segunda-feira, março 28, 2011

Um erro crasso, supino e escandaloso

Como alguns se lembram, Marinho e Pinto, aquando da decisão de primeira instância que entendeu condenar o Estado português pelo facto de um tribunal ter decidido a prisão preventiva de Paulo P. , aludindo então a um erro grosseiro ou acto temerário, lançou foguetes pela decisão, mostrando mais uma vez para que lado pende na sua isenção de bastonário.

Agora, com a decisão do STJ, subscrita pelo conselheiro Azevedo Ramos ( que foi juiz de círculo em Barcelos), Marinho calou-se. O que reforça o lado para que lhe pendem as opções. Pode portanto dizer-se que Marinho incorreu num "erro escandaloso, crasso, supino, que procede de culpa grave do errante", tal como se refere no acórdão agora publicado. Devia ter vergonha de falar do que não quer saber. Mas não tem.

O acórdão pode ser lido aqui e entre as conclusões, avultam estas:

II – O art. 22 da Constituição da República Portuguesa estabelece um princípio geral de directa responsabilidade civil do Estado.

IV – Em alargamento dessa responsabilidade a factos ligados ao exercício da função jurisdicional, para além do clássico erro judiciário, o art. 27, nº5, da mesma Lei Fundamental, impõe ao Estado, de modo especial, o dever de indemnizar quem for lesado por privação ilegal da liberdade, nos termos que a lei estabelecer.

V – Daí que, na sequência do comando constitucional do citado art. 27, nº5, tenha surgido o art. 225 do C.P.P.

VI – O art. 225 do C.P.P., na redacção anterior ao início da vigência da Lei 48/2007, comporta a prisão preventiva manifestamente ilegal ( nº1) e a prisão preventiva que, não sendo ilegal, venha a revelar-se injustificada na apreciação dos seus pressupostos de facto de que dependia ( nº2).

VII – Apesar da lei falar apenas em erro grosseiro, o art. 225, nº2, do C.P.P. também abrange o chamado acto temerário.

VIII – A apreciação a fazer no sentido de qualificar o eventual erro como grosseiro ou temerário, terá de reportar-se, necessariamente, ao momento em que a decisão impugnada teve lugar.

IX – Será com base nos factos, elementos e circunstâncias que ocorriam na altura em que a prisão foi decretada ou mantida que ele tem de ser avaliado ou qualificado como erro grosseiro ou temerário.

X – É irrelevante, para tal qualificação, o facto do arguido, mais tarde, ter sido absolvido ou ter sido objecto de não pronúncia pelos crimes de que se encontrava acusado.

XI - Não é de aceitar a imputação ao Estado de uma responsabilidade objectiva geral por actos lícitos praticados no exercício da função jurisdicional, em termos de abranger, para além do clássico erro judiciário, a legítima administração da justiça, em sede de detenção e de prisão legal e justificadamente mantida.

XII – O art. 225, nºs 1 e 2 do C.P.P. não sofre de inconstitucionalidade.


Para além disto, o acórdão sufraga inteiramente estas considerações gravissimas imputáveis a António Costa, dirigente do PS e actual presidente da Câmara de Lisboa. Devia ter vergonha da figura que fez, mas não tem. Ele e outros figurões da nossa praça que nestes últimos anos prosperaram e bem com a coisa pública.

"(...) terceiros, a pedido do autor, realizaram diligências junto de instituições (judiciais ou políticas), ou pessoas socialmente relevantes, tidas por susceptíveis de criarem um perigo de perturbação do inquérito e de gerarem um sentimento de insegurança e intranquilidade públicas, com consequências ao nível da prova."

Um Estado chico-esperto

Suspeita-se fortemente que as contas do Estado estejam cheias de buracos. Aldrabices e talvez pior que isso- crimes de catálogo. Por causa disso houve uns voluntariosos que seguindo o discurso do presidente da República- "É preciso dizer a verdade aos portugueses!"- alvitraram o óbvio: uma auditoria às contas para ver onde estão os buracos e que dimensão têm. Porque os há.
E precisamente por isso, o mesmo presidente que aconselhou a dizer a verdade, aconselha agora a mentir, por omissão. Não quer que se façam auditorias nenhumas e os partidos que estão no arco do poder também não estão muito interessados nisso. O PS por motivos evidentes. O PSD pelas evidências que se vão colhendo.

Resta um ponto: tudo isto tem a ver com a confiança dos famigerados "mercados". Estes já perceberam que há marosca nas contas. E por isso, qual será melhor: esconder e continuar a minar a confiança; ou mostrar já os buracos todos para vergonha de quem governa e exemplo de quem governar a seguir?

Acharão porventura que poupam o povo a mais sacrifícios com essa estratégia de chico-esperto?

Não temos emenda, é o que é.

A democracia inglesa e os privilégios reais

O príncipe Carlos de Inglaterra, herdeiro natural da coroa inglesa e a sua segunda mulher, Camilla estão por cá.

Em 1992 o príncipe estava casado com Diana, mas enganava a mulher. Um assunto íntimo e privado que nada nem ninguém, a não ser os directamente envolvidos, deveriam bisbilhotar. Assunto mais privado e íntimo não há. Assunto mais delicado e perigoso para o equilíbrio político do Reino Unido, na altura, também não haveria muitos mais.

Por isso ou por outras razões, alguém escutava as conversas privadíssimas de Charles, ao telefone. Incluindo as que mantinha em segredo estrito com Camilla e que eram deste teor:

—[Carlos] E quanto a mim? O problema é que eu preciso de ti várias vezes por semana.

—[Camila] Hummm, eu também. Eu preciso de ti toda semana. Toda hora.

— Ah, Deus. Se eu vivesse dentro das tuas calças ou algo parecido, seria muito melhor!

— Em que tu vais tornar-te, um par de knickers? Oh, tu vais resucitar como um par de knickers!

— Ou, se Deus me permita, um Tampax! Seria minha sorte!

— Tu és um completo idiota! Oh, que idéia maravilhosa!

Esta conversa foi publicada nos media da época, nacionais e internacionais. Foi um escândalo de proporções gigantes e de consequências imprevisíveis na época, tendo gerado rumores de dissolução do regime monárquico britânico. Assunto mais importante que este para a Coroa e até para os britânicos não podia haver. Pois bem. Ninguém, na Inglaterra ousou questionar a legitimidade dos media publicarem uma conversa daquele teor, com as consequências apontadas e pedirem providências cautelares para preservarem o bom nome, a reputação e o crédito da coroa britânica e daquela, bem pessoal e intransmissível do príncipe Carlos. Este, algum tempo depois, admitiu, numa entrevista na tv, a veracidade da gravação e do adultério. Nessa altura ou depois, citou uma frase que nunca esqueci: isto é uma tragédia grega. Dá para ver a magnitude do terramoto que sofreu na pele.

As gravações das conversas telefónicas, essas, nunca se soube quem as fez. Há quem diga que poderiam ter sido os próprios serviços secretos. Portanto gravações que em Portugal seriam não apenas nulas, mas criminosas e que seriam mandadas destruir "imediatamente" pelo presidente do STJ. Com ameaças abertas, posteriores, sobre a condenação do Estado por violação da privacidade...caso alguém se atrevesse a publicá-las. E com uma alusão fantástica a um exemplo italiano de condenação do Estado, na época, em 6 mil euros à família.

Por cá, com o escândalo Face Oculta em que figuras públicas são apanhadas a gizar planos que implicam dinheiros e empresas em que o Estado tem participação, com o conhecimento e participação activa de governantes e do próprio primeiro-ministro, houve um indivíduo que accionou cautelarmente um jornal que avisou estupidamente que iria publicar conversas gravadas legitimamente pelos poderes públicos. Espantosa e incrivelmente, obteve não só ganho de causa como uma indemnização de centenas de milhar de euros. E os tribunais superiores apelados a dizerem justiça, deram-lhe razão. Num tempo record que outros demandantes nem sonham, porque esperam anos e anos pela justiça que efectivamente pretendem.

Se isto não é o maior escândalo judicial das últimas décadas, em Portugal , não sei dizer mais nada sobre escândalos.

Esta vergonha maior da nossa democracia devia ser contada ao príncipe Carlos.



A década prodigiosa portuguesa


Segundo notícias de hoje, citadas por aqui, no Público, cujo repórter acompanhou as acções cívicas, grupos de jovens, em várias cidades do país, fizeram um protesto simbólico em instalações do banco BPN. Colaram um cartaz em que se dizia: "O vosso roubo custou 13 milhões de salários mínimos".
A notícia continua:

O que querem? “Vimos dizer que não nos tomem por parvos.” Porquê este banco? “Quando falamos do buraco nas contas públicas deixado pelo BPN referimo-nos a 6500 milhões de euros, ou seja, mais de 13 milhões de salários mínimos.” O PÚBLICO acompanhou toda a acção no Porto.

Exactamente isso: dizer para não nos tomarem por parvos. Se mais acções destas se replicassem , a vergonha teria uma oportunidade neste país. Assim não tem. Uma pequena prova disso está na foto e texto da revista Flash, a mesma que aqui já foi citada e se revela muitíssimo útil como instrumento de compreensão da realidade da sociedade portuguesa, embora tenha de ser lida nas entrelinhas, como antigamente acontecia com os media portugueses, antes de 25 de Abril. Exactamente na mesma medida, porque o que se vê é apenas uma aparência e a realidade, no entanto, está lá e muitas vezes nem sequer escondida. Basta ver com olhos de ver.

Por exemplo, nesta foto que retrata um acontecimento cultural e social, a semiologia da imagem é digna de registo porque mostra um mundo que não vemos e que existe. Eppure si muove.
O texto começa assim: " conhecem-se há muitos anos, mas a amizade, essa é de uma década".

