS?

 Pouca gente se importa com isto que tem mais importância do que parece e por isso fica aqui, para memória futura embora tenha já alguns dias...

Observador:


"O Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa arquivou no final de Julho uma investigação aberta contra três espiões do Serviço de Informações e Segurança (SIS) por falta de provas e depois de o primeiro-ministro recusar o levantamento do segredo de Estado que protege documentação das secretas.
A procuradora responsável pela investigação cita a procuradora-geral Joana Marques Vidal no despacho de arquivamento e fala em interesses instalados nos serviços de informações que vão contra o Estado de Direito.
Estavam em causa alegadas suspeitas de que os agentes do SIS, obedecendo a ordens do ex-director Horácio Pinto, teriam executado um varrimento tecnológico ao gabinete e computador de António Figueiredo, ex-presidente do Instituto de Registos e Notariado e principal arguido do caso Vistos Gold. O problema é que o varrimento foi realizado 10 dias depois de a revista Sábado ter divulgado a notícia sobre a existência da investigação contra Figueiredo e numa altura em que o ex-líder do IRN estava, de facto, sob escuta.
Por isso mesmo, os agentes do SIS eram suspeitos do crime de favorecimento na investigação do DIAP de Lisboa que tinha sido aberta em Janeiro de 2015. E porquê? Porque o varrimento pode ter eliminado prova crucial para a investigação do caso dos Vistos Gold, onde António Figueiredo vai ser julgado pela alegada prática de 13 crimes — entre os quais corrupção passiva, recebimento indevido de vantagem e branqueamento de capitais, lê-se nos autos consultados pelo Observador no DIAP de Lisboa.

O que é um varrimento tecnológico?

Tem dois objectivos essenciais:
. detectar escutas ambientais colocadas em determinado espaço físico que permita gravar e reproduzir todas as conversas ocorridas no mesmo espaço;
. eliminar documentos, emails ou qualquer tipo de informação contida num computador sem deixar qualquer rasto sobre o ‘apagão’.
Na origem do arquivamento está uma decisão de António Costa. Seguindo um parecer de Júlio Pereira, director do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), o primeiro-ministro recusou-se a levantar o segredo de Estado que protege o acesso aos relatórios do SIS e a identidade dos três espiões envolvidos, desclassificando apenas um memorando do SIS realizado com base em fontes abertas — isto é, com base em notícias de jornais e informação acessível a qualquer cidadãos através da internet.
Em Junho de 2015, o mesmo Júlio Pereira e o juiz desembargador Horácio Pinto (ex-director do SIS que terá ordenado o varrimento ao gabinete de António Figueiredo) tinham visto o Supremo Tribunal de Justiça arquivar as mesmas suspeitas contra si, na sequência de uma segunda certidão do caso Vistos Gold. O mesmo aconteceu com as suspeitas de corrupção que incidiam sobre o juiz Antero Luís (ex-director do SIS e antecessor de Horácio Pinto).

Por que razão existiram duas investigações?

Porque Júlio Pereira e Horácio Pinto têm direito a foro especial e os agentes do SIS não têm o mesmo privilégio. Concretizando: tratando-se de magistrados situados no topo da carreira (no caso do procurador-geral adjunto Júlio Pereira) e no escalão intermédio (desembargador Horácio Pinto), as suspeitas tiveram de ser enviadas para o Ministério Público no Supremo Tribunal de Justiça. Já os agentes do SIS foram investigados pelo DIAP de Lisboa.

No despacho de arquivamento do DIAP de Lisboa fica claro que não foi possível reconstituir os factos sob investigação porque o primeiro-ministro, informado pelo secretário-geral do SIRP, entendeu não levantar o segredo de Estado. E que a procuradora-adjunta Andrea Marques, titular do inquérito, tem dúvidas sobre a real existência de um perigo de espionagem que pudesse sustentar a realização da operação técnica levada a cabo pelo SIS.

O varrimento e o espião russo

As investigações a Júlio Pereira, Horácio Pinto e aos três agentes do SIS têm a mesma origem: certidões do caso Vistos Gold. E um ponto em comum: suspeita de dois varrimentos realizados pelo SIS ao computador e ao gabinete de António Figueiredo. O primeiro varrimento terá sido realizado a 27 de fevereiro de 2014, enquanto o segundo terá sido executado cerca de cinco meses mais tarde — mais concretamente, a 18 de Junho de 2014.
Tudo começou com uma desconfiança de António Figueiredo no início de 2014 de que estava a ser investigado e escutado. A 27 de Fevereiro, uma equipa de vigilância da Polícia Judiciária (PJ) detectou a deslocação de três agentes do SIS às instalações do Instituto de Registos e Notariado (IRN). A equipa de investigação do caso Vistos Gold, liderada pelos procuradores Susana Figueiredo e Manuel Dores, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, suspeita que o primeiro varrimento terá sido executado nesta altura.
A 5 de Junho do mesmo ano, a revista Sábado divulgou o exclusivo de que Figueiredo e outros responsáveis da administração pública estavam sob investigação judicial no que viria a ser conhecido como o caso Vistos Gold. Onze dias depois, a PJ voltou a detectar uma nova deslocação de três agentes do SIS e do diretor desta secreta, o desembargador Horácio Pinto, à sede do IRN. Nesse mesmo dia, foram registadas trocas de mensagem entre António Figueiredo e o director do SIS, nas quais o líder do IRN solicita a verificação de alguns locais que anteriormente teriam sido falados entre os dois, de acordo com os autos consultados pelo Observador no DIAP de Lisboa.
Após a dedução de acusação por parte do Ministério Público (MP) contra António Figueiredo, o ex-ministro Miguel Macedo e mais 14 arguidos, Júlio Pereira admitiu publicamente que tinha sido realizado, de facto, um varrimento electrónico no início de Junho ao gabinete do arguido António Figueiredo a pedido deste e no âmbito de um alegado protocolo com o IRN. Um ano antes, e aquando do seu primeiro interrogatório como arguido e preso preventivo, o próprio António Figueiredo tinha apresentado a mesma justificação ao MP.
Qual o interesse das secretas portuguesas num protocolo com o IRN? Criação de identidades falsas no registo civil, predial e comercial que permitam reforçar a credibilidade dos agentes envolvidos em operações no terreno.
A equipa de investigação do caso Vistos Gold nunca deu crédito a esta tese devido à proximidade temporal entre a revelação pública (através da revista Sábado) da existência de uma investigação contra Figueiredo e o varrimento ocorrido em Junho.
Certo é, contudo, que ocorreu um caso de espionagem no IRN em 2014. Um funcionário deste instituto terá sido apanhado, numa operação de contra-espionagem do SIS, a passar informações a um espião russo sobre a base de dados dos registos portugueses.

