É notável que um ministro das Finanças que estudou e escreveu tudo ao contrário diga algo tão sintomático como a referência a uma palavra mágica. "Esquerda" tem sido uma dessas palavras porque concita logo um capital de simpatia nos supostos beneficiários ideológicos que num país pobre em tudo tende a constituir maioria eleitoral.
Isto não é de agora. De agora é apenas a arrogância da superioridade da ideia de Esquerda que afasta qualquer veleidade dos que não partilham a epifania. De agora é apenas a falta de vergonha em colar um conceito a algo que não tem raiz nessa Esquerda a não ser nas causas.
O Orçamento de Estado deste ano é apenas um compromisso com os ditames que recebemos da União Europeia em que estamos inseridos. Esta UE não quer saber de orçamentos de esquerda para nada. Quer apenas que paguemos o que devemos e demos garantias disso.
E o que estes pataratas da mistificação permanente fazem é mascarar a nossa desgraça colectiva de que aliás foram autores directos, em vitórias de uma ideologia que nos conduzirá novamente ao desastre.
Isto tem décadas. Primeiro começou com os intelectuais esquerdistas pró-comunistas, no tempo do Estado Novo. Nessa altura estavam escondidos nas catacumbas clandestinas a copiar avantes e merdas parecidas do género que um qualquer Pacheco Pereira escondia por baixo do capote de inverno para sabotar o regime.
A par desses pírulas ideológicos caminhavam alegremente os "compagnons de route" que liam tudo o que vinha de França e queixavam-se depois da Censura que nunca os impediu de tal.
Esta actividade granjeou-lhes o estatuto de "esquerda" de que agora se ufanam. Com o advento do golpe que acabou com o fassismo e o ar livre da estrumeira em que transformaram culturalmente o país a capitalização ideológica prosseguiu ainda mais afoita até chegarmos a isto: a Esquerda é que manda ideologicamente em tudo.
Até quando?
Eduardo Lourenço, um dos expoentes da estumeira ideológica apontada, já o previra e explicara a um dos órgãos máximos do fedor mediático ambiente: "A partir de 1940 a esquerda intelectual domina culturalmente o panorama português. Será assim praticamente até à Revolução." Claro como água.
Expresso de 16 de Março de 1985, escassos dez anos após o golpe de Esquerda.