quarta-feira, maio 25, 2022

Jorge Calado, o professor, sociólogo malgré lui

 O professor Jorge Calado é um professor emérito do IST, nascido em 6.1.1938, de mérito indiscutível e conhecido de todos os que alguma vez estudaram Termodinâmica e de outros que se interessam por cultura geral.  

Para além das actividades académicas tornou-se "crítico cultural" no Expresso, onde escreveu sobre várias manifestações artísticas, como a fotografia ou a ópera.

Há alguns anos tinha publicado um livro magnífico, com um título achado: Haja Luz!  

Agora publicou uma biografia recheada de memórias do seu tempo, desde os anos quarenta do século passado, com o título de Mocidade Portuguesa

Vou nas páginas 100 das cerca de 560 do livro e recomendo vivamente. Por vários motivos:

Jorge Calado é filho de dois professores de ensino primário e secundário dos anos de antanho, do tempo em que Portugal vivia em "ditadura". Jorge Calado não pronuncia abertamente a palavra "fascismo" à maneira comunista, apenas por algum pudor, uma vez que é esquerdista, mas conservador de costumes do seu tempo. E lembra-se tão bem deles que merece ser lido nesses contos anti-maldoror. 

Do mesmo modo que intercala interjeições esparsas contra a "ditadura" conta episódios que a desmentem ipso facto, para quem quiser e souber ler. 

Por isso aqui ficam algumas páginas que retratam o seu tempo dos anos quarenta, auge do neo-realismo nacional à maneira comunista. 

O Portugal que Jorge Calado conta não é o mesmo que nos mostra essa gente intelectualmente empobrecida pelo marxismo mais atávico. É outra coisa e por isso merece leitura e serve de exemplo para a falta de pudor de quem retrata um Portugal para além da realidade vivida, circunscrevendo-o  aos desejos políticos frustrados. 

Jorge Calado, malgré lui, é o testemunho vivo, pelos exemplos que apresenta, contra ( assim é que é)  a  falsidade e a farsa neo-realista e comunista. Como se pode ler:


























O livro lembra-me a obra de Umberto Eco, também auto-biográfica, A Estranha Chama da Rainha Loana, mas só por causa das referências iconográficas a que não faltam as personagens de banda desenhada, neste caso a franco-belga. Mas é tudo porque o estilo de Calado é superior ao de Eco e torna-se muito agradável de ler, com as precisões históricas das datas e nomes e pequenos apontamentos sobre acontecimentos, factos e referências. Em dado passo ( fls.113) cita um amigo que dizia "Portugal é um país bom para quem quer ser importante". Isso por causa da hierarquia nos "tratamentos"...
Uma delícia auto-biográfica! Que se vai lendo de um fôlego e só tenho pena que chegue ao fim.

Por exemplo, com  esta prosa desconcertante: 


E já agora para um mergulho mais profundo no espírito da época e fazendo jus ao título do livro e ao conteúdo, estes recortes do Século Ilustrado de 8 de Dezembro de 1945 mostram bem o que era.
Como Jorge Calado fez parte da Mocidade Portuguesa poderia muito bem estar aqui retratado. Afinal teria quase oito anos quando este desfile ocorreu...


E o ambiente de Lisboa urbana que relata também se espelha neste pequeno conto:





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