Filomena Mónica, numa entrevista ao i de hoje, dá-nos uma visão preciosa, porque impressiva, de uma certa realidade portuguesa que David Lodge deveria analisar para romance: o meio universitário português das letras e tretas.
Neste caso, sobre Eça de Queirós.
O jornal faz-lhe uma pergunta estranha: “ Tem tido uma guerra com os queirosianos. Porquê?"
A resposta é de estarrecer e merece inquérito parlamentar, na universidade aberta das letras e ideias avulsas.
“ Eles começaram a fazer-me a guerra. Tem a ver com carreiras, luta-se por um poder muito pequenino. Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias.
Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça, em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam.
Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: “Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território”.
Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse-me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade pagaria.
Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.
Mas quem são esses queirosianos?- pergunta o i.
“Basicamente, é o Carlos Reis. É catedrático de Coimbra e agora é reitor da Universidade Aberta. E é o autor do mais ridículo programa de Português que eu li em dias da vida.
As criancinhas entre o 1º e o 9º ano vão ter de ser sujeitas a um programa de Português que é uma aberração total e completa. Os outros são assistentes dele. Como ele é catedrático, os outros têm medo de falar comigo, porque se na América os vissem a tomar pequeno-almoço comigo, depois não iam a professor auxiliar.”
Pronto. Aqui fica um quadro queirosiano. Impressionista e a que não falta a figura de um conselheiro com o apelido Alves dos Reis.
Neste caso, sobre Eça de Queirós.
O jornal faz-lhe uma pergunta estranha: “ Tem tido uma guerra com os queirosianos. Porquê?"
A resposta é de estarrecer e merece inquérito parlamentar, na universidade aberta das letras e ideias avulsas.
“ Eles começaram a fazer-me a guerra. Tem a ver com carreiras, luta-se por um poder muito pequenino. Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias.
Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça, em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam.
Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: “Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território”.
Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse-me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade pagaria.
Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.
Mas quem são esses queirosianos?- pergunta o i.
“Basicamente, é o Carlos Reis. É catedrático de Coimbra e agora é reitor da Universidade Aberta. E é o autor do mais ridículo programa de Português que eu li em dias da vida.
As criancinhas entre o 1º e o 9º ano vão ter de ser sujeitas a um programa de Português que é uma aberração total e completa. Os outros são assistentes dele. Como ele é catedrático, os outros têm medo de falar comigo, porque se na América os vissem a tomar pequeno-almoço comigo, depois não iam a professor auxiliar.”
Pronto. Aqui fica um quadro queirosiano. Impressionista e a que não falta a figura de um conselheiro com o apelido Alves dos Reis.
Vou procurar bibliografia e deleitar-me a ler e adivinhar idiossincrasias. Quem publica um livro de "Diálogos com Saramago", em 1998, merece a atenção de um Ega. Tanto mais que o Acordo Ortográfico tem ali um defensor dos quatro costados e a denúncia do programa de Português do ciclo básico, como aberração total e completa, precisa de enquadramento analítico.
Para já, temos um aperitivo delicioso:
A obra de Eça de Queirós é canónica também porque nela revemos temas e ideias que ajudam a identificar uma cultura, uma literatura e mesmo uma língua. Não por acaso, Eça foi confirmado nessa sua condição canónica por um dos mais famosos ensaístas da actualidade, Harold Bloom, justamente aquele que de forma mais expressiva e às vezes provocatória sublinhou a relevância e a legitimidade do cânone ocidental. Sendo assim, a leitura de Eça pode ser (e é quase sempre) um pretexto de reencontro com valores e com formas que, a mais do que um título, continuam a fazer sentido para nós.
O volume que agora se publica e a colecção em que ele se integra pretendem cumprir vários objectivos: revalorizar o escritor, promover a sua difusão, facultar elementos de trabalho precisos para utilização escolar, estimular a leitura ou a releitura, ajudar a relação crítica do leitor com os textos. Sem propósito de aprofundada exegese, este livro quer ser antes de tudo um simples e claro instrumento de trabalho para quantos ainda crêem que a leitura e o estudo dos nossos autores canónicos são pertinentes e oportunos.