quinta-feira, março 17, 2022

Pratos para girar discos

 Os aparelhos que servem para fazer tocar discos, actualmente em vinilo, foram inventados no séc. XIX mas só em meados do séc. XX, após a invenção do LP de 33 1/3 rpm, no final dos anos quarenta é que se tornaram verdadeiramente populares e significativos para a indústria discográfica. 

Nos anos sessenta, com o consumo mais alargado de música popular, apareceram os "pratos" escolhidos e ainda hoje usados para tocar e fazer girar os discos. A história destes "pratos" pode ser lida na internet embora não haja muitos sítios para ler e que sejam referência de qualidade. Talvez aqui se possa ler qualquer coisa. 

A revista inglesa Hi FI News que se publica desde 1956, no seu número de Setembro de 2018 tinha um artigo em que conta a história de duas marcas pioneiras: a Garrard, britânica e a Thorens, suíça e que desde os anos cinquenta lançaram "pratos" de tal qualidade que ainda hoje são referência e quem os tem continua a tocar os discos em tais aparelhos. 


Tanto a Thorens como a Garrard tiveram nos últimos anos lançamentos actualizados de tais "pratos" como conta a revista americana Stereophile de Dezembro de 2019:




E de Agosto de 2021.


Preço de tais maravilhas?  A Garrard, de 1953, actualizada em 2019, com braço e cabeça de leitura a condizer,  custa agora à volta de 20 000 euros. A Thorens 124, de 1957, agora custa, na mesma modalidade, um pouco mais de 10 mil euros.

Quem compra este material, actualmente? Pois...quem pode e sabe que o som que dali pode sair é do melhor que pode ouvir e relembrar em discos do passado de décadas. Há quem compre tais gira-discos, mesmo usados e lhe dê um tratamento especializado para os tornar operacionais e na internet há anúncios para tal. 

Mas será preciso gastar tanto dinheiro para ouvir bom som saído de um prato de gira-discos? Nem por isso. Ou...talvez sim. 

Em Dezembro de 2020 um especialista americano destas coisas, chamado Michael Fremer e que tem um sítio na internet chamado AnalogPlanet, mostrou o gira-discos que para ele é o melhor do mundo da actualidade. Este, na capa da revista Stereophile, a bíblia destes temas:



Preço? Qualquer coisa à volta de 250 mil euros, artilhada com um braço do criador do aparelho ( o eng. Marc Gomez, sueco segundo julgo) e uma cabeça de leitura a condizer, mais uns aparelhos de vácuo para fixar os discos ao prato. Sem tais adereços, só o prato, ainda custa uns bons 150 mil euros. 

Quem é que compra? Quem acredita nas crónicas de Mikey Fremer, tem dinheiro para isso e tem gosto para tal. 

E como é que se chegou aqui? Pois, em matéria de esoterismos deste género há mais. 

Em Setembro de 2021 a mesma Stereophile mostrava outro monstro sagrado deste olimpo particular:


Os japoneses de Tóquio, particularmente o eng. Hideaki Nishikawa, que tinha trabalhado na Micro Seiki, famosa igualmente pelo prato de gira-discos dos anos oitenta com o mesmo nome,  inventou aquela besta mecânica com tal precisão que o custo ultrapassa aqueloutro. Para comprar o modelo Zero ( e há mais cinco modelos, pelo menos, desde o primeiro de 2010) é preciso ter 450 mil dólares, na versão básica. Para ter a versão completa, incluindo o prato superior em tungsténio, a plataforma de apoio e o braço de leitura adequado não chegam 500 mil euros. É o preço de ter pelo menos quatro almofadas de ar que aguentam a estrutura do prato propriamente dito. São precisas pelo menos três pessoas para movimentar a besta mecânica, por causa do peso. A série, na altura do artigo ia no nº 18...

Em Janeiro de 2019, a Hi Fi News mostrava o esforço número V do trabalho do eng.Hideaki-san, com um preço mais em conta: cerca de 15 mil euros. Sem braço de leitura, claro e que exige pelo menos um SME da série V, para condizer. Mais a cabeça de leitura, sempre para cima de mil euros a não ser que se opte por uma antiguinha da Shure ( uma V15 III, por exemplo). 

Outro monstro sagrado desta iconografia é este, mostrado na Hi Fi News de Abril de 2016, com o objectivo de o comparar com o equivalente gira-discos digital de cd´s:


Preço desta estrutura de proveniência alemã, com mais de um metro de altura,  para girar discos de vinil? Um pouco mais de 100 mil euros.

Tirando isto o que resta para o comum dos mortais que não podem comprar tais aparelhagens? Pois há uma oferta muito variada e que permite alcançar resultados muito próximos dos que tais bestas de carga  alcançam. 

Para mostrar vale a pena fazer uma deambulação breve pelo caminho onde as coisas começaram a sério e por onde andaram depois. 