A amizade refere-se às relações pessoais e de proximidade que incluem um escritor, José Manuel Saraiva que lançou o livro "Terra Toda" e juntou por isso amigos. Fátima Campos Ferreira, apresentadora de tv é uma delas e apresentou um livro anterior do autor.
Outro amigo e que agora apresenta o livro é Manuel Dias Loureiro, o antigo dirigente do BPN, fugido da ribalta pública e que não é visto nem achado em programas tipo Prós & Contras. Et pour cause.
Outro ainda é Henrique Granadeiro, o presidente "encornado" da PT.
Ainda outro é o improvável Rui Pereira, ex-SIS, ex-futuro juiz do Constitucional em trânsito para ministro onde se mantém como inamovível venha o escândalo que vier.
Na imagem podiam perfeitamente estar outros: Proença de Carvalho, o par de um tandem musical com Dias Loureiro; Mário S. sempre reverenciado em programas de tv; Balsemão e alguma rapaziada do Expresso, naturalmente e sem surpresa. Muitos cavaquistas sem dúvida alguma. Membros do clero judicial, também. Militares enquistados no regime, idem. Universitários de gabarito assumido tipo Jorge Miranda, porque não?
A sociedade portuguesa precisa de um romancista, sem dúvida alguma. Mas não este...

Numa década prodigiosa da vida social e política portuguesa estas personagens e muitas outras fizeram uma vida. Com um leit-motiv importante: facilidades pessoais e profissionais e em circulação rápida por salários que compensam as amizades e cumplicidades.

E é por estas e por outras que Portugal, paróquia de amigos e conhecidos, está como está. O povo não sabe disto e vota às escuras. E em programas tipo Prós & Contras julga estar a ser informado.
Uma tragédia portuguesa, com certeza.

domingo, março 27, 2011

Fujam! Vem aí o Boaventura Sousa Santos.

O Público de hoje tem esta página intrigante. Ficamos a saber que o Estado Novo tinha um "discurso" que não desapareceu em 37 anos! E quem o descobriu e agora denuncia vigorosamente foi uma investigadora do CES de Coimbra, Marta Araújo. O CES de Boaventura Sousa Santos, o multiculturalista nacional. O tema da investigação é "Raça e África em Portugal" e no âmbito da coisa descobriu o achado.
Repare-se neste naco de prosa, totalmente isenta de ideologia e termos condizentes, onde tenta anatematizar outra ideologia inventada:

"Tentámos ir mais além da identificação das representações dominantes. Sabemos que são estereotipadas, existem imensos estudos que o mostram. Em vez de fazermos mais um, assumimo-los como ponto de partida e fomos antes explorar a ideologia que lhes subjaz e o modo como através desta se naturalizam as relações de poder".

Estão aí todos os clichés da ideologia de Esquerda que nos tenta dominar há mais de trinta ou quarenta anos. E mesmo assim, queixam-se da ideologia que não definem, não enunciam a não ser por paráfrases e de modo enviesado e pérfido.

Segundo se lê, o desejo evidenciado é reescrever a História contada por nós, europeus e portugueses, para adoptar a perspectiva de outros que não somos nós e que aqueles assumem como sendo mais objectivos e realistas.
Trocam a nossa visão pela alheia em nome de algo que lhes parece mais objectivo e verdadeiro. A razão por que o fazem é a mesma por que vituperam os bancos, o capitalismo e o sistema de valores ocidentais.
Aquela investigadora dá um ou outro exemplo do que pretende dizer. Copia textos de manuais escolares do 7º ano em que se explica o que foi o início da guerra no Ultramar ( a que chamam colonial, usando a linguagem que não era a do tempo). E um desses textos é este:

"Um sentimento generalizado de medo entre os colonos levou-os a matar muitos indígenas enquanto outros fugiram, indo juntar-se aos guerrilheiros. Posteriormente, tribos do Norte de África assassinaram centenas de colonos".

Esta passagem nem sequer usa o termo "terroristas" o termo exacto usado por cá, na altura, para designar os "guerrilheiros". Nem sequer usa termos que identifiquem ideologicamente o "fassismo" que é o que aquelas pretendem vituperar.

O que incomoda neste texto a dita investigadora é outra coisa: "a imagem que se faz passar é que nós, portugueses, fomos forçados a sermos violentos, enquanto eles, sejam angolanos ou mouros, são naturalmente violentos e bárbaros."

Para afirmar esta reescrita da História a autora foi buscar aquele texto!!!

Isto é de mentecaptos, não é?

O realismo horripilante

A revista Flama ( dirigida por António dos Reis e com Edite Soeiro na redacção que depois passou para O Jornal, de Esquerda) de 28 de Junho de 1974, escasso mês depois do 25 de Abril publicava uma reportagem extensa sobre o nosso estado social. A nossa pobreza aparecia evidenciada em números e imagens de barracas junto ao viaduto Duarte Pacheco. Não eram segredo para ninguém, nem sequer VPV, que vivia em Lisboa. Toda a gente as via. Ainda existem muitas, depois de 37 anos de democracia. Agora, naquele sítio ou perto estão as "Amoreiras" e o centro comercial, ícone da modernidade portuguesa e do nosso parolismo também. A Áustria não tem nada daquilo, porque como se sabe , é um país pobre. Portugal, em final dos anos oitenta já tinha dinheiro para dar a um arquitecto famoso e fazer aquilo.
O nosso neo-realismo prolongou-se muito para aquém dos anos cinquenta e deu um salto quântico, no tempo dos governos de Cavaco. No gosto, quero dizer. E noutras coisas. Que mostrarei a seguir.

O rendimento das famílias portuguesas, antes de 25 de Abril de 74 não era famoso. Sei disso porque vivi esse tempo. Mas deu-me, a mim que não era propriamente "burguês" para comprar estas revistas e jornais que agora publico. O dinheiro não abundava mas a esperança de vida melhor era mais certa do que hoje.
E " as jeremíades" neo-realistas que VPV hoje replicou, não eram suficientes para iludir uma realidade: o crescimento económico era imenso. E rápido. E hoje não é.






Na mesma revista Flama, dois anúncios são sinal inequívoco de modernidade que viria depois a tornar-se ambiental na sociedade portuguesa. Um anúncio a um "ambientador", um perfume de sala. E o de um cartão bancário. E não foi, nenhum deles, obra da mudança política do 25 de Abril. Foram ambos sinal de evolução económica que se adivinhava sólida e coerente. O que hoje não existe.


Sobre a "horripilante tv de Salazar/Caetano" também Vasco Pulido Valente não foi muito feliz na apreciação neo-realista.
A tv de Caetano, em 1974, era esta que aqui se deixa, em imagem tirada da mesma revista.

Como se pode ver, a programação era muitíssimo mais interessante do que hoje. Eu sei porque via e VPV se tiver memória há-de perceber que se enganou. A tv de hoje é que é horripilante. E nem sequer no aspecto da programação de entretenimento. Refiro exactamente a informação. Como disse o PR na revelação da Wikileaks, em Portugal a informação é "muito suave". E sabe VPV porquê? Vou dizer: por causa da Censura que existe.
Não há Comissão de Exame Prévio como havia dantes. Mas há o comité de censura interna em cada jornalista que dirige a informação.
Antes de 25 de Abril, as notícias eram filtradas e não se dava notícia de tudo. Hoje é exactamente a mesma coisa.

A RTP passou alguma notícia sobre a absolvição do Estado no caso Paulo P. por causa do Casa Pia?
Então...

Um panfleto romântico

Vasco Pulido Valente escreveu hoje no Público uma crónica sobre o tempo que passou desde os anos 50 até ao 25 de Abril e de então até hoje.

VPV diz o óbvio: "no 25 de Abril Portugal era ainda um país muito pobre". E não tem boas memórias desse tempo. A Universidade não prestava, para VPV ( "não se aprendia nada, na Faculdade de Letras", por exemplo) , e "o dinheiro não sobrava". E havia " a horripilante televisão de Salazar e Caetano".

Estas ideias, replicadas continuadamente pelo pessoal da Esquerda que herdou o regime de Salazar/Caetano, e lhe deu o destino que temos em vista, situam VPV no campo específico dos apaniguados da situação. Uma posição pouco invejável para um crítico social.
Quando um escriba de mérito, como VPV, relega o Portugal de Salazar/Caetano para o limbo das misérias e desgraças sociais, está a reduzir o campo de visão para colher e salientar o "horripilante", em detrimento da visão alargada de um conjunto de fenómenos sociais que espelham melhor a realidade então vivida.

VPV escreve como os neo-realistas do Esteiros e Portugal era tão neo-realista quanto os italianos do tempo dos feios, porcos e maus ou dos filmes de Rosselini. VPV em 1 de Fevereiro de 1985 escreveu na Grande Reportagem (uma revista que congregava António Barreto, António Pedro-Vasconcelos e Filomena Mónica, entre outros e que aparecem todos na biografia de Filomena Mónica, o seu auto-retrato...) sobre os livros da sua vida e fatalmente sobre o Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. Achou-o então um livro que pertence " à família mais nobre dos grande panfletos românticos contra a injustiça burguesa". E que se integrava "no conjunto de jeremíades a que se deu o nome de neo-realismo."

Tal como o seu escrito de hoje. E nesse escrito de então dá a imagem da sua ideologia: " No horrível silêncio de 1941, os Esteiros aparecem e a minha mãe comprou-os. Em 1953 ou 54 o livro estava lá em casa, como não estava em casa de outra espécie de portugueses. Não levei tempo a aprender que havia "nós" e havia "eles"; os que conheciam e se importavam com Gineto e Gaitinhas, e os que não conheciam nem se importavam.
Após longas peregrinações, continuo a ser de "nós" e não "deles" e, à medida que envelheço, cada vez gosto menos "deles".

Provavelmente, mais de 25 anos depois, "eles" ficaram cilindrados já na memória de VPV. Como se nota no seu escrito de hoje.

Quem fica a perder é a História. Melhor: a História "é um carro alegre, cheio de um povo contente que atropela, indiferente, todo aquele que a negue".

Como VPV faz no seu escrito revisionista, de hoje.

sábado, março 26, 2011

Marinho e Pinto, again

O jornal i, à míngua de assunto de entrevista, foi ouvir Marinho e Pinto, muito carenciado de palco, porque há longos mese, digo minutos, calado e reservado.

Para aquilatar a profunda seriedade do pensamento coerente de Marinho e Pinto apenas esta:

"Já tivemos casos em que os magistrados foram ao parlamento para deter deputados e já lá estavam cadeias de televisão à espera." O i então mencionou se estava a falar do processo Casa Pia. Resposta pronta de Marinho e Pinto: Eu não cito processos.
Tal e qual. Não citou o único processo em que tal sucedeu...mas citou magistrados e foi apenas um; citou cadeias de tv e foi apenas uma. Que apetece chamar a Marinho e Pinto depois disto ? Pateta? É pouco.