Os contactos com Passos Coelho e António Costa

Aberto o inquérito no DIAP de Lisboa contra os agentes do SIS em Janeiro de 2015, cedo a titular da investigação (a procuradora-adjunta Andrea Marques) se deparou com uma condicionante inevitável em qualquer investigação que envolva os serviços de informações: o segredo de Estado.
Foi precisamente esse segredo que o SIS invocou por duas vezes para rejeitar o acesso à documentação pretendida pelo MP sobre aquela operação técnica — assim se chama o varrimento na linguagem dos espiões, o que obrigou a procuradora titular da investigação a recorrer em Setembro de 2015 ao primeiro-ministro Passos Coelho.
Não sem antes deixar registado nos autos a sua discordância face à interpretação legal das secretas, citando mesmo a posição assumida pela procuradora-geral Joana Marques Vidal num parecer emitido em 2014 para o Parlamento sobre a lei quadro do SIRP que alargou o âmbito do que pode ser classificado como segredo de Estado.
Para a procuradora-adjunta Andrea Marques podemos estar perante uma situação semelhante à hipótese levantada por Marques Vidal:
Poder-se-á estar a alargar um regime de segredo particularmente severo em termos de revelação a acesso externo, a matérias que simplesmente sejam desagradáveis a determinados interesses instalados e que dessa forma possam ir contra o próprio funcionamento do Estado de Direito”, lê-se no parecer da procuradora-geral que é do conhecimento público.
Seguindo um parecer de Júlio Pereira enquanto secretário-geral do SIRP, Passos Coelho autorizou a procuradora-adjunta Andrea Marques a 14 de Outubro de 2015 (dez dias depois de a coligação PSD/CDS ganhar as eleições legislativas) a consultar a documentação requerida, solicitando posteriormente o levantamento do segredo de Estado dos documentos que considerasse mais relevantes.
Quatro dias antes de António Costa ser indigitado por Cavaco Silva como novo primeiro-ministro, Andrea Marques deslocou-se à Presidência do Conselho de Ministros (PCM) para consultar a documentação do SIS, tendo seleccionado dois documentos:
  • Memorando operacional do SIS sobre a investigação dos Vistos Gold após notícias da Sábado e do Correio da Manhã;
  • Relatório especial de informações datado de 16 de Outubro de 2014.
A procuradora pediu o levantamento do segredo de Estado sobre esses documentos a 17 de Dezembro mas não deixou de constatar que não existia a seguinte documentação no dossiê que lhe tinha sido disponibilizado na PCM:
  • Relatórios sobre os varrimentos realizados nas instalações do IRN, para além da que ocorreu em Junho de 2014;
  • Protocolo entre o SIS e o IRN invocado por Júlio Pereira e António Figueiredo;
  • Identidade dos funcionários do SIS que executaram operações de varrimento.
E voltou a insistir no acesso à documentação em falta.
A resposta do primeiro-ministro António Costa só chegou em Abril de 2016. Seguindo um parecer de Júlio Pereira, tal como Passos Coelho, Costa autorizou o levantamento parcial do segredo de Estado. Na prática, Andrea Marques apenas teve acesso a um memorando do SIS realizado com base em fontes abertas.
O parecer do secretário-geral do SIRP, ao qual António Costa aderiu na íntegra, ‘explica’ porque razão essa foi o único documento disponibilizado ao MP:
  • O relatório especial de informações pretendido pelo MP, por exemplo, dá uma visão muito lata do modus operandi de um serviço estrangeiro bem como das acções de contra-espionagem levadas a cabo no nosso país e em países amigos. A disponibilização dessa documentação, argumentou Pereira, poderia afetar as relações dos serviços de informações portugueses com as agências internacionais congéneres;
  • Já no que diz respeito à documentação relativa aos varrimentos no IRN, Júlio Pereira argumentou que apenas tinha sido efectuado um varrimento (no início de Junho) e que não tinha sido produzido qualquer relatório sobre essa operação. Pereira admitiu que essa medida, que tem um carácter defensivo, era executada com regularidade pelo SIS. Contudo, e depois do incidente no IRN, tais registos passaram a ser efectuados;
  • O protocolo entre o SIS e o IRN nada tinha a ver com o varrimento realizado, logo não devia ser disponibilizado;
  • Sobre a revelação da identidade dos três espiões envolvidos no caso, o secretário-geral do SIRP era frontalmente contra. Porque a protecção da identidade dos funcionários do SIRP é uma questão essencial em termos operacionais — muito mais quando se trata de agentes, como aqueles que o MP queria interrogar, que trabalham nos núcleos operacionais mais sensíveis do SIS;
  • Por último, Júlio Pereira presumia que o inquérito aberto no DIAP de Lisboa não visava os três agentes em causa, visto que a procuradora-adjunta Andrea Marques desejava ouvi-los como testemunhas. Além do mais, o processo aberto contra o desembargador Horácio Pinto já tinha sido arquivado no Supremo Tribunal de Justiça.
Conformada com a decisão do primeiro-ministro António Costa, e sem mais recursos ao seu dispor, a procuradora-adjunta Andrea Marques ainda notificou dois espiões do SIS para prestarem declarações nos autos.
Um agente e um responsável do SIS acabaram por prestar declarações enquanto testemunhas. Assumiram a sua presença em diversas reuniões com o IRN mas negaram o seu envolvimento em qualquer operação de varrimento.
O responsável chegou mesmo a dizer que o serviço chegou à conclusão de que existiam riscos sobre a informação contida na base de dados do IRN e que tal perigo poderia exigir a realização de operações de natureza técnica — como os varrimentos, por exemplo. O mesmo responsável, director de um dos departamentos da secreta, acabou por invocar o segredo de Estado para não revelar se teve conhecimento de relatórios elaborados pelo SIS sobre notícias relacionadas com o caso Vistos Gold."


