segunda-feira, 24 de junho de 2019

Um retrato implacável de Miguel Esteves Cardoso

O Público de ontem mostrou uma entrevista a Miguel Esteves Cardoso, pela antiga directora do jornal, Bárbara Reis.
Fica aqui a parte mais interessante da entrevista em que MEC se auto-retrata como um pequeno génio para cá dos  cárpatos. Sem necessidade aparente, diga-se. Porém, haverá leitores novos que não sabem quem é MEC e principalmente como foi e começou a tornar-se personagem mediática e compreende-se uma vontade em mostrar um balanço de vida para além das croniquetas de jornal.   Percebo, porque MEC é apenas um ano mais velho que eu...


A minha geração que fez vinte anos logo a seguir a 25.4.74 não tinha grande possibilidades em se cosmopolizar como MEC aparentemente teve. Ainda não havia turismo de massas, erasmus a eito, internet para ligar a qualquer sítio.
O modo mais usual, barato e fácil era ler e ouvir. Ver, mesmo virtualmente era mais difícil porque nem a tv ou o cinema eram suficientes para tal.

MEC privilegiou-se porque era muito bom aluno ( "muito inteligente", segundo se afirma), provinha de família estrangeira pela parte da mãe e viajada, pela parte do pai. No entanto, nunca viajou pelo mundo rural, português ou outro e sempre me pareceu demasiado urbano, adquirindo saber por via infusa de leituras profusas.

Alimentado na infância em língua e cultura inglesas, chegou tarde a Portugal e é por isso filho bastardo dessa genuinidade pátria dos que tiveram berço somente lusitano.
Ao contrário do que o próprio pode pensar isso não lhe trouxe qualquer vantagem e impede-o de conhecer a raiz secular de um povo na sua genuinidade genética. É por isso que gostava tanto da Amália, segundo julgo. E não poderia compreender o trio Odemira, o Conjunto Pais e Filhos ou o da Maria Albertina.
Deixem que eu diga: MEC é um estrangeirado de sempre que não sabe o que é tirar leite às vacas num estábulo interior por baixo de uma casa de habitação, lavar as mãos na pia, vestir roupa nova e ir à missa ao domingo, logo pela manhã.  E se sabe é por leitura avulsa. Mas faltar-lhe-á sempre uma coisa essencial: o cheiro,  que não se traduz em letras de imprensa.

Temos por isso o MEC a dizer que sempre se achou "extremamente inteligente, com grande sentido de humor e a escrever muito bem". Nesta trilogia supina de excelência qualificativa só lhe falta um preparo: ter a inteligência suficiente para dispensar a modéstia necessária.
Assim, resta dizer que fica a idiotice do elogio auto-complacente. O vitupério, claro. E em que bases  assenta? Num vinte no doutoramento em tretas, em Manchester e na excelência articulada nos estudos liceais. Portanto, uma muito boa capacidade de absorção de ideias, teorias e conceitos acompanhada na facilidade acrescida da escrita expositiva dos mesmos. Chega para definir a excelência inteligente? Duvido. A inteligência é uma armadilha fodida. E talvez seja preferível dizer: inteligências há muitas, seu palerma!
De resto não se conhece o resultado desse esforço inteligente nem sequer de que trata a tese que lhe deu o vinte. Modificou algo no mundo, mesmo no pequeno mundo universitário? Ou está arrumada no canto das teses esquecidas, onde jazem as inutilidades?

Bem, atalhando para o mais importante:

Conheci a escrita de MEC logo nos início dos anos oitenta. Comecei a ler no O Jornal de 1980 certas crónicas de música estrangeira, quase exclusivamente britânica, assinadas por um nome que não conhecia- Miguel Esteves Cardoso, um conjunto de nome e apelidos que fazia "zing" por se referir a mec, alguns anos antes identificado como o ministério da educação e ciência.
Não obstante, tal como refere o entrevistado, os primeiros escritos são anteriores e do tempo do PREC. Só assim se justifica que um puto de vinte anos escreva estas barbaridades tomadas de empréstimo a ideias alheias e a inteligência não lhe fosse suficiente para entender o logro inerente.
Ainda por cima a crónica intitulava-se apenas  "retrato da pequena burguesia" para mencionar os Brandos Costumes, título do filme que era cronicado e sem qualquer menção a "implacável",  cuja designação apócrifa é agora atribuída pelo autor.  Não se entende a falha de memória...e a crónica nada tem de implacável, apenas reflecte uma pequena colecção de ideias feitas vindas de algures.

 Isto é tirado de um jornal -O Jornal, 5.9.1975- cujo número trazia 27 referências, contadas a preceito, ao "fascismo". Não admira que não haja inteligência para tanta indigência.


Também não se percebe como uma inteligência fulgurante e precoce não soube desde logo perceber que o marxismo e o esquerdismo e o antifassismo e outros ismos de esquerda padeciam de um lismo intolerável.

E pelos vistos a tal inteligência ainda não despertou para  essa essência das coisas, essa causa das coisas, mas ainda está a tempo desse desabrochar. Mais uns anos de leituras e- quem sabe?- talvez ainda o leiamos a dizer que se enganou, tal como o Sartre do fim.

Ao longo dos anos das décadas de oitenta e noventa, entrando já pelas de dois mil, coleccionei, recortei e guardei crónicas avulsas de MEC. Tenho-as num portfolio. De todas, destaco, sei lá, meia dúzia delas. Se tanto.
Essencialmente são crónicas humorísticas sobre assuntos musicais e um ou outro gastronómico ( particularmente uma sobre as "andouillettes", prato francês de  sabor inenarrável que MEC tenta explicar...) .

A primeira crónica recortada é de 30.4.1980, no O Jornal e lida com a música em dois tons, a preto e branco, sacolejada pelo ritmo rápido e sincopado e que na época também me agradava ouvir.


Em 23.10.1981 sai outra sobre os Joy Division, já depois de serem conhecidos.


A escrita arreveza um pouco em trocadalhos do carilho e era de facto algo inovadora no panorama nacional da escrita de imprensa da época.
Talvez o Assis Pacheco escrevesse coisas assim, sobre outras temáticas, embora menos rebarbativo na prosa.

Desde então habituei-me a ler as crónicas de Miguel Esteves Cardoso sem fazer a mínima ideia de quem fosse porque não havia informação. Muito tempo depois, já em 1981 ou 82 um amigo meu descobriu que era um "puto" como nós, com fama de pequeno génio por causa da tal "inteligência".  Enfim, por mim apreciava o modo de escrever descontraído e de palavras escolhidas e novas, com neologismos se necessários.

Quanto à temática,  era supérflua. As músicas, os discos e as referências culturais inglesas, pop, já as tinha visto antes, por vezes meses antes, nas revistas de especialidade. E já havia programas de rádio que as passavam, como aliás o autor se dava conta numa dessas crónicas:
Em 1979, um ano antes, já lera sobre a aventura de moda musical dos dois tons e sobre a "descoberta" dos Joy Division já era pólvora seca. O que me interessava era a genuína habilidade musical que descobria em outros artistas. Não era por aí que lia as crónicas de MEC, por causa disto: tudo o que lá vinha já tinha sido tratado antes, no original.


Em 26 de Junho de 1980 e depois em 29 de Agosto de 1980 já estava conquistado para as crónicas habituais e deparei com estas que me provocaram riso e fixaram definitivamente a atenção no cronista que aliás só muito raramente repetiu esta façanha:


Uma das crónicas versava os programas de rádio da época, sobre o rock/pop.


E uma das fontes de informação privilegiada que também se recebia por cá, embora destinada a um número irrisório de leitores. Daí a relativa utilidade das crónicas para quem não lesse as fontes de informação original.


Sete 29.4.1981, onde MEC também escrevias as crónicas em forma de "bolas para o pinhal".


Ao ler isto de 14.8.1981, até parecia que o rock português nem futuro tinha...porque só havia dois grupos. E um deles nem era sequer o Xutos&Pontapés...



Portanto, como cronista de músicas, MEC deixava muito a desejar, embora fosse já famoso quando a editora A regra do jogo publicou em meados da década de oitenta uma segunda edição do livro Pop Music/Rock de dois franceses, editado por cá em 1974 e original de 1972.



 Nesta edição, MEC foi solicitado para um posfácio alargado a cerca de 300 páginas, quase metade do livro.
Nesse posfácio, MEC faz um compêndio de toda a discografia da música popular conhecida até então, relativo à década de setenta.
A informação é tanta e tão detalhada que só com auxílio de obras de referência ( por exemplo a enciclopédia da Virgin...) seria possível realizar tal tarefa. Porém, nem uma indicação bibliográfica é fornecida, ficando a pairar a ideia que foi tudo obra do autor...

Para este efeito, MEC deveria ter uma discoteca em vinil da ordem dos milhares de exemplares, sendo certo que alguns teriam que ser de importação americana, o que se revela difícil de aceitar. Permito-me duvidar que MEC tenha sequer uma fracção de tais discos recenseados como tendo sido escutados em vinil e não, por exemplo, nos programas de um John Peel.
A informação inicial nada diz:


 Não obstante, numa época em que ainda não existiam as compilações de artigos acerca de balanços das décadas, dos artistas e discos, coisa que só viria a surgir nas décadas de  90 e 2000, em modo corrente e publicação extra de revistas de especialidade ( Mojo, Uncut, Record Collector, etc) aquele compêndio tornou-se um excelente guia para tal finalidade.

Este compêndioé de 1982, mas teve edições desde 1976, da responsabilidade do NME.


No final da década de oitenta, MEC dirigiu o Independente, com Paulo Portas ( de quem ainda há pouco disse que um dia "havia de mandar nesta merda") e depois também foi fundador da revista K, cujo conteúdo nunca fui capaz de ler, tirando um ou outro artigo ( o de VPV sobre Marcelle Caetano, por exemplo) por causa da organização gráfica e dos assuntos sem interesse, para mim. Mas coleccionei o produto.
No Independente havia uma página inteira sobre As  minhas aventuras na república portuguesa que li de vez em quando e guardei os recortes.
Um deles, de 5 de Agosto de 1988 trata do mesmo assunto desta entrevista agora ao Público, a Aventura de escrever. Lendo, continua a não despertar grande atenção, apesar do apelo do autor. Não é verdadeiro escritor quem quer...mesmo com muito esforço.


Em 2002 MEC fez uma coisa notável: ainda num tempo de Internet primordial criou um sítio onde quem quisesse e se inscrevesse poderia trocar impressões e ideias, sob os auspícios de um mestre da obra e senhor do lugar: Pastilhas.

  Toda a imagética se referia a funcionalidades oferecidas numa farmácia antiga, com atendimento de urgência e tudo. Era um sonho de lugar virtual para quem se habituara a seguir o MEC nos seus escritos ao longo dos anos e lhe reconhecia o valor de ter começado a escrever de modo diferente do que era hábito, nos jornais.

Naturalmente tornei-me um dos  frequentadores mais assíduos, com nome homónimo ao jornalista do actual observador, jmf. Gostava porém de assinar os comentários a pequenas crónicas e vinhetas de outros intervenientes, como a Zazie ou um certo Vodka7 ( Rui Pelejão, esse também um portento na escrita) ou mesmo um Macguffin que era um gestor de contabilidades do lado de Évora ( por onde andará?) ou ainda um biólogo que andava por Nova Iorque e escrevia em modo automático como ninguém que conheço e assinava John Difool, personagem da bd de Moebius.

O Pastilhas durou o tempo que o mestre MEC quis. Pouco tempo. Um dia deixou simplesmente de aparecer e a geringonça ficou entregue aos frequentadores. Senti-me algo traído, porque as expectativas eram sempre elevadas, tal como as discussões acerca dos assuntos e criou-se ali uma pequena comunidade entregue desse modo a uma orfandade precoce.
Vim depois a saber que mestre MEC tinha pura e simplesmente abandonado a sua criação e fora acolher-se em lugares remotos de foruns alheios e mais específicos, sem dizer água vai. Desprezou os aduladores, admiradores e frequentadores do sítio que criara e onde prometera futuro mediático em continuação. Chegou a falar em "letters"  nunca enviadas e porventura nunca escritas ou pensadas.
A experiência chegou para conhecer o mestre que me pareceu então um simples garoto, embora com a minha idade e irresponsável. A inteligência não foi suficiente para perceber que tais coisas não se fazem assim.

A partir daí apareceram outros lugares e outro tempo surgiu. MEC, para mim, nunca mais foi o mesmo mas a ilusão não lhe é imputável. Ficou uma belíssima experiência que ainda hoje perdura como positiva e isso é-lhe creditável.

Em Janeiro de 2009 MEC começou  a escrever no Público, pequenas crónicas e artigos de página sobre assuntos gastronómicos. Destes leio regularmente e com gosto. Daquelas gasto pouco e algumas vezes só as primeiras linhas.

Como exemplo de escrita igual à dos primeiros artigos sobre música em 1980, fica esta crónica de 2010, no suplemento do Público de 13. 11. 2010:


E assim, recentemente, dos últimos dez anos não me lembro de mais nenhum. E daí lembro: de um em que disse que o Sócrares era fixe ou coisa que o valha. Enfim. Desnecessário e revelador de inteligência parca.  É pena mas é o que é: implacável. Desta vez escrito mesmo.


E fica aqui, como despedida, uma das receitas do Pastilhas: a do gin fizz, no longínquo ano de 2002.



E já agora mais estes que denotam a intervenção de uma certa "zazie", o que mostra que é conhecimento antigo...com conhecimentos de informática aprimorados. Ahahah.


E já agora que ainda vai a tempo: uma tradução livre da cançoneta de Merle Haggard, Okie from Muskogee.  O mestre MEC desafiou os participantes no Pastilhas a traduzir letras de outros lados.

Inspirei-me em motivos rurais...


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