Nos anos sessenta, as opções praticamente dividiram-se entre os que apreciavam o velhinho sistema de gira-discos com motor acoplado e que animava uma correia de borracha que fazia girar o prato e os pratos com motor integrado e por isso rotação directa motorizada. Para trás ficara o sistema de multi-disco que tornava mais falível a reprodução sonora, com os discos acumulados uns em cima de outros, à espera da sua vez. 

A marca Acoustic Research, americana, no início dos anos sessenta tinha dado o pontapé de saída nesta corrida tecnológica. Assim, como mostrava a revista Hi Fi Answers de Outubro de 1988:

  


Dez anos depois, surgia na Escócia um gira-discos especial e que fez furor nos meios da alta-fidelidade e os britânicos adoraram e ainda apreciam hoje em dia. Este: 



A par disso entravam os japoneses ao barulho e ao som das fanfarras da produção industrial em massa de produtos electrónicos de consumo. 
Nos EUA a revista National Lampoon de Dezembro de 1973a anunciar um gira-discos de rotação directa do prato.


A Technics destacou-se na produção destes pratos quando introduziu o modelo 1200, uma revolução na qualidade destes produtos, destinado neste caso aos consumidores caseiros e aos dj das discotecas.

Aqui um anúncio de 1976 da revista Stereo Review, já com diversos modelos do género:


E outras marcas se destacavam na mesma altura, como a Dual, aqui num anúncio da National Lampoon de Março de 1974:


E a Thorens continuava a sua saga começada vinte anos antes, aqui num anúncio de Junho de 1976 na Stereo Review. Aparecem na imagem os modelos 125 e julgo que o 160, cujo modelo melhorado, o 160Super é o que tenho:


Em França, em 1975, uma imagem da Science et Vie mostra o que eram as discotecas da época ( FNAC?) e os gira-discos eram Garrard, modelo posterior ao 301, precisamente o 401, também muito afamado, ainda hoje. 


É este modelo que Paul MCartney usa em casa:


E nos anos setenta alguns artistas ligados à música contavam o que tinham em casa para ouvir música, como conta a Rolling Stone de 9 de Setembro de 1978:


Clive Davis tinha um Thorens, modelo 125 ( como o que se pode ver no anúncio em cima). Al Di Meola ouvia num Dual e Rick Danko dos The Band era um pouco mais sofisticado: Bang and Olufsen, o modelo Beogram.


O modelo Beogram fazia então figura de produto esotérico com o seu braço de leitura tangencial em vez do tradicional, como se vê neste anúncio de Setembro de 1976 na Stereo Review:


Em 1984 a AR tinha este modelo que para mim é dos mais icónicos e interessantes de todos os gira-discos, no anúncio da High Fidelity de Março desse ano. Ainda hoje é uma beleza estética, mantendo a inovação da suspensão em três pontos iniciada na década de sessenta:


No intervalo de tempo dessas décadas até hoje houve muitas marcas e modelos de gira-discos, mas para a revista inglesa What Hi-Fi de Maio de 2019:



Apesar de nunca ter desaparecido do mercado de hi-fi, há cerca de meia dúzia de anos verificou-se um incremento notável na produção destes pratos, com alguma sofisticação à mistura, como mostrava a Stereophile de Fevereiro de 2016:


E hoje sobressaem no mercado de tais produtos dois ou três que aprecio e cujo preço se situa ao nível de um carro utilitário de entrada. 
 O primeiro é o relançamento do modelo mais célebre da Technics,  o SL 1200 e ainda o modelo SL 1000R, mais sofisticado e caro, ao ponto de Michael Fremer dizer que é dos melhores gira-discos que há e que até consegue fazer alguma sombra ao seu Continuum Caliburn, que custa muitas dezenas de milhar de euros. 
Este modelo anda à volta da dezena e meia de milhar. 


Tal como este da SME, uma marca britância especialista nestes produtos, incluindo braços de leitura e que tem este modelo fantástico, ao preço daquele da Technics:


E este modelo alemão da AMG Viela, também uma pequena maravilha, aqui mostrado na Setereophile de Setembro de 2020.



E quanto aos modelos correntes e mais baratos? Em  Setembro de 2020 a Hi-Fi Choice escolhia estes: 



E em Julho de 2021 estes:

Portanto não há falta de produtos para ouvir discos em vinilo. Por último, refiro uma pequena história de um especialista português em hi-fi , também fabricante de pequenos amplificadores a válvulas que numa exposição há uns anos, a pergunta minha sobre qual o gira-discos que preferia entre os que conhecia, me referiu ser um modelo da Pioneer, de que não fixei a referência, um PL qualquer coisa,  eventualmente dos anos setenta ou oitenta.
Enfim, só ouvindo...estes pratos. 

Sem comentários:

Lucília Gago merece melhor crítica...