segunda-feira, maio 02, 2022

O silêncio aflito do som abafado

 Por ter visto na tv um autor- historiador- de um livro sobre música popular portuguesa até aos anos 70, fui à livraria e perguntei se havia o livro. Havia e é este, publicado em Março deste ano. 

O título é tirado de uma estrofe do verso da canção Que amor não me engana, do lp Venham mais cinco de José Afonso, publicado em finais de 1973:


É deste autor que na tv apresentava alguma dificuldade em comunicar e explicar coisas simples e por isso não sei como se desenrasca com os alunos universitários, para lhes ensinar História Contemporânea:



Tem este sumário dos anos sessenta e setenta:


E traz esta explicação para apresentar colaboradores, variados mas nem por isso relevantes para dar a conhecer os temas como esperava ler. E teve apoio oficial, o que deveria ser sinal de maior exigência e respeito para com os leitores exigentes. 


Além disso indica algumas "fontes" do conhecimento das matérias sobre que escreve, essencialmente revistas dos anos sessenta e setenta e entre estas, avultam os semanários Século Ilustrado e Flama, mais a Mundo da Canção, Plateia, R&T  e alguns jornais, com destaque para o Diário de Lisboa e o suplemento A Mosca. Um ou outro livro completam o quadro das fontes disponíveis. 


Folheei demoradamente e fiquei com uma sensação de frustração porque não me satisfez a vontade de conhecer algo mais do que já conhecia, da leitura de algumas dessas publicações e dos livros mencionados, particularmente os dois de Eduardo Raposo, já por aqui citados e o Ié-Ié, de Luís Pinheiro de Almeida. 

A maior frustração, porém, advém de ler o que tenho lido nos sítios do costume, ou seja, em tais publicações: uma história conformada à narrativa de sempre, sem grandes nuances ou particularidades que distingam tais narrativas e apresentem uma realidade que me lembro de ter vivido e ser distinta da apresentada, no que se refere ao início dos anos setenta e sobre a qual já por aqui tenho escrito. Não é História o que leio neste livro mas apenas uma versão requentada de uma certa visão histórica, sempre a mesma e desesperadamente irreal, porque sectária e parcial. Há muita coisa que fica de fora e poderia dar o tom do som e da fúria desse tempo, aliás fantástico, do início dos anos setenta, em Portugal.

Na apreciação crítica de duas obras de relevo, a Epopeia  publicado em 1969 pelo grupo Filarmónica Fraude e o primeiro lp de 1970 do Quarteto 1111, a que se junta uma breve referência ao álbum Mestre, de 1972 mas publicado em 1973,  do Petrus Castrus, há estas considerações avulsas sobre o mito sebastianista e o nosso império colonial. 
Um silêncio aflito do lugar-comum, sem qualquer rasgo histórico para além do que se escreve por aí há décadas, no discurso corrente. É isto que se ensina aos alunos universitários? 



A mãe deste sebastianismo serôdio na música popular, parece ter sido um single do mesmo Quarteto 1111, publicado no ano de 1967 e intitulado A Lenda de el rei d. Sebastião.  
 O disco foi considerado na altura uma autêntica pedrada no charco musical nacional e distinguido pela intelectualidade do programa de rádio Em Órbita que abriu então uma excepção e passou essa música cantada em português, tocada por um grupo português, o de José Cid. Há quem considere a obra singular como o primeiro sinal da música rock em Portugal, esquecendo os esforços anteriores de pioneiros que cantavam em...inglês, como os Sheiks ou o Conjunto Académico de  João Paulo. 
Por mim, comparando as músicas do disco, incluindo Os Faunos ou Meu irmão com a canção de Eduardo Nascimento, O vento mudou, que ganhou o festival RTP da canção nesse ano, não consigo detectar diferenças de vulto, de construção musical,  harmónica ou melódica. Tem a batida um pouco mais acentuada no baixo gravado com destaque de mistura. Rock, isto?! Sim, talvez como o dos Moody Blues...com cuja sonoridade aliás se assemelha. Aliás, será assim tão diferente a sonoridade do Quarteto 1111 com esta do Conjunto Académico João Paulo?
Para Moody Blues dos pobres já tínhamos outro: Barclay James Harvest!

Por outro lado, na "pièce de resistence" que esperava encontrar na análise do fenómeno musical português que surgiu no início dos anos 70, o que achei foi mais do mesmo de sempre. Como exemplo esta folha sobre o disco Venham mais cinco de José Afonso, publicado em 1973.




Por exemplo refere-se que José Afonso "depois de ter participado no III Congresso da Oposição Democrática seria preso". O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Não se explica, porque se omite que o Congresso ocorreu entre 4 a 8 de Abril de 1973 e José Afonso foi preso em 30 de Abril desse mês. O que é que o cu tem a ver com as calças?
Mas nem é isso o mais significativo da frustração que este livro exala. A apreciação das obras musicais, com referências permanentes à opinião de críticos do calibre de um Tito Lívio é o pior. Sobre o disco Venham mais cinco, verdadeiramente um marco da música popular portuguesa, no que à composição e produção musical comporta, o que se escreve é tão pobre que o escrito é como o chapéu dum dito, todo esburacado de referências ausentes. 

Vê-se que o autor nem conhece isto, por exemplo ( e nem conhece também o Cine-Disco/ Mundo Moderno, referência incontornável da cultura popular, incluindo musical, da época, final dos anos sessenta) o que é lacuna imperdoável em quem se propôs escrever um capítulo, o 4º, sobre "a nova canção portuguesa" tomando como paradigma precisamente o Venham mais cinco








O disco é efectivamente um estrondo sonoro no panorama de então, mesmo com discos como Mestre do Petrus Castrus, já publicado nesse ano e outra obra-prima. 
O de José Afonso consegue misturar sonoridades que só mais tarde, com a Banda do Casaco se virão a encontrar de novo gravadas em disco.  Alguns instrumentos raros aparecem no disco e o guitarrista Yório Gonçalves é excepcional. Até a harpa intervém, com sonoridade impressionante na A Formiga no carreiro, um dos temas mais musicais e ritmados do disco, com o título-tema. 

A linguagem dos poemas é neutra no sentido de não se tornar panfletária o que parece ter desagradado a alguns ( como Teresa Botelho, na então R&T que preferiria coisa mais afrontosa e explícita). Porém é exactamente por isso que é mais valioso o disco, tal como as letras fantásticas, no sentido que a  fantasia realista o é em alguns temas de Bob Dylan, por exemplo. A ambiguidade nestes assuntos junta-se à beleza da música e dá-lhe um contorno ainda mais gracioso e artístico. "Gastão era perfeito" é outro tema do género e outro ponto alto do disco.




Lembro-me bem de ouvir este disco quando saiu, no final de 1973 e o quanto me impressionou pela qualidade e diferença que fazia a sonoridade em relação aos demais, particularmente os dos artistas que tinham publicado obras importantes, como Sérgio Godinho ou José Mário Branco. 
No rádio FM, as canções de Venham mais cinco, particularmente o tema principal e A Formiga no Carreiro,  soavam de forma excepcional e surpreendente, tanto pela originalidade musical como pela instrumentação usada. 
Provavelmente não é alheia a tal fenómeno a circunstância de o disco ter sido gravado em Paris, em 16 pistas, no estúdio "Aquarium" e produzido por José Niza, com a ajuda de gente de lá ( Gilles Salé, engenheiro de som). 

Experiência semelhante na surpresa sonora,  voltei a sentir no ano seguinte com a audição de Eldorado, dos Electric Light Orchestra.  E na mesma altura soava o Ouro de Tolo de Raul Seixas, com o ritmo e batida perfeitos do tom maior e letras em português, no caso do Brasil. 1973 foi um ano bom para a música popular, mas só para o ano é que ocorre a data redonda. 
Quanto ao livro é uma pena que não tenha referências pessoais, subjectivas sobre a música que constitui o assunto principal e se perca nas citações de autores anónimos da Flama ou do Século Ilustrado, ainda piores do que os titos lívios que escreviam na Mundo da Canção textos ilegíveis e medíocres até dizer não leio mais. 
O autor Luís Trindade é historiador e melhor faria, para bem dos leitores, ter rebuscado um pouco mais nas "fontes" para dar um panorama diferente e mais realista do que o que estamos habituados a ler e que aliás é sempre a mesma coisa. 
Não é por ser sempre a mesma coisa que a realidade se torna coincidente. Antes pelo contrário.

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