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terça-feira, 7 de julho de 2009

Os queirozeanos canónicos

Filomena Mónica, numa entrevista ao i de hoje, dá-nos uma visão preciosa, porque impressiva, de uma certa realidade portuguesa que David Lodge deveria analisar para romance: o meio universitário português das letras e tretas.
Neste caso, sobre Eça de Queirós.
O jornal faz-lhe uma pergunta estranha: “ Tem tido uma guerra com os queirosianos. Porquê?"
A resposta é de estarrecer e merece inquérito parlamentar, na universidade aberta das letras e ideias avulsas.

Eles começaram a fazer-me a guerra. Tem a ver com carreiras, luta-se por um poder muito pequenino. Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias.
Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça, em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam.
Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: “Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território”.
Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse-me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade pagaria.
Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.

Mas quem são esses queirosianos?- pergunta o i.

Basicamente, é o Carlos Reis. É catedrático de Coimbra e agora é reitor da Universidade Aberta. E é o autor do mais ridículo programa de Português que eu li em dias da vida.
As criancinhas entre o 1º e o 9º ano vão ter de ser sujeitas a um programa de Português que é uma aberração total e completa. Os outros são assistentes dele. Como ele é catedrático, os outros têm medo de falar comigo, porque se na América os vissem a tomar pequeno-almoço comigo, depois não iam a professor auxiliar.”

Pronto. Aqui fica um quadro queirosiano. Impressionista e a que não falta a figura de um conselheiro com o apelido Alves dos Reis.
Vou procurar bibliografia e deleitar-me a ler e adivinhar idiossincrasias. Quem publica um livro de "Diálogos com Saramago", em 1998, merece a atenção de um Ega. Tanto mais que o Acordo Ortográfico tem ali um defensor dos quatro costados e a denúncia do programa de Português do ciclo básico, como aberração total e completa, precisa de enquadramento analítico.
Para já, temos um aperitivo delicioso:
A obra de Eça de Queirós é canónica também porque nela revemos temas e ideias que ajudam a identificar uma cultura, uma literatura e mesmo uma língua. Não por acaso, Eça foi confirmado nessa sua condição canónica por um dos mais famosos ensaístas da actualidade, Harold Bloom, justamente aquele que de forma mais expressiva e às vezes provocatória sublinhou a relevância e a legitimidade do cânone ocidental. Sendo assim, a leitura de Eça pode ser (e é quase sempre) um pretexto de reencontro com valores e com formas que, a mais do que um título, continuam a fazer sentido para nós.
O volume que agora se publica e a colecção em que ele se integra pretendem cumprir vários objectivos: revalorizar o escritor, promover a sua difusão, facultar elementos de trabalho precisos para utilização escolar, estimular a leitura ou a releitura, ajudar a relação crítica do leitor com os textos. Sem propósito de aprofundada exegese, este livro quer ser antes de tudo um simples e claro instrumento de trabalho para quantos ainda crêem que a leitura e o estudo dos nossos autores canónicos são pertinentes e oportunos.

12 comentários:

joserui disse...

Hehe. Isto é um caso para o inspector Arroja. Dos bons tempos pelo menos.
Fui ao Google ver quem era esse Carlos Reis. Só me lembro dele a defender com unhas e dentes o acordo ortográfico. Só unhas e só dentes, mais nada. Na altura tive pena do Vasco Graça Moura, ali a aturar um exemplar desta dimensão. -- JRF

portolaw disse...

este senhor tinha um programa, há uns bons 10, talvez 15 anos atrás, com a Edite Estrela, na RTP, creio, em que fazia de contraponto, muito silencioso - embora o abanar de cabeça em sinal de assentimento produza também o seu ruído ocasional - para deixar brilhar a verdadeira "estrela".
E vai surgindo, ocasionalmente, sempre que a rosa está vigorosa...

Pedro disse...

Agora, alguém que chibe o lobby gay da Faculdade de Letras, e já se pode começar a topar o porquê das universidades portuguesas serem ensino inferior.

hajapachorra disse...

Para quem conheça os figurões tanto o post como os comentários são anedóticos. O Carlos Reis não é nada parvo mas para sua desgraça é demasiado parecido com a Mena Mónica. Ambos são estrangeirados, ele francófilo arrependido, ela uma inglesa da Manta Rota, ambos dsaprenderam umas cartilhas, ele a que estiver a dar, ela a que der mais, ambos pensam que o mundo começou há 150 anos, ambos são estupidamente provincianos, ele envergonhado, ela desavergonhada. Vir com lobby gay a propósito do Carlinhos é que não lembrava ao careca. Ah e a pobre da rapariga conhece gente que não existe: os assistentes do Carlinhos...

josé disse...

O postal é sobre os queirosianos canónicos.

Os que não aceitam a heresia...

E sobre outra coisa mais interessante ainda: como é que uma pessoa supostamente desenvolvida, intelectualmente, passa uma vida académica a escrever e falar sobre um escritor.
Como disse, voi procurar bibliografia e folhear.

Acho que vou desistir ao fim de poucas frases.

Mas posso estar enganado.

Pedro disse...

Hajapachorra, não estava a falar do Carlos Reis (que não sei quem é), mas, de facto, foi um comentário ao lado. Mas, que quer?, com tanto lobby em todo lado.

josé disse...

A citação do Feijó também me interessou, pelo que revela.

David Lodge já escreveu sobre isto, noutros paralelos.

Em Portugal não temos escritores desse género. Só tipo Sousa Tavares que para mim, são uma nulidade, quase.

josé disse...

Sobre os gays e lobbies, só conheço um notório: Eduardo Pitta.

Não me incomoda e consigo ler bem o que escreve.

Pedro disse...

Também pode ser, mas deixemos isso.

Mas repare: se eu agora me decidisse a estudar Platão, não fazia outra coisa na vida. A questão é se o Eça é assim tão complexo que exija uma vida de estudo. Não me parece, mas nunca fui grande admirador.

josé disse...

Qualquer assunto pode elevar-se a uma complexidade que necessita de uma vida de estudo.

Até um grão de areia...

Sobre um escritor, poderá ser a mesma coisa. Mas devemos atender ao objecto de estudo, à metodologia e à finalidade, à teleologia da coisa estudada.

Estudar Eça pode ser um modo de estudar o final do séc. XIX ou limitar-se a umas arengas sobre as tramas dos seus romances.

Temo que seja mais isto, o âmbito do estudo queirosiano.

Pedro disse...

Mais interessante seria saber quanto custam as tais arengas... e se fossem só sobre o Eça...

hajapachorra disse...

Bem, o Carlos Reis fez tese sobre o Neo-realismo... É um queirosiano atípico então. Os seus livro, as introduções e as datadíssimas Técnicas, nas décadas de 70-90 eram manuais usados em Portugal e Espanha. Peco não será. Limitado sim. É mais um açoriano que 'triunfa' no cotnente. Um cagão, em suma. Percebem agora po que é que a Mena detestas os assistentes-fantasma da criatura? São iguais. Quem é bom não precisa de se pôr em bicos de pés.