domingo, abril 06, 2014

O Inenarrável voltou à narrativa.

RR:

O ex-primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou que o seu Governo decidiu pedir ajuda financeira externa por prudência, devido a dificuldades de acesso aos mercados, rejeitando que Portugal estivesse à beira da bancarrota.
"O risco era tão grande que nós resolvemos, por razões de prudência, para que Portugal não passasse por um momento em que não consegue ir ao mercado, pedir ajuda. Foi isso que nos determinou o pedido de ajuda", afirmou o anterior chefe do executivo, referindo que para Junho de 2011 estava prevista uma amortização de dívida pública. 


Este Inenarrável continua na mesma. Nada aprendeu e nada esqueceu e continua a contar a sua historieta, sem contraditório, como se tivesse ainda deixado o governo há dias atrás. É incrível.  Na semana passada foi dito que Portugal tinha em caixa, na véspera do pedido de ajuda, 300 milhões...
Foi assim e o ministro das Finanças era este que ganhou alguma dignidade nos últimos meses. Será que o antigo ministro vai engolir mais este sapo?



ADITAMENTO:

O Diário de Notícias de hoje noticia assim o fait-divers:

Este Inenarrável segundo consta passsa os programas a falar do seu passado à frente de um governo de tragédia nacional e que nos conduziu directa e rapidamente à terceira bancarrota em 40 anos. Ontem, abespinhou-se novamente com o entrevistador, pelos motivos expostos: factos mostrados e pedido de comentário. Factos do seu tempo de primeiro-ministro mas relacionados com uma entidade independente que o mesmo defendeu como se fosse ele mesmo o visado.
Factos são factos, mas este Inenarrável está habituado a torcê-los até ao limite da resistência lógica e mais uma vez o fez, perante o espanto do jornalista que não se deixa dobrar facilmente a uma demagogia barata e constante,sempre tolerada pelo jornalismo conveniente do costume, mas não por este que o enfrenta e o coloca perante as contradições.
José Rodrigues dos Santos tornou-se assim mais um alvo a abater e as próximas semanas dirão quem vai ganhar o confronto: se o jornalismo se a demagogia política inaceitável e prepotente.  Aposto pouco na vitória do jornalista, com os actuais dirigentes da RTP.

Sobre os factos, no caso da "supervisão" da actividade bancária do BPN, pelo BdP, o indivíduo defendeu que houve supervisão mais que bastante, no seu tempo e que tal obrigou aumentos de capital ( no fim citou um, depois de ter dito "vários")  e por aís e ficou, defendendo o antigo governador, Vítor, o Constâncio, como se fosse lá de casa partidária enquanto estava a governar.

Suspeito que a argumentação tem falhas factuais e espero mais tempo e mais atenção de quem de direito para desmentir mais uma vez este indivíduo.

Os orgãos do Banco de Portugal e o concerto da despesa pública




O Correio da Manhã de hoje faz a capa com uma manchete centrada na atenção ao Banco de Portugal, que a merece, aliás.

"634 mil euros em carros de luxo" e "Banco de Portugal compra 17 viaturas"- é assim que titula com foto do governador Carlos Costa, de olhar oblíquo, de acordo com as estratégias da parecerísitca avulsa contratada a firmas de fora.

A notícia de dentro esclarece que os carros "de luxo" são quse todos ade marcas alemãs, da BMW e Mercedes ( a Audi ficou de fora...), comprados entre o início de 2013 e Fevereiro deste ano. O jornal indigna-se nas entrelinhas por causa de serem "topo de gama" (que não são)  e por serem muitos ( que de facto são). Na notícia dá-se conta que o BdP tem uma "frota ao dispor que totaliza 75 viaturas".

Ora isto é que se torna noticia. Uma frota de 75 carros para quê e para quem? Certamente  não serão para as pessoas da limpeza que terão carrinhas de firma a transportá-las diariamente e a horas mortas. Para os empregados de balcão que não há, também não serão. Para outros funcionários de portaria, também não. Era o que faltava.

Assim, essencialmente, tais "viaturas" destinam-se aos supervisores que regulam. Bem? Espera-se que sim.
No topo estão estes:  Governador,  um ou dois Vice-Governadores e  três a cinco Administradores.
A seguir vêm estes:  Presidente, com voto de qualidade, um revisor oficial de contas e uma personalidade de reconhecida competência em matéria económica.
 E depois vêm estes que só dois é pouco: antigos Governadores, o presidente do Conselho de Auditoria do Banco, quatro personalidades de reconhecida competência em matérias económico-financeiras e empresariais, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, o presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público, e os representantes das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
São estes os "órgãos" do BdP que tocam a música de ouvido que lhes chega em pautas encadernadas.

