Bob Dylan laureado com o Nobel da Literatura! Algo está a acontecer que não entendo muito bem. Será? Diz que é pela poesia. Pronto, está bem, pela poesia então.
As minhas memórias de Bob Dylan remontam ao início dos anos setenta e a certas músicas emblemáticas que então se tocavam principalmente no rádio, como Blowin in the wind ou Mr. Tambourine Man ou mesmo Like a rolling stone. Será por estas letras que Dylan ganhou o prémio? Para mim, foram primeiro músicas.
Nessa altura de meados dos anos sessenta, já para os finais, ou seja, no tempo da "primavera marcelista" havia muito pouca informação especializada sobre música popular, de qualidade, em Portugal.
Havia um ou outro jornal ou revista, como o Disco, música & moda, aparecido em Fevereiro de 1971, dirigido por um Ruben A. ( comunista) e a revistinha Mundo da Canção ( dirigida do Porto por um grupo de esquerdistas, também comunistas), cujo primeiro número saiu em Dezembro de 1969.
Bob Dylan já então era notícia e confirmado como um dos expoentes dessa música popular de expressão anglo-saxónica. Tinha publicado até essa altura os seus discos mais importantes e a sua poesia mais relevante.
No rádio e desde 1965 ( até 1974) havia o Em Órbita que passava esses discos que ainda não havia por cá em sortido a granel.
Fez este ano 50 anos que Dylan publicou um dos seus melhores discos- Blonde on Blonde, por aqui celebrado.
Em 6 de Novembro de 1970 o Diário Popular anunciava um novo disco de Bob Dylan ( New Morning) na página dedicada à música popular:
Por esse tempo a popularidade de Bob Dylan traduzida em vendas de discos, em Portugal, não devia ser muito grande.
Porém, Dylan já era um mito por diversas razões para além da música. As letras das canções, a sua poesia pela qual hoje foi laureado com o Nobel, seria uma dessas razões porque algumas canções eram sintoma dos "tempos que estavam a mudar" ou seja, dos ventos da História que sopravam dessa banda e não eram favoráveis ao nosso status quo de então.
Daí também a popularidade de Dylan em certos meios intelectuais, dos jornais e dos media em geral, de esquerda, naturalmente. Dylan é um dos artífices das mudanças de costumes vindas dos anos sessenta.
Assim, estas letras estiveram afixadas durante algum tempo na estante da minha adolescência...
Like a rolling stone, publicada na Mundo da Canção nº 33 de 20.5.1971 , uma das canções mais interessantes e reveladoras, com notas derivadas da versão cantada ao vivo em 1974 no disco Before the Flood, provavelmente a primeira vez que a ouvi.
It ain´t me baby, publicada na revista alemã Pop de Dezembro de 1974. Essa revista costumava traduzir a letra para alemão. Por cá, ninguém tentou tal coisa, jamais ( a não ser Dórdio Guimarães na revista Mundo Moderno em relação a uma ou outra canção dos Beatles).
E George Jackson, um "single" de finais de 1971, publicado por cá em 1972, cuja letra foi apanhada algures e aproveitada para estudar inglês ( os significados no fim...). Uma canção de "protesto" de Dylan, acerca de um preto abatido numa cidade dos EUA, pela polícia.
Os discos antigos de Dylan só se revelaram nas capas e conteúdo, para mim, já em meados dos anos setenta, nesta edição da revista francesa Rock&Folk de Março de 1976 que as publicou por ocasião de reedições locais.
Foi uma revelação ver a capa de Blonde on Blonde ( a preto e branco)...e imagino como deveria ser a frustração dos jovens dos países de Leste que nem sequer acesso a estas informações tinham. Cá em Portugal, apenas estas e vindas do estrangeiro. A primeira vez que vi o disco ao vivo e a cores foi nos anos oitenta...em Espanha.
A curiosidade que hoje pode ser satisfeita com um par de clicks no Google, nessa altura era apenas resolvida com estas publicações. Em Portugal nada havia de comparável e nunca se fez coisa igual. Nem agora, sequer.
O período do PREC, no entanto, foi o mais revelador para conhecer a obra de Bob Dylan. O programa da Rádio Renascença, Página Um, apresentado por Luís Paixão Martins ( LPM), deu a conhecer os discos então saídos: Planet Waves, Before the Flood ( 1974) e principalmente Blood on the tracks, cuja primeira passagem pública ocorreu em 18 de Fevereiro de 1975. Apontei a data...tal a importância que assumiu para mim esse disco, nessa altura.
Curiosamente, a partir daí, para mim Bob Dylan acabou como músico que me interessasse.
Os seus três discos que aprecio mais são estes, aqui em edição original de primeira prensagem norte-americana ( o Blonde on Blonde é em mono):Blonde on Blonde de Julho de 1966; Before the Flood, de meados de 1974 e Blood on the tracks de inícios de 1975.
Está aqui tudo o que me interessa ouvir de Bob Dylan, incluindo algumas canções antigas em versão ao vivo.
Mas não foi por estas músicas que Bob Dylan ganhou o Nobel. Ou foi mesmo?