Sobre o assunto que Marinho e Pinto aproveita mais uma vez para denegrir a magistratura, impunemente na sua aparente inimputabilidade, haveria a lembrar algo que Marinho aborrece: que o advogado Celso Cruzeiro, de alguns entalados excelentíssimos nesse processo, tinha um filho a trabalhar na SIC.
O caso foi então muito badalado em termos que Marinho e Pinto, antigo jornalista recusa ver, porque prefere olhar para o argueiro em vez da trave que se lhe planta na frente do bestunto.

Da próxima vez que falar no assunto ( talvez já na próxima semana porque não aguenta estar sem falar em público mais de dois ou três dias), é bom que alguém lhe faça ver esta trave que já tem musgo:

"A SIC foi o único canal a filmar o juiz RUI TEIXEIRA no elevador da Assembleia da República, depois de ter entregue o pedido de levantamento da imunidade parlamentar ao deputado PAULO PEDROSO; DANIEL CRUZEIRO, chefe de redacção do canal de Carnaxide, é filho de CELSO CRUZEIRO, defensor de PEDROSO e está casado com RITA FERRO RODRIGUES, cujo pai é líder do PS e está na «berra» e berra que se farta por causa dos desenvolvimentos do escândalo da pedofilia na Casa Pia de Lisboa que estão a «chamuscar» o PS; SOFIA PINTO COELHO, jornalista da SIC, é casada com RICARDO SÁ FERNANDES, advogado de CARLOS CRUZ; e, para compor o «ramalhete», o ex-ministro da Justiça, ANTÓNIO COSTA, actual deputado, é irmão de RICARDO COSTA, editor de política nacional da SIC. Uma família completa em Carnaxide. "

Se estes factos forem verdadeiros ( pode haver dúvidas quanto ao casamento daquela com aquele, mas que viveram juntos é facto assumido), Marinho e Pinto devia estar calado e cheio de vergonha. Que não tem , obviamente.
Se tivesse lembraria as conversas telefónicas, em pânico, nessa altura, que envolveram António Costa, ministro de Guterres, sobre o terramoto que se avizinhava para o partido. Costa chegou a interferir directamente nos poderes judiciários, a propósito do assunto, como se sabe. Telefonou a Souto Moura para lhe pedir coisas impossíveis e inadmissíveis.
Isso é que é vergonha. Ou devia ser, para Marinho e Pinto. Mas como pode ser se este não tem um pingo da dita?

Mais outra para terminar. O i refere-lhe que Marinho "disse que a corrupção alastrou a todos os níveis do aparelho de Estado. Quer esclarecer que níveis são esses?" E que responde Marinho e Pinto a isto? Assim:

" A frase diz tudo. Temos pessoas nos mais altos cargos do Estado a enriquecer, mas não me venha perguntar nomes. As entidades que averiguem".

Pronto. Marinho e Pinto pensa em algumas pessoas. Apenas algumas. E não são do PS...o que denota ainda mais a sua inteira falta de vergonha.

E não resisto a mais uma: perguntado se "o bastonário dos advogados fala à vontade ao telefone", Marinho responde que "eu não, e há muito tempo. Mas é mais com medo dos juizes do que de espiões". Diz a sério ou pelo menos sem brincadeira.

Percebe-se. Marinho não tem medo de espiões que lhe aparam o jogo político. É natural e com isso vive ele muito bem. Mas os juízes, esses, é que não. E não se fica nessa: "se me fizerem uma escuta vão apanhar qualquer matéria para me processar. Agora talvez já não, que vou tendo cuidado, até nos restaurantes e na via pública."

Pois esta é de rebimba o malho. Marinho acha que todas as palermices que redundam em crimes de injúria ou difamação, os mais prováveis por causa daquele boquejar contínuo, podem ser provados por escutas. E por isso toma precauções, até na via pública. Pode ser apanhado a falar ao telefone, em alta-voz...

Este tipo atingiu as raias do ridículo e faz lembrar aqueles que falam ao telemóvel enquanto conduzem e quando falam na rua e vêem um polícia, retiram o aparelho do ouvido...

A ilusão da realidade

Segundo o Expresso de hoje, Vale e Azevedo, em Londres, declarou: "Não ando a fugir à justiça".

Muitos, ao ler esta singela declaração acreditam piamente. Se Vale e Azevedo tivesse logrado alcançar o lugar de líder de partido e primeiro-ministro que diria perante a crise que atravessamos?
O mesmo que vemos dizer ao primeiro-ministro que temos: a crise é culpa do ar e do vento internacional. Nunca ouviu falar do caso TVI na altura do escândalo. Nunca aldrabou no percurso académico na Independente e quem tal diz é ignominioso e vil. Nunca assinou projectos de câmara que não fossem da sua autoria e nunca pediu favores a outros por tal. Nunca soube nada do Freeport quanto a dinheiros que pudessem circular por fora para olear a máquina burocrática e decisória.

Vale e Azevedo não iria muito mais longe, porque nem precisaria. Tal chegaria muito bem para convencer os apaniguados que apenas desejam ardentemente acreditar em algo que lhes segure o posto e a prebenda.

Homem rico, homem pobre

José Sócrates é pobre. Apesar de a revista Flash desta semana o dizer como tendo vida de luxo. O que soa a ignomínia, perante a notória frugalidade do nosso primeiro.

A revista Flash desta semana traz uma pequena reportagem simpática e ambígua, com esta personagem na berra, o primeiro-ministro que temos, ainda.

A Flash foi espiolhar a declaração de rendimentos de José S. de 2009 ( a última disponível segundo a revista). Portanto, sabemos os rendimentos de 2009, ano de eleições e de manobras notáveis como as reveladas nas escutas que muitos querem destruir e - hélas!- já foram publicadas em parte. São esses os últimos e por isso as revelações da Flash são fresquinhas e...trash.

A Flash conta que José S. "começou a apertar o cinto bem cedo, mas não abdicou de certas mordomias. "
E diz em tom estranho e equívoco que o primeiro-ministro contraiu nesse ano dois empréstimos pessoais, junto da CGD e num total de 45 225 euros. Pagos num ano. Dividindo 45 por 12, sem juros, dá qualquer coisa como 3 750 euros por mês. Mas investiu nesse mesmo ano em acções. 2500, do Benfica e compradas a 5 euros cada. Portanto, 12 500 euros para acções do glorioso. Ano em que declarou para efeitos fiscais 107 mil euros. Ilíquidos.
Património declarado: apartamento, na Castilho, já pago. Um carro com vinte anos. E nada mais. As despesas de representação também contam? É saber quanto são e se contam para este pecúlio de pobre.

Segundo muitos recordam, nessa altura, José S. disse nos corredores do Parlamento que ganhava cerca de 5000 euros. A Flash conta que José S. gosta de fatos comprados em Milão e Nova Iorque. Será em viagens do Estado que os compra ou manda vir por catálogo? E quanto custa um fatinho daqueles giros de tecido italiano e corte a condizer? O preço que se paga na Milano dos centros comerciais não deve ser. E paga-os com aquele ordenadão, semelhante ao de Conselheiro, deduzido daquele abatimento substancial que o torna de repente pobre e remediado ? Marinho e Pinto que ganha o mesmo e não consta que pague empréstimos pessoais deste género, poderá comprar fatiotas em Milão ou Nova Iorque?
Mas daqueles míseros euros que lhe sobraram em 2009, ainda pagou, segundo a Flash, 880 euros por mês em despesas de educação. Dedutíveis até um certo montante em sede de IRS. E ainda deu para almoçar e jantar refeições que nunca ficam por menos de 50 euros cada ou perto disso.

Temos portanto um primeiro-ministro que ainda está perito em fazer contas de fim do mês. Consegue aquilo que muitos não conseguiriam e por isso deve ser esse o segredo da sua competência como governante: quem assim governa a sua vida, é com certeza um grande governante da coisa pública.
Sendo pobre e remediado, faz das tripas coração e mostra abundância e prodigalidade com o seu clube. Sendo pobre, tira a barriga de misérias em almoços que paga do seu bolso com as poucas centenas de euros que lhe sobram por mês para os alfinetes. Sendo remediado, veste-se como um príncipe das arábias, ocidentalizado com sedas da Etiópia e algodões do Nilo. Fantástico!

Por contra, o seu amigo A. Vara, é rico. Agora, porque em 1995 era um perfeito pindérico de Ford Fiesta a buzinar na ponte por causa do aumento do Cavaco. Protestava então o Vara, como o fazem agora os "a rasca"- e muito bem. Quem tem um Fiesta deve lutar por um Porsche. Vara lutou e conseguiu pelo que é um exemplo para todos os cidadãos deste pobre país à rasca. Um modelo!
Pelo trabalhinho bem feito que fez no banco, a tempo parcial que Vara tem mais afazeres ( falar com o Godinho ao telefone foi um deles), e cujo presidente de administração lhe aceitou, muito penhorado, a prebenda da sua presença, recebeu, segundo o C.M. de hoje, mais de 800 mil euros.

Assim é que é! Assim é que mostra ao seu amigo de peito (que nada teve a ver com o emprego em part-time), como se ganha a vida e se tem sucesso. Que terá o amigo Berardo a dizer sobre esta benção de euros?

Assim é que se mostra como se pugride! Ganda Vara! Ganda salto na vida, meu!

sexta-feira, março 25, 2011

Gago, alguém conhece?

Uma ideia que me ocorreu há pouco:

Porque é que a geração do Jel e dos "à rasca" não vai chatear o Mariano Gago, à sua porta, todos os dias?

É que o indivíduo é muito responsável pelo ensino superior que temos.

Viva a Justiça!

Grande notícia do Público:

O Supremo Tribunal de Justiça decidiu que o Estado não vai ter que indemnizar o ex-ministro socialista Paulo Pedroso por "erro grosseiro" na aplicação da prisão preventiva no processo Casa Pia, confirmou à Lusa fonte oficial do STJ.

Finalmente, uma boa notícia no campo da Justiça. Seria a maior vergonha se fosse de outro modo e quem decidiu na primeira instância em sentido contrário, citou o inacreditável Noronha Nascimento! É dele a tese peregrina sobre a temeridade nas decisões que podem fundamentar pedidos cíveis contra o Estado.

Espero que também tenha vergonha.