Feitas as contas, é duma pequena orquestra de câmara, o que se trata. Pouco mais de uma dúzia.
Em relação a estes já era discutível o perk das "viaturas". Portugal é um país pobre e que empobrece, em parte por culpa da "regulação e supervisão" do BdP em casos  tipo BPN, BPP e afins. Responsabilidade? Isso é que era bom. Uns suores frios de vez em quando; uma sessão de algumas horas aos papéis e de humilhação programada e umas bufadelas por conta dos ossos do ofício e é tudo quanto a responsabilidade. "Accounting" no BdP é palavra estrangeira.

Então, mesmo assim, temos mais de 60 viaturas "ao dispôr". Para quem serão tais meios de locomoção pagos pelo zé povinho que nem questiona estas regalias de príncipes de marés vazias?

A gente vai procurar e encontra 18 (!)- "departamentos"- 18 (!) . No sítio só aparecem relevados os directores. Pessoas de elevada competência, certamente, mas que não é tanta que dispensem a consulta externa paga às centenas de milhar de euros, para complementar tanta competência junta e mesmo assim insuficiente. Claro, todos os 18 terão direito à "viatura topo de gama", noblesse oblige e a competência insuficiente não impede.

Portanto, já temos, contas redondas, duas dúzias e meia de  beneficiários de "viaturas topo de gama". 36 viaturas,  portanto. E então para quem servem as restantes e que são outras tantas?

Mistério que se resolve por si mesmo: nao há informação no site que esclareça. Aliás, não há informação no site sobre os tais competentes que carecem ainda assim de ajuda externa ( paga a peso de barras de ouro, amealhadas in illo tempore) para desempenhar cabalmente as respectivas funções.
E que funções são essas que carecem de "viatura topo de gama" para o respectivo excercício?
O site informa: 

O Banco de Portugal tem a sua Sede em Lisboa, na Rua do Comércio, 148. Os seus serviços centrais, no entanto, estão essencialmente concentrados no Edifício Portugal, na Avenida Almirante Reis. As funções ligadas à emissão estão situadas no Complexo do Carregado.
O Banco de Portugal mantém uma presença no País através da Filial do Porto, das Delegações Regionais e das Agências.


Ora bem. Podemos sempre imaginar que diaria ou regularmente, andam por aí por essas auto-estradas portuguesas construídas com o esmero e visão de futuro que todos reconhecem ( algumas em triplicado porque sairam mais em conta...) a circular muitas das 75 viaturas "topo de gama" que o BdP conserva nas suas garagens privativas para uso exclusivo dos seus competentíssimos funcionários de topo, em funções profissionais de elevadissima exigência.  Com portagens pagas pelo "chip" e combustível assegurado. Com alguns motoristas do quadro, também, para alguns happy few.

A ninguém passará pela cabeça de funcionário público, porque pago pelo erário público mas com características que nem os privados oferecem, que tais viaturas servirão para transportar os digníssimos funcionários de topo, para as idas e voltas de casa para o serviço e vice-versa diário, com idas ao fim-de-semana para onde calhar. Não, isso não deve acontecer. A  lei permite? Permitir, permite, mas então a ética espelhada aqui, para que vale?  Para embrulhar peixe no Porto Santa Maria, ao fim de semana? Nã...não acredito.

A importância e a natureza das atividades desenvolvidas exigem aos colaboradores do Banco de Portugal a adoção de padrões elevados de ética profissional.

Alguém do BdP se atreveria, perante tais elevados padrões a borrar a escrita com o uso particular de viaturas de função? Não, não acredito nisso.
Mas...e se alguém lhes perguntar terá resposta? Ora, ora. A um desaforo desses nunca alguém se atreveu. Não ia ser agora que tal iria suceder...pois não?

Além do mais o BdP continua a ser uma agência de bons empregos. Por concurso público. naturalmente.

Comparando com o que se passava antigamente, no tempo "da outra senhora", muito vilipendiada por ser unhas de fome e dada a promiscuidades várias, este BdP é um oásis num  país de miséria acelerada em que o fosse existente entre os mais ricos e os mais pobres se alargou em 40 anos.

Para exemplo da ética fassista que o BdP abomina, ficam duas páginas do livro ontem citado, de Pedro Jorge Castro, O ataque aos milionários.
A passagem tem a ver essencialmente com um ministro da época de 1968, dos Negócios Estrangeiros, de seu nome Franco Nogueira.
Conta-se que sendo ministro de Salazar, poderia ter-lhe sucedido, em vez de Marcello Caetano. Portanto, importante e competente, seria. Tanto ou um bocadinho mais que qualquer um dos tops do BdP. Pois bem. Em 1968 queixava-se de não ter dinheiro para comprar um par de sapatos para a sua senhora. Supõe-se que seriam sapatos caros, para funções de  mulher de ministro dos Negócios Estrangeiros. E por isso aceitou depois um lugar na administração de um banco. Privado. Sem problemas de compatibilidade republicana e laica porque nessa altura a ética chamava-se moral, simplesmente.
Sorte temos agora, com um ministro dos Negócios Estrangeiros que não conhece estas dificuldades...naturais no tempo em que Portugal era pobre e miserável. Agora somos ricos, como o BdP mostra.



sábado, abril 05, 2014

PREC: um herói por conta própria

O novo livro de Pedro Jorge Castro (jornalista da Sábado e historiador encartado por um mestrado no ISCTE e um doutoramento em andamento, na Nova), O ataque aos milionários, merece leitura, porque bem documentado sobre o período do PREC e do bem que nos fez à economia.
Por outro lado revela a inteligência superior de uma esquerda que teima em não se enxergar depois de três bancarrotas.

O livro trata dos "milionários" portugueses que o PREC perseguiu e prendeu. Aqueles das cerca de 40 famílias ou das 20 ou da meia dúzia, para o caso tanto faz, que o comunismo e o socialismo expulsaram das empresas, nacionalizando-as, tornando-se eles mesmos capitalistas e "gestores públicos" em nome de um Estado que dominava então cerca de dois terços da economia mas não conseguiu evitar uma bancarrota logo em 1976,  repetida dali a meia dúzia de anos pelos mesmíssimos motivos: incompetência atroz na gestão e modelo económico ineficaz e nocivo ao desenvolvimento. Ainda não aprenderam depois destes 40 anos e não entendem como aconteceram as bancarrotas. É tudo culpa dos mercados e das crises internacionais...e o Cravinho de há quarenta anos é o mesmíssimo de hoje, uma fraude intelectual.

O livro tem uma introdução que lida com um nome relativamente desconhecido de um herói por conta própria, porque mais papista que o papa: Eduardo Rosário Dias, tenente da Armada ( do grupo Hermegildo Capelo) , assessor de Vasco Gonçalves que tomou a peito a prisão dos "banqueiros fascistas", fazendo-o pessoalmente e à pistola, que trazia sempre na maleta.
Quando Vasco Gonçalves foi corrido do poder, no Verão de 1975,  por Pinheiro de Azevedo, deixou lavrado um louvor ao seu assessor  que "desempenhou um papel relevante e decisivo na nacionalização dos sectores básicos da economia nacional, tendo desse modo ajudado a pôr a economia ao serviço do povo português", escrevia o louco do PREC. E que não haja dúvida: dali a um ano a economia estava na bancarrota, com estas ajudas.
Rosário Dias morreu em 1981, subitamente. Andava a estudar em Budapeste, com uma bolsa comunista.

E como é que  o tenente Rosário Dias ajudou a pôr a economia ao serviço do povo, ao ponto de merecer um louvor de Vasco Gonçalves? Assim:


40 anos de censura, manipulação e revisionismo histórico dá nisto: 3 bancarrotas.





40 anos de Expresso deu isto que hoje mostram: ignorância, estupidez e desgraça. Nem as três bancarrotas os fazem reflectir.
Quem é que ganha com este verdadeiro obscurantismo? O patrão Balsemão e sus jornalistas amestrados.


A verdade "histórica" sobre o 25 de Abril continua a ser de esquerda e parece não haver outra...

O Diário de  Notícias de hoje é imperdível por causa do suplemento Q º. Encadernado jornalisticamente por João Céu e Silva ( um jornalista já entradote que devia saber melhor...) é um compêndio revisionista da História contemporânea portuguesa no que ao 25 de Abril concerne.

Em 24 páginas, nas quais procurou encontrar " a verdade histórica do 25 de Abril", considerada ainda assim muito elusiva, para estrangeirar um pouco, não arranjou espaço para mencionar livros e obras de autores que não sejam "os do costume" e cuja verdade é sempre a mesma, repetida já ad nauseam e que nauseia o leitor por isso mesmo.

Veja-se bem quem indicou como "autores referenciados", para historiar o 25 de Abril de 1974:

" sempre os mesmos..." como diria o Santana. Enfim, para variar e lembrar que há outros, aqui fica uma imagem de alguns livros que ajudariam o autor do suplemento a pensar melhor e a encontrar um fio condutor, de ariadne, para sair do labirinto da saudade antifassista em que está metido.


Poir outro lado, mostra uma entrevista com Joaquim Vieira e Reto Monico, autores do livro já aqui recomendado, Nas Bocas do Mundo, recente e sobre o olhar da imprensa estrangeira durante o ano e meio de PREC que tivemos para nossa desgraça colectiva.

Perguntados sobre qual imagem os impressionou mais entre todas as recolhidas, indicaram esta, publicada na Paris Match de 11 de Maio de 1974.



Como bónus deixo aqui a outra imagemm que a revista publicou sobre o mesmo tema: a caça ao "pide". Esta parece-me mais icónica...


É também desta altura a foto seguinte, publicada pela Paris Match e que ilustra a liberdade dos jornalistas entrarem no apartamento de Mário Soares e família, coisa que se perdeu ( essa liberdade, claro) por motivos desconhecidos. Quadros? Onde estão? No escritório? A modéstia imperava nesses tempos de austeridade...
Aquela fruteira, a lembrar a de Zeca Afonso...aqueles talheres...aquela penumbra...aquela garrafa de vinho em cima da mesa...aquele pratinho vitrificado na Marinha Grande...aquele jarrinho com água e napperon em cima...fantástico.


O mesmo suplemente dá relevo a um livro de uma tal Ana Aranha, jornalista na Antena Um e que anda às aranhas para mostrar em documentos sonoros e entrevistas avulsas, aos Sábados de manhã,  o que foi o horror da "pide". Hoje a entrevista  era com o "historiador" Fernando Rosas, preso pela "pide" antes de 25 de Abril ( parece que foi duas vezes à missa nesse dia...) e preso pelo Copcon já durante o PREC.
Rosas contou os horrores ta tortura a que foi submetido antes de 25 de Abril e lembrou idênticos horrores que passou depois às mãos dos militares que julgavam que estavam ainda a combater terroristas ( Rosas não era nada disso, e tinha ido três vezes à missa, nesse dia).
Por fim, declarou algo extraordinário embora estúpido qb: disse "ainda bem" que o PREC não foi como o PCP e Vasco Gonçalves queriam ( não foi bem assim que disse mas é a mesma coisa) porque senão teríamos por cá um regime pior do que aquele que tínhamos derrubado em 25 de Abril de 1974.
Ora isto é inédito como afirmação de um doente infantil do comunismo. O que faltou dizer ( mas ainda vai a tempo) é que o que o mesmo defendia ainda era pior que as duas hipóteses celeradas da equação...

Este Rosas é o historiador oficial do regime que temos. Ele e o Pacheco que anda afastado destas lides comemorativas. Dirige seminários ou conferências ou estudos e orienta "teses" e coisas que tais.

Onde nós chegamos!

sexta-feira, abril 04, 2014

O PREC e o Expresso

Durante o Verão de 1975 Portugal esteve literalmente ao rubro, nas ruas e nos jornais. Porém, para ver as cores vivas do PREC será preciso consultar a imprensa estrangeira porque a de cá, em geral, transformou-se em porta-voz do fenómeno que durou até 25 de Novembro de 1975 e mais além, como um futurista buzz anunciaria numa fantasia animada anos depois.

Em Abril de 75 estivera por cá o filósofo Sartre e o seu ajudante no Libération, Serge July. O Expresso de 5 de Abril desse ano dava-lhe uma página, na qual ele contava que os jornais portugueses em geral não lhe pareciam bons porque "não explicavam nada".


Serge July, esse, explicava muito bem, numa outra página dessa edição que o jornal generosamente lhe concedeu...

Revolução, portanto, era a palavra que o Expresso anunciava com todo o enquadramento comunista que o Expresso acolhia de bom grado ( e por isso Otelo asseguraria dali a meses que o jornal se inseria perfeitamente no PREC, apesar da insistência de Vasco Gonçalves em lhe chamar pasquim da reacção).

O Paris Match de 30 de Agosto de 1975 dava conta do recado que por cá não passava na imprensa dita de referência, tipo Expresso ou O Jornal.




Em 5 de Julho de 1975, com este ambiente de festa, o Expresso e um dos seus principais redactores deram importância a um acontecimento internacional - a Conferência de Segurança Europeia, que se realizava dali a quinze dias,sendo certo que a imprensa internacional já escrevia sobre Portugal e os acontecimentos do PREC, no sentido de o comunismo se apressar a tomar conta do país. O L´ Express de 23 de Março de 1975 mostrava o que o Expresso não queria ver.

A propósito dessa conferência internacional, Marcelo Rebelo de Sousa fazia uma pequena resenha do comunismo internacional, assim como quem escreve para uma entrada numa enciclopédia de ciência política para arrumar logo na estante.  Explicar o que passava, o que significava o PREC e o que se preparava, isso, nada.
Foi preciso o Arcebispo de Braga vir a púlpito explicar claramente...porque Marcelo, apesar de se dizer católico, não se comprometeu. Soljenitsine, na altura na berra, em França? Nada, por cá. Estalinismo do PCP, com histórias reais de por exemplo um Francisco Miguel, que em 1935 esteve em Moscovo e em 75 ainda estava vivo? Não conheciam...
A entrevista de Oriana Fallaci a Cunhal, em Junho de 75,  não mereceu uma linha de Marcelo Rebelo de Sousa ( o correspondente José Alves fez então o frete e nem se deram ao cuidado de traduzir a entrevista publicada pelo Paris Match e já aqui mostrada).
O que se passou em Paris, na altura do caso República, mereceu várias páginas do Expresso ( iremos lá um dia destes) mas a denúncia do PCP como partido ignóbil e pior que o salazarismo "fascista", essa nunca sucedeu. E devia. 
O que se escrevia em França e noutros lados não era lido por cá? Talvez, à vol d´oiseau. E assim por diante.
Nunca o Expresso ou o Jornal explicaram uma coisa muito simples e directa: o PCP é um partido democrático pelos padrões ocidentais? O PCP fez a desestalinização completa ( assim como quem faz uma desratização)? O PCP em 1975 queria mesmo entregar o país ao comunismo, mesmo à revelia de Moscovo? E o PCP não continua igualzinho ao que era em 1975? Não?! É ler o Militante, se alguém ainda tiver dúvidas. Sai de dois em dois meses e é eloquente em explicações...


Crise de Civilização? No fundo, é isso...

O Diário de Notícias de hoje dá-nos um retrato fotomaton do país que somos e onde chegamos. Não no-lo oferece com intérprete mas mostra-nos factos e dá-nos pistas para percebermos o problema.

A primeira pista, é-nos apresentada por Jaime Nogueira Pinto, um guia com valor e diferenciado dos pisteiros que andam por aí sem conhecrem os trilhos e sem saber ver os sinais.

Nogueira Pinto, com este pequeno questionário de um amigo de Dias Loureiro, mostra-nos o que aconteceu a Portugal nos últimos quarenta anos: uma crise de civilização provocada directamente por quem perdeu o combóio da História e se recusa a sair da estação, à espera do fantasma do seguinte.

O que Nogueira Pinto diz sobre o tempo de Salazar e Caetano e o que dele fizeram os " MFA´s e os antifascistas que lhes vieram agarrados às botas", é essencial: " acharem, também por ignorância, que coisas que faziam parte da tradição política, da História e da essência de Portugal, eram mania e teimosia de Salazar. Daí a descolonização que fizeram, daí as experimentações económico-sociais. E daí aquela indigência do PREC:"

No fundo é isto que tenho tentado mostrar por aqui ( e vou continuar se Deus quiser).





Uma das consequências das experimentações poderá ter sido algo como isto: uma mutação nos gostos e interesses da juventude. Não será imputação sem margem de dúvidas porque o fenómeno sucede noutros lados, mas que é efeito do tempo que passou, lá isso parece: a crise das livrarias e desta, em particular, centenária, a Civilização.


Esta livraria foi uma das que me enviaram catálogos, no final dos anos sessenta, quando a minha curiosidade pelas leituras e conhecimento era demasiado grande para o dinheiro disponível para livros. E por isso pedia catálogos ás editoras.
Em 1969, a Livraria Civilização, envivou-me gentilmente este ( julgando, se calhar,  que ali estava um comprador potencial,  por junto e atacado...):


 Por último, ainda o DN de hoje que mostra um exemplo vivo do que Jaime Nogueira Pinto refere quanto aos lídimos representantes "desta classe político-burocrático-empresarial de gente medíocre e habilidosa, ora espertalhona, engraçada e brincalhona, ora séria, empertigada e solene. É essa a grande força de bloqueio, a burguesia ´aparatchique` dos serviços e concertos, adaptada e adaptável a tudo, que por aí anda e manda-nos partidos, nos media e nas universidades".

No caso concreto, Rui Vilar, não sei bem se se enquandra como luva no retrato. Mas como moldura parece-me que serve bem. Há muitos "quadros" assim, em Portugal. São os para-estaduais que se cooptam e reproduzem. Vítor, o Constâncio é um deles. Um dos inseminado de Abril, como os hippies o eram pelas flores de plástico.




Em tempo:

Para aquilatar melhor esta crise de civilização, no Correio da Manhã de hoje aparecem também dois elementos semióticos de importância certa.
O primeiro é um artigo de Santana Lopes sobre a nomeação daquele "notável" e que sindica a cooptação - são sempre "os mesmos, os mesmos", escreve Santana-  destes inteligentes supercompetentes, tipo Vítor, o Constâncio.
Podemos interrogar-nos sobre o que move Santana a este escrito e, de facto, o que distinguirá a competência deste daquela que os outros exibem. Santana foi professor de Direito ( assistente, vá lá, mas Sá Carneiro encarregou-o do primeiro projecto para rever a Constituição...); foi Secretário de Estado, ministro e primeiro-ministro ( como Sócrates, vá lá...). Ou seja, hiper-competente para uma REN ou para um Gulbenkian ou seja para o que for. Até para o BCE. E mandaram-no para a Misericórdia...por isso tenham dó. Lá, só caem em Si quando o Re Fa Sol e a Lua se encontra no quarto certo. Maçonaria, poderes de facto, lobbys, centrão, amigalhaços de várias feições, conhecimentos de sempre e podridão a rodos. Corrupção é isto. E ninguém vê, porque esta não é para se ver, mas apenas para sustentar um regime que cairia no mesmo dia em que tal fenómeno se expusesse para todos verem à luz do dia e não oculta entre colunas que um miserável teve o topete de levantar num gabinete ministerial, a expensas do Estado.  Salazar e Caetano não eram assim. Ponto. O artigo de Santana é incrível de realismo fantástico, de clareza nos motivos e de exposição da corrupção profunda que nos atinge-e que ele não percebe, claro está.  Ele e outros, tipo Pinto Monteiro, um pobre diabo que fala "axim" mas "não tinha medo de ninguém". Pudera!



Em que é que isto deu, em Portugal? O mesmo Correio da Manhã de hoje o mostra ( só mostro uma página para quem quiser ver a outra comprar o jornal...): os ricos de Portugal são estes. Comparem-se com os de há quarenta anos e analisem-se as semelhanças e diferenças. Pode ser que se aprenda alguma coisa... 


quinta-feira, abril 03, 2014

1974: a imprensa portuguesa vista de Espanha

Em 31 de Agosto de 1974 a revista espanhola Triunfo, de esquerda num tempo em que o franquismo ainda estava vivo,  mostrava o que era a imprensa portuguesa antes e depois de 25 de Abril.

Assim:








Economistas: especialistas em prognoses póstumas

 Económico:

O ex-ministro das Finanças Vítor Gaspar defendeu na quarta-feira numa universidade norte-americana, em Nova Iorque, que "os economistas não são muito bons a prever o resultado de processos políticos". As declarações foram feitas na Universidade de Columbia, onde o antigo ministro do Governo chefiado por Passos Coelho participou na conferência sob o tema "A construção de um sistema financeiro continental: lições para a Europa da história americana"

Os economistas, tal como outros especialistas em ciências humanas não são muito bons a prever coisa alguma, pela simples razão de que as actividades humanas não se deixam adivinhar facilmente e por vezes nem dificilmente.
Isto que é simples senso comum não é perceptível à maior parte dos jornalistas e por isso é que vemos cantigas, bagões, octávios e até louçãs a perorarem infatigavelmente em espaços televisivos a afiançarem prognoses póstumas de acontecimentos futuros. Ficção científica, portanto, digna de Philip Dick.

Porém, há um método infalível de adivinhar o futuro sem grande margem de erro: o bom senso que não deixa que alguém gaste mais do que aquilo que tem ou, seguramente,  pode vir a ter. Foi esse bom senso que Salazar tinha e Caetano tambem  e estranhamente se perdeu, em Portugal.
É precisamente neste advérbio, seguramente, que reside toda a ideia de política económica da esquerda: "dinheiro há sempre", lá diz o mais velho jarreta. "O PEC IV é que era"... lá diz o actual jarreta.
Pagar dívidas? " as dívidas dos países não são para pagar", balbuciou num francês macarrónico o jarreta que foi apanhado no you tube.

Com estas ideias simples e promessas de futuro radioso se conquistam votos. Foi assim com as três bancarrotas que já tivemos em cima, mas o povo português não aprende.
Há quem goste de ser enganado, desde que não lhe matem a esperança mas isso já é do domínio da psicologia social. Outra ciência humana...



quarta-feira, abril 02, 2014

Caso BPN BdP: branqueamento capital

O DN e o Público de hoje destacam a "reacção" do inefável e competentíssimo Vítor, o Constâncio, às declarações de Durão Barroso ( PM entre 2002 e 2004) no caso da supervisão do BdP no que tange ao assunto BPN e consequências nefastas que trouxe à economia nacional, nos últimos anos. 

Vítor, o Constâncio nega. Nega tudo, desta vez e para já sem suores frios ou recurso a papéis ou bufadelas  de desalmado inquieto. Nada, tudo calmo, para já.

Vítor, o Constâncio, dirigiu a instituição supervisora dos bancos entre 1977 e 2010 ( a desgraça do PREC não veio só...), sempre em registo "muito competente", com os escândalos a estourarem por todos os lados, no final dos anos 90 e início do séc.XXI, sem que o supervisor visse a ponta de um corno, mesmo a ganhar quase vinte mil euros por mês ( € 19 473,43 em 2005) .
No caso BPN o escândalo é tanto maior quanto o dano mais importante surge após a nacionalização, da responsabilidade de um primeiro-ministro inacreditável.

E desta vez, Vítor, o Constâncio tem companhia da corporação. Cinco pesos-pesados da economia, antigos funcionários do BdP e que igualmente não viram a ponta de um corno da crise grave que atravessamos e cujos avisos oportunos foram sempre adiados para prognoses póstumas, afiançam a qualidade de super-competente, de Vítor, o Constâncio. Presumida, tal como a deles que por lá passaram e conhecem a corporação. 

O que escrevem o DN e o Público de hoje?



E o que nos dizem os arquivos de papéis recortados? Alguma coisa.

Para acompanhar este caso torna-se importante conhecer a cronologia ( a memórias das pessoas é muito curta, como já dizia o sábio que "hádem" ver ainda a perorar por aí)  que o DN publica mas com fontes não indicadas. Provavelmente vindas daqui.  

Em 14 Maio de 2004, ainda na pendência do Governo de Barroso ( demitiu-se no mês seguinte para ir para a Comissão Europeia ganhar mais, prestígio inclusivé) , a revista Sábado dava conta, com toda a pompa e circunstância que um editorial do jornalista João Marcelino escrevia ( agora escreve outro sem se lembrar desse tempo...).


O bravo Marcelino exigia então do BdP um esforço adequado à investigação ( também é isso que faz o BdP, ao contrário do que pretendem insinuar agora os corporativos com as barbas de molho) porque o assunto EFISA o justificava e o BPN tinha adquirido tal activo "tóxico"  dois anos antes.

E quais eram os motivos de preocupação do jornalista Marcelino que o BdP deveria inteirar-se e averiguar ( para aplicar coimas...)? O caso da aquisição de um banco estranho e com capitais duvidosos, numa altura de terrorismo alkaideano. Que fez o BdP? Que diga Vítor, o Constâncio, agora.

Teria o BdP oportunidade em descobrir outras maroscas ( que outros bancos também fazem, é bom que se escreva) relacionadas com offshores e actividade bancária fora das regras estritas da legalidade documental com assinatura reconhecida por notários.

Nessa altura, 2002, Dias Loureio  ( hoje um pobre pedinte, sem eira nem beira de bens em nome próprio) já tinha começado os negócios com a Plêiade ( que o BPN comproui e Dias Loureiro empochou comissão); já feito os negócios com a SLN e com a Redal e estava de fora.

Ou seja, o caso do banco Insular, escondido ao Bdp e o caso das offshores já existiam no universo opaco do BPN que o BdP poderia ter descoberto. E são esses os casos que constituem o sumo das acusações contra o BPN de Oliveira e Costa, que terão lesado o banco em alguns milhões, mas nada do que acontece agora, pós-nacionalização.


Ora acontece que em 2001, a revista Exame ( grupo Balsemão), então dirigida por Camilo Lourenço, escrevera um artigo crítico em relação ao BPN. Nada aconteceu, por banda do BdP. Nada? Enfim, Camilo Lourenço foi corrido da revista...e ainda apanhou com um processo. 

E porém, a fazer fé nas declarações do próprio "Zeca Diabo" às autoridades judiciárias em 2008, tal como conta a revista Sábado de 27 Novembro de 2008 ( altura em que Vítor, o Constâncio reconhece como tendo sido a primeira vez que ouviu falar do BPN em termos pouco abonatórios, esquecendo que já em 2001, o então vice-governador António Marta o havia referido...e insistido em investigar, embora com o sucesso conhecido).

Nessa altura, em 2008, Oliveira Costa explicou tudo muito bem às autoridades judiciárias que o ouviram: foi tudo uma questão de offshores, algumas para esconder parte das remunerações e prémios de gestão dos administradores e...pouco mais. O caso do Insular e dos negócios do Loureiro, esses estão ainda em águas de bacalhau. Tal com o jornalismo, para quem é, basta. 


Assim que adianta agora incomodar, Vítor, o Constâncio se anteriormente naquelas sessões na AR em que suou frio, andou aos papéis, desmemoriado de todo e a bufar que nem um pagador de impostos, nada aconteceu e até foi promovido, a ganhar mais e com mérito reconhecido por pares do género daqueles?

Pouco ou nada. Por mim, sugeria ouvir Camilo Lourenço, nas audições previstas. Para o ouvir dizer: arreda! Saia da frente!
É que já dura há muito, Vítor, o Constâncio, nesta farsa que é o país actual que temos.Para afundar um país, como eles o fizeram, não precisávamos de tamanha competência e génio. Bastava um borra-botas qualquer.

Ainda em tempo:

O problema com estes reguladores em alta-rotação e baixa densidade prende-se mais, a meu ver, com um fenómeno típico de "borra-botas" e que é este bem ilustrado na Visão de 30 de Junho de 2005.
Nenhum deles, em concorrência privada, teria estes rendimentos. Nem de perto, nem de longe. Assim... passam sempre por génios de uma competência tal que ofuscam a própria sombra.


E até há um exemplo ainda melhor que estes: é o do Pinho dos tamancos que é um génio que nem para lá dos Cárpatos se encontra.

terça-feira, abril 01, 2014

Pagamentos por conta, em 1975



Em 13 de Janeiro de 1975,  Portugal, através do Almirante Rosa Coutinho, do "Governo de Angola" ,pagou ao MPLA de Angola, a importância de 6. 600.000$00. Razão? Ora, ora. A independência de Angola foi em Novembro de 1975 e para lá chegar o "Movimento" precisava de fundos, ora essa.
Assim, Portugal  pagou seis mil e seiscentos contos por conta de "despesas".  A foto supra, com um garboso Rosa Coutinho a cumprimentar alguns figurões, nessa época e  ainda poucos meses antes considerados "terroristas",  saiu deste blog, com muito interesse e que mostra alguns heróis nacionais- os militares que lutaram no Ultramar-  que ficaram por conta própria.
As "despesas" eram assim explicitadas no documento abaixo mostrado:


"despesas efectuadas pelos serviços de segurança do referido Movimento com a manutenção e controlo de harmonia com o despacho do Exº Secretário de Estado do Planeamento e Finanças de 31.12.74, conforme distribuição nº 283 que como justificativo se arquiva nesta Direcção".

O Expresso de 30 de Agosto de 1975 contava a história. Por cá o  Secretário referido de Estado do Planeamento e Finanças, do II Governo Provisório de Portugal era o inefável e muito competente Vítor, o Constâncio. Por lá, pelo Governo de Angola não sei. Será que tinha autonomia financeira?


Uma lição de economia política, por Vítor Constâncio

Em 22 de Junho de 1974, o ultra-competente Vítor Constâncio já era notícia no Expresso, onde esportulou ideias avulsas sobre medidas económicas, enquanto secretário de Estado do Planeamento ( é fácil perceber, com estas luminárias acesas, de onde proveio a primeira bancarrota que tivemos, logo em 1976).
Este super-competente explicava que o aumento de 50% dos rendimentos mais baixos por via da fixação de um salário mínimo, se desacompanhada de aumento da produção do conjunto de bens na economia, geraria...inflacção. Tal poderia evitar-se se houvesse uma poupança privada importante.
O hiper-competente Constâncio defendia já nesta altura um modelo económico impressionante. Rejeitando liminarmente a social-democracia, "por  motivos ideológicos", este grandecíssimo competente queria já o socialismo em Portugal. Ideia central? A "igualdade". Constâncio, esse grandecíssimo e ultra competente já era pela igualdade que só o socialismo garantia. E que "socialismo"? Este, assim explicado: "um método de organização da sociedade em que efectivamente existe uma participação colectiva nas decisões, por forma a que a sociedade se conduza por forma voluntarista e não entregue aos mecanismos, seja do mercado, seja dos resultantes do progresso técnico, mas em que há uma participação que assegure que a sociedade é ela própria que escolhe o seu destino e isso só é possível se a igualdade existir."

Perceberam, todos, ó ignaros? Entenderam esta inteligència fulgurante que estava na Sedes a estagiar para ministro das Finanças, dali a quatro anos e que iria nessa altura de chapéu na mão, a Bona, acompanhado pelo camarada Mário que "sabia muito pouco de Finanças", mendigar aos alemães social-democratas, a esmola para que a igualdade socialista em Portugal fosse uma realidade?

Que dizer desta inteligência assim? Rara não é?  Pois é desta massa que se fazem os génios que depois são ministros, secretários gerais de partidos ( socialistas e nunca social-democratas), governadores de bancos de Portugal e funcionários de topo de bancos europeus.

Constâncio é o exemplo do génio português gerado pelo 25 de Abril de 74. Sigam-no que atrás virá bancarrota, pela certa. O percurso académico, esse, mostrado em caixilho ao lado, é também impressionante. Consta que deu em cátedra "honoris causa"...


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso