Expresso online:
A redacção, formada por uma dezena de profissionais, é chefiada por Augusto de Carvalho, que conta com o apoio na secção nacional de José Manuel Teixeira. Outros redactores são Fernando Ulrich (que, sob o pseudónimo de Vicente Marques, faz a crónica bolsista), António Patrício Gouveia (economia), Álvaro Martins Lopes (internacional), Inácio Teigão (desporto), Fernando Brederode Santos (que já estivera preso pela PIDE, tal como o director de publicidade, Jorge Galamba). Teodomiro Leite de Vasconcelos tem um 'gancho' na Rádio Renascença, onde na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 irá pôr a rodar o disco "Grândola, Vila Morena"... O deputado João Bosco Mota Amaral é o correspondente nos Açores (assinando como J. Soares Botelho) e Mercedes Balsemão, mulher do director, faz as palavras cruzadas, com o pseudónimo de Marcos Cruz. Juan Luis Cebrián, fundador, em 1976, e primeiro director do "El País" e grande amigo de Balsemão, é o correspondente em Madrid.
Para se inteirar do modelo jornalístico, Augusto de Carvalho faz um estágio no Reino Unido, acompanhado do director de publicidade e de Fernando Ulrich. O grupo trabalha nos londrinos "The Sunday Times" e "The Observer", Atenta, a Direção-Geral de Segurança (DGS, sucessora da PIDE) intercepta e fotocopia a correspondência trocada entre Balsemão e os seus homólogos ingleses, fazendo-a chegar às mãos de Marcello Caetano.
A sessão de lançamento do novo semanário realiza-se a 21 de dezembro de 1972, no hotel Ritz. Dias depois, a 27, o vespertino "República", ligado à oposição socialista, traz uma longa entrevista a Balsemão. Uma cópia é anexada ao processo aberto pela polícia política em nome de Balsemão. A primeira entrevista, porém, fora dada a 27 de Outubro de 1972 ao jornalista Alexandre Manuel, da revista "Flama": "É viável uma imprensa portuguesa independente".
A campanha de publicidade é entregue à agência Ciesa, onde pontifica o criativo Artur Portela Filho. "Expresso, o jornal dos que sabem ler", é o principal slogan, a apelar a uma leitura nas entrelinhas... A campanha para a televisão é proibida. Marcelo Rebelo de Sousa detalha: "Dizia qualquer coisa como 'o Expresso não é de esquerda nem de direita, nem de cima nem de baixo, mas do centro'. O Portela é que fez os textos".
Duas inovações são o estatuto editorial, que define a orientação do periódico, e um Conselho de Redacção, eleito pelos jornalistas, órgão de participação na elaboração do jornal. Uma terceira novidade é o Conselho Editorial, a que se pede que discuta e critique o conteúdo e para o qual são convidados Mário Murteira, Ruben A., Vasco Vieira de Almeida, João Morais Leitão, Sedas Nunes e Magalhães Mota, que, recorda Balsemão, "todas as semanas enviava uma carta repleta de sugestões e notícias".
O nº 1 sai para a rua no sábado 6 de Janeiro de 1973. A tiragem ultrapassa os 60 mil exemplares, impressos na rotativa do "Diário de Lisboa". Com 24 páginas e dois cadernos, o preço é de 5$00 (€1,33 a preço atual). A manchete é uma sondagem encomendada, que revela que "63 por cento dos portugueses nunca votaram" - para bom entendedor... A 3 de Fevereiro surgem pela primeira vez as iniciais MRS - de Marcelo Rebelo de Sousa, que se estreia na análise política e que só mais tarde assinará por extenso. Marcelo, que inicialmente fora convidado para gestor, vai sendo desligado dessas funções, para as quais não revela grande talento; desviado para a área dos conteúdos, é igualmente destacado para gerir as complexas relações com a censura, que desde 1971 se chama Exame Prévio. Mário Bento Soares é o respectivo director. Provocador, Marcelo faz gala em lhe chamar Mário Soares, em vez de Mário Bento... O ex-chefe da censura recorda que "o Expresso era uma dor de cabeça".
Nas 68 edições submetidas ao lápis azul, o semanário leva mais de quatro mil cortes, em quase dois mil textos. A tudo estão atentos os coronéis censores: notícias, entrevistas, reportagens, títulos, até palavras cruzadas. Golpes em artigos de opinião são aos molhos, incidindo sobre nomes como Pinto Balsemão, Sá Carneiro e Miller Guerra, Mário Soares e Salgado Zenha, Maria de Lourdes Pintasilgo e Jorge Sampaio.
No final de maio de 1973, durante uma deslocação de Balsemão a Espanha, Rebelo de Sousa decide desrespeitar três dezenas de cortes impostos à edição de 2 de Junho. O pior é a ressaca. Furioso, o director-geral de Informação, Geraldes Cardoso, retalia, impondo uma dupla censura: não apenas aos textos, mas às próprias provas de página. O castigo repete-se em Janeiro de 1974, quando o mesmo Geraldes Cardoso escreve a Balsemão, comentando, irado, duas notícias de capa da edição de dia 12: "Sottomayor Cardia ouvido na DGS" e "Conferência sobre arte interrompida pela PSP". A sanção repete-se: "sujeição de todo ou parte do jornal a prova de página", e que se prolongará por vários meses. Os efeitos são desastrosos. Os atrasos na feitura são em catadupa. O jornal passa a sair da rotativa tarde e a más horas, perdendo o correio e os comboios. As vendas caem, a publicidade retrai-se. Luís Ribeiro, o designer, recordará o alerta pessimista de Balsemão: "Mestre, tem de ir pensando nos seus desenhos, porque se calhar qualquer dia fecham-nos a porta". Balsemão não duvida: "Se o 25 de Abril não tivesse acontecido, o Expresso teria acabado!".
O 25 de Abril é uma festa. O primeiro número em liberdade vai para a rua a 27. No andar da Duque de Palmela não se faz só o Expresso - faz-se também o Partido Popular Democrático, PPD, antecessor do PSD. O nome é escolhido durante uma conversa que reúne, entre outros, Balsemão, Marcelo e Ruben A., que é quem sugere o nome. A preferência pendia para a designação de social-democrata, mas da qual outros dois partidos, que nunca haveriam de constituir-se, se haviam apropriado com pinturas nas paredes. Ao telefone, no Porto, está Sá Carneiro, que também concorda com a sigla, que é arrematada. O Expresso é palco de outro momento histórico da criação do PPD/PSD, contado por Balsemão: "Quando o Miller Guerra, depois de uma discussão com o Presidente António de Spínola sobre a descolonização, decidiu não ser fundador do partido, foi no meu gabinete na Duque de Palmela, que, no regresso de Belém, o Sá Carneiro, o Magalhães Mota e eu próprio tentámos, sem êxito, convencê-lo a ficar".