Sem tino

Económico:

Com o dedo em riste, ar ofendido e voz acima do tom, Sócrates afirmou que "não andamos por aí a pedinchar, temos dinheiro suficiente" e "temos dignidade".

Vejam só, as figuras que este Inenarrável anda a fazer. Patéticas.

Sempre o mesmo...

Sapo:

A oposição parlamentar aprovou hoje a revogação do actual sistema de avaliação de desempenho dos professores com os votos favoráveis de PSD, PCP, BE, PEV e CDS-PP e contra da bancada do PS e do deputado social-democrata Pacheco Pereira.

Obviamente que o indivíduo que votou contra o seu partido não sabe o que é na prática esta avaliação de professores. Mas é simples de entender se atentar nisto: é uma maneira de elevar a mediocridade a píncaros de excelência, através de parâmetros indefiníveis e agentes de avaliação incompetentes. Uma farsa, portanto.

Foi isto que JPP votou. Sempre o mesmo, a votar em mitos e lêndias.

Vale e Sócrates

Económico:

Sublinhando que "só lá vão 24 horas" desde o chumbo do PEC IV, no Parlamento, e Portugal já viu o seu ‘rating' reduzido por duas agências, a Fitch e a S&P, Sócrates deixou uma pergunta: "Muitas vezes me pergunto: como é que foi possível fazerem isto ao País?"

Ainda vai demorar umas semanitas, mas não falta muito para que uma maioria confortável se convença que este Inenarrável alienou-se. Tal como Vale e Azevedo.

Repare-se na frase estudada da criatura: "Muitas vezes me pergunto: como é que foi possível fazerem isto ao País?"

Isto é sintomático de algo muito grave e que passa despercebido.

A verdade a transparecer

Sol:

Um freelancer pagou 15 mil euros a uma das testemunhas mais relevantes da Casa Pia para alterar a sua versão dos acontecimentos. A entrevista com a nova versão foi comprada por um jornal.

Com estas farsas e aquela a que ontem se assistiu no Campus da Justiça, com o irmão-advogado de um suspeito a dizer coisas, com aquele ar irreal, cada vez penso mais que a verdade é só uma.

E eles sabem muito bem qual é.

Ideias alternativas


O Sol de hoje traz uma entrevista com Alípio de Freitas. Esta personagem alternativa foi sujeito de uma canção de José Afonso, em pleno PREC, no álbum Com as minhas tamanquinhas. Alípio de Freitas, revolucionário de grupo extremista lutava contra o "fassismo" no Brasil. E na prisão de Tiradentes e "mais de cinco masmorras, não há tortura que o dome", cantava Zeca Afonso.

Pois bem, que diz Alípio de Freitas hoje? Algo que José Mário Branco poderia dizer ou coisa diversa?
O que se pode ler: José S. está louco. Não em termos metafóricos, mas mesmo assim, e a precisar de tratamento: "Não sou médico mas o sujeito está com pancada. E é grave."

Sobre Cavaco: "É o pai de toda a corrupção generalizada. Basta ver que os amigos dele estão todos encrencados com processos."

Sobre Portugal: "Portugal vem em crise desde D. João II. Crise essa que se agravou durante o reinado de D. Manuel com a expulsão dos judeus. (...) Perdemos a formação de uma burguesia. Portugal nunca teve uma burguesia. E sem burguesia não há revoluções. (...) Na Europa, a burguesia assumiu o poder cultural e o poder económico. São os banqueiros que estão no poder."

Assim, ipsis verbis, Alípio de Freitas. Sou capaz de concordar com o que diz. Menos aquela coisa dos judeus e da burguesia, em Portugal.
No final dos anos sessenta estávamos no bom caminho e não seria possível ouvirmos, como ontem ouvimos e vimos, a suprema humilhação para um país soberano: uma governante alemã,uma tal Merkel, a mandar bitaites sobre o que temos imperiosamente de fazer. A mandar em nós como carreteiros mandam no gado. Como se fôssemos uma colónia alemã.

Quem nos conduziu a esse fosso de indignidade foi o Inenarrável primeiro-ministro que ainda temos e os seus açafatas e moços de recados. O tal que Alípio de Freitas considera louco. E que os apaniguados do partido e não só, aplaudem como o seu herói.

Repito: Lembram-se de Vale e Azevedo?

quinta-feira, março 24, 2011

Uma questão de estilo

Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica de penúltima página no Público de hoje, tem dois parágrafos enternecedores de ingenuidade amadurecida.
Escreve que José S. "foi um primeiro-ministro corajoso e inteligente. Achar que Sócrates é culpado- e que removê-lo chega para nos poupar- é uma estupidez de todos os tempos".
Por isso mesmo, MEC, sobre José S. é sucinto e esclarecedor ao declarar o seu apreço pelo dito cujo: "de quem eu gosto e sempre gostei".
Gostos não se discutem, caro MEC. Mas políticas, opções de organização social, medidas legislativas, e até problemas pessoais de quem se mete na política, usando-a para tais fins, isso já é outra conversa. Que nunca li nas crónicas, porque como diz o povo "quem está bem deixa-se estar".
Hoje leio que "Sócrates tem absorvido e concentrado o ódio e o desvio nominalista que acha que a política é, tal como nas revistas cor-de-rosa, uma questão de nomes e caras".
Não percebo o que isto quer dizer. Quererá explicar-nos este doutorado em sociologia por Manchester que quem não aprecia o estilo, a forma e o governo deste primeiro-ministro só o ressente por mor da fronha e aspecto visual do dito? Não acredito.
MEC, enquanto lia as suas literaturas, incluindo a de cordel, andou acordado estes últimos seis anos?
Deu por uma coisa chamada Independente, -não o jornal, entenda-se, que isso é ainda outra loiça muito fina e frágil- e o modo como o tal "inteligente" tirou o curso superior?
Deu pelo estilo da sua defesa e deu pelo passado obscuro numa câmara de interior, onde projectava com nome alheio?
Deu pelo que se passou no Freeport e pela família do dito, embriagada de tanto dinheiro à solta?
Deu pelo que aconteceu realmente no período prè-eleitoral de 2009, com uma tentativa soez e solerte de arrebanhar com dinheiros semi-públicos, aos milhões, vários órgão de comunicação social para a pandilha do costume?
Não deste, pois não caro MEC? Então continua a dormir, no teu estilo de luxo.

quarta-feira, março 23, 2011

Lapas

Sapo:

A bancada do PS decidiu hoje, minutos antes do fim do prazo limite, não avançar com uma resolução de apoio à proposta do Governo de Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC).

Com esta opção, os socialistas optaram por não levar a discussão e a votação no plenário desta tarde na Assembleia da República uma iniciativa legislativa que teria quase chumbo garantido por parte das bancadas da oposição e que poderia ser entendida como uma moção de confiança ao Governo, precipitando a crise política.

Na reunião que o presidente do Grupo Parlamentar do PS, Francisco Assis, teve com os dirigentes da bancada, em permanente "consulta" com o chamado "núcleo duro" do Governo, prevaleceu a tese de que os socialistas nada precipitariam sobre votações do PEC em detrimento da ideia de deixar registado para memória futura um documento de apoio às medidas do Governo.
Comportam-se como lapas agarradas ao penedo do poder político. Não o querem largar nem à força de eleições. Forçam apoios que não merecem; mendigam ajudas que não esperam; gritam por lobos que convocaram; desesperam de perder a vidinha. Mentem descaradamente e sem o mais leve pejo de vergonha.

Sacanas sem lei.

O paradigma que temos

Cá está outro que sabe como era dantes, mas esqueceu o que aprendeu: Jerónimo Martins do Pingo Doce, filantropo de António Barreto:

“As declarações são muito bonitas mas não resolvem problema nenhum. O que resolve é que as pessoas façam qualquer coisa para que a situação não se deteriore mais do que já está”, acrescentou.

O responsável defendeu ainda, nas declarações à Lusa, que a entrada do Fundo Monetário Internacional “é uma bênção” já que “nós já estamos a utilizar a ajuda externa”.

Sobre o acordo a que chegou a concertação social na terça-feira, o empresário considera que não se discutiu o essencial, destacando como positiva a renovação dos contratos a prazo.

“Não se discutiu para onde Portugal quer ir, ninguém percebe que sem investimento não há criação de emprego. Fala-se muito do desemprego, mas a minha grande preocupação é não haver criação de emprego, que só vem do investimento. Tem de se criar condições para que o investidor confie neste país e não confia se as políticas andarem ao sabor da maré”, afirmou.

Alexandre dos Santos reiterou ainda que “andam todos a mentir”, assegurando que “ninguém quer falar verdade, desde os empresários ao Governo” e que “são todos culpados” .


Jerónimo Martins em relação ao investimento devia dizer uma coisa a toda a gente, quando fala assim: que os seus lucros mais visíveis e importantes, vêm de fora, da Polónia, onde investiu os lucros que fez cá dentro.

E ainda outra coisa para não sermos levados por parvos: quanto paga em média aos seus "repositores de loja" e "caixas de supermercado".

Aqui e na Polónia...

Um paradigma alternativo

Daqui, do Portugal Contemporâneo, onde se escrevem ideias que não são necessariamente de Esquerda. Esta, por exemplo:


"O discurso do Presidente da República, na parte em que apelou aos portugueses para viverem fora da esfera do Estado, criando empresas e procurando empregos fora do Estado, é uma manifestação típica do excepcionalismo católico. São recomendações que ele faz para se aplicarem aos outros, e que provavelmente ele considera boas para os outros, mas não para ele.
Porque, afinal, o Presidente da República fez toda a sua vida e a suas diferentes carreiras à sombra do Estado, e por cada função que desempenhou no Estado - quatro, no total (cf. post abaixo) - para além de um vencimento bom e seguro ficou com direito a uma pensão de reforma - quatro no total.
Esta é a vida que qualquer português gostaria de ter e o Presidente da República é o exemplo vivo de que o que é bom é viver sempre à sombra do Estado. Como é que ele quer agora persuadir os portugueses a viverem fora do Estado? Basta olhar para o Presidente, e ninguém quer tal coisa. Aquilo que todo o português quer é fazer uma carreira (várias, se possível) no Estado, e por cada uma auferir um vencimento bom e seguro e mais uma pensão de reforma - uma por cada função, bem entendido. "

O que ali vai escrito, por Pedro Arroja, é verdade e não é. Assim como no fenómeno físico do gato de Shroedinger, é verdade se essa opinião coincidir com a realidade. Ora a realidade é muito elusiva, como diriam os anglo-saxónicos. Logo, não sabemos se coincide.
Como é que poderemos saber? Regressando ao passado de há 40 anos para analisar como éramos enquanto povo. Nessa altura, no tempo de Marcelo Caetano no poder político e num regime que se fazia valer através de meios democraticamente inadmissíveis, o Estado invasor e controlador da vida pública, era, paradoxalmente, muito mais liberal que hoje.
Marcelo Caetano foi também um honesto funcionário público mas tinha um sentido de equilíbrio entre o que era e devia ser público e o que estava nas mãos privadas e pertencia a patrões e accionistas. Algo que falta muito nos dias de hoje e que estes governos socialistas e de uma Esquerda que assim se caracteriza, por palavras, não compreendem a não ser por imitação de receitas estrangeiras.
O Estado, nos dias de hoje, intromete-se demais na vida dos cidadãos. A iniciativa privada, actualmente, precisa mais do Estado e da burocracia instalada, do que antes.
Muitos empresários de relevo bolsista carecem do Estado como de carteiras de encomendas. Dependem do Estado como as crias dependem das mães para mamar.
A revolução a fazer em Portugal, hoje em dia, não vai ser animada pelos jovens que estão "à rasca". Por uma razão: nem sabem o que era dantes, para contarem como pode ser.
PS. Como já percebi há uns tempos, é inútil tentar discutir com Pedro Arroja. Tal como um programa informático, não admite alterações de rotina algorítmica a não ser que lhe mudem o código.
Não obstante, a opinião transcrita é muito útil para sairmos do paradigma errado em que nos encontramos.

terça-feira, março 22, 2011

Toca a reunir

O editorialista do i de hoje, Manuel Queiroz refere que ontem "o PS e o governo puseram ontem todo o seu arsenal mediático na rua-Paulo P. Ferro Rodrigues, Santos Silva , Jorge Lacão".
Estes indivíduos são o PS que há. Uma desgraça nacional e o piorio que temos na sociedade política. Uma vertente da tragédia que nos aflige há décadas. A outra são os arrivistas e devoristas que também se sentam no mesmo partido, mas arranjaram poiso preferido no partido alternativo, o PSD.
Percebe-se muito bem o que foi o processo Casa Pia quando estes nomes saltam para a ribalta: seria o descalabro total do PS no caso daqueles serem pronunciados criminalmente. Não foram e a coisa assentou. O líder oculto, nessa altura, esteve calado que nem um rato, ao largo. Havia então muito a perder, centenas ou milhares de apaniguados em pânico; nomes de relevo a ver a vidinha a andar para trás. E tudo por causa de meia dúzia de ranhosos sem eira nem beira.
Fosse no tempo do ballet rose e a música era outra, tocada a bandolim pelos cantadores da época. Mas não. Calhou no tempo das rosas e das cerejas. A fruta já era outra. Podre, mas ainda assim.
Agora estão em pânico outra vez. Na perspectiva de perder lugares, prebendas, motoristas, alcavalas, privilégios, vidinha fácil e duradoura a que se habituaram mal nos últimos seis anos que julgavam eternos, estão à rasca e até já apelam ao presidente da República! Para salvarem o país que é o deles.

Mas não o nosso. Enquanto esta gente continuar a mandar no país, não temos salvação. E vão fazer tudo por tudo, até tirar olhos políticos se necessário para manter os tachos. Não têm outros, são uns inúteis aos milhares e estão mesmo à rasca em tempo de crise. E não tiveram tempo de fazer o que costumavam: armadilhar contratos para receberem indemnização pelo despedimento por justa causa e má figura.
Hoje, Passos Coelho, líder do PSD disse que a actual campanha eleitoral em curso ( CEC) não vai utilizar métodos "sujos" como a oposição utilizou na passada campanha presidencial.
Das duas uma: ou Passos prefere passar por cima de tudo o que seja escândalo político associado a crimes públicos, de corrupção e outros como abuso de poder, ou então prefere a anomia reinante e afina pelo diapasão do PGR actual: processo que envolva políticos é político por natureza e sempre para arquivar porque sinal da manipulação de problemas políticos pelo poder judicial.
Com esta mentalidade vamos longe.

Morreu Artur Agostinho, antigo preso político

Sapo:

O radialista, actor e jornalista desportivo Artur Agostinho morreu hoje aos 90 anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado há uma semana, confirmou à Lusa fonte da administração do jornal Record, de que era colunista.

Segundo a mesma fonte, a causa da morte não está determinada e pondera-se fazer uma autópsia. Artur Agostinho morreu no Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria.


Artur Agostinho, antes de 25 de Abril de 1974 fazia relatos de futebol e apresentava programas de tv. Um deles, O tempo em que você nasceu, era muito melhor do que os actuais programas das vedetas que ganham milhões. Mais culto, informado, interessante. E em pleno "fassismo", veja-se lá o desaforo!

Talvez por isso, Artur Agostinho, na primeira intentona contra inventonas, protagonizada pela Esquerda extremada do PCP ao PCP ( M-L) com gritos do povo à mistura, em 28 de Setembro de 1974 foi preso. Sem qualquer culpa formada ou facto que lhe imputassem a não ser o de ser um perfeito "fassista" e obviamente "reaccionário" da pior espécie.

Os advogados antifassistas que ainda por cá abundam, tipo José Augusto Rocha, provavelmente não estiveram presos pela PIDE tanto tempo nem sequer por factos que efectivamente cometeram, de subversão e de acordo com a legalidade da época. Mas são vítimas do fassismo eterno e por isso, heróis nacionais.

Passados meses, como a legalidade revolucionária não tinha ainda chegado para rasgar os códigos existentes, os tribunais tiveram que o libertar. Sem qualquer indemnização pelo "erro grosseiro", como hoje alguns pedem ( e recebem) hipocritamente.


Artur Agostinho escreveu há muito pouco tempo um livrito sobre esses acontecimentos onde se nota a memória dos factos e pouca ou nenhuma amargura. Foi para o Brasil, deu a volta à vida, voltou com as tv´s privadas, porque a pública barrava-lhe sempre a entrada por causa dos "camaradas" e ultrapassou frustrações.


Artur Agostinho pode ser um exemplo dos homens antigos que tínhamos. E já temos muito poucos, alguns deles completamente desmemoriados ou de casaca revirada, como é de bom tom a quem tem falta de carácter.

Fica aqui a imagem de um jornal da época ( 30.9.1974) , onde aparecia Artur Agostinho como "conspirador". O jornal era o Diário de Lisboa, dirigido por um tal Ruella Ramos ( e também José Cardoso Pires, é bom lembrar), um antifassista encartado e que escrevia assim:

Havia outro jornal, o Sempre Fixe que então escrevia assim:
"Sexta-feira ás 22h e 30m o COPCON desencadeia uma operação para a prisão de 150 pessoas contra as quais são passados mandatos de captura. Segue-se uma busca a residências de pessoas que se admitem estar implicadas na conspiração."


A lista dos civis, é a que fica exposta. Presumivelmente, serão os representantes da Direita decapitada em Portugal. 70 pessoas, incluindo militares...
PS. Escrevi que os tribunais acabaram por libertar Artur Agostinho. Ora, segundo um comentário de Manuel não foram tribunais nenhuns. Enganei-me porque ainda pensei que os tribunais, mesmo os militares tivessem intervindo. Nada de nada segundo parece.
Lendo uma entrevista daquele ao Sol, percebe-se melhor o arbítrio, a ilegalidade e o abuso de poder dos novos senhores que apareceram em 25 de Abril de 74, respaldados pelos democracas de sempre.


Sol-Como foi preso?

Artur Agostinho- A 28 de Setembro, na cama. Tinha vindo do Campeonato do Mundo na Alemanha e estava de férias. Estava tranquilamente a dormir com a família e foram lá buscar-me. Foi o COPCON.

Foram violentos?

Não, mas foram estúpidos e idiotas. Levaram-me para o Ralis de uma maneira rocambolesca, dentro de um jipe, com um alferes muito nervoso a apontar-me a pistola à cabeça e outro a conduzir. Esse nem sabia o caminho, fui eu que lhe fui dizendo. Depois estive preso três meses, em Caxias.

Esses três meses de prisão foram.

. Bastante difíceis. É muito difícil estar ali sabendo que não estava metido em nada. Não me deixaram ter um advogado, não me deixaram receber visitas, não me deixaram ler jornais, não me deixaram ouvir rádio. Eles que acusavam tanto os outros gajos de serem uns malandros fizeram pior do que isso.

Guarda rancor de alguém?

Não. Já perdoei a uma data de gajos, mesmo aos que inventaram que fui preso vestido de padre, dentro de um carro funerário e que o caixão, em vez de um morto, levava metralhadoras. Mesmo a esses, que eu sei quem são, perdoei. Mas disse-lhes, a alguns, que perdoava, mas que não esquecia.

O exílio, depois da prisão, era inevitável?

Era. Fui preso a 28 de Setembro e, generosamente, porque era véspera de Natal, saí a 24 de Dezembro. Convenci-me, ingenuamente, que iria voltar a trabalhar, uma vez que nada estava provado contra mim, mas mais ninguém me deu trabalho. Estive desde Dezembro de 1974 até Agosto de 1975 à espera de qualquer coisa. Foi então que a minha mulher me disse: «O que é que estás aqui a fazer?». Não é fácil emigrar aos 54 anos. Primeiro dei um pulo até Paris depois fui para o Rio de Janeiro, que era uma cidade que eu conhecia.

Já ia com alguma coisa pensada?

Nada. Andei a ver os anúncios de emprego. Arranjei um lugar num banco brasileiro, como relações públicas para os clientes portugueses, e depois acabei por ser convidado pelo grupo Espírito Santo para trabalhar num banco. E também fiquei a fazer dois programas desportivos sobre o futebol português para a Globo. Foi assim que reconstruí a minha vida

segunda-feira, março 21, 2011

É triste não saber ler


Em 11 Julho de 1981 o Expresso dedicou duas páginas aos intelectuais portugueses que não estavam totalmente enfeudados ao PCP e extrema-esquerda. Ao GIS, o Gabinete de Estudos Sociais que publicava uma revista em forma de livro que então comprava: a Análise Social.

