Páginas

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O Portugal pobre e pequeno, em continuação

Em entrevista ao SOL, Narciso Miranda, candidato independente à Câmara de Matosinhos, diz que é «muito novo para calçar pantufas» e sair da política. E considera que «a forma como este Governo do PS actuou foi desastrosa»

Um confronto entre facções locais do PS nas europeias de 2004, que terminou com a morte por paragem cardíaca de António Sousa Franco, o cabeça-de-lista, levou ao seu afastamento da vida política e da presidência da Câmara de Matosinhos. Narciso Miranda recandidata-se agora contra o PS, que já o ameaçou com a expulsão. E, apesar de socialista «de alma e coração» não poupa o partido, o Governo e José Sócrates.

O que motiva a sua recandidatura à Câmara de Matosinhos?
Saí em 2005 com a convicção de que o projecto ia continuar e, eventualmente, ser aprofundado. Ora, nada disso aconteceu nos quatro anos seguintes e os resultados foram desastrosos. Outra razão, e porventura a mais importante: senti um apelo de militantes do PS do concelho, um apelo de uma franja muito significativa do eleitorado socialista de Matosinhos e um apelo genérico dos matosinhenses.

O que fez nos últimos quatro anos?
Cidadania. Não parei. Esse talvez tenha sido o erro grave do aparelho do PS, ter pensado que eu ia calçar as pantufas. Pensavam que era fácil anestesiar-me. Mas sou demasiadamente irreverente e irrequieto. E muito novo para calçar pantufas.


Narciso Miranda quer voltar à política de ribalta, depois das vicissitudes de um processo complexo, por corrupção, arquivado há poucos anos, por insuficiência de provas. Anos e anos de investigação deram em nada, quase. O Independente de então publicou parte substancial do despacho de arquivamento que parece exemplar do que funciona mal na investigação criminal em Portugal.

Narciso Miranda enriqueceu pessoalmente, durante o exercício funcional, na política autárquica. Muito, porque pouco ou nada tinha de seu, antes da política autárquica.

Enriqueceu nesse exercício, tal como outros, mormente Mesquita Machado, de Braga. Ou o autarca de Vila do Conde. Ou. Ou. Todos contrariaram o parecer e opinião abalizada do falecido César de Oliveira que depois de alguns anos como presidente de autarquia ( Oliveira do Hospital) disse publicamente que empobreceu e que só podia ter empobrecido.

Estes conseguiram o milagre da multiplicação, mas ainda não explicaram bem como o fizeram. As pessoas e eleitores em geral, aceitam essa esperteza como sinal de capacidade política.

Narciso Miranda não saiu da política activa, por causa disso. Não. Sobre isso, o PS diz nada aos costumes. Saiu por causa de um conflito partidário na altura de umas eleições europeias. em 2004, em que se viu envolvido António Sousa Franco e que morreu nessa altura. A improvável responsabilidade política pela morte de Sousa Franco foi inteiramente imputada a Narciso Miranda que assim foi afastado do convívio político-partidario do PS em sede eleitoral.

Só isso afastou Narciso Miranda da política do PS.

Agora quer voltar. Diz que é "muito novo para calçar pantufas". Pois sim.

Mais um retrato típico de um Portugal pobre e pequeno.

13 comentários:

MARIA disse...

"Muito novo para calçar pantufas"...
Bem, calce botas de trabalho e vá fazer qualquer coisa útil. Só para variar, vá trabalhar, desta vez...
Agora,a morte de Sousa Franco apenas a ele pertence, parece-me.
Só mesmo o PS para atribuir a uma pessoa o dom de dar ou tirar a vida de alguém, mesmo que seja uma vida política, esquecendo o principal interveniente nos factos...
Eu gostava de Sousa Franco, mas tinha pouco de PS e quiça de político.

Telmo Cunha disse...

Dizer que o falecimento de Sousa Franco é culpa de Narciso Miranda é de puro mau gosto, para além de completamente falso. Julgo que, antes de se "atirar ao ar" algumas teorias, devemo-nos concentrar em apurar os factos.
Quanto ao potencial "enriquecimento" de alguns (ex) autarcas, não sei se haverá provas assim tão concretas para que tal julgamento se possa fazer. Para além disso, julgo que o eleitor geral está mais preocupado com o Desenvolvimento do espaço onde vive. No caso de Matosinhos, é isso que acontece: Narciso Miranda desenvolveu e tenciona desenvolver Matosinhos. E isso sim, é um facto!

Telmo Cunha disse...

PS: Então e... Manuel Seabra?

Abraço,
Telmo Cunha

josé disse...

Não digo nem escrevi que a morte de Sousa Franco é imputável a Narciso.

Escrevi que o PS imputou politicamente a responsabilidade desse acontecimento a Narciso Miranda.

Desmente?

Os casos avulsos que nomeei ( Narciso, Mesquita Machado e outros que não nomeei para poderia fazê-lo sem incorrer em difamação) são públicos e foram glosados nos media. Quanto a Narciso basta ler o despacho de arquivamento do processo de Matosinhos e já agora, quem o escrever...quanto a Mesquita Machado idem, com consulta a várias edições do Correio da Manhã que guardei para mais tarde recordar. Não consta que o visado processase o jornal por factos que foram tornados públicos.

Em relação a outros, não é preciso fazer de anjinho e acreditar na presunção de inocência de quem não foi julgado. Presume-se inocente da prática de factos típicos, ilícitos e culposos mas não se pode presumir inocente em terem conseguido amealhar fortuna impensável num autarca que se limita a ganhar o vencimento enquanto tal.

É só isso.

Wegie disse...

Toma lá Telmo que já almoçaste.

Telmo Cunha disse...

Por acaso, já. :)

O texto foi colocado neste blogue por vontade do seu "dono" e não do PS. No texto, fala-se nos temas que referi, mesmo quando atribuindo as responsabilidades das suas frases ao PS (não digo que seja mentira, nem o tinha dito antes). Posso, por isso, comentar as opções e afirmações colocadas no mesmo.
Quanto ao resto, não desdiz nem contrapõe o que afirmei. E isso, parece-me o mais importante!

Abraço,
Telmo Cunha

Wegie disse...

talvez o Telmo tenha alguma coisa a acrescentar ao papel que o Narciso teve no caso Eurominas enquanto membro do Governo...

Telmo Cunha disse...

Wegie, todos temos telhados de vidro. Por acaso, não tenho nada a acrescentar em relação a esse papel. O (a) senhor(a) tem? Provas concretas? Vá a tribunal! :)

Carlos Alberto disse...

Tão simples!...

Só para recordar as sábias palavras do Ex-Bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Pires de Lima, num programa com a Srª Jornalista Ana Lourenço e sobre o enriquecimento "duvidoso"(adj. meu): "...simples. Basta dizer -ganhei tanto de ordenados, obtive x rendimentos por estes negócios e tenho um débito por créditos conseguidos de Y, com este movimento consegui adquirir o meu património avaliado em..."

Cumprimentos,

C.S.

Prof. Coisasdocaneco disse...

o autarca recuado de matosinhos teve de pagar meio milhão de contos à ex-mulher na partilha que se seguiu ao divórcio. não há dúvida que aprendeu bem a profissão de electricista na EFACEC tal a voltagem que produziu e nem um choquezinho apanhou

All Iveira disse...

De que é que gostou em Sousa Franco, Maria?
Seria uma estimável pessoa, mas foi muito fraco no PSD;
Achou que valia mais do que lhe atribuíam e saiu do PSD à procura de um lugarzinho melhor, do outro lado da barricada;
Apesar de fraco no PS, outro fraco pô-lo a ministro;
Teria sido o pior ministro das finanças de sempre, não fosse o imbatível Pina Moura ter-lhe tirado o lugar.
Estarei a ser injusto?

José disse...

Os brasileiros herdaram - e desenvolveram - a nossa sabedoria popular.

Ao ler esta entrevista só me lembro daquele candidato brasileiro, reconhecidamente corrupto, que dizia: "O povo deve votar em mim porque, sabem que eu roubo, mas... TAMBÉM TRABALHO E FAÇO OBRA!"

Confesso que estava à espera que o Isaltino Morais (só me refiro a ele pela actualidade do caso!) dissesse alguma coisa parecida com isto, em sua defesa!

Um abraço!

GPS

josé disse...

O que o Isaltino disse e já repetiu em entrevistas é que se integra como português de gema que foge aos impostos do modo mais típico, como seja o de omitir rendimentos, aldrabar declarações de IRS e aceitar prendas pelo exercício de funções públicas e que não lhe seriam devidas, se não fosse autarca.

Isto, para ele, não constitui qualquer crime. É assim a modos que uma mera bagatela de costumes caseiros e correntes.

Isaltino não se apresenta como modelo de virtudes morais e a lei com o seu rigor, não lhe é aplicável, porque como bom português, sabe que a lei é uma coisa moldável e contornável.

O contraponto exacto de Isaltino é Fátima Felgueiras, com uma nuance: esta desmente sempre tudo, mesmo a evidência.

É da escola corrente de políticos de ocasião.