terça-feira, junho 10, 2014

A intelligentsia de Esquerda

Este artigo de José Vítor Malheiros no Público de hoje concentra em si um panorama ideológico da Esquerda que domina o pensamento político e económico mediaticamente expresso, com algumas e raras excepções, veiculadas em jornais tipo Jornal de Negócios, mas pouco significativas de alguma corrente que JVM assume como avassaladora e de "extrema-direita", porque vinculada a realidades como os "mercados", "juros e obrigações", "bolsas de valores", "marketing", bancos e seguros, "multinacionais" ( termo já caído em desuso pela "globalização"), "monopólios" ( termo pejorativo e comunista ainda em vigor), etc etc.


O que subjaz a este tipo de escritos é, evidentemente, uma ideologia de esquerda, já intelectualmente mastigada há décadas e depurada de elementos julgados, pelo tempo e só pelo tempo, fossilizados mas sempre presentes nas análises deste tipo.
O articulista e milhares de pessoas que assim pensam, abominam o chamado liberalismo que é a reincarnação de um diabo laico em que nunca acreditaram mas que las hay las hay.
Esta ideologia reciclada do comunismo primitivo dos anos setenta, transmutada em socialismo democrático por obra e graça das evidências de muros a cair de podres, ressuma sempre ao mesmo: a aversão ao capitalismo entendido como modo básico e essencial de acumulação de capital.
É esta acumulação de capital que estas pessoas, aos magotes e aos milhares e que votam PS e esquerda em geral, não aceitam de bom grado se estiver nas mãos de entidades privadas, sejam  cidadãos ou empresas.
Essencial e fundamentalmente parece-me ser este o problema principal. Porém, se for o Estado a assim proceder, acumulando tal capital do mesmo modo e com os mesmos métodos, isso já é aceite plenamente e até se fazem "dias de trabalho para a Nação" se preciso for, lutando colectivamente na "batalha da produção".

Parece-me ser esta a dicotomia fundamental que divide economicamente a Esquerda de uma Direita inexistente em Portugal enquanto força política.
Tenho pensado e escrito que a personalidade política que melhor enquadrou essa Direita inexistente seria Marcello Caetano, porque o sistema económico existente à data do 25 de Abril de 1974 me parecia o mais aperfeiçoado possível do ideal capitalista temperado pelas preocupações sociais dos regimes mais de esquerda. Uma síntese assim foi coisa que durou o tempo de alguns anos, na década de sessenta e setenta, em Portugal e acabou em 1974, com a Revolução e o PREC. O que veio a seguir, com as reprivatizações e a entrega de empresas e capital aos antigos donos daquelas que existiam em 1974, é apenas um sucedâneo de gosto duvidoso, tal como o chocolate de fraca qualidade em relação ao suíço ou belga. Por isso tenho pensado na tragédia nacional que significou o que aconteceu em 1974-75.
Nessa altura e depois disso, a esquerda, incluindo a comunista, tomou as rédeas do discurso político, em primeiro lugar e depois as do sistema económico, a partir de 11 de Março de 1975. Até hoje e não vejo nem leio ninguém a debater ideias deste tipo sem recurso aos chavões liberalóides que se assimilam perigosamente ao sectarismo esquerdista porque provenientes da mesma base ideológica.

São os filhos pródigos desta esquerda que escrevem como JVM, saudosos do tempo em que o capital deixou de estar nas mãos dos maléficos privados e passou a ser controlado e produzido "por todos", em benefício "de todos", nas mãos de gestores que o Estado de esquerda  nomeava e que nos presenteou a todos, como Nação, com duas bancarrotas iminentes, em 1976 e 1983 e contribuiu decisivamente para a última em 2011, continuando apostados em repetir a dose, se lhe derem oportunidade.
Em 1975 Portugal viveu esse tempo único de esperança socialista e comunista que os nostálgicos da ideologia ainda não abandonaram e muitos revelam a cada escrita sobre o tema.

Para melhor caracterizar e sumarizar o problema, basta meia dúzia de páginas do livro dos próceres do BE, Louçã, Lopes e Costa,  Os Burgueses ( Bertrand, 2014) .

Nelas podemos ler em breves linhas de pensamento esquerdista típico o que eram os nossos grupos económicos até 1974 e como evoluiram para uma acumulação de capital que os enraivece por se terem assim tornados "donos de Portugal", como se a riqueza acumulada fosse de proveniência rapinante e desprovida de qualquer esforço individual e empresarial dos beneficiários. Para o negar, têm sempre as armas marxistas típicas e explicadoras da "luta de classes" e assim ficam ao abrigo de acusações de imbecilidade e estupidez.

Vale a pena recapitular tais páginas para em seguida tentar compreender como são estúpidos. A ideia que estes industriais portugueses das décadas que precederam o 25 de Abril foram uns meros exploradores impiedosos dos trabalhadores e que forjaram as fortunas por mera obra do acaso em se encontrarem donos de meios de produção, roça a estupidez mais solerte, porque aplaina toda e qualquer qualidade intrínseca aos mesmos, retirando todo o valor individual do esforço do trabalho, invenção e iniciativa de risco elevado para si e para os seus.
As privatizações dos anos oitenta e noventa, para estas pessoas, representa um supremo mal que forças obscuras e servos"do capital" fizeram ao país, contribuindo para recomposição da "burguesia" que indentificam com nomes e tudo. 
Toda a linguagem deste livro comunga desses preconceitos imbecis e resultantes de um qualquer problema psicológico grave dos seus autores. Não entendo outro modo de explicar tamanha burrice. 




Próximo postal : a origem do mal.

Questuber! Mais um escândalo!