O seu mentor era Sedas Nunes, presidente do mesmo GIS que integrava nomes como António Barreto, Manuel Braga da Cruz, Luís Salgado Matos, Maria Filomena Mónica, Jaime Reis e Vasco Pulido Valente.

É ver onde estão estes intelectuais e atentar ao mesmo tempo no organismo que lhe sucedeu na ribalta da intelligentsia pátria: o ISCTE. Com quem, aliás, o GIS teve um protocolo de cooperação.

Para sabermos que ideias tivemos na organização social e económica, o GIS é como se diz, incontournable. E no entanto, em 1981 andava à rasca de financiamento. Sedas Nunes achava então que o GIS dera um contributo muito importante para " a compreensão da sociedade de hoje."
Deu mesmo? Ninguém deu por nada. Ou pelo menos ninguém ligou muito.
Na década de noventa, com o aparecimento do Público os mesmos sociólogos, em conjunto com outros para-sociólogos ( Medina Carreira, por exemplo) deram à estampa uns folhetos em forma de "cadernos sobre a Educação, a Segurança Social, Demografia, até mesmo a Saúde e o Envelhecimento da população. Traziam estatísticas e breves apontamentos, tal como hoje a Pordata se encarrega de fazer e o Pingo Doce de publicar. São do mesmo género e são o que há.

Portanto, quem pensa em Portugal, hoje em dia? O ISCTE? É?
Se for, estamos feitos.
O título do postal é doutra canção do mesmo disco da Banda do Casaco. É triste não saber ler é o motto da nossa tristeza.

Coisas do arco da velha


E o que pensavam as segundas linhas das direcções partidárias de então? De então e de agora, porque as mudanças, em trinta anos quase nem se notam, a não ser para vermos onde foram parar os reizinhos do regime que sucedeu a Caetano. E como se safaram na vidinha.

Jorge Miranda o constitucionalista actualmente virado totalmente para este regime deletério já perorava sobre o presidencialismo. Jorge Lacão, já então entusiasmado pela política sectária, interrogava-se sobre se o presidencialismo não seria um "movimento de natureza contraideológica e populista" (!) Ah, Lacão! Assim é que foi.

Na banda mais à esquerda do PS, Manuel Alegre interrogava o PCP sobre as contradições. Mal sabia que anos depois lhe cairiam em cima, precisamente as mesmas.

Citando uns versos do grupo A Banda do Casaco que então, nesses anos, fazia música como ninguém mais fez:

"Era uma vez uma velha; uma velha muito velha. Que debaixo da cama teve uma vez uma ovelha. A ovelha fazia mé-mé e a velha fazia oh-oh. E assim se passaram anos. Muitos anos e enganos. Anos, muito anos e danos. Anos, danos e enganos. " ( Era uma vez uma velha do LP Coisas do arco da velha, de 1976. Uma obra-prima da música popular portuguesa que ninguém conhece, porque quem ganha os festivais, agora é um Jel. E nem é dos piores).

Resta dizer uma coisa: não tenho esperança alguma neste povo, enquanto gente que vota e escolhe representantes. A Esquerda, sempre com o mesmo discurso dos pobrezinhos e da igualdade deu cabo dele. E os que o proclamam vivem como privilegiados que os ricos nunca foram. Esse paradoxo, poucos o entendem, no entanto. E é por isso que os enganos e danos continuam.

A conferência das ideias falhadas





Ainda imersos na crise gravíssima que atravessámos no final dos anos setenta, com intervenção do FMI e pela mão de Mário S. como chefe de governo ( e Silva Lopes nas Finanças, sendo o então Teixeira dos Santos e com muitas semelhanças com este) , o semanário O Jornal deu em reunir várias personalidades políticas numas "conferências democráticas" que tiveram lugar no teatro Maria Matos.
O tema dessas "conferências " foi " Portugal, anos 80-o quê?" e realizadas à segunda-feira. O Jornal dava conta do resultado na sexta-feira em que saía a público, nos meses de Junho e Julho de 1978.
Vale a pena recordar as manchetes das páginas dessas conferências. Falta a página correspondente à intervenção do líder do PSD, aliás o primeiro a intervir. Mário S. fechou a conta e o balanço é simplesmente decepcionante, visto com o recuo de mais de trinta anos.
O que essas figuras da democracia pensavam provavelmente não mudou assim tanto.
Mário S. continua a ter o mesmo posicionamento de esquerda soft que não faz nem deixa fazer. Freitas do Amaral, na altura mostrava-se preocupado com a...ditadura! E já falava no Mercado Comum. Marcelo Caetano, na altura ainda vivo, deve ter pensado e dito das boas sobre o seu antigo aluno muito devoto e devotado.
Álvaro Cunhal, claro, confiava que Portugal continuaria a ser "democrático". Vejam só! Uma democracia que a "caminho da sociedade sem classes", via o défice da balança comercial passar de 50 milhões de contos em 1975 para 120 milhões em 1977! E antes estava equilibrada.

As ideias que resultam dessas conferências para preparar "os desafios do futuro" deram no que deram: no falhanço que temos e somos como povo.
Os líderes que nos trouxeram até aqui são sempre os mesmos. As ideias idem aspas. Se alguém se der ao cuidado de ler o que Mário S. diz nessa conferências fica abismado.
Ainda assim, ganhou eleições em anos seguintes e uma década depois era presidente da República, porque usou a "Esquerda" a seu favor e venceu por uma percentagem mínima.
Foi a única vez em Portugal que tivemos oportunidade de ultrapassar as ideias de Esquerda que nos tem afundado. Mas, por outro lado, se tivesse perdido, o ganhador teria sido Freitas do Amaral.
Dá para ver, com o recuo do tempo que estivemos sempre entre a espada e a parede, em termos políticos. E sem saída à vista.

As ideias que falharam

Se há em Portugal uma construção que seja o paradigma do nosso avanço e do nosso atraso, simultaneamente, ela é o Centro Cultural de Belém.
O Público de hoje dá relevo à efeméride porque foi neste dia de 1993 que foi inaugurado pelo governo de Cavaco Silva. Segundo o Público, a obra foi construída, em parte sem respeitar a legalidade vigente, foi muito contestada na época e inaugurou ou pelo menos deu continuidade de marco a um fenómeno que se iria repetir vezes sem conta nos anos vindouros: os trabalhos a mais e a derrapagem das obras públicas. De uns 32 milhões iniciais, acabou por ficar muito acima dos 135 milhões, sem contar com obras adjacentes. Foi um sorvedouro de dinheiro e foi essa uma das primeiras vezes que os governantes ( no caso, Santana Lopes) tiveram que dar explicações que nada explicam a não ser o óbvio: a corrupção inerente, muitas vezes insindicável, nas obras públicas. É por isso que essa obra é simbólica. Na década de noventa iriam repetir-se estes fenómenos sem que alguém, mormente o poder judicial lhe pusesse cobro. Já então se dizia que a sindicâncias destas obras pelo poder judicial representava a "república de juízes"...

O CCB tem a marca de Santana Lopes e na altura o Expresso, fez-lhe uma folha pouco abonatória, por causa do estilo arquitectónico. Tem a marca de Santana mas a matriz é de Cavaco, entenda-se.
Quem lá vai por estes dias, ou até há uns anos atrás, nota uma obra grandiosa, que se enquadra bem no local e em 2002 foi considerada património emblemático da arquitectura portuguesa.
O problema no entanto é de outra natureza: para que precisávamos nós de uma coisa assim, logo nos anos noventa?
Para promover o quê e quem? Para gastar dinheiros da então CEE? Para dar a ganhar a empreiteiros de regime que reclamavam obras públicas?
É certo que bem perto dali fica o Restelo e os velhos de há muitos séculos foram lembrados para desmontar as críticas, mas o essencial permanece: foi a primeira obra de um regime cujas ideias falharam. Redondamente. E por isso é o símbolo delas.

À rasca de ideias. Que fazer?

Estamos à rasca, principalmente de ideias. O Público de hoje traz uma entrevista, em meia dúzia de perguntas, com o filósofo José Gil que diz muito simplesmente que não sabe o que fazer. Diz que “está expectante” e que a informação que temos sobre a crise não é suficiente. Nem sequer sabe dizer o que pode significar em termos concretos a “ajuda europeia”.
José Gil é um dos filósofos do tempo que passamos. Outro, poderia ser Eduardo Lourenço, emigrado em Vence e que amanda de vez em quando umas “bolas para o pinhal”, em modo de artigos de fundo na revista Visão.
Desde os anos setenta que o faz regularmente e sempre com o sentido da oportunidade perdida á esquerda.
José Gil ensinou filosofia em Portugal na Universidade Nova e em França e foi aluno de Giles Deleuze, um homem de ideias modernas e com interesse no cinema como linguagem.

Que podem estas pessoas dizer sobre um país, um sistema económico,um regime político ou até um partido?
Pouco ou nada de especial. Há filósofos à esquerda como Eduardo Lourenço, para quem o comunismo nunca assustou por aí além porque seriam magníficos compagnons de route se tal tivesse sido o percurso político do país.
Teriam sido opositores da ditadura comunista? Tanto quanto o foram das ditaduras que então havia, na Europa de Leste. Não lembro de terem feito o paralelo e alertarem o povo português, em 1975, para o perigo. Antes pelo contrário. A Esquerda era tudo, então. E agora?

Terá José Gil comungado dos mesmos ideiais utópicos? Provavelmente. Não o admitirá? Provavelmente.
Então que nos resta como pensadores do nosso futuro que virá, inexorável, quer queiramos quer não, porque ´”a História é um carro alegre cheio de um povo contente que atropela, indiferente, todo aquele que a negue?”

Agora não adianta muito especular sobre o que poderia ter sido feito em 2005, aquando da tomada de posse destes governos, deste Inenarrável. O primeiro economista, ministro da dita, no governo de 2005 foi Luís Campos e Cunha. Saiu porque o Inenarrável e quem o rodeava não gostavam da receita. Os banqueiros, os empresários de regime não quiseram e correram com ele, passando o recado ao Inenarrável que os seguiu à letra. Sempre. Ficaram com uma espécie de pau-mandado que já foi classificado o pior ministro das Finanças da Europa, o que não o incomodou em termos de vergonha pessoal.

