terça-feira, 10 de setembro de 2019

O outro tempo de Salazar

Escreveu assim o cronista do Público, sobre Salazar e o seu tempo:

"A única coisa que Salazar é em 2019- não custa muito percebê-lo, se se meter o esqueleto no armário- é uma boa história, uma personagem que atrai pela singularidade, um homem que praticamente mandou sozinho no país durante quatro décadas, sem que ninguém tenha sido capaz de correr com ele.
Nunca se casou, nunca saiu do país ( excepto umas breves viagens à fronteira espanhola), tinha cabeça de técnico oficial de contas, criava galinhas em S. Bento, montou uma ditadura de baixa intensidade que se revelou extraordinariamente sólida."


Começa pela "singularidade" de Salazar. Começa mal. Salazar não era singular, mas plural, como se usa agora dizer. Salazar era uma figura como outras que existiam em Portugal. Não se diferenciava muito de muitas pessoas que então existiam em Portugal, a não ser pela capacidade intelectual e lugar que ocupava na academia do Direito de Coimbra, viveiro de governantes. Nisso foi singular entre outras figuras singulares, seus pares.

Porém, como pessoa e como personalidade vinda do povo beirão, ligado à terra, era como eles. Apresento a prova, com uma única fotografia que vale um livro, para quem o souber escrever ( não este JMT que não entende isto, apesar de ser de Portalegre e conhecer eventualmente o povo que trabalha no campo):



Por esse país fora há milhentas casas e pessoas que guardam fotografias em tudo idênticas  a estas. São antigas, claro está. Hoje não haverá muito disto porque o tempo e os costumes evoluíram. A sociedade da aldeia que se vê na foto de cima já não existe e isso é bom porque se evoluiu, para melhor no aspecto material da existência. Mas Salazar não foi o criador dessa sociedade. Nasceu nela e se a mesma evoluiu e saiu dessa fase de desenvolvimento um tanto primitivo, aliás semelhante ao de outros países mediterrânicos, também foi por obra do que se fez nesse tempo.

Quem fizer uma análise semiológica acerca das roupas, das poses, dos penteados e daquele cenário terá muito que dizer e não será para dizer mal de Salazar do modo como o faz este cronista lamentável.

Depois entra pela política do "homem que praticamente mandou sozinho no país durante quatro décadas". 
Governar sozinho implica a ideia de autocracia completa, de ditadura de uma pessoa, de um totalitarismo que só encontra paralelo no regime...nazi e soviético, com Lenine, Estaline e quem se seguiu.
Salazar não pode nem deve ser comparado a figuras que tais porque nunca fez tal figura e isso é claro, evidente e indiscutível. Mais outra frase lamentável, portanto, deste pobre JMT.

A seguir a frase "sem que ninguém tenha sido capaz de correr com ele" significa apenas e tão só a impotência de uma oposição que chegou a exprimir-se nas ruas e em urnas eleitorais, mesmo com as limitações conhecidas. Não chega dizer que se houvesse plena liberdade de manifestação, associação e reunião alguém teria corrido com ele...quod erat demonstrandum.

Ao entrar na mesquinhice do "tinha cabeça de técnico oficial de contas, criava galinhas em S. Bento"  ridiculariza-se.

As "boas contas" que agora são tão gabadas pela esquerda de que JMT faz parte eram apanágio do regime do tempo de Salazar e Marcello Caetano porque era assim que devia ser.  Não havia dívidas externas monstruosas nem défices perigosos para a independência do país. E havia toneladas e toneladas de ouro no Banco, que serviram para nos poupar vexames ainda maiores do que os que sofremos às mãos dos inimigos de Salazar, nos anos 1974-76 e depois em 1984, com as duas bancarrotas iminentes que sofremos. 
Não havia o desenvolvimento que hoje existe, claro, mas existia, no início dos anos setenta, um crescimento económico impressionante que ninguém mais igualou em Portugal nestas últimas quatro décadas e continuaria se não tivesse existido a tomado de poder pelos inimigos de Salazar.

Quanto às galinhas em S. Bento é verdade que existiam, na residência particular do então presidente do Conselho. Mas também é sabido que as despesas particulares de tal residência eram pagas do bolso particular do mesmo. As despesas do andar destinado a funções públicas eram debitadas ao erário público.
Ora é isto que distingue  Salazar dos vários salafrários que passaram pelo palácio de S. Bento e nem preciso de dizer porquê, a não ser que a inteligência do JMT seja tão curta que não lhe permita alcançar a amplitude da palermice que escreveu.

Finalmente, remata com  um " montou uma ditadura de baixa intensidade que se revelou extraordinariamente sólida".

Quem montou a ditadura foram as circunstâncias do tempo. É sabido que Salazar não queria o poder e tanto assim que o recusou mais de uma vez.
Quando o aceitou, colocou condições. E uma delas foi a de poder mandar nas finanças que estavam piores do que os comunistas, Soares e Sócrates deixaram quando foi a vez deles...
 Essa ditadura foi de facto sólida porque o povo a aceitou durante esse tempo. A partir de 1933 a ditadura não foi assim tão ditadura, tirando a circunstância de nos ter poupado àqueles que queriam uma ditadura a sério, ou seja, os comunistas de quem JMT se calhar diz muito bem, como heróis da liberdade...deles.

Enfim, só saem duques.

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