sexta-feira, outubro 14, 2016

Eles riem-se de nós...

Observador ( estão lá todos... até o amigo Lacerda):


A melhor legenda para esta foto é esta entrevista no i de hoje:

Aqueles indivíduos riem de quem?

quinta-feira, outubro 13, 2016

Bob Dylan: sai um Nobel da Literatura para a sua poesia...

Bob Dylan laureado com o Nobel da Literatura!  Algo está a acontecer que não entendo muito bem. Será? Diz que é pela poesia. Pronto, está bem, pela poesia então.

As minhas memórias de Bob Dylan remontam ao início dos anos setenta e a certas músicas emblemáticas que então se tocavam principalmente no rádio, como Blowin in the wind ou Mr. Tambourine Man ou mesmo Like a rolling stone. Será por estas letras que Dylan ganhou o prémio? Para mim, foram primeiro músicas.

Nessa altura de meados dos anos sessenta, já para os finais, ou seja, no tempo da "primavera marcelista" havia muito pouca informação especializada sobre música popular, de qualidade, em Portugal.
Havia um ou outro jornal ou revista, como o Disco, música & moda, aparecido em Fevereiro de 1971, dirigido por um Ruben A. ( comunista)  e a revistinha Mundo da Canção ( dirigida do Porto por um grupo de esquerdistas, também comunistas), cujo primeiro número saiu em Dezembro de 1969.
Bob Dylan já então era notícia e confirmado como um dos expoentes dessa música popular de expressão anglo-saxónica. Tinha publicado até essa altura os seus discos mais importantes e a sua poesia mais relevante.
No rádio e desde 1965 ( até 1974)  havia o Em Órbita que passava esses discos que ainda não havia por cá em sortido a granel.

Fez este ano 50 anos que Dylan publicou um dos seus melhores discos- Blonde on Blonde, por aqui celebrado.

Em 6 de Novembro de 1970 o Diário Popular anunciava um novo disco de Bob Dylan ( New Morning) na página dedicada à música popular:





Por esse tempo a popularidade de Bob Dylan traduzida em vendas de discos, em Portugal, não devia ser muito grande.
Porém, Dylan já era um mito por diversas razões para além da música. As letras das canções, a sua poesia pela qual hoje foi laureado com o Nobel, seria uma dessas razões porque algumas canções eram sintoma dos "tempos que estavam a mudar" ou seja, dos ventos da História que sopravam dessa banda e não eram favoráveis ao nosso status quo de então.
Daí também a popularidade de Dylan em certos meios intelectuais, dos jornais e dos media em geral, de esquerda, naturalmente. Dylan é um dos artífices das mudanças de costumes vindas dos anos sessenta.

Assim, estas letras estiveram afixadas durante algum tempo na estante da minha adolescência...

Like a rolling stone, publicada na Mundo da Canção nº 33 de 20.5.1971 , uma das canções mais interessantes e reveladoras, com notas derivadas da versão cantada ao vivo em 1974 no disco Before the Flood, provavelmente a primeira vez que a ouvi.


 It ain´t me baby, publicada na revista alemã Pop de Dezembro de 1974. Essa revista costumava traduzir a letra para alemão. Por cá, ninguém tentou tal coisa, jamais ( a não ser Dórdio Guimarães na revista Mundo Moderno em relação a uma ou outra canção dos Beatles).


E George Jackson, um "single" de finais de 1971, publicado por cá em 1972, cuja letra foi apanhada algures e aproveitada para estudar inglês (  os significados no fim...). Uma canção de "protesto" de Dylan, acerca de um preto abatido numa cidade dos EUA, pela polícia.


Os discos antigos de Dylan só se revelaram nas capas e conteúdo, para mim, já em meados dos anos setenta, nesta edição da revista francesa Rock&Folk de Março de 1976 que as publicou por ocasião de reedições locais.
 Foi uma revelação ver a capa de Blonde on Blonde ( a preto e branco)...e imagino como deveria ser a frustração dos jovens dos países de Leste que nem sequer acesso a estas informações tinham. Cá em Portugal, apenas estas e vindas do estrangeiro. A primeira vez que vi o disco ao vivo e a cores foi nos anos oitenta...em Espanha.

A curiosidade que hoje pode ser satisfeita com um par de clicks no Google, nessa altura era apenas resolvida com estas publicações. Em Portugal nada havia de comparável e nunca se fez coisa igual. Nem agora, sequer. 


O período do PREC, no entanto, foi o mais revelador para conhecer a obra de Bob Dylan. O programa da Rádio Renascença, Página Um, apresentado por Luís Paixão Martins ( LPM), deu a conhecer os discos então saídos: Planet Waves, Before the Flood ( 1974) e principalmente Blood on the tracks, cuja primeira passagem pública ocorreu em 18 de Fevereiro de 1975. Apontei a data...tal a importância que assumiu para mim esse disco, nessa altura.

Curiosamente, a partir daí, para mim Bob Dylan acabou como músico que me interessasse.

Os seus três discos que aprecio mais são estes, aqui em edição original de primeira prensagem norte-americana ( o Blonde on Blonde é em mono):Blonde on Blonde de Julho de 1966; Before the Flood, de meados de 1974 e Blood on the tracks de inícios de 1975.


Está aqui tudo o que me interessa ouvir de Bob Dylan, incluindo algumas canções antigas em versão ao vivo. 
Mas não foi por estas músicas que Bob Dylan ganhou o Nobel. Ou foi mesmo?

quarta-feira, outubro 12, 2016

Efeméride de uma loucura trágica

Tirado daqui:


Faz hoje 44 anos que sucederam os factos narrados no jornal acima mostrado e cuja linguagem seria de rir até às lágrimas se não fosse demasiado trágico, o assunto.

 Para apreciar a loucura que animava estas pessoas que ainda andam por aí, algumas em cargos de grande relevo público,  talvez valha a pena recordar estes factos aqui contados e principalmente a longa série de comentários que originou.

A loucura do MRPP, aliás, ainda não terminou, como o prova a sucessão de acontecimentos recentes que envolveram o velho e "grande timoneiro" Arnaldo Matos e o advogado Garcia Pereira.


Bom vento de Espanha

 sapo:

A fiscal-geral de Espanha [equivalente a procuradora-geral] recebeu ontem o i em Lisboa e falou sobre os desafios e os problemas da Justiça no país vizinho. Afirma que os casos que envolvem grandes políticos e até um membro da família real são a prova de que as instituições estão a funcionar, mas não esconde a insuficiência de meios do MP para combater a criminalidade mais complexa – um mal que diz ser transversal a todos os países. Consuelo Martínez Pereda garante que acompanha muito do que se passa em Portugal, inclusivamente casos como a Operação Marquês – que apenas conhece por caso Sócrates. Questionada sobre as críticas do ex-primeiro-ministro – que em entrevistas disse que a Operação Marquês não seria possível em qualquer outro estado europeu – a responsável máxima pelo MP espanhol elogiou a investigação portuguesa e deixou claro que se fosse feita do outro lado da fronteira não seria muito diferente: “Algumas investigações têm mesmo de demorar todo este tempo porque são complexas”.


A procuradora-geral espanhola diz publicamente em Portugal o que a procuradora-geral de cá não consegue dizer nem aqui nem lá...
Pode e deve perguntar-se porquê, na medida em que notoriamente se preocupa com a "repercussão social" dos casos judicializados.
Medo? De quê e de quem? Da imagem? De dizer asneiras? É pior assim, nada dizendo e deixando os elegantes advogados dos arguidos exprimirem-se como se exprimem e os komentadores avençados ulular do modo que estão habituados em obediência à voz do dono.

Para quê tanta preocupação com os processos de "repercussão social" se o resultado é este, ou seja o silêncio que revela um temor sem sentido?

Cardeal Cerejeira, um dos pilares do regime no Estado Novo

A revista Observador de 7 de Dezembro de 1973 publicou uma extensa reportagem sobre a vida de Manuel Gonçalves Cerejeira, o cardeal que "quando celebrou missa pela primeira vez, Afonso Costa ia a caminho de Braga para anunciar que acabaria com o Catolicismo em duas gerações"...

 O cardeal Cerejeira em 1973 tinha 85 anos, estava retirado  e viveu mais quatro anos, falecendo em Agosto de 1977. Foi Cardeal-Patriarca de Lisboa em 1930 e era amigo de Salazar, dos mais chegados.

O artigo porém, só  menciona Salazar uma única vez, para o associar ao grupo que redigia o jornal Imparcia, em Coimbra no CADC, no tempo da Primeira República jacobina e maçónica.





Quando Cerejeira morreu em Agosto de 1977 O Jornal dedicou-lhe este obituário de página inteira ( sem qualquer menção na primeira página):

O fassismo e o fassismo e Pide e tortura e prisão e Salazar e Cerejeira no mesmo plano dos "48 longos e dolorosos anos de fascismo" na prosa elaborada de uma tal Edite Soeiro do mesmo jaez de uma tal Palla, mãe deste Costa que agora geringonça por aí.




 É sempre bom conhecer o pedigree de certas entidades e sendo o cardeal Cerejeira conservador, tal como Salazar, com o advento do 25 de Abril tornou-se fascista ipso facto.
Em 1973 ainda não era...e por isso é um fascista with a bullet, como diria Zappa.

Ridendo castigat mores...e o "carisma" também.

Daqui:

"José Sócrates vai lançar ainda este mês o seu livro sobre carisma. Segundo o Imprensa Falsa conseguiu apurar, o ex-primeiro-ministro já vai a meio da obra e está a adorar, tanto que quer conhecer o autor.

“Uma abordagem original sobre o carisma, numa prosa escorreita que dá gosto ler”, terá afirmado Sócrates, antes de pedir um encontro com o autor."


Este já não escapa ao ridículo. Esperemos para ver se lá aparecem Pinto Monteiro e Noronha Nascimento...para além de um tal Farinho. 

terça-feira, outubro 11, 2016

José Sócrates perdeu mais um recurso...

24hSapo:



O Tribunal da Relação de Lisboa rejeitou hoje o pedido de afastamento do juiz Carlos Alexandre apresentado pela defesa de José Sócrates, por o considerar "infundado".


"O requerimento de recusa apresentado não demonstra que se verifica motivo sério e grave, adequado a gerar desconfiança sobre a imparcialidade subjectiva do juiz", refere o acórdão da Relação.

A decisão teve como relator o juiz desembargador Cid Geraldo e como adjunta Ana Sebastião.

Este incidente de recusa foi apresentado pela defesa do ex-primeiro-ministro José Sócrates na sequência de declarações do juiz Carlos Alexandre em entrevista à SIC, no início de Setembro, em que o magistrado afirma não ter dinheiro em contas de amigos, nem contas bancárias em nome de amigos.

A defesa de Sócrates alegou que esta, entre outras declarações, configurava uma quebra de imparcialidade do juiz Carlos Alexandre, que acompanha o inquérito Operação Marquês, no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC).

No acórdão, o Tribunal da Relação considerou que a entrevista do juiz Carlos Alexandre "consubstancia um percurso de vida referente às circunstâncias da sua vida pessoal, familiar e patrimonial, bem como do seu percurso profissional, pretendendo o juiz visado, quando se refere às horas extraordinárias e os fins de semana para ganhar algum dinheiro, fazer uma contraposição entre a sua pessoa e a de terceiros, fazendo a comparação a outras formas de detenção de riqueza, de forma oculta, que são apontados em sede de tipologia, por diferente literatura, e com as quais o juiz tem sido confrontado em muitos processos".

Para a Relação de Lisboa, Carlos Alexandre "pretendeu tão só significar que os seus rendimentos são aqueles que estão à vista e em seu nome e que não lançou mão de qualquer forma de ocultar outros rendimentos, de que efectivamente não dispõe".

Considerou ainda a Relação que as expressões "não tem amigos pródigos", "não tenho dinheiro em nome de amigos", "não tenho contas bancárias em nome de amigos", proferidas pelo juiz, não visaram "assacar ao requerente (José Sócrates) como judicialmente assentes e comprovados os males e culpas que bem entendeu" e "não são demonstrativas da evidência do entendimento" de ser a Sócrates que "se estava referir".

"Antes, consubstanciam um desabafo do senhor juiz visado perante os cortes salariais sofridos desde 2010, de que não dispõe de outros rendimentos, senão daqueles que estão à vista e em seu nome, não tendo como objectivo qualquer ataque pessoal ou qualquer alusão directa ao comportamento do requerente, pois, em momento algum", o juiz Carlos Alexandre "afirmou ter o requerente (Sócrates) dinheiro em contas de amigos".

A Relação diz também não vislumbrar "nenhum pré-juízo condenatório, nem violação grosseira do especial dever, como juiz, de ser imparcial na avaliação objectiva, isenta e descomprometida da prova, nem violação do respeito pelo princípio da presunção de inocência, uma vez que a alegada insinuação carece de demonstração".

A decisão concluiu que não estão "demonstradas circunstâncias que possam revelar a quebra de imparcialidade subjectiva que, sendo do foro íntimo do juiz, tem de ser presumida até prova em contrário" e que "o melindre do requerente (José Sócrates) não pode constituir fundamento plausível, sério e justificadamente grave que inculque, sem qualquer reserva, dúvida sobre a imparcialidade do juiz visado".

A Operação Marquês conta com 12 arguidos, entre os quais José Sócrates, que esteve preso preventivamente mais de nove meses, tendo esta medida de coação sido alterada para prisão domiciliária, com vigilância policial, a 04 de Setembro de 2015.

Desde Outubro que está em liberdade, embora proibido de se ausentar de Portugal e de contactar com outros arguidos do processo.

Sócrates foi detido a 21 de Novembro de 2014, no aeroporto de Lisboa, indiciado pelos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção passiva para ato ilícito.


ADITAMENTO:

A "defesa" já comentou publicamente o que não deveria ter comentado ( nenhum dos outros sujeitos processuais o pode fazer...) e fê-lo com a elegância habitual da dupla Delille&Araújo:

 Em comunicado, a defesa do ex-primeiro-ministro refere que, não tendo o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa entendido que as palavras de Carlos Alexandre, em entrevista à SIC, eram dirigidas a José Sócrates, entende que foi "uma oportunidade perdida" deste tribunal superior de fazer com que o processo Operação Marquês respeite a lei e o direito.

 Esta dupla já perdeu quase todos os recursos ( só ganhou o do Rangel...) mas ainda assim canta sempre de galo e sai por cima das derrotas como se fossem percalços de somenos.

Enfim...é difícil encontrar pataratas assim, no meio judicial.

A história do chinês que venceu a Uber...

