domingo, maio 01, 2022

Grateful Dead, o grupo rock que Portugal não conheceu em 1972

 Há 50 anos, em Abril e Maio,  o norte da Europa ( França, Inglaterra, Alemanha, Dinamarca, Luxemburgo e Holanda) pôde assistir a concertos dos Grateful Dead, um grupo rock americano, famoso pelos espectáculos ao vivo. Já tinham publicado dois discos ao vivo nessa altura e publicaram o terceiro no final desse ano, precisamente com trechos dos concertos então realizados e intitulado Europe´72 que foi um sucesso de vendas...lá fora. 

Em Portugal o grupo era virtualmente desconhecido, tal como outros ( Little Feat, por exemplo) e não se encontra menção ao grupo ou à sua música nas publicações da época, muito menos aos concertos que deram nesses dois meses em que andaram pela "Europa". 

Durante vários anos desconhecia a música dos Grateful Dead, porque nunca vira por cá discos ou sequer ouvira no rádio música dos mesmos, tirando um episódio ou outro em programas seleccionados, principalmente no Rádio Clube Português, ( Espaço 3P  por exemplo)  em que aparecia um ou outro entendido na matéria e trazia o disco pessoal,  da praxe, para mostrar aos ouvintes o que era a música desconhecida por cá. Acontecia isso com outros grupos, principalmente norte-americanos, cujos discos não chegavam cá, ao "grande público". Era um tempo de escassez assinalável e qualquer novidade era assinalável. 

Em Maio de 1972 a revista Mundo da Canção recenseava um disco a solo de Jerry Garcia dum modo tão estúpido quanto pretensioso, mas típico da época. 

O disco é uma perfeita maravilha e várias canções ( Deal, Bird Song, Sugareee ou mesmo To lay me down)  passaram a ser repertório habitual do grupo nos espectáculos ao vivo:


Quem quiser apreciar tal música que então não se ouvia,  pode ouvir em podcast um programa de rádio, na Antena 1, intitulado Costa a Costa. Estão lá todos e mais alguns, desses artistas e grupos musicais. 

Tal circunstância durou para além da década de oitenta e só com o aparecimento do cd e vulgarização das gravações antigas e de "fundo de catálogo" foi possível ouvir, pela primeira vez, vários grupos de rock e algumas obras-primas desconhecidas. 

Em 1977 a revista Música & Som dava conta de tal desconhecimento, publicando a discografia e referindo que "nenhum disco pode ser encontrado em Portugal". 

Em 1972 o grande acontecimento musical de espectáculo ao vivo da música rock em Portugal foi a apresentação dos Procol Harum em Cascais e pouco mais ( o Cascais Jazz´72 nem conta para isso).

Assim, à semelhança de muitos outros discos de outros tantos grupos e músicos, o triplo lp Europe´72 passou completamente ao lado dos ouvintes de música popular em Portugal, tal como acontecera com os restantes e posteriores, até finais dos anos oitenta. 

Os Grateful Dead nunca disseram nada de especial aos ouvintes portugueses, o que é pena porque perderam algo de importante para quem gosta destas coisas e para cima de uma dúzia de canções memoráveis. 

O disco de 1972, Europe´72, vendeu milhares e milhares, nos países que apreciavam a sua música, como a França e que já tinham escutado os dois discos de estúdio mais interessantes- Workingman´s Dead e American Beauty, ambos saídos em 1970. O primeiro tem o tema Ripple que durante muitos anos foi o que conhecia do grupo e pouco mais. 
Quanto à respectiva música e discos só há alguns anos ganhei uma autêntica mania pela colecção dos mesmos, incluindo vários ao vivo e que foram publicados em anos mais recentes, com concertos da década de setenta e repetindo as mesmas canções de modo diferente e interessante.  

Aliás, a música e espectáculos ao vivo do grupo, congregam inúmeros fanáticos que se dedicaram ao longo dos anos em gravar e piratear os concertos, primeiro em gravadores de cassetes e depois em aparelhos mais sofisticados, havendo inúmeros artefactos à venda,  nesse género de discos-pirata e com larga representação no youtube e noutros sítios. 

Há mesmo um sítio dedicado exclusivamente a reproduzir a maior parte dos concertos da banda, com centenas ou mesmo milhares de espectáculos gravados desse modo e disponíveis para quem quiser ouvir, na internet, o que é um autêntico maná para os apreciadores, entre os quais me incluo.

No entanto, à semelhança de muitos outros, conheci primeiro o grupo através de leituras. Foi através da Rock&Folk de Outubro de 1974 que tinha esta capa e uma entrevista com o principal músico do grupo, Jerry Garcia que morreu em 1995. 



Aí aparecia referido que era a segunda vez que o grupo vinha a França, sendo a primeira dois anos antes, precisamente por ocasião daqueles concertos de 1972 que se produziu em Paris. 

Então dera igualmente uma entrevista à mesma revista, onde se explica uma certa filosofia do grupo e do músico, ainda influenciada pelo comunitarismo serôdio do hippismo de S.Francisco, já em manifesto desuso, mas ainda com laivos de uma certa ingenuidade que se perdeu pouco tempo depois. Porém, ainda assim,  com nuances já muito assinaláveis e que denotavam o bom senso do músico, perante a insistência do repórter ( Hervé Muller) muito pró Maio de 68. 






Dos concertos dados em Paris saiu no ano passado, no Record Store Day, uma compilação com cinco lp´s contendo o espectáculo de 3 de Maio desse ano e que complementa o triplo saído no final daquele ano de 1972. 
Para este ano de 2022 assinala-se ainda a publicação de mais uma ou duas compilações, desta vez dos concertos de Inglaterra, em Wembley e no Lyceum, bem como já foram publicados na sua totalidade os concertos da referida digressão europeia. Em 22 cd´s! 

Nesse mesmo ano de 1972 foram publicados dois discos a solo dos principais músicos da banda, Jerry Garcia e Bob Weir, como aqui se mostram, acompanhados do disco triplo de 1972, em edição original e da caixa de cinco lp´s, de 2021 contendo o concerto de Paris de 3 de Maio desse ano. 


 Duas páginas do "booklet" do disco original:



Qual a particularidade técnica destes discos gravados ao vivo? Terá sido a primeira vez que foram gravados os espectáculos, em bobines de 16 pistas, permitindo o registo de vários instrumentos e a sua mistura posterior em moldes de produção mais aperfeiçoada. O que aliás não impediu que algumas vocalizações fossem acrescentadas em estúdio, no caso do disco original, triplo, de 1972. 

A explicação de tudo isto é mais completa e pormenorizada no artigo da Mojo deste mês ( Junho 2022): 







Quanto à música dos Grateful Dead tornou-se tão aditiva como as drogas que dizem que os músicos então tomavam, à discrição, particularmente LSD, o que duvido fosse assim tão corrente. 
Porém, para apreciar a música é preciso ouvir e de preferência em condições aperfeiçoadas: discos originais em vinilo...
Ao contrário de outras músicas e discos, a dos Grateful Dead continua interessante e audível, repetidas vezes, sem cansar, ao longo dos anos, o que é o exemplo do classicismo. 



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A outra senhora advogada