Segundo disse Campos e Cunha ao jornal i de Sábado nessa altura preparou medidas que poderiam ter evitado o que sucedeu entretanto. No Público de Sexta tinha escrito um artigo notável sobre "Um país" que lhe parecia exemplar: a Espanha.
No i, quando perguntado onde se pode cortar, agora, responde que “ninguém sabe onde estão as gorduras. É preciso avaliar repartição a repartição, instituto a instituto, fundação a fundação, o que é para fechar, para reduzir”.
Ora para saber isso é preciso fazer bem o diagnóstico e a metodologia a usar é logo o primeiro problema a resolver: como e quem vai analisar?
Não obstante, outro nível de problema se coloca:

Qual a questão fundamental do nosso país na actualidade e perante esta crise que atravessamos?
Provavelmente sabermos o que fazer politicamente. José Gil não sabe. Eduardo Lourenço muito menos. Sobre um Boaventura Sousa Santos nem é bom falar porque esse sabe tudo e desde há muito.

Que nos resta? A Sedes? O Expresso desta semana diz que a associação vai reunir num ciclo de conferências ex-presidentes da República para se pronunciarem sobre a actual situação portuguesa. Apetece perguntar… para quê?» Acaso não é notório que esses são exactamente os que não sabem o que se passa ou como resolver? Para que interessa saber a opinião de um Mário S. ou de um Sampaio? Deixem-nos sossegados nas reformas que apanharam em bom tempo. Náo adiantam nada, são uns atrasos de vida e dispensamos o que pensam.

E os artigos de jornal de algumas luminárias, ajudarão?
Seguindo estes ficamos mal. Um articulista estrangeirado, Domingos Ferreira, no Público de Sábado passado, escrevia que os Governos devem implantar “programas de estímulo económico à economia”.
No outro dia, João Carlos Espada em artigo de opinião sobre Ronald Reagan fazia-lhe o panegírico por ter seguido o mais puro liberalismo, que segundo alguns nos conduziu directamente a este desastre económico-financeiro.

Parafraseando Lenine: que fazer?
A seguir vou dar conta do que alguns fizeram de há décadas a esta parte.

quinta-feira, março 17, 2011

Enriquecimento sem causa

Os negócios com o Estado e com este governo presidido por um Inenarrável, agora são assim:

A Tave Tejo pediu uma indemnização de 10 milhões de euros pela anulação do concurso da linha de alta velocidade entre Poceirão e Lisboa, que inclua a terceira travessia sobre o Tejo, noticia o "Público".

Segundo o jornal, a Tave Tejo foi a única das três concorrentes a fazê-lo. Mas a partir de amanhã, concluídos seis meses do despacho de anulação , os consórcios poderão exigir mais ao Estado.

A concurso além da Tave Tejo, liderada pelos espanhóis da FCC, estiveram a concurso o consórcio AltaVia, liderado pela Mota-Engil, e o Elos, co-liderado pela Brisa e Soares da Costa.

O consórcio Tave Tejo já tinha avançado ao Negócios estar a avaliar os custos que suportou com a proposta que apresentou no concurso para o troço de Alta Velocidade entre Lisboa e Poceirão, anulado pelo Governo, para avançar com uma acção contra o Estado português.Este foi o consórcio que ficou mais bem classificado no concurso anulado posteriormente pelo Estado.


E diz o Negócios online que isto é só um começo...

Se o Ministério Público se meter nisto no âmbito criminal o actual PGR vai dizer que é a justiça a meter-se na política. E no fim de contas atirará o assunto para o campo cível.

O Marinho e Pinto que na altura em que exercia como jornalista escrevia verdadeiras catilinárias contra este tipo de coisas, vai mais uma vez rasgar a toga rota, para proclamar que a Justiça anda a reboque de interesses políticos obscuros.

No entanto, o assalto parece descarado e com a complacência, se não a participação consciente e activa, do governo que decidiu.

A Justiça atingiu o fundo da fossa.

Uma ignomínia na abertura do ano judicial

O discurso de Marinho e Pinto, ontem na abertura do ano judicial é uma ignomínia, mais uma, para a magistratura portuguesa.
Citando o Público, disse em público perante a plateia mais alargada das autoridades judiciais portuguesas que se ficaram, algo que roça o insultuoso e o inadmissível em democracia numa cerimónia do género. Evocando hipocritamente o sentido de Estado que não tem, insultou como quis.
Referindo-se a um juiz que toda a gente identifica como o titular do TCIC, Carlos Alexandre, apelou abertamente à sua punição, intrometendo-se na análise juridica de um caso concreto que está pendente num tribunal e perante a passividade completa e abúlica dos presentes.
Disse que "há magistrados que desafiam impunemente a autoridade do próprio presidente do STJ", não compreendendo sequer que o pSTJ neste caso é um "mero juiz de instrução", como o mesmo se autodefinou para definir o "outro".
Marinho e Pinto para além desta prova de ignorância crassa ainda teve o topete de farpear a atitude de devolução do telemóvel, pelo referido juiz de instrução, apelidando-a de "chicana". E para comprovar a sua razão suprema perante os juizes do supremo, chamou à colação o episódio de umas supostas escutas de que o juiz poderia ter sido alvo, como a prova definitiva do despautério que lhe pretende imputar e sindicar como razão disciplinar. Ao seu lado, porventura impassível e imperturbável, sentava o PGR que na mesma ocasião em entrevista ao DN disse a mesmíssima coisa, sem qualquer reparo do flibusteiro da Ordem dos Advogados.
Júdice, enquanto bastonário disse em tempos que este Marinho vai destuir a Ordem. Não vai porque a Ordem não é dele e o mesmo só lá estará enquanto os advogados quiserem.
O que Marinho e Pinto anda a destruir há muito tempo é outra coisa: a respeitabilidade e imagem da função judicial. É apenas mais um incendiário da Justiça, porque há outros muito bem colocados institucionalmente e que o presidente da República ontem citou.
No caso de Marinho e Pinto, a contínua ignomínia no seu boquejar contra a magistratura, passa sempre impune, porque quem se mete com ele, leva com maiores impropérios, dignos de peixeiras. Seja onde for e perante quem for.

quarta-feira, março 16, 2011

problemas políticos e judiciais

Segundo se lê aqui, hoje na abertura do ano judicial, o PGR voltou a dizer coisas como esta: (...) como exemplo da "nefasta intromissão" da política na Justiça está "a tentativa de resolver problemas políticos através de processos judiciais (dezenas de casos são conhecidos)".

Gostava de saber a que casos se refere. Um só, porque não sou capaz de me lembrar de nenhum caso desses.
Gostava porque o PGR do meu país, deve ser mais explícito nestas coisas que denigrem a imagem da justiça e da política. Ambas as duas, como dizia o outro...

Entretanto na mesma ocasião e em eventual jeito de resposta o presidente da República disse isto :

"Num implícito recado para o procurador-geral da República e para o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, considerou que «são frequentes as atitudes e declarações públicas de responsáveis da Justiça que em nada contribuem para o prestígio deste pilar do Estado de Direito democrático».

«A Justiça, para ser credível aos olhos do povo, para além da independência, objectividade e qualidade das suas decisões, tem de ser responsável no comportamento dos seus principais protagonistas», considerou ainda. «A confiança no funcionamento da Justiça advém das percepções que a opinião pública vai tendo todos os dias, acompanhando e ouvindo as intervenções públicas dos seus altos responsáveis. Daí a a importância de, no uso da palavra, os protagonistas do sistema judicial contribuírem para a sua dignificação» frisou Cavaco ."


Toda a gente dos media interpretou o recado como dirigido ao PGR e pSTJ. O que acontece a estes em termos disciplinares e de opinião pública? Nada? Rien de rien?
É que levar um puxão de orelhas deste género e em público, pelo mais alto magistrado da Nação é inédito, incrível e revelador do estado a que chegou o topo do poder judicial em Portugal: ao caricato.

E não serão os inspectores que irão recuperar a imagem perdida e que anda pelas ruas da amargura, instruindo processos e dando pareceres de castigo disciplinar a magistrados por eventuais actos que desprestigiam o topo da magistratura.

Conforme se pode ler no discurso do P.R. este considera que tal ocorre por causa do comportamento público daqueles . Não por causa dos subordinados e escalões inferiores da magistratura...

O caso Craxi2 segundo Noronha

Noronha Nascimento é a segunda vez que refere o caso Craxi2, para dar uma visão terrífica do que acontecerá aos magistrados prevaricadores que não sigam a sua avisada opinião de jurista do STJ.
Disse agora e já tinha escrito antes que o Estado italiano foi condenado posteriormente por causa de publicações de transcrições de escutas telefónicas atinentes à vida privada de Craxi.
Não explicou quem condenou, quando e exactamente porquê. Não disse que o caso teve origem após a condenação de Craxi por corrupção em pesadíssima pena de prisão e já quando se encontrava fugido, na Tunísia ( terra da internacional socialista solidária e tal) .
Devia dizer que foi o tribunal de Estrasburgo, o TEDH, ( e parece que não haverá outra, mas se houver reconhecê-lo-ei aqui mesmo, pedindo desculpa pelo engano) o mesmo que um dia destes se vai pronunciar sobre estes mesmos assuntos que deu a decisão...
Devia dizer que a indemnização foi de 6 mil euros, por danos morais e por coisa um pouco diversa do que andamos por aqui a tratar.
Devia dizer se as escutas que mandou destruir dizem respeito exclusivo a assuntos da intimidade e da vida privada do PM. É que se não dizem...o TEDH não vai dar razão por causa disso.
Estranho é que Noronha Nascimento se preocupe tanto com este tipo de condenações do TEDH.
A Net é um refúgio de surpresas e informaçõe e por isso, mas mostrar mais detalhadamente o que Noronha Nascimento anda a dizer, nada melhor do que a transcrição da notícia sobre o assunto, tirada daqui do sítio do La Repubblica e na língua original porque a nossa como se sabe é muito , muito traiçoeira...



ROMA - Si chiude dopo nove anni il caso "Craxi contro Italia" alla Corte europea dei diritti umani. Ieri, infatti, è stato accolto il ricorso presentato dall' ex presidente del Consiglio (e portato avanti, dopo la sua morte, dai familiari) contro lo Stato, condannato per violazione dell' articolo 8 della Convenzione europea dei diritti umani, che sancisce il diritto al rispetto della vita privata. Si tratta della seconda vittoria postuma per Bettino Craxi a Strasburgo. La vicenda in questione riguarda le intercettazioni telefoniche tra la residenza tunisina di Craxi, ad Hammamet, e l' Italia, disposte dalla magistratura milanese nel 1995, nel quadro del processo "Metropolitana Milanese". Su questo episodio la Corte ha emesso una duplice condanna. I giudici europei, all' unanimità, hanno constatato che «le autorità italiane non hanno seguito le procedure legali», quando, durante un' udienza del processo, furono letti dal pm milanese Paolo Ielo degli estratti delle intercettazioni. Infatti, «non c' è stata un' udienza preliminare nel corso della quale le parti e il giudice avrebbero potuto escludere i passaggi delle conversazioni intercettate privi di rapporto con la procedura». La seconda condanna riguarda le indiscrezioni apparse sui giornali. Con sei voti a favore e uno contrario (quello del giudice italiano Vladimiro Zagrebelsky), la Corte ha rilevato che «spettava al Governo dare una spiegazione plausibile su come queste informazioni fossero giunte in possesso della stampa, ma non l' ha fatto». Lo Stato, quindi, non ha rispettato l' obbligo di garantire l' effettiva protezione del diritto sancito nel primo paragrafo dell' articolo 8 della Convenzione, secondo cui «tutti hanno diritto al rispetto della propria vita privata e della propria corrispondenza». Inoltre, la Corte non ha riscontrato l' eccezione al diritto garantita all' autorità pubblica (paragrafo 2) «nell' interesse della sicurezza nazionale». La Corte non ha accolto la richiesta, avanzata dai legali, di un risarcimento per i danni materiali subiti da Craxi fino alla sua morte. Per i danni morali, invece, lo Stato italiano è stato condannato a una pena pecuniaria di 6.000 euro, da dividere tra gli eredi. «Il pronunciamento della Corte - ha affermato emozionato il figlio Bobo - è la conseguente condanna del nostro Paese in materia di violazione dei diritti umani. Risulta ormai evidente - ha continuato - il carattere persecutorio e politico dell' azione giudiziaria che costrinse mio padre a riparare in esilio». Il presidente della commissione Giustizia della Camera, Gaetano Pecorella, ha commentato: «Questo dimostra ancora una volta che ci sono stati degli eccessi durante Tangentopoli». E ha aggiunto: «L' obiettivo era buono, ma i mezzi spesso sono stati ingiusti». Nel dicembre scorso era arrivata la prima vittoria: lo Stato fu condannato per violazione dell' articolo 6 (sul giusto processo), in quanto durante i processi a carico di Craxi, i suoi legali non avevano potuto interrogare in aula tutti i testimoni. Nel 2001, invece, la Corte aveva respinto il ricorso presentato contro la condanna per corruzione e illecito finanziamento dei partiti, pronunciata nel 1998 dalla Corte d' Appello di Milano in merito al caso «Metropolitana Milanese», per la quale Craxi aveva parlato di "persecuzione". La Corte riconobbe che l' onorevole fu condannato per corruzione e non per le sue idee politiche. - PATRIZIO CAIROLI

PS. Para quem como Noronha Nascimento anda muito preocupado com condenações do Estado por tribunais estrangeiros, talvez fosse melhor atentar na jurisprudência do TEDH sobre decisões dos tribunais portugueses, sobre assuntos de indemnização por atentados à honra e consideração. É que o TEDH tem dito várias vezes, contrariando jurisprudência dos tribunais locais e condenando o Estado português por isso mesmo que essa honra não é um conceito elástico onde cabe tudo, como parece ser a interpretação corrente por cá.

A responsabilidade de Noronha Nascimento

Desta vez o caso é sério e não há dúvidas: existe uma ameaça, concreta e definida. É esta:

Se as escutas entre Armando Vara e José Sócrates forem publicadas podem vir a ser pedidas responsabilidades ao Estado e ao juiz Carlos Alexandre, afirma o presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

Em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Renascença, Noronha Nascimento sublinha que as escutas e SMS que ainda não foram destruídos não têm qualquer interesse para o processo , mas se forem reveladas podem dar origem a um pedido de indemnização.(...)

“É um caso típico de responsabilidade civil extra-contratual do Estado, ou seja, as escutas foram guardadas no tribunal quando não deviam ter sido guardadas, porque não tinham interesse literalmente nenhum”, sublinha Noronha Nascimento.
Repare-se na gravidade disto: o presidente do STJ, obrigado como ninguém a uma reserva institucional e a recatar-se de opiniões sobre processos concretos em curso, em que interveio, vem numa entrevista dar dois ou três recados com uma gravidade exponencial:
O primeiro e óbvio é ao titular do processo de instrução. A mensagem é clara, com destinatário nomeado e de efeito útil e urgente: destrua lá isso ou então pode vir a sofrer as consequências cíveis de uma indemnização em vista. E o recado é dado assim como quem diz quem te avisa teu amigo é...
E no entanto, apesar desta ameaça velada que já foi negada por comunicado mas agora se repristina, houve o vice-presidente do CSM, Bravo Serra que também disse publicamente que o juiz de instrução visado, cumpriu a lei. Tal e qual. Por isso, a questão concreta e jurídica coloca-se em termos muito peculiares: que vale juridicamente o despacho de Noronha Nascimento?
A segunda é implícita: ouviu o que dizem as escutas e mensagens sms e decidiu que não valem um chavo para o processo.
A lei processual não fala assim, como todos os que sabem ler esta passagem do artº 188º do CPP na redacção anterior a 3.9.2009, podem interpretar e que é bem explícita:

6 - Sem prejuízo do disposto no n.º 7 do artigo anterior, o juiz determina a destruição imediata dos suportes técnicos e relatórios manifestamente estranhos ao processo:
a) Que disserem respeito a conversações em que não intervenham pessoas referidas no n.º 4 do artigo anterior;
b) Que abranjam matérias cobertas pelo segredo profissional, de funcionário ou de Estado; ou
c) Cuja divulgação possa afectar gravemente direitos, liberdades e garantias;
ficando todos os intervenientes vinculados ao dever de segredo relativamente às conversações de que tenham tomado conhecimento.

Onde é que se enquadra a ordem de destruição de escutas que "não valem nada"? Apenas se afectarem gravemente aqueles direitos individuais, diz a lei. E mais nada, para além das outras duas circunstâncias que aqui não vêm ao caso ou pelo menos disso não foi dado conhecimento ou justificação para tal.

Como é que Noronha Nascimento pode dizer, sem contraditório algum, que as tais escutas valem "nada de nada de nada"? Alguém as ouviu e entendeu precisamente o contrário, ou seja que valiam para um processo crime. E por isso não são daquele género que autorizam a destruição...mas quem é que poderia sindicar o despacho de Noronha Nascimento? Ninguém porque ele entende que ninguém tem direito a recurso. E no entanto permanece a questão essencial: essas escutas poderiam ser nulas por terem sido apresentadas muito para além do prazo legal processual: 48 horas e que é imperativo. Mas não foi por aí, o pSTJ.

Mais ainda e que o pSTJ parece não ter entendido bem ( mas podia saber através de uma consulta, "já agora", a Henriques Gaspar, conselheiro no STJ):

1. cfr. o Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça n.º 13/2009, de 6/11, que fixou a seguinte jurisprudência 'Durante o inquérito, o juiz de instrução criminal pode determinar, a requerimento do Ministério Público, elaborado nos termos do n.º 7 do artigo 188.º do Código de Processo Penal, a transcrição e junção aos autos das conversações e comunicações indispensáveis para fundamentar a futura aplicação de medidas de coacção ou de garantia patrimonial, à excepção do termo de identidade e residência, não tendo aquele requerimento de ser cumulativo com a promoção para aplicação de uma medida de coacção, mas devendo o Ministério Público indicar nele a concreta medida que tenciona vir a promover' .

É que tal aconteceu no caso e foi isso que originou a "fuga" inicial de informação para os jornais...

Mas sobre o mesmo assunto da destruição há agora, depois de 2009 outra versão do mesmo artigo:


11 - As pessoas cujas conversações ou comunicações tiverem sido escutadas e transcritas podem examinar os respectivos suportes técnicos até ao encerramento da audiência de julgamento.
12 - Os suportes técnicos referentes a conversações ou comunicações que não forem transcritas para servirem como meio de prova são guardados em envelope lacrado, à ordem do tribunal, e destruídos após o trânsito em julgado da decisão que puser termo ao processo.
13 - Após o trânsito em julgado previsto no número anterior, os suportes técnicos que não forem destruídos são guardados em envelope lacrado, junto ao processo, e só podem ser utilizados em caso de interposição de recurso extraordinário.

Ora no caso concreto , mal ou bem, houve uma transcrição efectiva de escutas que , repare-se na cronologia dos factos, implicam um imbroglio jurídico. A primeira violação de segredo ocorreu aquando das buscas efectuadas, em data posterior ao primeiro despacho ( de 3.9.2009) do pSTJ. O teor das escutas saltou para os media. Houve transcrição, em parte, dessas escutas. Tal como diz Noronha, neste caso "Inês é morta e nada nem ninguém a pode ressuscitar". Foram publicadas, percebe?!

Logo, aplica-se o disposto no artº 188º nº 11 e 12 do CPP. O pSTJ e os seus conselheiros não podem-não devem!- ultrapassar este dispositivo legal, sob pena de nulidade de tudo o que fica no processo.

Noronha vem agora alertar, em modo de inequívoca ameaça de espada de Dâmocles pendente sobre quem pensa de modo diverso do seu, com acções cíveis. E se o processo for nulo por causa das suas decisões, que tipo de acções cíveis podem ser instauradas contra Noronha Nascimento?

Será que já pensou nisso e na efectiva responsabilidade pessoal, disciplinar ( que não existe) , política e civil que qualquer assistente do processo ou qualquer arguido que se sinta prejudicado por essa decisão lhe pode intentar?

Ou não se ralará muito com isso, por causa do último recado que deixa na entrevista e que é este, inadmissível: dizer publicamente o que pensa do caso, em termos de direito civil a dizer pelos tribunais e se tal for colocado à apreciação do tribunal superior a que preside...

Isto não significa uma autêntica violação de dever de reserva ?

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso