quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A loja de revistas de Lisboa, nos Restauradores



imagem tirada daqui( João Porfírio/Observador)


Hoje, quinta-feira, fechou uma loja de revistas que havia ali nos Restauradores, mesmo perto do eléctrico que serve de elevador para o largo de Alcântara.

A loja era um local de visita obrigatória sempre que ia a Lisboa, de há uns bons trinta anos a esta parte. A passar. Na verdade já nem me lembra se em Junho de 1974, altura em que fui pela primeira vez a Lisboa, a loja já existia. Se existia lá terei ido porque fui ao cinema que ainda havia ali perto. Nunca soube bem o nome da dita cuja, que em tempos se chamava Tema e agora tinha o nome de  cocktail. Sunrise não sei quê. Fechou. Sunset.

Miguel Esteves Cardoso fez-lhe um obituário, ontem no Público:


A loja para mim era um oásis, um nicho de novidades do exterior em papel de revista. E como tal  sítio de visita para refrescar ideias em papel couché.

Alguns exemplares que por lá merquei:

Uma bela italiana que saiu por altura dos anos noventa, quando a Face se esgotava em irrelevâncias.


Um cromo raro que só lá se encontrava e que já acabou:


Outro do mesmo género e com um grafismo espectacular.



Um número desta revista que em 1987 se renovou e era lá que havia:


Outra que ultimamente lá comprava por ser a edição americana. Este número é de 1995, terceiro ano da revista, mas julgo que o primeiro número, algum tempo antes, foi lá que o comprei:


E finalmente o número que encomendei nessa loja e que aguardei com ansiedade, em Novembro de 1987. Trazia um suplemento com todas as capas a cores da revista, desde o número um até essa data. Ainda o guardo como um tesouro porque a revista era um fetiche gráfico, para mim, desde 1975 até aos anos noventa.


Até sair o livro de recolha de todas as capas, dez anos depois, em 1997, era esta a única publicação, antes de aparecer o ebay, para se ver e consultar os números antigos da revista:


É isto que me lembra da Tema. Era também um dos sítios onde se podia comprar revistas italianas. Havia outro, há trinta e tal anos, num quiosque na avenida que sobe para as Amoreiras.
Ultimamente a Tema já não era imprescindível porque a FNAC do Chiado também tem uma boa secção de revistas. Tal como a Bertrand, no mesmo Chiado.
Porém, durante muitos anos, esta loja e um pequeno quiosque no Rossio foi o único sítio de abastecimento cultural deste género, para mim que afanosamente esquadrinhava os recantos onde se anichavam estas preciosidades periódicas e  regulares.
Em Setembro de 1975 esquadrinhei tudo o que era quiosque para encontrar um número da Rolling Stone. Em vão. Não se vendia por cá, nessa altura, a revista. Acabei por encontrar um número esfarrapado e apenas com a capa e contra-capa, abandonado nos papéis e lixo deixados por conta num acampamento de retornados ( estávamos em pleno final de Verão Quente de PREC) , nas traseiras do Estádio Universitário. Essa história já a contei, aqui.E voltei a contar aqui, porque é uma história,   para mim, com magníficas memórias agradáveis.

Foi lá que encontrei um sítio para acampar, depois de ter passado por Monsanto e saber que estava tudo cheio. Um dia ao sair do acampamento, onde tinha uma tenda emprestada pela DGD ( Direcção Geral de Desportos) sem mais, deparei com a capa que guardei, passei a ferro, literalmente e emoldurei.
Passados anos descobri que era a edição inglesa da revista e comprei-a, integralmente, novinha. Devo dizer que a magia daquela primeira descoberta só da capa e contra-capa tinha entretanto desaparecido. Coisa estranha, esta mania... ahahah. De resto só voltei a encontrar a revista nos quiosques, agora em Coimbra, um mês depois, já em Outubro de 1975 e nunca mais larguei o vício, até aos anos noventa, quando já estava farto de comprar e não ler. Mas coleccionei. Os anos setenta e os dois primeiros dos oitenta, são o período áureo da revista que era uma pequena maravilha de textos, reportagens, críticas de discos, desenhos, ilustrações e até publicidades. Todos os quinze dias esperava um novo número que nunca me desiludia. Alguns são mesmo ícones dessa época. Bons tempos de fascínio por estas coisas simples que a Tema então passou a representar, simbolicamente.

No estrangeiro também não há muitos sítios destes porque os quiosques são mais locais e genéricos. Em Paris, para se ter acesso a imprensa anglófona só na loja VHM Smith, essa sim, uma catedral gótica dos títulos mais variados que jamais vi. Americanos, franceses, ingleses.

Em Londres também há uns sítios numas livrarias do centro. Na Alemanha, menos. Em Amsterdão há a fabulosa livraria americana bem no centro. E noutras paragens é igual: poucos sítios e que carecem de procura atenta.

Enfim, nós, nunca estivemos mal servidos neste sector.

A tristíssima figura de Zita Seabra

A TVI passou na Segunda e ontem uma reportagem alargada sobre Salazar, com imagens da sua casa no Vimieiro, completamente  arruinada, entrevistas a contemporâneos que o conheceram e lidaram com ele, nas alturas em que aí se encontrava e deram o seu testemunho. O guia da visita foi um sobrinho-neto, Rui Salazar já por aqui mencionado em tempos.

A reportagem teve algum interesse, particularmente em ouvir algumas pessoas que viveram esse tempo e contaram o que viveram. Uma delas, filho de Manelão, o podador das vinhas e árvores da quinta das Ladeiras, de Salazar, contou diversos episódios, incluindo um acerca de agentes da PIDE que aí se encontravam e vigiar o então presidente do Conselho. Um deles era Rosa Casaco que costumava tirar fotografias a Salazar e que guardou para a posteridade algumas delas que de outro modo não teria existido. Era um fotógrafo amador e não consta que fosse a mando do presidente do Conselho que andasse por ali a tirar fotografias.
 O episódio contado pelo filho de Manelão é exemplar para se entender o relacionamento de Salazar com a polícia política. Tal é referido aliás por Fernando Dacosta que aparece como comentador residente da reportagem, sempre sentado num cadeirão a recordar memórias do tempo em que escreveu os primeiros livros sobre a figura de Salazar, no início dos anos dois mil. As Máscaras de Salazar e Nascido no Estado Novo são dois dos seus livros que vale a pena ler.
O episódio do filho de Manelão é o de enquanto miúdo, com sete anos ou por aí se esgueirar para a quinta de Salazar, fugindo ao controlo da polícia e um dos agentes da PIDE o ter apanhado nessa incursão furtiva e lhe ter dado uma sova das grandes. O pai, Manelão, ao ver o filho num estado lastimável,  encrespou-se com o agente da PIDE que lhe disse que estava preso, mas como quem o agarrara e apertava o pescoço era o Manelão este retorquiu-lhe que quem estava preso era ele...
Pois Salazar ao saber disto perguntou a Rosa Casaco se era assim que dava ordens aos agentes da polícia, para actuar. Quem contou isto foi o filho do Manelão. Que sentia simpatia e continua a sentir por Salazar.

Na reportagem aparece a ligação de Salazar a uma senhora francesa com quem se entrevistou e que deu origem a um livro daquela, Férias com Salazar. A senhora Garnier foi fotografada com Salazar, por aquele Rosa Casaco. Nada de especial. Aparecem também referências aos amores furtivos de Salazar com diversas pretendentes que nunca foram consequentes.

Não me pareceu que a reportagem fosse um modo de apresentar Salazar como um galã, mas foi isso que Zita Seabra viu na reportagem, exclusivamente, para além de considerar que deveria ter havido uma menção a Rosa Casaco como um torturador da PIDE e assassino de Humberto Delgado.

Escreveu isso agora, lamentavelmente, num artigo cheio de ódio, latente e persistente, de ressentimentos. E lamentavelmente por uma razão simples:

Zita Seabra foi militante do PCP, das radicais porque o Partido só comporta essa tendência estalinista, desde sempre.

Da Wikipedia:

É filha do engenheiro Mário Ramos Carvalho Roseiro (Tondela, Molelos, 11 de abril de 1921) e de sua mulher Zita Moreira Marques de Seabra.

Aderiu ao Partido Comunista Português em 1966 e passou à clandestinidade em 1967, antes mesmo de fazer dezoito anos, passando 8 anos na clandestinidade até ao 25 de Abril de 1974. Foi controleira da União dos Estudantes Comunistas (UEC) antes e depois do 25 de Abril. Deputada à Assembleia da República entre 1980 e 1987, pelos círculos de Lisboa e de Aveiro, foi eleita para a Comissão Política do Comité Central do PCP em 1983, no X Congresso do Partido. Em 1982, tinha sido a responsável pela apresentação no parlamento de legislação sobre o aborto.

Afastou-se do PCP por altura da Perestroika e foi uma das mais conhecidas dissidentes do partido, em virtude do processo interno que lhe foi movido e que culminou com a expulsão em 1988 da Comissão Política, primeiro, e do Comité Central, depois.[1] Ainda em 1988, publicou o livro O Nome das Coisas: reflexão em tempo de mudança, que teve sete edições até ao ano seguinte. Em março de 1989, fez a cobertura para o jornal Expresso das primeiras eleições livres na URSS.[2]


Zita  Seabra nasceu em 1949 e em 1966 tinha 17 anos. Casou com o comunista Carlos Brito, um dos dirigentes máximos do PCP estalinista do tempo de Cunhal.

Zita Seabra disse numa entrevista, citada no artigo da WIki que descobriu o mal que o comunismo era numa viagem que fez à URSS em 1989. Na 26ª hora, como muitos. O tal Carlos Brito, 15 anos mais velho,  nunca descobriu, coitado. Continua lá, na luta...

Não adianta estar aqui a lembrar a Zita Seabra o que era o comunismo em 1966 porque a mesma saberá melhor.

Só adianta dizer que a falta de pudor para se difamar Salazar ou atacar o regime do mesmo, nesse tempo, invocando a falta de liberdade e a repressão política, dá sempre com os burros na água a estas pessoas que defendiam exactamente na mesma altura um regime muito, mas muito pior que o de Salazar.

O que esta gente deveria dizer era isto: nós fomos inimigos de Salazar e queríamos um regime pior que o dele. Se tivéssemos  tomado o regime, pela Revolução que sempre defendemos, de armas na mão se fosse oportuno, teríamos morto Salazar com um tiro na nuca ou em julgamento sumário. Faríamos o mesmo a todos os PIDES e aos adeptos do regime, além de liquidar os mais bravos , sumariamente, poríamos os demais em campos de concentração. Como fizeram os patriotas cubanos.

Quem não aceitasse o nosso comunismo teria que ser reeducado, à maneira do que fizemos com a 5ª Divisão do tempo do PREC e que foi apenas uma amostra.

Felizmente que Salazar não fez tal coisa a nós e até deixou fugir o Cunhal da prisão de Peniche que agora está transformada em museu dessa luta patriótica antifassista. Salazar era um fraco e a PIDE uma miséria de incapazes. Até deixaram o Cunhal tirar o curso de Direito na prisão e fazer exames na Faculdade, imagine-se! Que fracos...

Era isto que Zita Seabra deveria ter escrito e nada mais.

  Zita Seabra sabe que assim é e devia ter vergonha de escrever o que escreveu.

A informação e opinião sobre julgamentos de violência doméstica

Há inúmeros casos de violência entre casais, em Portugal. E algures, aliás. Basta pegar num único desses casos em concreto, ouvir queixosas e há pano para mangas de notícias em catadupa, todos os dias. São quase sempre queixosas porque os queixosos têm vergonha de se queixarem das violências psicológicas de que também são vítimas. Quem lida com casos deste género sabe que assim é e que muitas vezes não é possível descortinar quem é vítima de quem, nesse aspecto.
Porém, estatisticamente, são as mulheres quem apresenta queixa dos homens com quem vivem ou convivem, por violência física, associada a ameaças, por vezes de morte.
As queixas são apresentadas nas polícias que lidam com o assunto de modo cada vez mais profissionalizado e ritualmente adequado. As polícias têm agora núcleos específicos de profissionais para lidarem com o assunto, os NIAVE.
Perguntam às queixosas pelos factos, pelas circunstâncias e avaliam, segundo o que ouvem a situação de risco concreto,  de repetição ou de concretização das ameaças mais graves. Assinalam por escrito  e nessas situações as queixosas podem socorrer-se de assistência à distância, através de dispositivos que accionam o alarme junto das polícias se algo puder estiver em iminência de suceder. Podem mesmo usufruir de outras medias de protecção.

As polícias apresentam tais resultados imediatamente, no próprio dia ou dia seguinte ao MºPº que também já rotinou procedimentos para lidar com os casos concretos.

Perante indícios de alguma situação grave que imponha medidas de imediato,  tais medidas são requeridas de pronto ao Juiz de Instrução criminal. Em casos extremos de detenção dos suspeitos, os mesmos são ouvidos por esse magistrado que lhes pode impôr medidas de coacção até à prisão preventiva e a obrigatoriedade de uso de dispositivo electrónico de monitorização de paradeiro, por gps.

Tudo isto é procedimento corrente hoje em dia, em todas as comarcas do país.

Casos como o da última queixosa que foi alvo da atenção mediática suscitada pelo Público são muitos. E é um caso igual a muitos outros, banal, com uma particularidade: não devia servir de exemplo para o que se pretende agora fazer relativamente ao poder judicial que é julgá-lo sumariamente sem ouvir sequer as partes envolvidas. Não existe na opinião publicada qualquer esclarecimento do género que tenho apresentado aqui. Nenhum. Toda a gente se encolhe, tem medo não se sabe de quê, talvez destas pascácias e pascácios que noticiam sem saberem profissionalmente o que andam a fazer e deviam ser castigadas pela falta de profissionalismo e incompetência.

É de uma justiça popular que estamos a falar e da pior que existe porque basta-se com indícios, mesmo com factos falsos, sem ouvir senão a queixosa, para julgar quem julgou.

Quem o faz não sabe ler um acórdão ou uma sentença de modo a perceber o que dizem ou os pressupostos de que partem, mas isso não incomoda ninguém, muito menos os juízes que os elaboraram. Levam no lombo da legitimidade, são apoucados pelos media que julgaram sumariamente o caso e ficam na mesma, num mutismo inquietante.

Repare-se neste caso.

A Visão com a autoridade de um director-executivo, Rui Tavares Guedes, escreve isto sem nexo com o acórdão em causa: " em 2015, apenas 9% dos agressores condenados tiveram pena efetiva – aos outros 91% foi aplicada a suspensão da pena.
O que isto provoca é que os agressores, além de não terem o castigo da pena, também não sofrem, na generalidade dos casos, a censura social a que este crime deveria estar associado." 


A mensagem que transmite é que os tribunais não julgam bem e se fosse ele a julgar não seria assim e as penas seriam de prisão fechada e de castigo para os agressores sem apelo nem agravo. Julga-se o dono do entendimento correcto e os juízes que julgam os casos concretos, uns mentecaptos. Estou a imaginá-lo a ler a prosa que escreveu e a assumir a pose de dâmaso. Salcede, entenda-se.

Na Sábado, o bestunto de uma das redactoras, Mariana Branco, vai um pouco mais longe: dá como assente que o juiz Neto de Moura tirou a pulseira electrónica ao arguido e tira daí todas as ilações do facto falso. Não se incomodará nada se descobrir a asneira...

No Expresso aparece mesmo uma entrevista com a "queixosa". O que se ouve não permite entender que o arguido tinha pulseira electrónica. O que a mesma diz, textualmente é  "só sei que quando soube a decisão que o senhor tomou, só posso dizer é que o senhor... tirou-me a vida." Assim mesmo: tirou-lhe a vida e as pascácias a ver, sem reacção a esta enormidade, antes assentando pelo silêncio que assim será.
E logo a seguir: "Num certo sentido ele tirou-me a vida porque eu sei que ele não ia andar com pulseira a vida toda, mas os três anos podia ser que ele reconstruísse  a vida dele e me esquecesse".

Pois bem. Nem com isto assim tão explícito aquelas duas criaturas que parece são jornalistas e estão na imagem do video perceberam . O que entenderam , aparentemente , é o que esta queixosa queria transmitir: que o senhor, o tal juiz , tirou-lhe a vida.

Será preciso mais comentários a esta estupidez e a este histerismo mediático?

Porventura a mulher queixosa não pode apresentar queixa contra quem a agredir ou ameaçar, quando entender que tal se justifica? O acórdão proíbe-lhe tal coisa?
E entenderão aquelas criaturas que escrevem nos media que tal medida de "pulseira electrónica" é falível e nunca evitará qualquer acto tresloucado de quem o queira praticar?

Mais: já foram ouvir o arguido e saber o que o mesmo tem a dizer, ou para isto o indivíduo é apenas uma coisa, em modo de assim? Não é uma pessoa? Não tem direitos? E tem de ser sujeito a opróbrio, para além da condenação a que foi sujeito, neste tribunal mediático que julga sem ouvir as pessoas?

Que canalha é esta que pensa assim como sendo o modo correcto de exercer uma profissão como a de jornalista? Não sentem vergonha disto?

E já pensaram essas criaturas todas que agora escrevem como grandes juízes dos juízes que as mortes na violência doméstica não diminuíram e porventura aumentaram substancialmente com todas estas medidas de protecção que acabam por não proteger nada?

Já pensaram se isso não será contra-producente e um sinal de que algo terá que ser repensado nestas matérias em vez de andarem a fustigar quem aplica a justiça nos casos concretos que são julgados?

Este é o tom de todas as intervenções mediáticas que tenho lido por aí: a mesma estupidez, a mesma ignorância, a mesma uniformidade de pensamento. A mesma ausência de qualquer contraditório nestes julgamentos sumários, a certeza que lhes advém de conhecerem uma realidade que efectivamente não conhecem e apreendem-na apenas pelo relato de queixosas como a infeliz que se vê no vídeo.

É assim que se faz informação em Portugal.

Correio da Manhã, a chulice como prática corrente.

CM de hoje, um nojo de notícia, toda enviesada, falsa e contundente para o juiz e tribunais em geral.

O jornal vive permanentemente da chulice a vítimas avulsas, de infortúnios e desgraças. Não mencionando o crime de lenocínio permanente que o jornal pratica ao publicar todos os dias um encarte pornográfico e de favorecimento objectivo da prostituição, vejamos se assim é neste caso  em notícia.

A edição de hoje é um exemplo de primeira página:


O assunto "Rosa Grilo" tem sido uma galinha de ovos de ouro para estes media do grupo Cofina. De manhã o jornal; à noite ao serão, com komentadores do calibre de Rui Pereira, na CMTV. A chulice é evidente porque tal como os que exploram putas se dedicam a recolher os proventos da actividade desgraçada de quem vende o corpo para viver, também aqui os responsáveis pelos media do grupo se dedicam a explorar até ao tutano desgraças alheias, tragédias e infortúnios, para além do razoável e da normal actividade informativa. Desde que a tal Rosa Grilo foi alvo de atenção mediática por suspeita de homicídio, em Dezembro passado, praticamente não há semana nenhuma em que o caso não seja explorado nos media, sob a batuta da jornalista Tânia "pente fino"Laranjo.

A obscenidade atinge já os menores familiares com discussões mediáticas sobre heranças ou futuras decisões sobre guarda daqueles. Não pára o voracidade mediática desta autêntica chulice de uma desgraça alheia que deveria interessar só e apenas os familiares envolvidos no assunto já entregue aos tribunais. Não recuam na violação de segredo de justiça, crime punível por lei, na devassa da vida privada, sem freio algum e sem pejo nenhum. E a obscenidade está para lavar e durar porque evidentemente as fotos de casamento da suspeita não apareceram por acaso na caixa de correio, numa manhã de nevoeiro, no jornal em causa.

Para além disso fiquei admirado com a contenção noticiosa no outro dia, sobre o caso do dia, o do "juiz Neto de Moura" que tirou a pulseira electrónica a quem a não tinha mas poderia vir a ter. A admiração durou pouco porque ontem foi o que foi e hoje fiquei definitivamente tranquilizado quanto à natureza do jornal. Continua igual a si próprio.

Hoje ao ler a notícia que segue, assinada por aquela jornalista compungida com a desgraça alheia e que aparece na foto deixei de ter ilusões sobre a sensatez do jornal. Aquela chama-se Ana Isabel Fonseca e deve ser das que tirou o Curso na Nova. O tal dos três anos com estágio incluído. Se me enganar deve ser por pouco, atento o teor da notícia, nojenta evidentemente pelo conteúdo, pela manipulação e pela desfaçatez. Até o pobre advogado da vítima aparece a lamentar-se do Estado. Que não dos tribunais ou do juiz em causa. Que não...e até se acredita que nada teve a ver com este assunto sórdido de ataque a instituições judiciais e a um juiz em concreto. Pois não. Nada teve a ver...claro está.


A ideia básica já passou para este jornalismo de ocasião: o juiz Neto de Moura tirou a pulseira a um valdevinos, um terror de mulheres que merecia bem uma pena de prisão efectiva.

Há um pormenor que escapa a este jornalismo: não querem saber se o arguido tinha pulseira ou não. Dizem que sim, porque sim e já está. Basta-lhes ler que o juiz Neto de Moura não sufragou a decisão sob a pena acessória que poderia obrigar o arguido a tal, para concluírem imediatamente que assim foi e que a pobre mulher que chora baba e ranho, ficou desprotegida para sempre.

O pormenor relativo ao facto de a mesma poder apresentar queixa, novamente, contra o eventual agressor, conta nada. O pormenor de lhe poder ser aplicada medida de coacção por causa disso, eventualmente a tal pulseira conta ainda menos. O pormenor de ao mesmo poder ser revogada a pena suspensa que lhe foi aplicada na decisão conta zero.

Enfim, este jornalismo chega ao seguinte ponto: na mesma notícia, na página seguinte aparece outra mulher, vítima pressuposta que se queixa amargamente de ser perseguida e apesar de o suposto agressor ter ficado proibido de contactar a vítima não se esclarece se ficou com a tal pulseira. Mais: quem lê a notícia da página anterior e não reparar bem pode mesmo confundir os dois casos, diversos e diferentes.

Se isto não significa uma Causa, um activismo contra decisões judiciais em prol de um feminismo à outrance, não sei o que seja.

Talvez simples estupidez. É o mais certo.

O que é que esta gente pretende com isto? Aqui está: dinheiro de qualquer modo e feitio. Mesmo com a chulice demonstrada.



Parafraseando o falecido Arnaldo Matos, tudo isto é um putedo!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A histeria da causa feminista pretende deslegitimar o poder judicial

Hoje no Público a artista que noticiou o mais recente caso de "Neto de Moura" volta a atacar com falsidades jornalísticas.

Escreve, comentando a comunicação jesuítica do CSM a propósito da não instauração de inquérito disciplinar ao juiz em causa: "Em Outubro, o desembargador da Relação do Porto retirou a pulseira electrónica a um homem condenado por rebentar um tímpano à mulher ao soco".

O preciosismo "ao soco", num português de além-mar não é verdadeiro. O "homem" foi condenado por ter praticado um crime de violência doméstica, não de ofensa à integridade física e daí a pena acessória que não foi sufragada pela Relação, ou seja pelo juiz Neto de Moura e pelo juiz Luís Coimbra. Dois juízes, não um.
Por outro lado, o "juiz Neto de Moura" não retirou a pulseira ao "homem". Simplesmente não concordou que eventualmente o "homem" viesse a usá-la, o que é substancialmente diverso e falseia a notícia que nem dois dias de pousio chegaram para que a jornalista percebesse a diferença. Arre!



Claro que estas notícias adulteradas, manipuladas impunemente por este tipo de jornalismo troglodita, são aproveitadas com todos os efeitos desejados por quem alia a fome feminista à vontade de comer decisões deste tipo, da "Justiça".

Assim, o Correio da Manhã que ontem se mostrara razoável e comedido,   não conseguiu evitar associar-se ao festim e publica hoje este escarro noticioso, bem à maneira da notícia de primeira página sobre uma famigerada "Rosa Grilo": o Bloco evidentemente "quer". Olha se não quer...embora se lhe aplique aquele dizer antigo do humorista  brasileiro Jô Soares: "querias...dizes bem: querias. Mas não vais ter!"
E não vão ter porque o juiz em causa não tem neste caso nada que se lhe possa apontar. Tal como no anterior, aliás. Até os jacobinos do CSM perceberam agora tal coisa, evitando cometer o mesmo erro duas vezes. Já descobriram que se não fizerem o que o "Bloco quer" terão a vida num inferno mediático durante dias, semanas ou meses a fio. Assim, como se limitaram a uma advertência e comeram na mesma pela medida grande da intolerância feministo-dependente, então agora recuaram para a sensatez que lhes faltou da primeira vez. Enfim, emendaram a mão.


Depois disto e do mais se saber como é possível tamanha ingenuidade do presidente da ASJP, no Público de hoje,  ao escrever que estas manobras mediáticas não representam uma deslegitimação do poder judicial?


Claro que só podem representar tal coisa, mesmo que não haja uma conspiração concertada e de cabala feita.

O que significa deslegitimar? Pois, retirar a autenticidade a qualquer coisa, renegar a justificação de algo, ilegalizar o que deriva de um acto de poder legítimo. É isso que dizem os dicionários.

Ao atacar um juiz ou outro, sempre no mesmo registo de Causa, o que pretende este poder mediático? Substituir-se àquele que constitucionalmente tem o direito e do dever de administrar justiça em nome do povo.

Este poder mediático acolitado por certo poder político pretende censurar vivamente  as decisões de um poder legítimo, obrigando-o a seguir ditames que apresentam como os impositivos, mesmo fora da lei.

Alguém contesta que é exactamente isto que sucede no caso concreto?

Seja como for a coisa já deu os seus frutos: este antigo maoista, marxista-leninista reciclado no arrependimento aggiornato também já considera estas "sentenças anacrónicas". É por estas e por outras que aquele arrependimento nunca me convenceu. É um arrependimento de meio da ponte. Olha para um lado mas não esquece o outro e de vez em quando lá olha para trás...apetece dizer-lhes: anacrónica era a tua ideologia, pá! E pelos vistos continua a ser.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Estão a ver este pacóvio?





É humorista.

Escreveu esta peça:

Há um novo super-herói na cidade. Na cidade do Porto, mais especificamente no Tribunal da Relação. Chama-se Cianeto de Moura, metade juiz, metade fada dos agressores, e envenena acórdãos e sentenças.

Cara besta, está a contas com um caso de violência doméstica em que é claramente o culpado e deveria pagar pelo que fez? Não se preocupe, temos a solução para si. Quem é que vamos chamar? Cianeto de Moura! Não interessa quão grunho você é, para Cianeto de Moura, todo e qualquer comportamento violento é perfeitamente desculpável!

Cianeto de Moura, desta vez, entrou em ação num caso de um eletricista que, depois de vários anos de agressões, rebentou o tímpano ao soco à mulher. Sim, ao soco, não foi através da reprodução da discografia de Conan Osíris. Foi ao soco. Depois do caso de 2017, da moca de pregos, que valeu uma pesada advertência a Cianeto de Moura, poucos acreditavam que conseguisse erguer-se e voltar a pôr vítimas de violência doméstica em perigo. Mas Cianeto surpreendeu tudo e todos!


Alguém se riu? Eu ri-me: do pacóvio que a escreveu.  Mas é um riso amarelo. O gajo ganha dinheiro com esta bosta, no Sapo. 

O senso que falta ao jornalismo de causas nos casos de violência doméstica

O Correio da Manhã escreveu hoje a notícia que ontem o Público poderia escrever. Sem sensacionalismos e com razoável qualidade informativa.
Não vem na primeira página e é assim:



 Não obstante,  o resultado da histeria informativa que se espalhou como fogo em palha seca ( basta colocar no Google Neto de Moura pulseira electrónica, para se ver a altura das chamas)  já causou estragos.

Na mesma edição do jornal, a crónica de Francisco José Viegas ( um dos motivos porque compro o jornal) é inacreditável de ignorância do que devia ser básico, ou seja a leitura atenta e compreensão correcta dos factos e realidade. Nada disso aconteceu e é um estenderete de disparates sustentados em preconceitos e má informação:


A filha do psico de Coimbra, Joana Amaral Dias vai mais longe: fogueira com o juiz, já! A insensatez de uma psicóloga confrange, mas enfim é o que há...porque mais uma vez ninguém leu o acórdão e leram a notícia parida no Público e que já se tornou bastarda porque adulterada nos genes de origem.

O acórdão pode ser lido online, aqui.  Não subsiste qualquer dúvida de que a decisão da Relação ( Juizes Neto de Moura e Luís Coimbra, esquecido porque o Neto de Moura é mais mediático...) assenta em pressupostos jurídicos que decorrem da lei que a primeira instância não respeitou.  Portanto, a notícia do Público de ontem é falsa na sua essência. Não foi uma decisão arbitrária do juiz Neto de Moura nem sequer polémica, mas bastou para reacender a polémica ad hominem contra tal juiz, objectivo deliberado na notícia de primeira página e que serviu para atear a fogueira mediática que se seguiu, com todo o sucesso. Se fosse ao juiz em causa recolhia essa prova digital para instaurar uma acção cível contra a jornalista do Público, Ana Henriques e pedir uma indemnização substancial por difamação e ofensa à honra de um juiz de direito. 20 mil euros deveria chegar para   na próxima vez ter maior cuidado no que escreve  e não dar azo ao efeito incendiário que provoca na boa imagem seja de quem for. A Inquisição nem funcionava assim porque o que aqui está em causa é a justiça popular, populista que o jornalismo do Público concita.

Mas vejamos o fundamento da decisão em concreto. De que se trata afinal a tal medida, pena acessória, que foi aplicada pelo tribunal de primeira instância?  Será que este jornalismo de Curso de Comunicação Social acelerado em três anos, procurou saber do que se tratava?

Citemos o acórdão, no fundamental ( o que este jornalismo de meia malga deveria e poderia ter feito porque teve espaço e tempo para tal):

Tendo sido suspensa a execução da pena de prisão, e sendo a suspensão acompanhada de regime de prova, é evidente que os objectivos que se visam com a pena acessória de proibição de contactos com a vítima seriam melhor alcançados no âmbito desse regime (que passa pela elaboração e implementação, a cargo dos serviços de reinserção social, de um plano individual de reinserção social do arguido) e com a imposição de deveres e regras de conduta.
Mas, ainda que muito perfunctoriamente, o tribunal a quo justificou a aplicação da proibição de contactos na sentença recorrida.
Tendo sido, várias vezes, ameaçada de morte pelo arguido, é compreensível que a ofendida se sinta, ainda, intimidada e insegura, com receio de que ele concretize as ameaças e a proibição de contactos pode ajudá-la a superar esse medo, pelo que podemos considerar verificados os respectivos pressupostos formais e materiais da aplicação dessa pena.
O que não está, de todo, justificado na sentença recorrida é o (longo) período fixada para essa proibição.
Aparentemente, fez-se corresponder a duração dessa pena acessória ao período de suspensão da execução da pena de prisão, mas não existe, nem tem que se estabelecer, qualquer conexão entre a pena de substituição e a pena acessória.
Depois que lhe foram aplicadas as medidas de coacção (entre as quais o afastamento da residência e a proibição de contactar, por qualquer meio, com a ofendida), o arguido nunca mais incomodou a sua (ex)mulher e cumpriu, escrupulosamente, as medidas impostas.
Por outro lado, o arguido está, agora, divorciado da assistente e a tendência natural será que cada um siga o seu caminho, refaça a sua vida e não voltem a contactar um com o outro, pois não há motivo para tanto (o único filho de ambos há muito que se autonomizou).
Também relevante é o facto de o arguido estar a seguir programa de tratamento da sua dependência alcoólica, que esteve na base dos actos de violência praticados contra a sua (ex)mulher.
Não há razões de prevenção, nem se antolha qualquer razão válida para que a pena acessória de proibição de contactos tenha duração superior à pena acessória de frequência de programa de prevenção da violência doméstica: um ano.
Na sentença recorrida determinou-se, ainda, que a proibição de contactos com a vítima fosse fiscalizada por meios técnicos de controlo à distância.
Também essa decisão não está, minimamente, fundamentada.
Como se decidiu no acórdão da Relação de Guimarães, de 21.09.2015 (CJ, Ano XL, T. IV, 301) e resulta do citado n.º 1 do artigo 35.º da Lei n.º 112/2009, a utilização desses meios requer, desde logo, um juízo de imprescindibilidade dessa medida para a protecção da vítima, juízo que a sentença recorrida omite.
Por outro lado, está dependente do consentimento do arguido e da vítima, nos casos em que a sua utilização abranja a participação desta, e não se vislumbra que tal consentimento tenha sido obtido.
É certo que na sentença recorrida se consignou que se dispensava esse consentimento, mas, nos termos do n.º 7 do artigo 36.º, ainda da Lei n.º 112/2009, para tanto, é necessário que o juiz, “de forma fundamentada, determine que a utilização de meios técnicos de controlo à distância é imprescindível para a proteção dos direitos da vítima”, mas a sentença, também, omite essa fundamentação.
Não pode, pois, manter-se a decisão de utilizar meios técnicos de controlo à distância na fiscalização do cumprimento da pena acessória de proibição de contactos.

Isto, uma decisão destas, deveria chocar alguém?!

Mais ainda: a medida de controlo electrónico à distância, vulgo pulseira electrónica ( aqui explicada no seu modo de funcionamento prático) , tem regras legais de aplicação e que diferem das que são aplicadas a arguidos em função de medidas de coacção. Basta ler os artigos 35º e 36º  desta Lei. Os jornalistas de meia malga foram ler?  Acham que não precisam e podem escrever as baboseiras que entendem desde que cheguem às emoções primárias dos leitores, com meias mentiras? Isto é jornalismo digno?! Tomem como exemplo o Correio da Manhã de hoje! E não costumo louvar o jornal, nestas coisas...

Mais ainda: o que aconteceria na prática, segundo a lei, se o juiz Neto de Moura tivesse mantido a decisão ilegal da primeira instância e o condenado inutilizasse o dispositivo electrónico? Isto que um acórdão da Relação de Coimbra, de 2015 explica em termos técnicos mas que em resumo se pode dizer: nada! Ou pelo menos não veria revogada a suspensão de pena...

É inequívoco que o condenado não cumpriu as obrigações impostas a título de penas acessórias.

Contudo, o incumprimento de penas acessórias não está previsto no artigo 56.º, do Código Penal, como uma das causas de revogação da suspensão da pena, mas sim tipificado e sancionado pelo artigo 353.º, do Código Penal, como crime de violação de imposições, proibições ou interdições.

Na fixação do sentido e alcance da lei, o intérprete presumirá que o legislador consagrou as soluções mais acertadas e soube exprimir o seu pensamento em termos adequados, nos termos do artigo 9.º, n.º 3, do Código Civil,

Assim sendo, face à clareza do que consta do artigo 56.º, do Código Penal, onde não é feita qualquer alusão à violação de penas acessórias, salvo o devido respeito, a argumentação que consta do despacho recorrido enquadra-se mais no âmbito do direito a constituir.

Da mesma forma, os termos em que se encontra redigido o artigo 353.º, do Código Penal não deixam margem para qualquer dúvida quando está em causa uma pena acessória.

Não vislumbramos qualquer lacuna legal no direito constituído que possa justificar a necessidade de enveredar por tal caminho.

Só se tivesse ocorrido uma violação de um dever imposto, enquanto condição da suspensão da execução da pena de prisão, seria possível determinar a revogação da suspensão da execução da pena aplicada ao condenado.

Aliás, tal revogação continua em aberto, caso o arguido venha a ser julgado e condenado no âmbito do processo à ordem do qual se encontra em prisão preventiva ou de outro, pela prática do crime p. e p. pelo artigo 353.º, do Código Penal.

Haja senso e haja principalmente competência e sabedoria para ler as decisões dos tribunais que aplicam a lei e o direito.

A violência doméstica é um problema grave mas tem várias facetas. E a da vítima é apenas uma delas. Sobrevalorizar tal faceta para dar ênfase à Causa Feminista é um erro porque é uma injustiça.  E o jornalismo não deve ser um instrumento de causas, sejam elas feministas ou machistas, o outro lado da mesma moeda.

Mais ainda e só agora me ocorreu escrever: a vítima, entre a datas da decisão de primeira instância e da decisão da Relação que mediaram alguns meses, ficou sem protecção derivada da tal pulseira electrónica, porque a decisão não transitara em julgado e portanto não era aplicável.

Porém , nada impedia, como não impede agora ( e o advogado deve ter responsabilidades nesta manipulação vergonhosa porque deu palpites sobre o assunto, mas não explicou isto...) que se fosse ameaçada de qualquer modo apresentasse nova queixa e o denunciado fosse novamente sujeito a medidas de coacção, incluindo a tal pulseira electrónica.  Os factos por que foi julgado no acórdão datam de uma ocasião precisa no tempo.  Agora é outro tempo...

Porque é que isto não se escreve nos jornais?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A causa do Público: deslegitimar o poder judicial

O Público de hoje, num artigo nojento e ignominioso ( explicarei o porquê dos epítetos) assinado por Ana Henriques, fustiga uma vez mais o juiz Neto de Moura por causa de decisões judiciais que tomou em conjunto com outros juízes. ( devo já dizer, como "disclaimer",  que não conheço o juiz em causa, ninguém me encomendou sermão e chateia-me apenas que se escreva de modo injusto sobre alguém).
O esquema mediático funciona assim:

Primeiro aparece um jornal com a notícia falsa. É disso que se trata porque no caso a notícia do Público é falsa na sua essência.

Depois, aparece o trailer do costume, no Sapo, com as réplicas nos media virtuais, no Observador. Neste caso já está tudo em marcha acelerada...repare-se se aparece alguém a esclarecer o carácter falso da notícia ou a desvirtuação do assunto. Um jornalismo destes é de canivau. De sarjeta, de facto.

A partir de certa altura a notícia nem sequer é a original, mas a que resultou da sua desvirtuação. Sem contraditório, sem ninguém que a denuncie nas mesmas plataformas. Nada. Apenas a mensagem da Causa.

Desta vez o assunto é um acórdão de Outubro de 2018 ( um ano depois do que foi pasto de chamas histéricas do feminismo de causas) sobre o mesmo tema da violência doméstica.

O artigo:


Porque é este artigo nojento? Porque mete nojo usar o nome de um juiz colocado no pelourinho mediático pelo mesmo jornal, a propósito de decisões judiciais polémicas, como podem ser quase todas, mas que são erigidas em causas de activismo político. É disso que se trata no jornal: tentar de algum modo alterar politicamente a opinião pública acerca do modo como os tribunais analisam e decidem este tipo de questões.
Porque mete nojo usar a figura e o nome de um juiz para ilustrar um caso concreto que não relata uma realidade, antes apresenta no escrito outra realidade alternativa e de que aliás o próprio artigo dá conta, sendo assim tamanha a desfaçatez.

Porque é um nojo ser-se tão ignorante de certas questões e apresentar tanta certeza neste cagar de opiniões escritas permanentes. Tal ignorância básica manifesta-se logo na circunstância de se apresentar como paradoxo ( saberá a jornalista o significado da palavra?) "um tribunal retirar a vigilância electrónica a alguém já condenado e que usou a pulseira electrónica enquanto aguardava julgamento e era um mero arguido". A burrice no escrito é tanta que até me dispenso de apontar a asneira.

É ainda um nojo usar o nome do juiz em causa, como figura de proa de uma decisão que não lhe deve ser imputada mas apenas à redacção da própria lei, como dão conta os "peritos" do costume consultados por telefone, pela certa. Aparece  o  habitual representante da APAV, que defende causa própria para manter posto de trabalho remunerado, a representando habitual da UMAR ( organização de mulheres feministas que lutam pela causa), um ou dois professores de Direito e um advogado. Todos atestam objectivamente a irresponsabilidade concreta do juiz Neto de Moura nesta decisão concreta.

Pois nem assim foi suficiente para que o título de primeira página fosse este:


E aqui entra a ignomínia a juntar ao nojo: o juiz Neto de Moura foi ouvido pelo Público e justificou-se a propósito do assunto. O artigo mostra que assim foi e nem assim foi suficiente para evitar a ignomínia do título e a notória intenção de denegrir pessoalmente o magistrado.

Esta táctica deste jornalismo de causas provavelmente não vai parar, no Público. Nada vai acontecer a esta jornalista que incorreu na prática de um crime ( porque é um crime difamar alguém deste modo continuado) a não ser que o ofendido faça queixa ou ponha uma acção cível para a responsabilizar pelas asneiras e difamação.

O livro de Estilo do Público é letra morta para este jornalismo. Até lhe deram a palavra, vejam lá!

Para concluir a Causa a edição de hoje publica um artigo de opinião de um catedrático de Direito da Universidade do Minho, um tal Wladimir.


Perante a ignorância acerca da identidade da personagem fui ver: é doutorado na área Jurídico-Política. Nem mais. Já jubilado, dedica-se a outras causas do povo: foi activista político da CDU e agora é do BE.
Nem é preciso mais, a não ser uma coisa: nunca deve ter feito uma sentença na vida, percebe nada de processo penal e atreve-se a comentar o que aparentemente não sabe, em modo catedrático, sobre o acórdão de Neto de Moura, o pretexto para mais esta invectiva da Causa. É demasiada prosápia e aconselho a personagem a consultar com urgência um colega de Penal, na mesma Universidade. Pode ser o antigo magistrado Manuel Simas Santos. Também foi da esquerda comunista e co-anotou o Código Penal de 1982. Talvez lhe explique que os sapateiros não devem ir além da chinela...

Estas Causas do Público fazem lembrar outras um pouco mais antigas mas com o mesmo perfume de estrume.
Usaram-nas para adubar ideias peregrinas do tempo marxista-leninista, corrigido por um Marcuse quaquer, aproveitado por um Foucault pédé.

De onde proveio esta onda de esquerdismo de causa feminista, no Público e noutros sítios onde pululam jornalistas formados em Comunicação Social em cursos extraordinários?

Tudo isto tem uma raiz, uma origem, uma fonte.

Em 13 de Agosto de 2001 a revista francesa Marianne dava uma explicação interessante que se aplica ao caso português. Afinal os professores de "Comunicação" existentes inexistiam há umas décadas. O curso é novo na Nova e o professorado andou todo no mesmo lado da barricada: o esquerdismo militante.

A Causa era a do Povo. Agora é uma Causa qualquer que será substituída por outra mais conveniente logo que chegar a oportunidade. O desiderato, esse, é o mesmo de sempre: desconjuntar o tecido social tal como o conhecemos da Tradição, remendando no mesmo patches de aversão a Deus, Pátria e Família. Nichos de contestação a valores reconhecidos durante séculos e substituídos pela afeição à Natureza que os há-de repelir; aos Animais que afeiçoam em modo esquisito e zoófilo e à destruição da Família através de esquemas de contestação do poder, com o objectivo de o colocar todo ao serviço do feminismo.

A deslegitimação do poder judicial, por essa via é essencial. Assustando os juízes com a Comunicação Social e artigos do género que o Público hoje mostra, consegue-se o objectivo de condicionar decisões favoráveis à Causa. O próprio CSM já comunga do mesmo receio e por isso está no papo.

Veremos até onde vai a ofensiva destes filisteus. Em França foi assim. Uma citação ao acaso: " É na cultura que a crise de poder foi mais espectacular. Na literatura, o passado esquerdista serve de caução moral".  E depois outra: " Os maoistas, últimos filhos de Estaline". Nem mais.  Veja-se de onde vem o Público e quem foram os seus fundadores.

O celebrado José Queirós, um dos fundadoresdo Público, recentemente falecido e alvo de obituários de admiração extasiada de jornalistas que formaram já os actuais jornalistas destas causas, tinha sido um activista destas ideologias:

Talvez estivesse demasiado envolvido na luta antifascista. Fez parte d’O Grito do Povo. E tornou-se dirigente da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP), criada em 1972 a partir da junção do grupo do Porto que publicava o jornal O Grito do Povo e dos núcleos O Comunista.
Conta o historiador José Pacheco Pereira que José Queirós “teve responsabilidades nas Beiras”. Nessa qualidade, tinha que zelar pelos quadros que estavam na clandestinidade e pela distribuição de imprensa clandestina. Nos turbulentos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, ainda fez parte do Comité Central do OCMLP. Cedo foi afastado.
O historiador José Manuel Lopes Cordeiro precisa que José Queirós era responsável apenas pela organização da Beira Litoral da OCMLP. E que integrou ininterruptamente a direcção da OCMLP desde os finais de 1973 até Janeiro de 1976.


Tal como os palheiros não se fazem sem palha, este jornalismo foi pensado com este  alimento de asnos, durante décadas. E continua:



domingo, 24 de fevereiro de 2019

O jornalismo sensação do Correio da Manhã

O CM anda a auto-promover o seu estilo de jornalismo nas páginas dos suplementos que publica, para comemorar os 40 anos do jornal, com efeméride no próximo mês de Março.

Anteontem, ontem e hoje mostrou isto, de uma agência de publicidade não identificada.


O tom auto-laudatório e encomiástico não fica bem porque elogio em boca própria é vitupério, mas esta gente não conhece ditados antigos. Os cursos de Comunicação Social da Nova e outras não dão para tudo...

Atentemos na frase do dia de hoje: "Incêndios, cheias, manifestantes exaltados, cargas policiais, políticos com nervos em franja: são assim os dias dos jornalistas do Correio da Manhã. "

A Wikipedia define assim o jornal:

O Correio da Manhã é um jornal diário português do tipo generalista. É líder de mercado em Portugal, com mais de 110 mil exemplares vendidos por dia. Foi fundado em 1979 por Vítor Direito e adquirido pela Cofina em 2000.[1] Iniciou a sua publicação em 19 de março de 1979. Tal como os tabloides ingleses, é caracterizado por suas notícias de caráter sensacionalista.

Exemplos? Alguns recentes:



Jornalismo exemplar!

Na edição de ontem, o professor Rui Pereira, antigo governante do PS, tem este artigo lamentável em que defende o indefensável, ou seja, o sensacionalismo como jornalismo exemplar.



Deixo uma pergunta: a quem pretende enganar Rui Pereira? A si próprio?

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Gato por lebre: mais um caga-lérias

O palhaço rico RAP, comunista de ocasião,  tem direito a uma entrevista extensa no Expresso de hoje. Já é um intelectual com o Curso de Comunicação Social da Nova, de três anos com licenciatura incluída. Depois leu muito. Há muitos que lêem e nem curso têm, mas este tem curso e leituras. E agora atreve-se a dizer coisas de professor doutor com experiência de vida.

Irrita-me solenemente este palerma porque se dá ares, dizendo que se desfaz para se proteger dos que o poderiam fazer. Não desfaz nada e apenas faz de conta que se desfaz porque é um autêntico virtuoso da desfaçatez.

Vamos lá a duas páginas da entrevista que o resto fica por conta do fastídio e nojo que me causa.


Diz que se alistou no PCP em 1998, aos 24 anos.  Diz que foi por acreditar ser o PCP um partido importante na democracia portuguesa. Tão importante como uma viola num enterro...atento o carácter intrinsecamente estalinista de um partido que nunca deixou de o ser e evidenciar tal propensão em todas as publicações conhecidas ( O Militante, o Avante) embora o esconda do público em geral sempre que se apresenta a eleições.

Portanto, conclusão: oportunismo inconfessável. É a única explicação razoável. A esquerda domina o panorama intelectual nacional e por isso é de bom tom e terá sempre as boas graças dos poderes públicos e privados associados que lhe alimentam a conta bancária. Pertencer ao PCP é uma espécie de bibelot legitimador para decorar os extractos bancários e registos de propriedade.

Depois teoriza sobre o humor do alto da cátedra do curso de Comunicação Social. Seja, não virá daí mal ao mundo.

A seguir refere que não pretende dar lições de moral quando está sempre a oferece-las. É um dador inveterado de lições de moral gratuita. Sobre a liberdade, a tolerância, etc etc. Num dos últimos sketches do Gente que não sabe estar apresentou o juiz desembargador Neto de Moura como infantil, mais imbecil que uma galinha e mais tapado que um calhau com olhos. Tudo por causa da menção ao adultério na peça processual. Para quem não pretende dar lições de moral...



Diz que o colega de painel num programa de tv, Pedro Mexia, é de direita. Estamos conversados sobre a concepção do espectro político que mantém.

Finalmente entra na apresentação de temas intelectuais de alto coturno. Para alguém que se embevece com as palavras e deslumbra com a palavra "paióis" ao ponto de a repetir em mantra de êxtase de descoberta é sintomático.

Diz que a rainha Victoria tinha um bobo a quem exigia o piorio em violência verbal para se descontrair.

Não sou versado em História da Inglaterra do séc. XIX mas o que sei chega para consultar a NEt e duvidar que a rainha Victoria tivesse um "jester" desse estilo; que lhe exigisse tal procedimento e fosse possível caracterizar a monarca de tal jeito. Enfim, dou de barato que é mais uma palermice dita com o ar de arrogância conhecido mas esbatido na auto-complacência.
Logo a seguir cita a Idade Média como época de trevas  em que o riso era o pior que poderia acontecer à Humanidade e por isso proibido. "Muito riso pouco siso" virá daí, segundo este erudito do curso de Comunicação Social da Nova onde se inteirou de toda a problemática do mundo moderno e das soluções para a resolver, tudo em três anos incluindo workshops de Verão.

Em que sítio descobriu este palhaço da Comunicação Social tal concepção?

Não adianta continuar mais a escalpelizar os dizeres da entrevista porque se revela que o indivíduo atingiu o estádio da auto-suficiência erudita que lhe permite citar a sabedoria infusa difundindo o conhecimento inerente.
Um caga-lérias com a essência fake, este palerma. Acreditem. E das pessoas mais insuportáveis que aparecem nos media. Um  gato na pele de lebre, de facto.

Os obituários de Arnaldo Matos na imprensa nacional: de Mao a Piao

Os obituários publicados hoje nos principais jornais ( excluo o Correio da Manhã cujo obituário não tem interesse algum porque é apenas o que deveria ser o normal, se a personagem o fosse) são muito curiosos e evidenciam a verdadeira natureza e génese dessa imprensa: a esquerda radicalizada, pró-comunista ou de puro companheirismo de caminho, como o Expresso, o compagnon de route por excelência.  O Expresso é um verdadeiro guia do routard destas aventuras da extrema-esquerda, na medida em que lá foi acoitando ao longo dos anos os trânsfugas dessa viagem de malucos sem remissão.

O primeiro obituário, o mais extenso, significativo e característico é o do Público.

Começa com o de Pacheco Pereira, um antigo extremista de esquerda, concorrente feroz da ideologia doida do maoismo do MRPP, aplicada a Portugal com o afinco dos mentecaptos. Pacheco Pereira nada esqueceu a não ser o que lhe interessa e pouco aprendeu, continuando a pensar com os mesmíssimos esquemas mentais que conduziriam a um totalitarismo, no caso de ter oportunidade para tal.

Pacheco Pereira, na sua idade adulta e esclarecida intelectualmente, defendia para Portugal um modelo de sociedade em que o comunismo pregado no Leste europeu das albânias e roménias ou no extremo-oriente dos maos chuenlai seria a salvação para todos, pobres incluídos. Com ele e outros como ele, a mandar, claro.

Em 1971 quando o MRPP era um movimento clandestino concorrente do de Pacheco Pereira o maoismo estava já completamente desacreditado em França, por denúncia de Simon Leys que estes indivíduos não desconheciam.
Alguns, como José Manuel Fernandes, antigo director do Público só descobriram o logro, nos anos noventa, já na 26ª hora depois da queda do comunismo quando leram "Os Cisnes Selvagens"! Inacreditável!

A denúncia do terror e do totalitarismo, aliás, nunca os afastou da ideologia que professaram e defenderam depois do 25 de Abril de 1974 que "derrubou a ditatura" mas que os mesmos pretendiam substituir por outra sem comparação possível e um imenso gulag para a maioria dos portugueses, nem que para isso fosse preciso eliminar alguns milhares deles. Era isto em que acreditavam e se propunha fazer se tivessem oportunidade.

Quem assim pensou e lutou por isso em movimentos políticos não merece a mínima condescendência intelectual. Zero. Pacheco Pereira foi um deles.

Este palerma nunca assumiu essa loucura e continua a escrever assim, ocultando todos os aspectos perversos da actuação política do finado durante o PREC, com particular destaque para os que foram ontem elencados por Helena Matos ( que foi também extremista mas se arrependeu a sério, tal como Rita Seabra ou José Milhazes e não como os cristãos novos do comunismo/democracia que permanecem essencialmente na mesma, no seu íntimo), no Observador:


O obituário do Público agrega ainda outros esquerdistas antigos que nada aprenderam e pouco esqueceram, sendo pessoas que "ficaram na mesma", no seu interior ideológico.
 O sinistro Vítor Ramalho é um dos melhores exemplos. Nenhum deles se lembra do que o MRPP fez durante o PREC, particularmente o que fizeram no RALIS e a um herói nacional, verdadeiro, chamado Marcelino da Mata, cujo nome nem sequer querem ouvir falar porque os assusta. É por isso que não falam nele, nos jornais e ocultam e censura qualquer ensejo de homenagem. É uma pessoa que sabe o que foi Portugal antes de 25 de Abril de 1974 e aquilo em que se queria tornar por obra e graça dessa canalha, com destaque particular para este finado e os que assinam este obituário.

Não é por acaso que o Público se transformou num cóio de esquerdistas extremados no pensamento e adeptos de causas próprias a esse estado de espírito, como as que proliferam na capa do jornal, todos os dias, desde a sua fundação em 1990:




O Expresso é mais parcimonioso mas não menos consensual naquele entendimento censório.

O artigo de Ramalho Eanes compreende-se porque foi um dos que acompanhou a formação inicial do alferes Arnaldo, militar no Oriente, onde se instruiu acerca das maravilhas do totalitarismo maoista, marxista-leninista e de quem se tornou amigo.  Uma maravilha que queria replicar por aqui sendo ele o "líder" e "educador" de uma classe a que não pertencia.

O resto do obituário é a sensaboria típica do jornal. Repare- se no título inacreditável:



O Sol é a mesma coisa: verbo de encher. Os mínimos para assegurar que comparecem ao panegírico. Mariana Madrinha? É familiar do Madrinha do Expresso? Deve ser. E ainda falam do Governo...


 Enfim, esta  resenha cheira a mofo, não vai ao ponto e deixa de fora todo o panorama em que se moveu este desgraçado.
Quem ler estes obituários fica a pensar que estamos perante uma figura de relevo nacional digna de toda a admiração e é exactamente o contrário.

Repare-se neste obituário avant la lettre, feito aqui há um pouco mais de um ano, sobre esta cambada de doidos que se levaram a sério e foram seguidos por inúmeros palermas, alguns dos que agora escrevem os obituários acima elencados:

                                                                             ***

  Nas semanas e meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 o país transformou-se numa exposição a céu aberto do grafitismo político, tantas as pichagens e inscrições murais de carácter político que então surgiram.
Virtualmente nenhuma aldeia do país ficou isenta de tais apresentações gráficas de cariz propagandístico.
Um dos movimentos políticos que mais se destacaram na pintura de paredes foi o MRPP, cujas duas últimas letras da sigla chegaram a estar associadas a tal actividade: pintores de paredes. O mais célebre slogan pintado: "Nem mais um soldado para as colónias!"  Grande obra a dos notáveis do MRPP !, hoje situados em lugares de relevo no panorama social e que nunca pagaram o devido preço dessas parvoíces que escreveram e que nos trouxeram desgraças sociais várias.

Esse fenómeno político, daqueles anos, tinha aparecido originariamente no início dos anos setenta, em Lisboa e nos meios estudantis, segundo reza a história, no caso escrita por Miguel Cardina.

Entre os seus mentores da época estavam estudantes que mais tarde se notabilizaram em lugares de destaque político e jornalístico e ainda intelectual que ficaram para sempre conhecidos como ex-maoístas: Durão Barroso,  José Lamego, Jorge Coelho, Maria João Rodrigues  Nuno Ribeiro da Silva,  Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Maria José Morgado e Saldanha Sanches,  bem como os jornalistas José Manuel Fernandes,   Manuel Falcão  e João Mesquita, antigo presidente do sindicato dos jornalistas, a dirigente da comunidade israelita de Lisboa, Esther Mucznik, e o académico António Costa Pinto.
Quem os ouve, hoje em dia, parece que foi tudo a reinar. Coisas de juventude, natural e perfeitamente aceitável. Só que a juventude não é desculpa para a estupidez ou a ignorância relapsa de quem não procurou informar-se podendo e devendo fazê-lo. Daí que as razões dessas opções políticas residam muito mais na personalidade sui generis dos militantes do maoísmo serôdio e sem eira nem beira, neste canto à beira-mar plantado há muitos séculos.

Uma coisa que sempre me espantou foi a circunstância de essas pessoas, na época, serem estudantes que liam e pelos vistos "liam tudo", como diria mais tarde um deles, anotado pelo  Público, em 15.8.2004:

Terão eles mais em comum do que esta incursão pela extrema-esquerda? Pois é aqui que regressamos às preferências do patrão do "Expresso" e da SIC pelos maoístas. "Devido à nossa enorme capacidade de trabalho", justifica José Manuel Fernandes. Ainda mais fundo: ninguém que tenha sido formado em jovem nas organizações de extrema-esquerda pode sair igual aos outros que não tiveram esta experiência. Estavam lá a tempo inteiro, pertenciam a uma minoria activa, o que acarretava riscos vários, extremavam-se em aperfeiçoar a arte de transmitir convicções. Como tinham lido quase tudo, eram a seu modo, um grupo de iluminados.Jorge Coelho: "Características deste gente? Grande nível de preparação política, grande capacidade de trabalho e disciplina, de determinação". Ana Gomes: "Foi uma escola política que marca no tipo de raciocínio, de análise e até de linguagem". O que justificará em parte, o ainda discurso inflamado da dirigente socialista: "Talvez ainda não esteja formatada de modo adequado". A ruptura, para a maior parte deles, começou pela constatação que o ambiente nas suas organizações se tornara "insuportável", concentracionário. E também pelo que dizem ser a "falta de sentido" que de repente encontraram na sua militância. Foi esta a experiência de Maria José Morgado e de Ana Gomes. Tinha acontecido o 25 de Abril, existia liberdade, mas eles continuavam a actuar como se ainda fosse o fascismo. Este desapego da realidade sentiu-o Ana Gomes com toda a força quando foi obrigada a isolar-se em casa com a sua filha, de seis meses, que apanhara uma pneumonia durante as suas constantes andanças com a mãe

Todas estas pessoas se formaram com estudos de universidade e encarreiraram de diversas formas.  Como foi possível passarem esses anos todos sem que se dessem conta do logro, do embuste politico-ideológico que depois vieram a reconhecer  com toda a candura décadas mais tarde?
 Como é que tais evidências agora reconhecidas não o foram na época em que poderiam ter sido e muitos reconheciam?  Que estranha cegueira os atingiu de modo fulminante nesse tempo?

(...)

 Mas foi preciso esperar pelos anos 90 para que a José Manuel Fernandes lhe caísse em cima "o lado negro e trágico da Revolução Cultural chinesa". Aconteceu com a leitura de "Cisnes Selvagens", o livro de Jung Chang que está para a China como o "Arquipélago de Gulag" esteve para a URSS. Devastador. Um arrepio: "Quando li este livro uma das coisas que me impressionou naquele tipo de vida, na dedicação que era exigida, é que aquilo era muito parecido com o que tinha vivido nas organizações a que pertenci".Alguns curaram as feridas no chamado Clube da Esquerda Liberal, já nos anos 80. Ficaram vacinados. É o que assumem, pelo menos. "Quando se acredita numa verdade absoluta e depois acontece o descalabro fica-se a perceber melhor o relativismo das coisas. Tornei-me assim uma pessoa muito anti-dogma", descreve Maria José Morgado. "Ter sido maoísta faz-me sentir muito mais vigilante, ter muito mais cuidado com as tomadas de posição, ter um muito maior apego às instituições e à democracia liberal. É preciso não forçar demasiado o sistema porque a democracia é um bem frágil", diz Costa Pinto, que precisamente elegeu como sua área privilegiada de estudo a democracia e o autoritarismo. O que são então eles hoje? José Lamego propõe uma grelha: "Há duas camadas geracionais: a dos militantes esquerdistas contra a ditadura e que está à esquerda. E a experiência esquerdista em afrontamento com o PC e que está à direita. Foram formados na luta contra o PC". É o caso, entre outros, de Durão Barroso.

 É essa tentativa de compreensão  que procuro fazer aqui com algumas indicações do tempo e que parece terem sido completamente ignoradas por esses indivíduos, em prol de fézadas que se revelaram enganos ledos e cegos que a fortuna, apesar de tudo ainda deixou durar muitos anos.

Antes de 25 de Abril de 1974 o maoísmo era a China de Mao e a política externa que alguns países então desenvolveram de aproximação à China, porque era assim que se apresentava nos media existentes. A visita de Nixon à China foi um acontecimento de relevo mundial.

A revista Observador de 3.12.1971 mostrava em duas páginas "o pensamento de Mao"...




Em 25 de Fevereiro a mesma revista apresentava a visita de Nixon apenas como um "grande negócio"...





Em12.11.1971 a revista Vida Mundial mostrava quase a mesma coisa: uma China irreal e desconhecida que aparecia filtrada pelos media, em que não se falava de comunismo, maoismo, Revolução Cultural ou outros temas claros e elucidativos do que realmente se passava nesse país.


Essas revistas pareciam versões em reader´s digest da Foreign Affairs americana. A realidade chinesa pura e simplesmente não existia como facto noticioso.

E quem elucidava verdadeiramente o que se passava no país de mais de um bilião de pessoas, em pleno refluxo de uma Revolução Cultural muito aplaudida pelos maoistas serôdios de cá?

Pois, quem lá viveu o tempo suficiente para perceber o que se passava. E escreveu um livro publicado em França, em finais de 1971 que por cá passou completa e incompreensivelmente ignorado, eventualmente até hoje.

Simon Leys era o autor, mas um pseudónimo de um indivíduo belga, Pierre Ryckmans, então refugiado na Austrália e que ninguém conhecia.
Nas revistas francesas de esquerda , na época, em finais de 1971 ( Tel Quel, bíblia do esquerdismo nacional e Le Nouvel Observateur, do socialismo democrático francês de Jean Daniel) a demolição do livro e do seu autor foi de preceito.

Por cá, nem se falou no livro, quanto mais nas ideias que lá vinham e que eventualmente teriam demovido de muita parvoíce os então maoistas em gestação acelerada.
Nenhuma revista falou ou recenseou a obra que eventualmente nunca foi traduzida em Portugal até hoje.

O livro retomava a célebre historieta infantil dos trajes novos do imperador...que afinal ia nu, para denunciar as manobras criminosas de Mao e da sua clique para se amparar do poder, através de uma fantasiosa Revolução Cultural, como de facto aconteceu.


Há dias, em 26 de Agosto, a revista Le Figaro Magazine recordou o que se passou com a publicação desse livro em França e a perseguição pessoal movida ao autor pela intelligentsia de esquerda francesa que dava cartas aos intelectuais de cá. Aos pachecos pereiras e afins prados coelhos, para além dos maoistas nascentes.




 É algo estranho que no Portugal da época tenha passado completamente ignorada esta obra, de denúncia de um maoismo criminoso, tal como tinha sido o estalinismo denunciado pelos sucessores ( Krutschev). Porém ainda é mais estranho que os maoistas nascentes não tenham dado importância a um livro que certamente conheciam pelas leituras francesas que então faziam ( "liam tudo"...)

Alguém explicará esta ignorância estratégica?

Por isso mesmo e por outras razões em 1974 os maoistas portugueses estavam virgens de tais ideias e factos. Ou faziam de conta. E por isso deram em reproduzir as parvoíces que imaginavam aplicáveis a uma sociedade como a portuguesa.

Nos muros de 1974 e 75 apareciam cartazes como estes, publicados no livro A guerra dos cartazes.



E se não conheciam o livro de Simon Leys conheciam muito bem as parvoíces perigosas que aqui se escreviam e foram logo publicadas em Junho de 1974.



Coisas como estas que Saldanha Sanches, Maria José Morgado e outros comiam ao pequeno almoço...coisas sobre a guerra, a luta de classes, as armas para liquidar a burguesia e outras parvoíces que não tenho bem a certeza que alguns tenham abandonado, como tal. Pessoas muito inteligentes, estas...


E afinal o que era o MRPP? Um antro de doidos políticos como continua a ser e que vivem ainda à custa do Estado português que os subsidia emquanto a Constituição proíbe as "organizações fascistas" e permite estas "maoistas", muito mais civilizadas e democráticas...

Em Novembro/Dezembro de 1974 não faziam segredo algum dessa loucura colectiva que até denunciavam os outros malucos do asilo ( os do PCP) como inimigos irredutíveis:



 Em Abril de 1975 até concorreram a eleições, apesar do boicote dos demais partidos esquerdistas cujas revistas de propaganda nem os conheciam...

Porém, a Vida Mundial de10.12.1974 apresentava assim o MRPP e as suas "bases programáticas", com que se apresentava ao eleitorado, já como partido:


A Flama de então ( fora do Patriarcado e estava nas mãos dos comunistas, um tal Alexandre Manuel e outros)  nem sabia quem era o MRPP, mas dava o destaque principal a Soares e Cunhal.


Na época a proliferação de grupelhos "m-l" ( que os pachecos pereiras afeiçoavam ideologicamente) era pior que a dos cogumelos na humidade, como mostra este gráfico do blog mencionado, de Miguel Cardina:


E como é que os demais "m-l" lidavam com o "líder da classe operária" e sus muchachos n o MRPP? Na revista Manifesto, de Fevereiro de 1975, então dirigida por Guerra Madaleno ( um advogado agora na berra...) foi publicada a posição desses malucos, em "mesa-redonda" sobre vários assuntos:




Segundo se noticia, o finado, à semelhança de outros como ele, não teve paz em vida e na morte também não. É portanto um desgraçado completo. Viveu de ódio e morre no ódio. Paz à alma deste desgraçado e que Deus tenha compaixão deste maluco.


Um dos filhos de Arnaldo Matos, Pedro Matos, acusou este sábado o PCTP/MRPP de ter “montado” um velório e “funeral-sequestro” ao seu pai, recusando participar nas cerimónias fúnebres do político. Arnaldo Matos morreu esta sexta-feira aos 79 anos.

Numa nota enviada à Agência Lusa, Pedro Gonçalves Matos, refere que o seu pai “morreu em casa alheia”, explicando que depois de “tardiamente avisado” e quando foi ao local para resgatar o corpo, a dirigente Maria Adelaide Teixeira, “do alto dos seus quase 80 anos, injetada de ódio e envergando pose de guarda de campo de concentração”, informou-o da vontade de Arnaldo Matos de ter as cerimónias fúnebres totalmente controladas pelo partido.

Segundo Pedro Gonçalves Matos, as palavras que a camarada lhe terá dirigido foram as seguintes: “Temos pena que tenha chegado a isto, mas então é assim: o velório e o funeral são do partido; as cinzas são da família”.


Nota: o acrescento Mao a Piao foi depois de ter lido um comentário no Observador, embora a expressão seja antiga.

A lua de há 50 anos