Ontem à noite na RTP1 o debate no Prós e Contras a propósito do diferendo entre os taxistas tradicionais e as novas empresas, americanas ( Uber e Cabfly) lembrou-me que o último número da revista Bloomberg Business Week traz uma capa sobre o assunto: um chinês que conseguiu bater a Uber  na competição pelo mercado de transporte privado. 




A história merece ser lida e já está online: a revista chama-lhe o carrasco da Uber.  Mostra ainda o que é o capitalismo na China de hoje.




At the Beijing offices of the ride-hailing startup Didi, many employees refer to Cheng Wei, the founder and chief executive officer, as laoda, or “big boss.” Others use his English nickname, Will. This summer the world came to know him by another designation: the Uber Slayer, the one entrepreneur who managed to beat back the relentless advance of the richest, most rapacious startup since Bill Gates ran Microsoft. In August, after a multibillion-dollar, year-and-a-half-long battle, Uber agreed to sell its business in China and depart the country.

It was a face-saving retreat for Uber, which got a 17.7 percent ownership stake in Didi and $1 billion in cash. But it was a huge victory for Cheng. Eight weeks after the deal, on the fifth floor of the company’s headquarters, he’s careful to sound magnanimous toward his vanquished rival. “Uber is a great company,” he says. “They have the best strategy in China among all the Silicon Valley companies. They are more agile than Google. They aren’t like this in other parts of the world, but in China they’ve learned to show goodwill. They are not like a usual foreign company in China, but more like a startup, full of passion, feeling like they are fighting for themselves.”

The world is plenty familiar with Uber and the fighting spirit of its CEO, Travis Kalanick. But until August, Cheng was little known outside China, preferring to let the company’s English-speaking president, Jean Liu, a former Goldman Sachs managing director, serve as its public face. Under Cheng, Didi has expanded in just four years to 400 Chinese cities. The service lets users digitally hail and pay for taxis, private cars, limousines, and commuter buses. Cheng says 80 percent of all taxi drivers in China now use Didi to find passengers. So many people use the app, it can be difficult to get a cab during rush hour without it. Investors recently valued Didi at $35 billion, making it one of the most valuable private companies in the world. Uber, with operations in almost 500 cities on six continents, is worth $68 billion.

In late September, during a rare interview, Cheng spoke to Bloomberg Businessweek about his journey from obscurity to China business hero. At 33, he’s cherubic and bespectacled—he wouldn’t look out of place in a video game parlor at 2 a.m. His spacious office in the north part of the city is furnished with business books and a desktop goldfish tank. On clear days, which are rare in Beijing, he can see the mountains in the northwest where the Chinese strengthened the Great Wall in the 15th century to protect against invasion from the Mongols. This seems apt.

“By the time we were actually about to launch the service, about 30 companies emerged at the same time,” he says. “There were different models. Some companies were much more powerful than us.

“It’s a long story,” he continues. “It had unexpected twists.”

Cheng was born in Jiangxi province, a landlocked region in eastern China famous for being the cradle of Mao Zedong’s Communist revolution. His father was a civil servant, his mother a mathematics teacher. He says he excelled at math in high school but during his college entrance exams neglected to turn over the last page of the test, leaving three questions blank. He got into the Beijing University of Chemical Technology, less prestigious than the upper-echelon schools. Cheng planned to major in information technology but was instead assigned by his university to business management. He worked during his senior year, as Chinese students often do. His job: selling life insurance. He didn’t sell a single policy—not even to one of his teachers, who told him that “even my dog has insurance,” Cheng says. At a job fair, he applied for an opening as a manager’s assistant at a company billing itself as a “famous Chinese health-care company.” But when he showed up for work in Shanghai, luggage in hand, he discovered it was actually a chain of foot massage parlors. “That’s why we seldom advertise at Didi,” he says. “Because I think it’s all scams.” He’s not a fan of foot massages.

In 2005, out of school at 22, he got an entry-level job at Alibaba, the huge e-commerce company, by showing up at the front desk of its Shanghai office and asking for work. He landed in sales, earning 1,500 yuan, or $225, a month. “I am very thankful toward Alibaba,” Cheng says. “Because someone stepped forward, didn’t shoo me away, and said, ‘Young people like you are what we want.’ ”

Despite his earlier insurance fiasco, Cheng proved to be good at selling online ads to merchants. He moved up the ranks and eventually reported to an outspoken executive named Wang Gang. When he first met Cheng, Wang says, his sales numbers were strong, but his real talent was emceeing customer events.

In 2011, Wang, unhappy about being passed over for a promotion, gathered Cheng and other underlings to brainstorm about startups. After they tossed around ideas about companies in education, restaurant reviews, even interior decorating, a foreign ride-hailing startup that was rapidly raising money and planning to spread around the world captured their attention. It wasn’t Uber; it was Hailo—a U.K. company that worked with London’s famous black cabs, driven by licensed hackney drivers. Cheng figured the Hailo model could be replicated in China, with its 2 million yellow-striped taxis. He left Alibaba in 2012; so did Wang, who became Cheng’s primary financial supporter, investing 800,000 yuan. (Wang’s Didi shares are now worth $1 billion, he estimates.) Aiming for a memorable name, Cheng came up with Didi Dache, or “honk honk taxi.” The company recently rebranded itself as Didi Chuxing, or “honk honk commute.”

Cheng and several ex-Alibaba colleagues initially set up shop in a shabby 100-square-meter warehouse space with a single conference room, in the northern part of the city. The team—they called each other classmates, just as they did at Alibaba—spent its first months trying to outmaneuver the dozens of other ride-hailing companies that had gotten the same idea at the same time. Cheng says he dispatched two of his first 10 employees to launch the service in Shenzhen, home to Foxconn’s iPhone factories, because he thought the city had the most liberal regulatory attitude in China. Didi’s service was promptly halted by local authorities.

But it turned out that Didi had a few advantages over the competition. Some were copying Uber’s U.S. strategy of working with limousine and town car chauffeurs. But there are far fewer black cars than yellow cabs in China. When Yaoyao Taxi, a rival backed by Silicon Valley’s Sequoia Capital, won an exclusive contract to recruit drivers at the Beijing airport, Didi classmates descended on the city’s biggest railway station to promote their app. Instead of imitating competitors and giving away smartphones to drivers, an expensive proposition for a capital-strapped startup, they focused on providing their free app to younger drivers who already had phones and were likely to spread the word about Didi.

During an epic Beijing snowstorm late in 2012, when it was impossible to hail a cab on the street, residents turned to the app and the company surpassed 1,000 orders in a single day for the first time. That got the attention of a Beijing venture capital firm, which put in $2 million, valuing Didi at $10 million. “If it didn’t snow that year, maybe Didi wouldn’t be here today,” Cheng says.

Then, some bad news: Alibaba invested in a rival ride-hailing company, Kuaidi Dache (“fast taxi”). Success for internet startups in China often depends on the strength of a company’s connection to one of the Big Three—Alibaba, Tencent, or Baidu. Wang and Cheng turned to Tencent, the social network and video game maker based in Shenzhen.

With the backing of two rival Chinese internet giants, Didi and Kuaidi trained their sights on each other. During one notoriously difficult week, reverently known at Didi as “Seven Days, Seven Nights,” both companies had intermittent technical problems, sending drivers and riders scurrying from one service to the other and back again. Cheng says engineers were holed up in Didi’s cramped offices for so long and worked so hard to resolve their issues that a classmate had to have his contact lenses surgically removed.

Finally, Cheng called Pony Ma, the founder of Tencent, for help. Ma agreed to lend 50 engineers and a thousand servers, and invited Didi’s team to work temporarily out of Tencent’s more comfortable offices. But Didi wasn’t making any money, and Cheng needed to raise capital. He visited the U.S. for the first time in November 2013, only to be rejected by multiple investors. “We had burned a lot of money,” he says. “Investors were like, ‘Whoa.’ ”

In early 2014, during the Lunar New Year, everything changed. Tencent ran a successful promotion over the holiday called Red Packet, which allowed WeChat users to send small financial gifts to friends and families, a Chinese custom, using their smartphone. It was a big success and led Tencent to an epiphany: Mobile payments were the future.

Tencent recognized that Didi could help increase mobile transactions and started to funnel capital into the company, which by then was allowing riders to pay drivers using WeChat’s cashless payment service. Alibaba responded by pumping money into Kuaidi, which was integrated with its mobile payment service, AliPay. Together the companies spent about 2 billion yuan in discounts and subsidies to customers on the taxi-hailing apps over the first few months of 2014, according to Chinese media reports. Ridership soared. Li Hairu, an early Didi employee, recalls checking daily orders each night during those months—3 million! 3.1 million!—and yelling them across the office to her colleagues.

With Kalanick eyeing China as Uber’s next big opportunity, Didi’s and Kuaidi’s investors eventually realized the two companies were going to bludgeon each other into oblivion. The Russian venture capitalist Yuri Milner, a Didi backer, shuttled between the headquarters of Alibaba and Tencent to help broker a deal. In February 2015 the companies merged. Didi, which had more ride volume than Kuaidi, ended up controlling 60 percent of the combined company. Cheng insisted on running it as a condition of the deal.

In late 2013, Kalanick and a team of Uber executives toured China to size up prospective partners and rivals. They visited Didi’s offices. Cheng kicked things off by telling Kalanick, “You are my inspiration,” after which the mood became tense. Emil Michael, Uber’s senior vice president for business, remembers what may have been some psychological warfare: “They served us maybe the worst lunch I’ve ever eaten,” he says. “We were all just poking at our food, wondering, Is this some kind of competitive tactic?” (It wasn’t. Liu, Didi’s president, later apologized to Michael for the food.)

At one point during the meeting, Cheng walked over to a whiteboard and drew two lines. Uber’s line started in 2010 and went up sharply and to the right, depicting its rapidly rising ride volume. Didi’s started two years later, in 2012, but had a steeper curve and intersected Uber’s line. Cheng said Didi would one day overtake Uber, because China’s market was so much larger and many of its cities restrict the use and ownership of private cars as a way to manage traffic and pollution. “Travis just smiled,” Cheng recalls.

Kalanick raised the possibility of Uber investing in Didi, but he demanded a 40 percent stake, Cheng says. “Why would I take it?” he replies, when asked if he considered the offer. Uber’s executives were impressed. Kalanick, Michael says, “told me that among all the ride sharing founders, Cheng Wei was special. He was just a massive cut above anyone else in the industry.” Uber and Didi were going to have to settle the matter in the market.

By the beginning of 2015 it seemed that Uber had an insurmountable advantage. It had a better app, powered by more stable technology. Investors valued it at $42 billion, about 10 times Didi’s valuation at the time. While Didi was consumed with its merger with Kuaidi, Uber was catching up: It controlled almost a third of the private car-hailing market in China within a few months. “At that time we felt like the People’s Liberation Army, with basic rifles, and we were bombed by airplanes and missiles,” Cheng says. “They had some really advanced weapons.”

Cheng is a student of military history, particularly such heroic events as the battle of Song Shan during World War II, when Chinese nationalist troops tunneled under a mountain to surround the invading Japanese army. Cheng held morning meetings with his senior staff, which he called the Wolf Totem. The name, based on a popular novel set during the Cultural Revolution about urban students sent to live in Inner Mongolia, connotes aggression. The Wolf Totem studied Didi’s daily results and adjusted the amount of subsidies given to drivers and riders. Cheng would regularly warn employees, “If we fail we will die.”

In May 2015, Cheng went on the offensive. Didi said it would give away 1 billion yuan in rides. Uber matched it. Cheng and his advisers searched for ways to fight the American company on its home turf. Uber, they reasoned, was like an octopus—its tentacles were everywhere in the world, but its mantle was in the U.S. Wang, the early investor and former board member, suggested at a meeting that Didi “stab Uber right in its belly.”

Wang says Didi contemplated expanding into the U.S. Instead, in September 2015, it invested $100 million in Uber’s American rival, Lyft. According to Wang, it was less about undermining Uber than about gaining negotiating leverage. “The purpose of them grabbing a lock of our hair and us grabbing their beard isn’t really to kill the other person,” he says. “Everyone is just trying to win a right to negotiate in the future.”

It was widely suggested in press accounts that the Chinese government helped Didi in its battle against Uber. Cheng rejects that, noting that as the largest ride-hailing company, Didi had to shoulder most of the regulatory burden and paid tens of millions of yuan to cover driver traffic citations and other fines. He also points out that state-connected companies such as Guangzhou Automobile Industry Group and China Life invested in either Uber or its China operations.

At the peak of hostilities, Didi and Uber were each burning through more than a billion dollars a year, giving unprofitable subsidies to drivers and riders. Both companies were desperate for new capital. Apple invested $1 billion in Didi in May 2016. A month later, Uber raised $3.5 billion from Saudi Arabia’s Public Investment Fund. The message to both sides became clear: They were going to have to wage this destructive money-losing battle for a very long time.

Cheng says the initial call for peace came from Uber; Michael from Uber contends that the Saudi money forced Didi to the table—the investment suggested there was simply no end to the capital Uber could tap. Regardless, both sides agreed it was time to stop the bloodletting and focus on building their businesses. “It was like an arms race,” Cheng says. “Uber was fundraising, we were also fundraising. But in my heart I knew our money needed to be put into a more valuable field. This was why we were able to join hands with Uber in the end.”

Michael and Liu hammered out the deal terms in two weeks and then met Kalanick and Cheng at a hotel bar in Beijing to raise glasses of baijiu, a traditional Chinese spirit made from sorghum. Over drinks, the CEOs spoke of mutual respect and their admiration at how hard both sides had competed. “We are the craziest companies of our times,” Cheng says. “But deep in our heart we are logical. We know this revolution is a technology revolution, and we are just witnessing the very beginning.”
 He genuinely seems to admire Kalanick—to a point. “His alcohol tolerance is just so-so,” Cheng says, smiling.

Didi now has about 5,000 employees, about a quarter of them in a collection of prefabricated five-story buildings on the periphery of Beijing’s Zhongguancun technology district. IBM and Lenovo have campuses nearby. Adorning the walls are pictures of a smiling cartoon taxicab, the company’s mascot. In the main building, a slide no one seems to use connects the fourth and fifth floors. Legions of young engineers hunker over their PC screens. One engineer wears an Uber T-shirt. “Surreal,” says a PR person, who still can’t get over seeing the former enemy’s logo on Didi property.

Uber and Didi each have one seat on each other’s board—without voting rights—and, Cheng says, “will also learn from each other.” The deal hasn’t closed yet; China’s Commerce Ministry is still examining the merger. But Chinese legal experts say the odds are slim that the antitrust agency will nix such a high-profile deal involving a well-connected national corporate champion. There are no restrictions on the two companies competing with each other in other countries. “On the global market, we will also have competition,” Cheng says. “We hope that this competition won’t be as malicious.”

The steep discounts of the past two years have come to an end, which means fares are going up and payouts to drivers are going down as the company attempts to become profitable and establish favorable numbers for an initial public offering. “The industry is slowly getting into a more rational state,” Cheng says.

Drivers and riders in Beijing have noticed, and their complaints mirror the grumbling about ride hailing in other parts of the world. The private cars “are more expensive to use than a taxi now,” says Christina Chen, an internet company employee who was taking a crowded Uber carpool in Beijing, with three other passengers, in late September.

Her driver, Sun Can, worked in construction before driving but says these days, with fewer special bonuses and incentives for drivers, he often prefers to just stay at home. “Who wants to be on the road when you are not making money?” he asks.

Cheng is already thinking about replacing his drivers. Didi is hunting in Silicon Valley for data scientists to develop a self-driving car, which will put it in competition with companies such as Google, Baidu, Tesla, General Motors, and, of course, Uber. He’s also held conversations with Gansha Wu, the former director of Intel Labs in China and founder of a Beijing-based driverless car startup called UiSee Technology, which is developing road-scanning systems for autonomous cars. “We share the same vision that driverless cars can do wonderful things for society,” Wu says.

For Cheng, this is what constitutes peacetime. The Wolf Totem is no more. He and his wife of four years are expecting a baby, their first. And that chart he drew a few years ago for Kalanick? Cheng says that when the total amount of money spent on rides on Didi and Uber China is combined, it will exceed the total spent on Uber rides around the world. The prediction he made to Kalanick has come true, and he believes it’s a turning point for his country: “This means China will become the leading country in the world for the sharing economy.”

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso