segunda-feira, setembro 12, 2016

Um poema para arquivar a queixa de Sócrates...

É de Bocage e serve como luva ao destempero de José Sócrates a propósito da entrevista do juiz. Serve também a todos os cristos e seus apóstolos que tomaram as dores alheias como se suas fossem:

POEMA DE BOCAGE

Quer seja curto ou comprido
Quer seja fino ou mais grosso
É um órgão muito querido
 Por não ter espinhas nem osso
De incalculável   valor
Ninguém tem um a mais
E desempenha no amor
 Um dos papéis principais
Quando uma dama aparece
 Ei-lo a pular com fervor
Se é de um rapaz, estremece
O de um velho, tem pouco vigor
O seu nome não é tão feio
Pois tem sete letrinhas só
_   _   _   _   _   _   _
1        2        3        4        5       6       7
Tem um R e um A no meio
Começa em C e acaba em O
Nunca se encontra sozinho
Vive sempre acompanhado
Por dois orgãozinhos
Junto de si, lado a lado
O nome destes porém
 Não   gera   confusões
Tem sete letras também
Tem L e acaba em ÕES
1        2        3        4        5       6       7
Vou acabar com o embalo
E com as más impressões
Os órgãos de que eu falo...
São o coração e os pulmões

Os dados objectivos do juiz Rosa: um choque de conceitos indeterminados

Aqui há uns anos ( em 2012) um juiz chamado Ivo Rosa foi  nomeado pela ONU para integrar tribunais internacionais, no caso o do Mecanismo Residual dos Tribunais Internacionais.

Na altura, o tal juiz falou ao Expresso e deixou-se fotografar assim:


 Entre outras coisas disse isto sobre o Tribunal Central de Instrução Criminal, onde estava, sozinho, o juiz Carlos Alexandre:

"O tribunal devia ter dois juízes, no mínimo".  Porquê? Ninguém ( Rui Gustavo) lhe perguntou. Porque sim, portanto. E porque não? O jornalista ainda balbuciou que não havia atrasos processuais e que o actual juiz não é da mesma opinião. Mas Ivo Rosa, o juiz bem vestidinho e de pose assinalável na foto composta, afinfa: "Essa questão tem de ser decidida por dados objectivos e não porque o juiz quer ou não quer." Ele, juiz Rosa, quer.
Sobre os "dados objectivos" que não enunciou e se ficou pelo querer, ficamos todos na mesma: a observar o juiz bem vestido, de pose assinalável numa compostura pessoal de juiz que devia estar reservado.

Quando este juiz foi colocado, recentemente,  no TCIC, na sequência premonitória daquelas declarações antecipadas, ninguém lhe perguntou porque quis ir para lá e ninguém o confrontou com as mesmas. É altura disso. Como é altura de lhe perguntar porque é que ao contrário do seu colega prescinde habitualmente de segurança. E outras coisas mais.Por exemplo, sobre o seu "sistema de contactos". Sabemos quem são os do juiz Alexandre. Sobre o juiz Rosa, sabe apenas quem sabe...o que levanta a questão de saber se um juiz só por ser silencioso e reservado merece logo toda a confiança, falando por si as decisões nos processos. E se estas forem sucessivamente anuladas por tribunais superiores como é que se equaciona tal fenómeno?

Além disso, o dito juiz Rosa, já nessa altura não era  alheio aos apelos mediáticos e a pronunciar-se sobre certos assuntos, ao contrário do juiz Alexandre...

É ver aqui, em Junho de 2011 quando era ainda presidente das varas criminais...

Os parolos mediáticos e seus apóstolos





Um Observador feito Cristo a mostrar as chagas do costume
 
Há que ficar atónito com tudo isto: a entrevista do juiz Carlos Alexandre foi um desastre. Para o próprio. Para o Ministério Público. E para a percepção pública da Justiça em Portugal.

Impressiona quando um magistrado cede à tentação mediática de participar nos debates da esfera pública, pois esse não é o lugar da Justiça. Desassossega quando esse magistrado é Carlos Alexandre, o juiz que tem nas mãos, entre outros, a “Operação Marquês”, cujo desfecho condicionará a percepção pública da Justiça em Portugal. Preocupa quando, sendo entrevistado sem que se apreendesse o propósito da entrevista, esse juiz atira recados a José Sócrates, que se prepara para acusar formalmente – abrindo o flanco a dúvidas sobre a sua idoneidade e a uma queixa do visado. E inquieta quando esse mesmo juiz se diz sob vigilância, atirando suspeitas para o ar mas sem apresentar queixa, enquanto o país permanece mudo, incluindo o Ministério Público. Há que ficar atónito com tudo isto: a entrevista do juiz Carlos Alexandre foi um desastre. Para o próprio. Para o Ministério Público. E para a percepção pública da Justiça em Portugal.

Acredito convictamente na seriedade do carácter do juiz Carlos Alexandre. De resto, com a mesma convicção com que não confio na inocência de José Sócrates. Mas, aqui, o ponto não é esse. É, sim, que a Justiça tem de ser um espaço impoluto do regime democrático – sem ceder às pressões mediáticas e livre de pressões externas, sejam elas políticas ou criminosas. E, para tal, a Justiça tem de ser forte, porque aguentar essas pressões e defender a separação de poderes requer músculo institucional. Ora, quem assistiu à entrevista do juiz Carlos Alexandre não avistou nada disso. O sistema judicial indirectamente retratado pelo juiz exibe uma Justiça à qual falta força e que, por isso, por um lado cede à tentação da mediatização, e, por outro, assiste impotente ao exercer de pressões políticas e/ou criminosas que alegadamente espiam juízes. E se esse retrato institucional não fosse suficientemente negativo, o pior vem a seguir: o juiz Carlos Alexandre surgiu, tão inesperada quanto involuntariamente, no primeiro plano desses problemas.

O magistrado passou anos a fugir à sua própria mediatização, deixando, e bem, a Justiça fora da esfera pública e política. Até que concede uma entrevista televisiva, na qual dispara (discreta mas repetidamente) sobre José Sócrates – o que, vindo do juiz, merece repúdio. E, também, uma entrevista onde se diz alvo de espionagem, ao ponto de alterar rotinas e comportamentos, mas sem avançar com uma queixa junto do Ministério Público – o que, vindo do juiz, merece perplexidade. É que, se efectivamente se sente sob vigilância, apresentar queixa formal é o mínimo que se exige a quem acredita na Justiça – que recorra a ela para sentenciar as injustiças. Foram, portanto, dois erros inesperados, graves e com significado: as opções de atacar Sócrates no palco público e de lançar uma acusação de espionagem pela comunicação social, em vez de pelos canais próprios da Justiça, transpiram uma certa desilusão do juiz Carlos Alexandre no sistema judicial.

É, pois, justo e inevitável apontar o dedo ao juiz pelos erros que cometeu na sua entrevista – ninguém está acima do escrutínio. Mas é também importante destacar essa desilusão e o impacto que esta pode vir a ter na sociedade portuguesa. Sim, a percepção pública sobre o sistema judicial está calejada por fugas de informação, processos demasiado longos e uma reiterada incapacidade para julgar os mais poderosos. Mas a sucessão de casos liderados pelo juiz Carlos Alexandre (que abalou políticos, banqueiros e demais figuras do regime) chegou para abrir uma janela de esperança na opinião pública. Aos olhos de muita gente, o juiz representava uma espécie de último reduto: incorruptível, obstinado, justo e destemido, Carlos Alexandre era o juiz que ainda acreditava em levar a Justiça onde ela não chegava. Parece que já não acredita – ou, pelo menos, age como tal. A desilusão que, na entrevista, os seus actos manifestam é, nesse sentido, também a de uma parte do país que, não confiando na Justiça, confiava nele. Logo agora, na hora mais importante, ficou mais difícil acreditar na Justiça
.


Este Cristo que assina esta crónica fustiga  neste pequeno escrito um juiz de direito por falar em público, de si, essencialmente, e com o intuito de mostrar as chagas de sempre na Justiça portuguesa. Este Cristo é injusto e por isso um falso salvador da honra de um convento cuja ordem se desconhece. Como tal merece apreciação no que escreve por representar ideia peregrina que perpassa sempre no caminho da cruz desta Justiça que temos.

A principal chaga exposta: "a  tentação mediática de participar nos debates da esfera pública", acrescentada em corolário pela afirmação de que "o magistrado passou anos a fugir à sua própria mediatização, deixando, e bem, a Justiça fora da esfera pública e política".

Comecemos por aqui.

O magistrado em causa concedeu a entrevista à SIC, estação televisiva por onde têm passado muitos outros magistrados, inclusive juízes, a falar de tudo e do habitual par de botas, sendo certo que um ou outro ( Rui Rangel, evidentemente) era comentador desportivo e depois partenaire de debate em programa com um certo Marinho e Pinto. Falava sobre tudo, menos sobre ele próprio ( et pour cause) mas não se esquecia de alvitrar palpites avulsos sobre questões processuais em casos pendentes e mediáticos. Nunca houve qualquer levantamento de rancho dos vários cristos mediáticos. Outros convidados avulsos apareceram em estações de televisão a falar sobre casos mediáticos, incluindo advogados obrigados a reserva estrita sobre tal. Nunca se ouviu qualquer clamor mediático sobre tal desvio estatutário.

A entrevista deste magistrado, Carlos Alexandre, à SIC,  durou na realidade cerca de 4 horas segundo fontes bem informadas. Ninguém se preocupou, nem este Cristo nem outros apóstolos, com a circunstância de a entrevista de 4 horas ter sido editada e podada para os 45 minutos, segundo critérios, certamente jornalísticos, mas inevitavelmente idiossincráticos e que resultou na exposição que se viu. O que foi dito nas restantes duas 3 horas e um quarto? Alguém sabe? Seria desinteressante para o caso? Uma coisa parece certa: o juiz em causa segurou-se muito bem no dizer e não caiu certamente nas armadilhas do costume, falando sobre processos pendentes ou mostrando a sua opinião sobre casos sob reserva estatutária e processual.
Quando se tenta mostrar a chaga do "protagonismo" dos juízes, apontando a virtude da contenção e reserva absoluta como essencial ao cargo funcional o que se pretende exactamente dizer? É que tenho visto, lido e ouvido muitos sabidolas a falar no assunto, mas raramente explicam a verdadeira razão da reserva aconselhada. É sempre muito etéreo mas dado como princípio constitucional indiscutível...

O fundamental dessa reserva o que será, para os cristos e seus apóstolos? Duvido que saibam muito bem apesar de terem a certeza dessa sabedoria.

Quando um magistrado se cala, por se entender que é o processo que fala, os seus escritos, decisões, julgamentos, atitudes e idiossincrasias falam fatalmente por si.
Chegará tal comunicação muda para se entender um magistrado e o que deve ser o seu papel? Essencialmente, chega.
Mas há uma altura em que tal não é suficiente e carece de complementaridade comunicativa: quando se vilipendia pessoalmente o magistrado; quando se critica por tudo e por nada o magistrado, sobre o que decide e não decide, instaurando-lhe sucessivos processos intencionais; quando se insinua idiossincrasia maldosa ao magistrado ou quando se declara que não presta, não serve e devia ser corrido, inventando-lhe propósitos maléficos e de perseguição ou de estatuto peitado.
Tudo isso aconteceu com o magistrado em causa e quem é que falou assim? Alguns advogados de processos, sempre aqueles que estão relacionados com personagens do poder político, mediático ou institucional. Quem é que defendeu o juiz em causa? Algum dos seus colegas que declaram solenemente e pigarreiam  ideias sólidas sobre o silêncio dos inocentes? Nem um.
Esses advogados e a sua corte de comentadores mediáticos não têm qualquer pejo em falar sempre que tal lhes convêm e toda essa corte acha normalíssimo que se insulte, vilipendie, difame, avilte ou diminua a honra profissional e por vezes pessoal do magistrado.
Pode dizer-se sempre que o magistrado tem ao seu lado a lei e o poder de fazer queixa, o que é hipócrita e nem merece qualquer acrescento argumentativo.

Durante anos a fio  o magistrado em causa, juiz de instrução no tribunal central de instrução criminal, onde exerce sozinho, ouviu, analisou, decidiu e argumentou, nos processos. Ou seja, teve aí a sua voz, como é natural e normal.

A partir de certa altura, os apóstolos dos vários cristos mediáticos, vítimas daquelas decisões, escreveram, falaram, ajuizaram, analisaram, criticaram, bateram metaforicamente e esperaram sempre o silêncio estóico de um indivíduo que também é uma pessoa e não simplesmente um juiz abstracto.

O que estes falsos cristos pretendem com a imposição do silêncio absoluto é terem um alvo para (a)bater sabendo que este não lhes poderá responder. A partir do momento em que o mesmo tem a veleidade de balbuciar qualquer palavra em defesa de honra, caem-lhe em cima exigindo-lhe o silêncio estóico, sem excepções.

Este entendimento peregrino encontra eco nas altas instâncias de um poder judicial que interiorizou atavicamente este medo. Ninguém, nenhum juiz do STJ ou das Relações  fala, simplesmente  por medo de os acusarem de...falar. Se lhes perguntarem exactamente a razão porque não falam adiantam motivos em que eles próprios não acreditam plenamente.
 Este silêncio imposto mediaticamente veio de uma ideia antiga que hoje não teria expressão. A sociedade de hoje não se compadece com um silêncio medieval porque a velocidade de transmissão de informações e de comunicações é de tal ordem que o silêncio dos magistrados nunca é de inocentes mas de medrosos e temerosos que não sabem comunicar ou informar. E isso não é valor que se possa creditar. Por isso mesmo temos o problema candente da dificuldade em sabermos o que se passa nos processos mediáticos: ninguém quer falar, por medo de ser acusado de ser protagonista ou procurar os focos mediáticos da exposição pública, como se isso fosse uma lepra intangível e permanente. Quando alguém fala, como a PGR ( o serviço propriamente dito que não a titular do cargo) nota-se a dificuldade em explicar, em comunicar, em informar. O medo impera naqueles comunicados. Um medo atávico que ressuma atraso e inferioridade de um poder que deveria ser mais assertivo e não é.

Noutros países, como por exemplo a Itália nunca foi assim e não consta que tenham uma magistratura inferior à nossa. Ou o Brasil, agora em foco.

Por isso coloco a imagem acima, de dois magistrados exemplares que em Portugal faziam agora muita falta, em vez dos silenciosos que têm medo de sair à rua mediática.

Falcone e Borselino davam entrevistas e até se pronunciavam sobre os temas que tinham em mãos: o terrorismo mafioso. Ninguém se incomodava com tal atitude ou os acusava de falarem do que não deviam. E muito menos de os relegarem para os corredores e gabinetes escuros dos palácios de justiça.
Alguém duvida da honorabilidade, qualidade humana, competência e categoria de ambos?  A Itália é um país mais atrasado que o nosso? Quem é que lhe copiou as leis, precisamente as de processo penal? Fomos nós...

Assistiu-se nos últimos meses a comportamentos dos advogados deste Sócrates inacreditáveis, incompreensíveis e intoleráveis. A PGR nem um pio de desagrado mostrou. Inacreditável, incompreensível e intolerável também. Tudo por medo. O presidente do Sindicato do MºPº falou e devido a um lapso de comunicação foi comido vivo na praça pública por esses mesmos salafrários sem um pio de defesa da PGR e ainda por cima com um processo disciplinar por ter dito o que disse.

Neste contexto, as declarações públicas do juiz Carlos Alexandre assumem o ar de lufada fresca que desanuvia este medo atávico da magistratura em geral.

É isto que estes cristos e apóstolos não querem entender e gostaria de saber porquê. Gostaria principalmente que me dessem uma única razão para exigiram a continuação do medo e do silêncio dos magistrados. 

Por outro lado e como o escrito vai longo fica para a próxima a análise de outro ponto importante e revelador também da hipocrisia militante destes cristos e seus apóstolos:


 "O sistema judicial indirectamente retratado pelo juiz exibe uma Justiça à qual falta força."

domingo, setembro 11, 2016

dr. Lopes e mr. Marquês

Um palhaço rico vindo de nenhures costuma escrever crónicas no jornal regimental do poder que está, nos intervalos das aparições profissionais  em programas cómicos da tv.


Parece que já foi merceeiro, cauteleiro e gasolineiro, embora como patrão caucionado em herança familiar e terá mesmo em arquivo um diploma em direito, passado por uma qualquer secretaria distraída, tamanhas são as enormidades jurídicas que debita.
Tardiamente descobriu a profissão de palhaço que agora exercita com garbo e cara de amêijoa de água doce.

Pedro Marques Lopes é a declinação do bobo que hoje subscreve a tese ontem apresentada no mesmo jornal pelo visado principal do processo Marquês e escreve assim:



Qual é a punchline da rábula escrita? O juiz Alexandre ter dito que não tem dinheiro em nome de amigos. Ó ignomínia! Ó céus do hádem! Ó profundezas da crise!

O juiz Alexandre nunca deveria ter sugerido que não tendo dinheiro em nome de amigos, poderia haver quem o tivesse, tratando-se de pessoa sagrada do reino da inocência presumida.
O cómico detectou logo a insinuação torpe e saiu em defesa do inocente vilipendiado em escrito sério no intervalo das rábulas.
 E qual o castigo para o comportamento inquinado? Sair do processo, já.

Outra coisa não querem, desde sempre,  os amigos do cómico que estagiam no poder regimental. Este juiz é espinha atravessada nessas gargantas sequiosas de amizades salvíficas e contas recheadas, mesmo em nome de outros.
Um juiz que não se enquadra nesse pequeno universo é um perigo para o equilíbrio geral e até os palhaços devem contribuir para o extirpar porque a luta é de vida ou de morte.

Ainda por cima um juizeco isolado, um parolo qualquer, como se atreve a fazer perigar o que demorou décadas e erigir, com esforço denodado de uns tantos que agora se refastelam nos benefícios? O topete já chegou ao circo?

Para fazer jus ao motivo por que a secretaria lhe passou aquele diploma, o cómico alvitra no fim do escrito que aposta em grandes tormentas vindouras.

Tenho por certo que se referirá a qualquer coisa como isto, citado ontem quase em rodapé, no jornal regimental semanal, Expresso:





A parecerística jurídica está prestes a entrar em cena...

Por outro lado, outro cronista habitual do regimento, Paulo Baldaia, escreve doutro modo
mais circunspecto:

 

Este percebeu o problema principal...mas irão dizer-lhe subtilmente para estar quietinho, caladinho e direitinho. Há um profeta bíblico citado numa canção de Elton John que vela por todos e o seu reino já veio há muito. Haja fé.

Para terminar, há tablóides e pasquins. Os palhaços ricos não escrevem naqueles.

sábado, setembro 10, 2016

O desesperado que dá tiros no pé





Desperado, why don't you come to your senses
You been out ridin' fences for so long now
Oh, you're a hard one
I know that you got your reasons
These things that are pleasin' you
Can hurt you somehow.


 And freedom, oh freedom, well that's just some people talkin'
Your prison is walking through this world all alone.


Eagles, 1973 álbum Desperado  


José Sócrates reagiu à entrevista do juiz Carlos Alexandre da pior maneira: num artigo no Diário de Notícias anunciou uma queixa crime por "abuso de poder", segundo conta o Observador :  "O ex-primeiro-ministro acusa o juiz de instrução do processo que o envolve de “abuso de poder”, ao “corroborar publicamente as injustas e falsas teses de acusação” que diz existirem sobre si. No final do artigo, Sócrates diz que deu instruções aos seus advogados “para apresentarem as respectivas queixas aos órgãos judiciais competentes“.

Repare-se na atitude de desesperado que pretende atirar a matar e atinge o próprio pé: o crime de abuso de poder só se verifica em situações concretas em que determinado funcionário actua no âmbito de um procedimento específico. Tal como aqui se escreve "o crime de abuso de poder constitui um crime de função e, por isso, um crime próprio, o funcionário que detém determinados poderes funcionais faz uso de tais poderes para um fim diferente daquele para que a lei os concede;

2.- O crime é integrado, no primeiro limite do perímetro da tipicidade, pelo mau uso ou uso desviante de poderes funcionais, ou por excesso de poderes legais ou por desrespeito de formalidades essenciais.

Mas, com um elemento nuclear: o mau uso dos poderes não resulta de erro ou de mau conhecimento dos deveres da função, mas tem de ser determinado por uma intenção específica que enquanto fim ou motivo faz parte do próprio tipo legal
."

Ora segundo o desesperado que atira ao próprio pé, o teor das declarações que o juiz prestou numa entrevista televisiva é em si mesmo um facto integrante de um processo, aquele em que o desesperado está envolvido... o que relevando de um ridículo assustador anuncia um estado de desespero.

Por outro lado, o facto criminoso é o de "corroborar publicamente as injustas e falsas teses de acusação" e assim o raciocínio seria: como esse juiz nas respectivas funções processuais corroborou no processo a tese da acusação, necessariamente teria cometido o crime de abuso de poder, pelo qual não se queixou na devida altura. E deveria, na sua lógica de desesperado.
Agora num outro género de processo, o intencional que José Sócrates lhe move, tendo referido e aludido ao dinheiro de amigos que ajudam outros amigos,  não tendo também “contas bancárias em nome de amigos”, comete o crime também...

Por outro lado, parece claro que em nenhum momento de processo algum, a não ser o intencional agora levantado, se disse que alguém tinha contas bancárias em nomes de amigos. O que se disse e o próprio desesperado corroborou perante as evidências esmagadoras que o obrigaram a declarar uma devolução em espécie das quantias já emprestadas, foi que havia dinheiro em contas bancárias de amigos que efectivamente pertencia a outro titular que não o declarado, o que é substancialmente diferente.
E quando alguém diz numa entrevista que não tem dinheiro em nome de amigos ou que não tem contas bancárias em nomes de amigos está a referir-se também a outrém, abstracto e anónimo que não se identifica necessariamente com o desesperado. Poderia até dizer que nunca alguém lhe emprestou dinheiro aos milhões que o efeito seria idêntico.
Os exemplos poderiam replicar-se para o mesmo efeito: mostrar que vive dos seus rendimentos próprios e que não conta com mais ninguém, mormente amigos para tal. O resto da asserção advém apenas da intenção de quem nisso lê o que não está lá, inferindo essa explicitação como certa.

 Abuso de poder? Sim, talvez, mas o deste desesperado em dizer patacoadas,  como  agora  o faz.

Por outro lado continuam a fazer-se sentir as réplicas do abalo que a entrevista provocou. Certo jornalismo de tartufos deu em armar julgamentos à ética judicial , particularmente no aspecto das declarações públicas prestadas por magistrados.

O Sol de hoje, na sequência do i de ontem, mostra na capa esse exemplo de tartufismo jornaleiro:


A ideia é simples e a artimanha simplória: o presidente da República aproveitou uma conferência promovida pela sindicata dos juízes, na quarta-feira, para se referir expressamente ao problema da comunicação do que se passa em processos e do modo como chegam aos media as informações sobre os mesmos.
É um problema antigo, difícil de resolver e cuja solução parece arredar a possibilidade de os magistrados titulares dos processos poderem dar informações sobre os mesmos.

O presidente da República equacionou tal problema mas não apresentou solução para o mesmo, apenas referindo que a possibilidade de serem os próprios magistrados a trocarem galhardetes com os intervenientes processuais traria "custos a prazo". Só isso e portanto nada que se possa referir à entrevista do juiz Carlos Alexandre à SIC ou de outras declarações de juízes, mormente sindicalistas ( o que em si mesmo é outro problema porque há quem diga que um órgão de soberania não deveria ter sindicato).

O Sol, capitaneado pelo inteligente José António Saraiva que já deu sobejas mostras dessas capacidades no caso da Face Oculta e de um tal Rui Pedro Soares, em vez de raciocinar melhor sobre o assunto, deu a capa que se pode ver...
Até parece dor de cotovelo por causa da entrevista à SIC. Se o juiz Carlos Alexandre tivesse preferido o Sol, apareceria a mesma capa, com um título que não acompanha o conteúdo noticioso propriamente dito?

O Sol defende essa reserva assim tão restrita e exclusiva, feita do mutismo absoluto de qualquer magistrado?

Então terá que se pronunciar sempre que um Rui Rangel aparece na mesmíssima SIC a comentar n´importe quoi como o fez ao longo de longos meses ou anos. Ou uma Maria José Morgado a falar abertamente sobre a corrupção com alusões claras e directas a casos concretos, sem os nomear. Ou deveria, no antanho, uma Cândida de Almeida que aparecia sempre que queria. Ou um Pinto Monteiro. Ou...ou...

E sendo assim nunca deveria ouvir qualquer magistrado como fonte de notícias, em on ou em off. A ética é para todos, mesmo para este tipo de jornalices e a coerência ainda mais.

Aliás, em contradição com essa suposta ética, neste mesmo número do jornal aparecem duas páginas de entrevista a outra juíza: Maria José Costeira, presidente da tal sindicata. Sobre tudo, menos processos concretos.

sexta-feira, setembro 09, 2016

Sinais do sistema que foram ignorados pelas autoridades

 Na altura em que isto ocorreu ninguém com poder institucional se importou verdadeiramente com os indícios de verdadeiro atentado a um Estado de Direito que tal denotava, o que permitiu que o desastre se cumprisse e ficassem impunes os seus autores.
Sabe-se agora e suspeitava-se antes que pessoas do governo de José Sócrates, com ajuda de apaniguados do sistema queriam tomar o BCP e alterar a correlação de forças nessas instituições, com objectivos turvos e pouco democráticos. Isto configura um atentado ao Estado de Direito se tivermos em conta o contexto em que se desenvolveu e o caso TVI mostrou ser possível.
Ninguém fez nada de relevante e neste último caso as altas instâncias judiciárias arquivaram todas as suspeitas. Literalmente.


Económico:

A Caixa Geral de Depósitos tinha então um "buraco" da ordem dos 300 milhões de euros resultante dos financiamentos dados à fundação de Joe Berardo e a empresas ligadas ao investidor. Pois o valor do crédito era de cerca de 360 milhões de euros e o valor em risco (imparidade) era de aproximadamente 300 milhões de euros. Isto, porque as garantias reais entregues por Berardo à CGD estavam avaliadas, então, em apenas cerca de 60 milhões.

O empresário madeirense tinha comprado as acções a valores de 2007, altura em que a cotação do BCP superava os 3 euros por acção. Em Junho de 2007 o BCP chegou a valer 3,7974 euros (valor ajustado a aumentos de capital posteriores). Naquela altura, recorde-se, o banco estava num processo de conflito aberto de accionistas pelo controlo da gestão (então liderada por Paulo Teixeira Pinto). Um batalha pela expulsão dos fundadores na pessoa de Jardim Gonçalves. Nesse Verão, marcado por assembleias gerais conflituosas e muito mediatizadas, o BCP chegou a valer em bolsa 17,8 mil milhões de euros.

Ontem a Caixa Geral de Depósitos entrou com uma acção de execução contra o empresário José Manuel Berardo, exigindo-lhe cerca de 2,9 milhões de euros. O que em nada se compara aos mais de 300 milhões de euros de dívida (antes de 2011 chegou a falar-se em 500 milhões de crédito a Berardo para comprar as acções do BCP).

De acordo com a informação publicada no portal de Justiça Citius este processo actual deu entrada a 30 de Agosto na Comarca do Funchal e o banco público pede que seja executado um valor de 2,87 milhões de euros.

A notícia desta acção na Justiça a pedir a execução do empresário madeirense conhecido por Joe Berardo foi dada, esta quinta-feira, pelo Diário de Notícias da Madeira, apesar de a execução estar associado à divida para compra de acções, a verdade é que a execução dessa dívida remonta há pelo menos 4 anos.

O valor exigido será então o de uma garantia então prestada por Berardo.


Para além disto avulta ainda uma ideia que perpassa nesta crónica ( sobre outro assunto) de Rui Ramos no Observador, com esta passagem:

Este foi sempre um regime inseguro e desconfiado, e por isso marcado, desde o início, por uma certa fatalidade. Não devemos subestimar a sabedoria dos seus protagonistas. Mas podemos, talvez, apontar-lhe os riscos. A vacina de Kissinger foi eficaz, mas ainda a estamos a pagar, por exemplo numa banca sem capitais. Quando se deixa a casa arder, nunca se sabe o que pode desaparecer no fogo. Mas por outro lado, estes são, de facto, os primeiros seis meses de Marcelo Rebelo de Sousa. Uma presidência tem história até ao último minuto. Lembram-se de Jorge Sampaio? Quem diria, em 2004, ao fim de quase nove anos de enfático parlamentarismo, que ia derrubar um governo com maioria no parlamento?

Com a circunstância de o PREC ter resultado numa tragédia económica  que entre outras coisas trouxe "uma banca sem capitas" como se vê 40 anos depois, pode ter-se uma pequena ideia dos efeitos deletérios sobre as consequências que traz a ignorância sobre certos sinais do sistema.
Para o caso da banca bastaria que a maioria dos portugueses letrados tivessem a noção exacta do que se passou no PREC e nos anos a seguir e das suas consequências catastróficas para a economoa nacional.
Porém, parece que a maioria das pessoas não tem essa noção e contestam-na quando lhes é apresentada.

quinta-feira, setembro 08, 2016

A entrevista do juiz Carlos Alexandre à tv


 O juiz Carlos Alexandre aceitou falar em entrevista alargada à SIC. Uma entrevista televisiva, pela primeira vez.
O que o juiz disse em alguns minutos televisivos mostrou essencialmente quem é Carlos Alexandre: simples  na expressão do dizer, assertivo nas ideias, singelo nos objectivos declarados e concreto nos destinatários que nunca dormem, como a ferrugem.

 Há duas passagens da entrevista que merecem destaque e que foram reproduzidas no sítio do jornal  i:

 Como eu não tenho amigos, amigos no sentido de pródigos, não tenho fortuna herdada de meus pais ou de meus sogros, eu preciso de dinheiro para pagar os meus encargos. E não tenho forma de o alcançar que não seja através do trabalho honrado e sério”

Questionado sobre se sente observado explicou que acha que é escutado sobre várias formas: “Já me julgo um pouco conhecedor e já identifiquei várias vezes restolhar de papeis, água a marulhar, porque há pessoas que têm a possibilidade de ir para a praia nesta altura do ano e por vezes descuidam-se.”

E uma outra, com importância inegável:

Devo dizer que tenho o manual, que li o manual. Tenho um exemplar completo do manual das secretas que me apareceu na caixa do correio.

A primeira passagem significa que o juiz Carlos Alexandre não veste Armani por hábito monacal  ou anda de jipe adquirido em leasing manhoso ou com audi tt de mão dada.

A segunda que não anda a dormir na forma e há um sistema oculto em Portugal que vicejou na última dúzia de anos e não desapareceu, antes se renovou. O recado é simples e directo: há quem vigie de perto um juiz de instrução como Carlos Alexandre e mais nenhum outro, porque não há necessidade de tal. Porquê? Porque há um sistema de poder que se implantou em Portugal e que tem neste momento a sua expressão máxima, depois do trabalho de sapa nos últimos anos.

A referência explícita a um manual das secretas que parece que não existe será motivo de indagação por quem de direito e saber se o actual director dessas secretas sabe o que isso é...e o que lá vem.E principalmente para se saber se é genuíno, apócrifo ou até inexistente como documento oficializado. Ou seja, se existe mesmo ou é apenas uma representação fantasmática de um serviço patético.

Da entrevista resulta por isso esse recado nas entrelinhas que deve ser levado muito a sério: é preciso identificar quem quer travar um juiz como Carlos Alexandre. Não é difícil porque os sinais estão aí todos à vista.
O primeiro deles é a permanência nos serviços secretos das mesmas pessoas durante anos a fio. Basta! Em nome da democracia. Pelo menos, porque é esse regime que querem que as pessoas acreditem ser  o melhor de todos. E aquilo desmente tal crença.

Outro sinal é este dado pela comunicação social, neste caso pelo jornal i que amplifica os recados de certos políticos, como este inenarrável Galamba.

O que este indivíduo diz é verdadeiramente inacreditável: a "justiça" usa a comunicação social para "fazer o que não consegue nos tribunais".E apresenta o caso Sócrates como paradigmático de tal atoarda.

Pressupõe por isso que " a justiça" é quem divulgou as notícias sobre o caso, por tal lhe interessar, sabendo que "os tribunais", ou seja a "justiça" não conseguiriam o efeito que os media podem obter.

Se este indivíduo fosse um pouco menos inenarrável e não usasse brinco poderia pensar melhor e concluir que "a justiça" terá pouco interesse em divulgar o que quer que seja de processos como o de Sócrates com aquele objectivo. Até por um motivo que só um imbecil não entende: se correr mal nos tribunais, ou seja, se não se conseguirem provar os crimes imputados, seria sempre preferível que os media só o soubessem nessa altura e aí desvendassem os factos. Seria muito mais eficaz do que o contrário, seguindo a táctica ártica que o inenarrável invoca para atacar a "justiça".

O que  estes inenarráveis com rabos de palha até aos brincos não querem admitir é a existência de um sistema político corrupto que usa os serviços do Estado para amarfanhar adversários ou tidos como tais.E esta estratégia de ataque "à justiça" insere-se plenamente nesse esquema.

Destes inenarráveis é que os portugueses se deveriam livrar porque são os cancros do sistema e as peçonhas da democracia.

Quanto aos media é óbvio que tendo uma agenda própria que é a de vender papel para sobreviverem também podem atingir esse desiderato fazendo fretes a esse sistema político, denegando o jornalismo e aviltando a honra profissional. Como o i agora o faz.

Quanto vende o i?  5 mil exemplares? Dá para pagar ordenados a quem é freteiro? E então como é? Como é que se pagam as dívidas?






Os "pathos" da Justiça

A melhor resposta a isto:






É isto, na Sábado de hoje:


A tragédia do ensino nacional

 R.R.:


A esmagadora maioria dos professores (91%) considera que nos últimos anos diminuiu o prestígio da sua actividade e 85% entende que o Ministério da Educação não valoriza o trabalho que faz, revela um inquérito divulgado.

No trabalho "As Preocupações e as Motivações dos Professores Portugueses", desenvolvido pela Fundação Manuel Leão, 32,3% dos docentes define a sua relação com o exercício profissional como "exausta" e "desiludida".

Percentualmente, as professoras estão mais exaustas e desiludidas (35,9%) do que os professores (25,2%).

O inquérito, lançado em Maio, Junho e Julho, junto de 130 escolas ou agrupamentos, do pré-escolar ao ensino secundário, indica igualmente que para 84% dos professores a sociedade não valoriza o trabalho que faz.

Num universo de 2.910 respostas consideradas válidas,76% dos inquiridos considera que aumentou o controlo sobre o seu trabalho e 80% diz que perdeu, nos últimos anos, autonomia e poder de decisão.

Através de um questionário de resposta fechada, 87% afirma que diminuíram o tempo e as condições que os professores têm para reflectir sobre as suas práticas educativas.

Coordenado por Joaquim Azevedo, ex-secretário de Estado do Ensino e membro do Conselho Nacional de Educação, este estudo mostra que 31% dos professores não estão motivados para ensinar.

Quase todos os inquiridos (94,3%) consideram que aumentou a exigência da prestação pública de contas e 60% considera que os alunos agora "estão mais desmotivados".

O que causa mais insatisfação aos professores é a falta de reconhecimento profissional (57%), a indisciplina na sala de aula (52%) e a extensão dos programas (30%), de acordo com os resultados contidos no relatório.

O documento refere ainda que 74% dos professores se sentem insatisfeitos com os pais por "não se preocuparem com a educação dos filhos", enquanto 64% considera que a educação piorou em Portugal na última década.

Os resultados vão ser apresentados numa sessão pública a realizar na sexta-feira, em Vila Nova de Gaia, juntamente com os resultados do programa AVES (Avaliação Externa das Escolas) ao longo dos últimos 10 anos.

O objectivo do inquérito agora realizado foi conhecer o estado de espírito actual dos professores, as suas autorrepresentações, o que os satisfaz e os tem deixado mais insatisfeitos, como valorizam o seu trabalho e a percepção que têm do modo como a sociedade os valoriza no início de mais um ano lectivo.

O questionário foi aplicado em escolas públicas e privadas.

"Os professores do ensino particular têm uma relação positiva com o trabalho docente quase 15 pontos percentuais acima dos professores do ensino público e dizem-se também menos exaustos e desiludidos com a mesma diferença percentual", dizem os autores do estudo.

São os professores com mais de 10 anos de serviço que acusam maior cansaço e desilusão. "Sinto que devemos procurar ir um pouco mais fundo na análise destes resultados, que se repetem ao longo dos anos, evidenciando uma degradação crescente das condições em que se está a processar o exercício profissional dos professores", escreve Joaquim Azevedo no comentário final aos dados do inquérito.


Tirando as "autorrepresentações" esta notícia é a exposição de uma tragédia nacional, com um impacto tão grande quanto outra do mesmo género. Com a diferença que a esta não se dá grande importância.
Uma das pessoas com maior responsabilidade nesta tragédia é uma tal Maria de Lurdes que o CDS, lamentavelmente convidou para parlar numa "escola de quadros" , o que denota que esse partido não percebeu a natureza desta tragédia e quem foram os seus autores ( tinha escrito que fora o PSD a convidar o que é lapso...agora corrigido).
Sobre o CDS, Pacheco Pereira escreve hoje na Sábado que o CDS "é hoje  o partido dos grandes escritórios de advogados".
O Sérvulo, o J.M. Júdice, o Vitorininho, Rangel, Sá e Cunha das Quatrecasas, o Eduardo Paz Ferreira, "marido da ministra", os "Abreus", as Anas Brunos, o Aguiar-Branco, o Proença da Uría foi tudo para o CDS?!
Este Pacheco se não é palerma imita sempre muito bem...


quarta-feira, setembro 07, 2016

Champalimaud, o esquecido

O presidente da República condecorou António Champalimaud a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, durante a cerimónia de entrega dos Prémios Champalimaud de Visão 2016.

Entre algumas palavras a malhar no cravo e na ferradura o actual PR lá disse que Champalimaud merecia esta condecoração e a homenagem era justa e tardia ( " a democracia portuguesa nunca reconheceu devidamente a envergadura da sua decisão fundadora". O PR disse que "fez justiça em nome de Portugal."   Cavaco nunca arranjou tempo para tal...apesar de o ter
Grande justiça...


Champalimaud foi efectivamente um dos grandes deste país nos últimos 60 anos, para não dizer mais.

Para perceber tal coisa é preciso ler este livro:


E para entender porque razão ainda não lhe tinha sido feita qualquer justiça é preciso ler isto que se passou logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 com os gurus da esquerda que temos, particularmente a do BE:




A história que a Vida Mundial conta é de finais de 1974 e para se compreender melhor quem quiser pode ler aqui a sequência da mesma, em que Champalimaud argumenta com João Martins Pereira a propósito do capitalismo nacional e não só.
Também sobre o mesmo assunto se pode ler aqui. E aqui também.

Escusado será dizer que o BE não mudou uma vírgula do discurso enunciado por aquele JMP,   pelo que a homenagem de ontem foi um murro no estômago dessa esquerda utópica que ainda não desistiu de nos arruinar de vez.


A sombra de olrik continua presente...

D.N. de hoje, duas páginas sobre o livro de Fernando Lima, "Na Sombra da presidência".

Numa delas dá-se conta das manobras de bastidores dos "anos Sócrates" que são verdadeiramente perturbantes pelo que significam de maléfico e de perverso no regime democrático. Durante anos a fio tivemos no poder político alguém que seria ajudado por figuras na sombra e que vigiavam quem interessava vigiar.
Ainda hoje tais sombras permanecem como espectros de um activismo que não desapareceu e apenas mudou de referência. A actual proliferação de ofertas mais ou menos públicas de antigos " espiões" para serviços diversos pode ser o sinal mais preocupante.

O mais grave de tudo isso é que os serviços secretos actuais continuam com as chefias antigas que conhecem tudo isto e muito mais e por isso mesmo não se mudam ( et pour cause). Aparecem e desaparecem os escândalos e o senhor continua de pedra e cal como se fosse inamovível.  Que segredos guardará para tal? E quem lhe conhece os seus?

Parece que ninguém com poder político suficiente se importa com estas coisas que pervertem o regime democrático aproximando-o de outro tipo que aparentemente o mesmo denega.


Nota: para quem não saiba, o coronel olrik é uma personagem fictícia da banda desenhada franco-belga, criada por E.P. Jacobs na série Blake&Mortimer. É sempre o vilão das historietas.

terça-feira, setembro 06, 2016

A cultura que a esquerda ignora

Morreu Fernando Guedes, o editor da Verbo, em 1959 e que muito contribuiu para a formação cultural de várias gerações. Tanto bastaria para que os obituários fossem de rigor e reconhecessem na pessoa desaparecida uma das maiores figuras da cultura nacional.

Tal não sucedeu porque Fernando Guedes não era editor da Cotovia ou da &etc ou outra qualquer "fenda" parecida. Fernando Guedes era do tempo do fassismo e dava-se bem com o regime.

O Diabo publicou esta página na edição de hoje:

A editora Verbo notabilizou-se pela publicação de obras enciclopédicas nos anos sessenta e livros juvenis ( colecção Anita ou a Biblioteca da Juventude). Notabilizou-se ainda pelo maior sucesso editorial de sempre: a publicação dos livros RTP, agora retomada emedição apócrifa.
No final dos anos sessenta era este o catálogo:






Nessa altura ( 1969-1970) a Verbo destacava-se pela publicação da "enciclopédia luso-brasileira de cultura "que durou vários anos ( ia então no 9º volume dos vinte publicados) e que fazia concorrência à "grande enciclopédia portuguesa e brasileira", mais extensa ( 40 volumes mais dez) e já inteiramente publicada em 1960.

Fascinava-me olhar e poder folhear tais obras, nessa época e esta fotografia mostra tais enciclopédias que me fascinavam e que originalmente estavam noutra sala. Mas eram estes mesmos volumes.




A responsabilidade do director da TVI fica em águas de bacalhau?

Observador:

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) condenou, por unanimidade, a estação televisiva TVI pelo famoso rodapé que anunciava o fecho iminente do Banif, banco que viria a ser alvo de uma resolução alguns dias depois.





O mais provável, agora, é que este finório nem se dê por achado. Afinal, há alguém acima dele que terá maior responsabilidade...mas ainda menos se dará por achado.

"Coimbra, cidade do conhecimento"?!


Observador:

A seis dias de serem divulgadas as listas de colocação no ensino superior em Portugal, a consultora Quacquarelli Symonds (QS) divulgou o ranking universitário para o ano lectivo 2016/2017. A primeira universidade portuguesa surge no lugar 323: é a Universidade do Porto, sete lugares acima da Universidade de Lisboa. Na posição 366 aparece a Universidade Nova de Lisboa, fechando assim o pódio das universidades portuguesas. A universidade de Coimbra está entre no lugar 452, muito acima do último colocado: a Universidade Católica de Lisboa, algures depois da posição 701.
As universidades portuguesas baixaram no ranking em relação à análise feita para o ano lectivo passado, com excepção da Universidade de Lisboa, que subiu 151 lugares em relação ao ano passado. Mas também houve uma reviravolta no universo de instituições de ensino superior portuguesas em destaque: embora a Universidade do Porto continue a ser considerada a melhor universidade de Portugal, as universidades Nova e de Coimbra desceram no ranking português, enquanto a Universidade de Lisboa subiu entre as instituições do país. No guia da consultora QS também são destacados os politécnicos portugueses, “bem reputados” e com foco na preparação do estudo para um percurso profissional específico.

As três melhores universidades do mundo são norte-americanas: o Massachusetts Institute of Technology (MIT) foi colocada em primeiro lugar, seguida da Stanford University e da Harvard University. Há cinco bandeiras norte-americanas entre as dez melhores universidades do mundo. De resto, há quatro britânicas (a University de Cambridge em quarto lugar, a University of Oxford em sexto lugar, a University College London em sétimo lugar e a Imperial College London em novo lugar) e uma suíça: a Swiss Federal Institute of Technology, em oitavo lugar
.

Quem vem de Lisboa pela A1, ao chegar a Coimbra depara com um cartaz que anuncia a antiquíssima urbe como sendo a "cidade do conhecimento".

Talvez fosse altura de retirarem o cartaz... 

domingo, setembro 04, 2016

A memória lacrada da esquerda comunista e socialista

Morreu uma das "três Marias" e o assunto é aproveitado, como sempre, para denegrir o antigo regime de Salazar/Caetano. Até o presidente da República, sem qualquer pudor, embarca no embuste de sempre e que tem a chancela esquerdista de sempre.

O caso Três Marias começou com um livro editado em 1972, como aqui se conta de modo politicamente correcto.

Na época era assim:

Em 17 de Maio de 1972 o jornal A Capital no suplemento literário publicava excertos da obra ( sujeita a censura...).



Portanto, após essa publicação a obra suscitou a atenção das autoridades, alertadas pelas "forças vivas" de então e houve um processo crime segundo as leis penais da época, relativas à moral e bons costumes ( hoje também há e são piores, essas leis...).

O Diário de Lisboa de 2 de Julho 1973  publicava a notícia sobre o processo:


E no fim do ano, um certo Fernando Assis Pacheco fazia uma resenha do país literário, no República de 31.12.1973:



Em Maio de 1974 as "três Marias" foram absolvidas do crime imputado e a revista Flama ( da Renascença e Patriarcado Católico) dirigida já por pessoas de esquerda comunista e socialista escrevia ( Regina Louro) assim, sobre o assunto: fascismo e mais fascismo e tutti quanti a propósito da linguagem que implantaram a partir de então.


 Esta senhora Louro provavelmente nunca escreveu uma linha sobre um outro assunto da época infinitamente mais importante que o fait-divers das três Marias: Soljenitsine.

Em 21. 2.1974 , no Diário Popular, o crítico literário Manuel Poppe ( salvo o erro, pai do assessor do actual PR, Pedro Mexia- afinal é mesmo erro porque é filho de Bigotte Chorão, segundo se indica nos comentários)  escrevia assim sobre o caso da expulsão de Soljenitsine da União Soviética, assunto que por cá, depois de 25 de Abril de 1974 se tornou tabu:



A linguagem é claríssima: "regime totalitarista", por exemplo, referindo-se à União Soviética. Por cá, nos anos vindouros foram poucos os que ousaram escrever tal coisa a propósito da URSS. Só sabiam escrever fascismo, como a tal Regina Louro...enquanto defendiam com unhas dentes e até armas o regime soviético.

Portugal vive nessa contradição há 40 anos...com estas memórias lacradas que parece nem haver quem lhes quebre o lacre para ler o que está por dentro.

sexta-feira, setembro 02, 2016

Quem paga é sempre quem manda..




Observador:

É alemão e lidera as Finanças da economia europeia mais influente. Também é, segundo o Jornal de Negócios, a figura com mais poder na economia portuguesa.

A Geringonça tem este patrão à perna... e pode o Jerónimo, mai-lo Louçã, mai-lo Costa andarem a fazer de conta que mandam que no final de contas quem nos permite gastar o que gastamos é quem manda em nós.
Chipre já o descobriu há uns anos. A Grécia também e nós havemos de o descobrir e acabar com a fantasia da Geringonça.


Salazar sabia-o tão bem que não quis recorrer a um grande empréstimo, nos final dos anos vinte em que estávamos bem pior que agora, fruto das aventuras da Geringonça da época.

Esta realidade não encontra eco nos media nacionais mas devia.

A diferença está na retórica e na credulidade dos néscios...






 R.R.:


PS explica: “Há uma enorme diferença entre uma situação financeira complexa e uma falência”.

A diferença fundamental é a resultante da capacidade em aldrabar as pessoas que votam prometendo o impossível e esperando o improvável, sempre com um discurso optimista de quem está a gerir o pote. Quanto tudo corre mal, atiram-se as culpas para os adversários...
Foi sempre assim durante os últimos 40 anos. Desde a bancarrota de 1976, passado pela que surgiu quase dez anos depois, e da última em 2011 a culpa é sempre da conjuntura, o que é verdade, mas não se lembram de outros países que a tiveram igual e não entraram no mesmo barco.

quinta-feira, setembro 01, 2016

O GES/BES de Ricardo Salgado corrompeu José Sócrates?

A revista Sábado de hoje desencantou uma cópia do auto de interrogatório do arguido do processo Marquês, Hélder Bataglia.
O interrogatório ao mesmo decorreu em Luanda em 21.4.2016 e sobre os factos relacionados com José Sócrates como primeiro-ministro corrupto, Bataglia disse que não o corrompeu, directa ou indirectamente.

Queriam que dissesse o quê? Que sim, que o fez de propósito ou mandatado oficiosamente pelo GES/BES e o seu magnífico presidente Ricardo Salgado? Queriam que admitisse comparticipação num crime de corrupção e de caminho incriminasse o Salgado do GES? Só um ingénuo poderia crer nisso, mas os interrogatórios a suspeitos são obrigatórios em processo penal e foi essa tramitação formal que se cumpriu. Nada mais. 

Bataglia só diria a verdade sem espinhas, eventualmente e se fosse bem apertado,  se tivesse uma garantia de protecção,  como uma "delação premiada".  Até lá...ficamos a ver navios.


Como ninguém do poder político com capacidade e poder está interessado em alterar a legislação penal para tal permitir, estamos servidos.
Só um fortíssimo movimento de opinião pública seria capaz de alterar tal estado de coisas e o Correio da Manhão não chega para abafar os abafadores do JN e DN e demais televisões públicas e privadas, manipulados precisamente por aqueles que tal não pretendem.

É este o estado da arte nestas matérias e espera-se que o MºPº tenha coragem de chamar os boys pelos nomes e deduzir a acusação que se impõe, mesmo com indícios e provas indirectas.



quarta-feira, agosto 31, 2016

E agora, Luís? É melhor assim?

Luís Campos e Cunha foi ministro das Finanças de José Sócrates durante alguns meses. Demitiu-se por razões que são públicas e agora poderão ser melhor avaliadas.

Público de 21.7.2005:

As dúvidas do ex-ministro das Finanças sobre os investimentos públicos levaram Sócrates a decidir-se pelo seu afastamento. O artigo escrito no PÚBLICO do passado domingo foi considerado um acto de falta de solidariedade com o resto do Governo, ao pôr em causa projectos como a Ota e o TGV. Teixeira dos Santos é o novo ministro de Estado e das Finanças. O artigo escrito no PÚBLICO no passado domingo está na origem do afastamento de Luís Campos e Cunha do Governo. As dúvidas do ex-ministro sobre projectos como a Ota e o TGV, aliás repetidas na terça-feira no Parlamento, levaram José Sócrates a decidir-se a suster as divisões no Executivo, provocando o pedido de demissão de Campos e Cunha.
RTP, em 21.7.2005:
(...)
 Os partidos da oposição reagiram sem grande surpresa, face às recentes polémicas em que o titular da pasta das Finanças se envolveu, nomeadamente o artigo de opinião, publicado domingo no Público, em que sustentou que o crescimento económico depende da qualidade e não da quantidade de investimento público, dando como exemplo o caso da Suécia.

E após José Sócrates ter garantido a construção do aeroporto da Ota e das linhas de comboio de alta velocidade (TGV) Lisboa/Madrid e Lisboa/Porto/Vigo, Luís Campos e Cunha sustentou, terça-feira, no Parlamento, que se tratava de projectos ainda em avaliação.

Campos e Cunha foi um ministro controverso, mesmo antes de tomar posse, em Março, ao admitir uma subida de impostos, contrariando o discurso da campanha do líder do PS, José Sócrates
.

 Luís Campos e Cunha é dos poucos socialistas que podem e devem ser ouvidos a propósito de assuntos económicos relacionados com a política geral do país.

Numa entrevista à revista trimestral Risco ( Agosto -Outubro 2016) diz assim:






Se a opinião de Campos e Cunha tivesse sido respeitada em 2005 nunca teríamos a bancarrota de 2011, apesar das crises económicas internacionais que agora servem de alibi a quem não sabe mais o que justificar.

E nunca teríamos uma "operação Marquês", com os contornos conhecidos...o que permite concluir que a opinião de uma pessoa, se seguida , pode fazer toda a diferença num país a sério.

segunda-feira, agosto 29, 2016

A desincultura agrícola é outra desgraça...

Um(a) jornalista do Observador encontrou um título para designar o que se passa entre o primeiro-ministro António Costa e o anterior PM, Passos Coelho: "sol na eira de Costa. Chuva no nabal de Passos".

Quem ler o parágrafo seguinte tropeça nesta prosa:

"A meteorologia económica do Governo e da oposição não coincide. Pedro Passos Coelho e António Costa — um ex-primeiro-ministro, o outro primeiro-ministro em funções –, têm marcado o discurso político das últimas semanas como se vivessem em universos paralelos. Para o primeiro, vivemos debaixo de uma atmosfera que adivinha tempestade. Para o segundo, o sol brilha apesar das nuvens ameaçadoras. O Observador olhou para os números e falou com economistas: o clima não está assim tão bom, mas também não se espera que venha a ficar assim tão mau. Não há grande sol na eira, mas também não troveja no nabal."

O ditado antigo que menciona o sol na eira e chuva no nabal  não tem aquele significado, mas um outro mais interessante: refere-se aos que querem tudo de agradável ao mesmo tempo, mesmo contrariando as leis da natureza.
Para quem entende esse ditado, o desejo de sol na eira e chuva no nabal é o máximo que se pode desejar porque concita a maior utilidade possível na agricultura.

No jornalismo, pelos vistos, é doutra maneira: a chuva é sempre um mal e o sol o bem supremo...

A geringonça da informação é uma desgraça nacional

Passos Coelho, agora na Oposição ao Governo, disse ontem publicamente e com destaque noticioso em tv´s coisas simples e que todos entendem. Duas delas merecem ser mencionadas em primeira página por qualquer jornal que tivesse do jornalismo a noção que deveria ter: informar com isenção o que se revela útil para o conhecimento da nossa realidade.

Uma afirmação de Passos referia a descida no investimento público realizado por este Governo em comparação com o anterior, contrariando até propósitos declarados de keynesianismo inflamado.

Só um jornal de hoje refere tal facto na primeira página: o i.

Outra afirmação tem carácter ideológico e politicamente é um apanhado que nenhum jornal deveria ter deixado escapar porque revela uma clivagem político-ideológica capaz de suscitar uma discussão acerca da natureza da geringonça governamental: "Quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas?"

Nenhum jornal nacional de relevo se dignou mencionar em primeira página tal questão.

No entanto essa é uma das questões magnas na sociedade portuguesa actual, perceber a natureza do regime que temos, das contradições ideológicas que o atravessam e no final de contas compreender porque se chama geringonça a uma organização de governo com apoio parlamentar de partidos que não comungam ideologicamente dos mesmos propósitos e se encontram em campos opostos no modo de entender a sociedade e a política. A democracia não poderá funcionar sem problemas de maior se existir no seu seio quem queira acabar com a mesma, tal como é entendida na Europa ocidental.
O PCP, apesar dos aggiornamentos de décadas continua o mesmo de sempre e que levou Álvaro Cunhal a garantir a uma jornalista italiana do L´Europeo ( Oriana Fallacci) que Portugal jamais teria uma regime parlamentar semelhante ao da Europa ocidental. O PCP não mudou uma vírgula nesse entendimento ideológico de fundo; apenas de táctica, por muito que o deneguem, como aliás fizeram mentindo sobre aquele propósito declarado.

O BE, como se extrai das declarações avulsas dos seus líderes é um partido revolucionário, trotskista que se vai adaptando ás condições objectivas que encontra, oposto em muitas coisas ao PCP mas similar no desiderato: o socialismo não democrático.
Tanto o PCP como o BE são partidos de esquerda marxista com ideias muito afastadas das dos demais do espectro político no que se refere à organização económica da sociedade.

Esses factos e realidade são escamoteados continuamente por uma informação enfeudada ideologicamente a uma esquerda mítica, sempre a mesma, que tem apenas uma ideia base: a oposição ao capitalismo tal como se conhece. Agora chamam-lhe mercados, neo-liberalismo e outros epítetos, mas fundamentalmente é sempre a velha luta de classes que está impregnada no espírito de quem escreve e dirige os jornais. O PCP e o BE são os aliados naturais nessa luta de sempre porque uma boa parte dos jornalistas, os desta e os da geração anterior, estiveram sempre próximos dessa ideologia.

O que Passos Coelho disse- ninguém que tenha dinheiro para investir vai enterrá-lo num país que não protege ou garante o rendimento desse dinheiro- é uma afirmação de um senso comum que não se encontra nos jornais e tal fenómeno, só por si, merece estudo e reflexão.

Nos últimos 40 anos o discurso da esquerda marxista e mesmo daquela que meteu o marxismo na gaveta não suscita confiança nos investidores. O capitalismo desertou de Portugal em 1974 e nunca mais se recompôs tal como existia, apesar de essa esquerda marxista estar sempre a dizer o contrário.

As grandes empresas estrangeiras, os "monopólios", no dizer pitoresco dos marxistas do PCP e quejandos, não querem nada connosco porque conhecem muito bem o ambiente de prec permanente que existe neste Portugal de geringonça ideológica.

Os capitalistas endinheirados que surgiram em Portugal desde há 40 anos ganharam o dinheiro a vender mercearias e pouco mais. A indústria que existia e desapareceu nos anos 80 fruto da gestão inacreditável da esquerda não marxista, não voltou a aparecer do mesmo modo.
Os sectores que em Portugal exportam sabem pouco a português antigo e nenhum deles é capitaneado por qualquer capitão de indústria ou núcleo familiar que dantes existia.
As maiores exportadoras resultam de recomposições de antigas empresas que eram privadas em 1974, foram nacionalizadas em 1975 e resultaram em geringonças sem alma nacional, incluindo a TAP ou a GALP. As estrangeiras que vieram para cá estão no sector automóvel e similar e as construtoras civis de maior vulto são fruto do regime de proteccionismo prático e eventualmente corrupto através de verbas comunitárias para as autoestradas do futuro comprometido em PPP´s.

 Nas vinte maiores empresas nacionais ( entre 10 mil milhões de euros e mil milhões de euros de facturação, o que é um retrato da nossa pobreza) as de energia e comunicações levam a parte de leão. Os merceeiros levam o resto que  nem é muito, relativamente.

 Quem produz artefactos para vestir e calçar mantém uma economia florescente no Norte do país, tendo sobrevivido miraculosamente aos precs. Quem produz na agricultura, idem. Mas são uma ínfime parte do que somos economicamente e uma sombra pálida do que poderíamos ser.

Não há muito tempo tínhamos cerca de 11 das 100 maiores empresas europeias a operar em Portugal. Em 2009, no tempo de um Inenarrável PM tínhamos 3 das maiores empresas de construção civil europeia e percebe-se bem porquê...

As vinte maiores empresas europeias nada têm a ver connosco e estão concentradas na área dos serviços e da construção automóvel.

A empresa suíça Novartis, do sector farmacêutico tinha há cerca de dez anos uma facturação que era quase o triplo na nossa maior empresa ( Petrogal).
A Volkswagen por exemplo e porque temos por cá uma espécie de entreposto deles, tem uma facturação anual de mais de 250 mil milhões de euros.

Em Portugal, há poucos anos, as 1000 maiores empresas facturavam nem sequer 150 mil milhões de euros, em conjunto...

Com estas realidade como é que se compreende que os jornais e os jornalistas nacionais dêem o destaque e a importância que efectivamente dão ao PCP e ao BE e ao mentor da actual geringonça que não sabe bem onde está e para onde vai?

Como é isto possível e principalmente durar ininterruptamente há mais de 40 anos, sem grande alternativa?





domingo, agosto 28, 2016

Delírio paroxístico


Sapo24:


Catarina Martins: “O país sabe que o BE é uma garantia de estabilidade”

O padreca laico falou e disse...tirou o chapéu e foi-se.

Louçã, o novo guru da esquerda que não alinha pelo PCP, disse coisas sobre a União Europeia. Essencialmente diz que é um projecto falhado:

Francisco Louçã considera que "a União Europeia é um projecto falhado" porque "representa o contrário do que prometeu", com o único argumento do poder de que é "preferível ser temido do que ser amado".

De facto é um projecto cuja falha maior é não conceder carta de alforria a projectos deste género já por aqui mencionados há tempos:

Diz assim Louçã, sobre a essência ideológica do BE, depois da pergunta "Em que é que o BE acredita?":
"Numa esquerda socialista. (...) Para nós o socialismo é a rejeição de um modelo assente na desigualdade social e na exploração, e é ao mesmo tempo uma rejeição do que foi o modelo da União Soviética ou é o modelo da China. Não podemos aceitar que um projecto socialista seja menos democrático que a "democracia burguesa" ou rejeite o sistema pluripartidário. Não pode haver socialismo com um partido político único, não pode haver socialismo com uma polícia política, não pode haver socialismo com censura. O que se passa na China, desse ponto de vista, é assustador para a esquerda. (...) Agora, a "esquerda socialista" refere-se mais à história da confrontação, ou de alternativa ao capitalismo existente. Por isso o socialismo é, para nós, uma contra-afirmação de um projecto distinto. Mas, nesse sentido, só pode ser uma estrutura democrática."


O que dizia Louçã em 2005 a este propósito? Isto:
"O BE é um movimento socialista ( diferenciado da noção social-democrata, entenda-se-nota minha) e desse ponto de vista pretende uma revolução profunda na sociedade portuguesa. O socialismo é uma crítica profunda que pretende substituir o capitalismo por uma forma de democracia social. A diferença é que o socialismo foi visto, por causa da experiência soviética, como a estatização de todas as relações sociais. E isso é inaceitável. Uma é que os meios de produção fundamentais e de regulação da vida económica sejam democratizados ( atenção que o termo não tem equivalente semântico no ocidente e significa colectivização-nota minha) em igualdade de oportunidade pelas pessoas. Outra é que a arte, a cultura e as escolhas de vida possam ser impostas por um Estado ( é esta a denúncia mais grave contra as posições ideológicas do PCP). (...) É preciso partir muita pedra e em Portugal é difícil. Custa mas temos de o fazer com convicção."

Não admira nada que a UE seja um projecto falhado. Enquanto não se aproximar desse magnífico projecto de realismo fantástico que é o de Louçã, será sempre falhado. 
Ainda há quem dê ouvidos a este maluco? Que esperam para lhe cortar a colecta quase diária de microfones que lhe põem para ouvir estas baboseiras e outras ainda piores?

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso