sexta-feira, 2 de maio de 2014

Há quarenta anos, menos um, surgiu o jornal

"o jornal" com letra pequena no título ( eventualmente desenhado pelo ilustrador João Abel Manta, autoe de vários cartoons no o jornal, ao longo de anos) surgiu nos quiosques precisamente há 39 anos, num dia assim de Primavera. "Um semanário de jornalistas" que segundo anunciavam, "não guardava notícias na gaveta" .

O primeiro número tinha esta primeira página e foi dos jornais que maior gosto me deu comprar. O formato original era um pouco tipo "jornal novo" ( também de letra pequena no título) e a estética gráfica um acontecimento que apetecia folhear, porque a  primeira edição do o jornal parecia feita em papel sedoso.

E o conteúdo? Bom, isso era mais do mesmo, de uma Esquerda já instalada no PREC. o jornal definia-se assim, em editorial:

Portanto uma esquerda ampla e sem partido definido, objectiva e subjectivamente aliada de um MFA revolucionário, por sua vez aliado de um partido comunista comprometido em transformar Portugal numa coutada soviética ou pelo menos numa espécie de Crimeia, no extremo ocidente da Europa.
O artigo do artista Bastos, jornalista retratado em foto-maton por uma Vera Lagoa conhededora, é exemplar da linha política, justa e adequada: " a via socialista".

O "poster" das páginas centrais, ilustrado por João Abel Manta, um retinto comunista. não enganava ninguém.

Contudo nos meses de 1975, o jornal aliou-se mais aos moderados do MFA do que aos radicais comunistas.

Em 1978, na comemoração do aniversário, apareciam todos os "colaboradores" do semanário, com destaque para o então director, José Carlos Vasconcelos, outro adepto da teoria macaca do "fascismo" como denominador do Estado Novo.


Num artigo fantástico de mistelas mistificadoras, um dos jornalistas, José Silva Pinto, já falecido, mostrava toda a idiossincrasia do o jornal: nem carne fassista nem peixe comunista, com os vários clichés da esquerda em escabeche. Sobre a URSS, o jornalista escrevia, sem tomar partido: " para uns é o Sol da Terra; para outros, um imenso gulag".

O jornalista, esse, inclinava-se mais para ver o sol raiar nos amanhãs que cantam do que perceber a natureza "fascista" do regime comunista, segundo os próprios critérios que aplicavam por cá.
Nos anos trinta, um comunista português, Francisco Miguel estivera em Moscovo, durante ano e meio, entre 1935 e 1937. Nesse tempo Moscovo era um sítio de terror, puro terror, com assassínios a eito comandados por Estaline o herói daquele e de Cunhal. Pois bem: não viu nada e o que viu foram rosas, senhor. Veio para cá e vociferou clandestinamente contra o Tarrafal e o fassismo. Isto chama-se o quê, objectivamente? Sim, o quê?



O que se escrevia então, neste como noutros jornais de esquerda é bem o exemplo do ditado " a quem ama, o feio bonito lhe parece".
De facto, os horrores do passado, transformavam-se em virtudes do presente. As evidências do totalitarismo e da repressão eram entendidas como aspectos irrisórios de um sistema aperfeiçoado e amigo do "povo" e o atraso económico claríssimo e evidente, como um mal menor e superior a todos os do ocidente.  Este discurso acaparado sempre pelo o jornal durou até à queda do muro e mais além. Na verdade, nunca mudou porque a Visão, herdeira natural do o jornal continua a mesma senda do politicamente correcto, mesmo sob a alçada das impresas sic de Balsemão, o "Francisquinho" do tempo de Caetano e que viceja neste lodo, como peixe na água.

Nem de propósito saíra nessa altura, em 1978,  e era publicidade nesse mesmo número de o jornal, um livro de um jornalista norte americano que ganhou um Pulitzer: Hedrick Smith, com Os Russos, um libelo acusatório, em tom humorístico ou quase, do que funcionava mal na sociedade soviética e que dava uma imagem claríssima do universo concentracionário, totalitário e abusrdo que o regime representava, sem qualquer comparação com o regime de Caetano que aqueles vituperavam como "fascista". Incrível!

Este país terá conserto?


6 comentários:

Floribundus disse...

desde 25.iv que vivo na
república soviética do rectângulo.

onde militantes da esquerda
são os 'cadáveres do armário'

onde para mim e muitos outros
'toys are us'

Floribundus disse...

um dia casualmente vi um grão-mestre adjunto, obreiro da loja a que pertenci, a entrar na sede do jornal

dias depois aparecem notícias sobre o interior do GOLU

sobre o assunto do poste de ontem:
dado o excesso de informação, nem toda credível, existem actualmente 'curadores de conteúdos'

eu próprio faço a minha curadoria e mesmo à 4ª tentativa tenho dúvidas em certos assuntos

há dias a nossa Amiga Zazie mencionava O Cortesão de Castiglione

encontrei um livro dum brasileiro comuna que viveu em Itália mais de 30 anos

não o referia numa história de literatura italiana que escreveu

JReis disse...

Ainda hoje a revista ´´Visão´´ é um sucedâneo desse pasquim. Salvo erro Cáceres Monteiro também por lá passou. Cheguei a um ponto que deixei de ler a ´´Visão´´ pois era só colunistas de esquerda, sem equilibrio, tornava-se aborrecida. Porque alinha Balsemão com esta esquerda é que seria de valor descobrir.

josé disse...

Porque aparentemente é o que vende.

Um círculo vicioso.

jose disse...

Então a sic-notícias...Nem sei como não se livraram do Gomes Ferreira,é só o que resta de alguma discordância.O Balsemão perdeu a noção daquele mínimo.
josé j.

Manuel disse...

José Gomes Ferreira representa apenas uma aberta num autêntico aguaceiro de comentadores avençados, opinion makers e defensores de interesses próprios que nunca permitirão que o povão saiba coisa alguma. Já agora, quando vejo ou oiço entrevistas ao sócrates, nas quais enrola os jornalistas naquele palavreado de aldrabão e com piadas do tipo escola primária, só penso que se o entrevistador fosse o JGFerreira, o animal feroz seria triturado e abandonaria o estúdio sem ter respondido.

O TCIC é para acabar...