sábado, setembro 09, 2017

O retrato do desleixo e incompetência do Estado: "não tinham ordens"...

Uma das vítimas da tragédia de Pedrógão ( perdeu um filho de cinco anos)  fala ao Expresso desta semana ( mais um exemplo de óptimo jornalismo do Expresso, neste caso concreto). É uma jurista da câmara de Figueiró dos Vinhos e por isso conhece o meio e as circunstâncias em que o incêndio devastador ocorreu.

E diz assim, para envergonhar quem governa, nomeadamente o primeiro-ministro A. Costa  e quem manda ( os responsáveis da Protecção Civil e bombeiros locais): falhou tudo. Esse mesmo responsável pela Protecção Civil foi agora apanhado pela onda de jacobinismo que invadiu a administração pública e o Estado: pelos vistos acumula cargos indevidamente. Isso vai provavelmente lixar o indivíduo. A morte de 66 pessoas, não. É coisa de somenos.


Entretanto a actual procuradora-geral distrital de Lisboa, também cronista do Expresso pelo sistema de contactos, deu em palpitadeira sobre as causas dos incêndios.
Não se contentando em aventar hipóteses, arrinca o palpite definitivo neste artigo no Expresso de hoje, a lembrar os tempos das certezas do MRPP:


12% das causas dos incêndios deve-se aos bêbados e atrasados mentais. O resto é a mãe-natureza a operar. Quem lhe disse tal coisa? A autoridade de quem escreve no Expresso há muito...e está habituada a ler estatístico processual.
O que choca neste palpite não é apenas a ignorância que se deve presumir porque evidente. É o ar de certeza de dedo em riste. Isso é que choca.


sexta-feira, setembro 08, 2017

A Censura actual

SapoMag:

Afastada do jornalismo há oito anos, Manuela Moura Guedes falou com Cristina Ferreira sobre a polémica que envolveu o antigo primeiro-ministro José Sócrates e que ditou a sua saída da TVI. Em entrevista à revista da apresentadora, a antiga pivot da TVI confessou que o sentimento de injustiça "não passa".

"Não foi fácil, as outras coisas. O sentimento de injustiça foi muito difícil e continua. Isso é muito difícil e acho que vai continuar até ao final da vida. Isso não passa. Eu tenho pesadelo com isso e há dois dias tive um pesadelo com isso", confessou, acrescentando que a "história está a provar" que tinha razão
.

E continua, na TVI pela mão do homem de mão do antigo PM:


Portanto, a somar à incompetência, prepotência e forrobodó temos ainda a Censura bem viva e actuante. 

Incompetência, prepotência e forrobodó: a marca do Governo que está

Jornal Económico:

Rui Esteves foi até à passada segunda-feira, em simultâneo, comandante nacional da Protecção Civil em Carnaxide e director do aeródromo de Castelo Branco, apurou o programa Sexta às 9 da RTP.

De acordo com a investigação do programa, os dois cargos estão validados e assinados, pelo secretário de estado da Administração Interna, Jorge Gomes, no despacho de nomeação de Rui Esteves, de Janeiro.

No entanto, esta acumulação de cargos é ilegal perante a lei que regula o estatuto pessoal dirigente do Estado, e que proíbe um dirigente público de acumular funções, a não ser que tenha autorização superior para o efeito, explica o programa da RTP.


O Sexta às 9 detectou esta incompatibilidade e diz saber que Rui Esteves “nunca obteve autorização superior para acumular funções”, o que faz com que o comandante nacional de Protecção Civil esteja ilegal no cargo desde que fora nomeado há 8 meses.

O comandante nacional das operações de socorro já foi questionado sobre o assunto, e garantiu à RTP que fez um pedido verbal, ao presidente da Câmara de Castelo Branco, para ser substituído na direcção do aeródromo. Mas, de acordo com o Sexta às 9, o autarca desmentiu Rui Esteves e assegura que não recebeu nenhum pedido a formalizar essa intenção.

Os mortos de Pedrógão são a consequência...

quinta-feira, setembro 07, 2017

Vinhos de outra pipa...

A revista Sábado desta semana tem esta capa:






No interior tem várias páginas com relatos de transcrições telefónicas de conversas mantidas entre visados no processo do Marquês, particularmente duas mulheres apresentadas como amigas do interlocutor principal.
O assunto é a suspeita, bem plausível, no sentido de o antigo primeiro-ministro de Portugal ser um drogado. A linguagem usada é em tudo semelhante à que os dealers, passadores, pequenos traficantes de droga das pequenas cidades portuguesas usam para iludirem a eventual vigilância da polícia.

A lógica das conversas é a do pequeno trapicho de drogas para consumo. Uma vergonha e que denota bem o estofo moral de um primeiro-ministro que Portugal aguentou como um herói da modernidade e que até se gabava de ser o líder que a direita gostaria de ter.
O consumo de estupefacientes em Portugal deixou de ser crime há uns bons anos, mas não o respectivo tráfico, mesmo em pequenas quantidades.

É motivo de alguma perplexidade o modo como as autoridades, mormente o MºPº, lidou com este caso concreto que indiciava o tráfico de droga em que os consumidores utilizavam o truque habitual de quem não quer ser apanhado com a boca na botija: mandar os outros buscar e encarregar outrém de servir de medianeiro entre o dealer e o consumidor.

As escutas transcritas revelam que as autoridades estiveram em tempo real a monitorizar o que se passava e não se compreende a razão por que não quiseram identificar os fornecedores das "garrafas de vinho" que afinal era de outra pipa e vinham embaladas em pequenos envelopes fechados com fita cola.
Como a matéria é delicada, está-se já a ver o visado a rasgar as vestes de indignação postiça fundado na prova indiciária  de pouco valor probatório para além de uma investigação aparentemente mal conduzida e  frustrante.
É pena que isto suceda em casos desta importância.


Can´t

O grupo alemão de música popular Can acaba de perder mais um membro. Holger Czukay morreu na terça-feira, com 79 anos.

Em Janeiro deste ano tinha morrido Jaki Liebzeit e em 2001 já tinha desaparecido Michael Karoli. Já lá vão três, tantos como os discos originais que tenho do grupo: Soon over Babaluma de 1974; Landed, de 1975 e Saw Delight, de 1977.

Nesse ano de 1977, segundo o "top" da revista Música & Som, os êxitos de vendas de música em Portugal eram a canção de José Cid, Anita não é bonita; os Boney M, com Daddy Cool; Amália Rodrigues com Caldeirada; Abba, com Money, money, money; John Miles com Music e os Green Windows com Rita, Rita, Limão, para ficar na primeira meia dúzia.
Nos discos grandes, em lp, os Queen dominavam com A day at the races, na peugada do anterior sucesso de 1975, A night at the opera. Logo a seguir, Chico Buarque, com Meus caros amigos, o que tem Mulheres de Atenas e Meu caro amigo ( referido ao português, radialista, José Nuno Martins); Peter Framptom, Comes Alive e Genesis de Wind and Wuthering.

Os Can estiveram nessa altura em Portugal e a revista Música&Som fez um pequeno artigo sobre o grupo. O poster parcialmente mostrado abaixo é desse número da revista.

A música dos Can, particularmente destes discos e dos anteriores é tributária do então chamado "rock alemão" e era passada ocasionalmente nos programas de rádio nocturnos dessa época. Um deles até tinha o indicativo directamente saído de um tema do disco Flamende Herzen, de Michael Rother, fundador dos Neu!, alemão que chegou a fazer parte, inicialmente,dos Kraftwerk, talvez o grupo com maior projecção mediática, até hoje. Ainda este ano estiveram em Viana do Castelo no festival "neopop", de música electrónica. Os Kraftwerk merecem um postal dedicado, um dia destes, tal o interesse e qualidade de todos os seus discos.
Quanto a outros alemães, os Neu! ouvem-se com algum esforço, tal como os Faust, apesar da linha melódica de algumas Faust Tapes. Os Tangerine Dream ouvem-se sem se dar conta e chegaram a passar no rádio de 1975 e 1976 discos deles que surtem o efeito do vento a soprar pelas frinchas de janelas, com algumas abertas e o som do mar em fundo. Já ouvi falar dos Popol Vuh mas nunca ouvi a sonoridade com ouvidos atentos. E não será por falta de oportunidade uma vez que tais sons estão disponíveis no You Tube a todas as horas e em definição sonora aceitável. Mas nunca me puxou, de facto.

Ou seja, tirando os Karftwerk e os Can, que se ouvem com manifesto agrado e sem esforço, todos os demais carecem de predisposição e paciência para a empreitada.
De todos, os mais inovadores e interessantes são mesmo os Can. Por isso a falta dos seus músicos é o fim de uma era.



quarta-feira, setembro 06, 2017

O jacobinismo nunca dorme

Jornal Económico:

Nem só das dúvidas relativamente ao paradeiro das verbas angariadas para apoiar as vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande se fazem as notícias sobre as dificuldades que estas pessoas têm tido para serem apoiadas.

A SIC Notícias emitiu hoje uma reportagem que conta a história de um casal de idosos da aldeia de Nodeirinho que garante ter tido um prejuízo de 16 mil euros. No entanto, e de forma a disponibilizar-se para ressarcir esta verba, o Ministério da Agricultura terá, de acordo com este casal, informado que para receber valores acima de 5 mil euros é preciso estar colectado nas Finanças como produtores agrícolas
.

A "delação premiada" dá nisto...e portanto, por cá, nem sonhar com tal coisa...


A polícia brasileira informou hoje que encontrou o equivalente a mais de 13,7 milhões de euros num apartamento, alegadamente usado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima, em Salvador, a maior apreensão em dinheiro vivo no Brasil.

Geddel Vieira Lima já foi acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) do Brasil de realizar manobras para dificultar as investigações sobre esquemas de corrupção no banco estatal brasileiro Caixa Económica Federal e de desviar recursos de um fundo de investimento dessa instituição.

Até novembro do ano passado, era ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer, mas foi forçado a renunciar devido a fortes pressões decorrentes de suspeitas de que havia incorrido no suposto crime de tráfico de influência.

As autoridades policiais do Brasil explicaram que descobriram este apartamento, supostamente utilizado por Geddel Vieira Lima como "bunker" para armazenamento de dinheiro vivo, graças a informações recolhidas nas investigações da operação Cui Bono, um desdobramento da Lava Jato
.

Este postal é dedicado ao dr. Rui Patrício e outros advogados da nossa praça, sempre preocupados com a malfadada inversão do ónus da prova que desagua em condenações de inocentes em vez de absolvições de culpados.  A desgraça ainda seria maior se estas notas falassem...

Quanto ao presidente Temer, nada tem a temer. A prova é residual e nem a delação premiada o atinge. Aliás, em Portugal, tem amizades bem colocadas.

imagem tirada daqui.

Os nove novos juízes do STJ estão fora do radar dos media

Ontem, no STJ, tomaram posse nove novos juízes conselheiros. O 3º poder do Estado, titulado por cada juiz e com organização de topo no STJ, interessa quase nada aos media.

Só assim se justifica que seja o C.M. o único jornal a mostrar foto do evento, na edição de hoje, com este destaque...


 No dia anterior o presidente do STJ tinha dado "posse" a 18 novos juízes e o mesmo jornal deu este destaque à notícia, fazendo constar que o pSTJ falou com alguma perplexidade no facto de Portugal ser dos países europeus, aquele que mais presos tem em cativeiro e que tal merece reflexão.

Reflexão? Há uma ou duas razões que se podem enunciar sintecticamente: a primeira é a cultura penal que se ensina no CEJ e com predominância de mentalidade de um Ministério Público já antigo e anquilosado por carência de referências culturais. A seguir os magistrados judiciais que se deixam impregnar pelo mesmo caldo de cultura. Há o sentimento difuso, na magistratura do MºPº que muitas acusações são sinais de sucesso, reforçado por muitas condenações e ainda mais com penas de prisão efectiva. Para se ver tal efeito basta analisar os recursos interpostos pelo MºPº na primeira instância, de decisões judiciais que contrariam aquela mentalidade. Anquilosada e peregrina, mas altamente incentivada pelos inspectores das carreiras que propõem a classificação de serviço aos magistrados.
Alguém, algum jornalista alguma vez entrevistou um, só um que seja, desses inspectores? Façam-no e terão a surpresa da vida profissional...

Aqueles  factores, juntos, explicam quase todo o fenómeno, sem necessidade de sondagem em focus group...



terça-feira, setembro 05, 2017

Quando L´Express foi mais longe com Mário Soares...em Julho de 1972

A revista francesa L´Express, na edição de 10 de Julho de 1972 publicou uma extensa entrevista com Mário Soares, então exilado em Paris, por ocasião da publicação do seu livro, na capital francesa, Le Portugal Bâilloné ( Portugal Amordaçado, título apócrifo).

Essa entrevista foi transcrita integralmente no livro Escritos do Exílio, de Mário Soares, edição Bertrand, de Junho de 1975.

Vale a pena ler a entrevista do então socialista, esquerdista e nada social-democrata, Mário Soares e sobre o modo como encarava muitos aspectos que se revelaram essenciais para o Portugal que sairia da Revolução de Abril de 1974. O germe do PREC já estava lá...

A descolonização apressada, a economia estatizada e a aversão ao capitalismo estão aqui espelhadas neste retrato a sépia. O comunismo era mesmo o seu compagnon de route. Mesmo que escassos meses após o 25 de Abril tenha inflectido o rumo e posto o socialismo na gaveta, a verdade é que os efeitos ideológicos e políticos estavam lançados e uma vez a pasta socialista fora do tubo, nunca mais seria possível voltar a pô-la no devido sítio.

A "descolonização exemplar" já se encontrava aqui exemplarmente delineada: entregar tudo, a correr e o mais rápido possível, sem atender aos portugueses que se encontravam nas então Províncias Ultramarinas que para Mário Soares continuavam a ser colónias e tal circunstância um pormenor de rodapé histórico.

 A Geringonça é um reflexo disto que aí fica: 



Este mesmo Mário Soares que assim falava em 1972, alguns anos depois e quando estava no poder executivo, em Portugal ( logo após a segunda bancarrota no país...) decidiu que afinal o capitalismo e os bancos privados e os capitalistas eram necessários ao país. Mudou de ideias? Claro, radicalmente. Alguém se importou? Apenas os comunistas...

Já no final da vida, Mário Soares confessou em entrevista o que aconteceu em Portugal, relativamente a um banco bem conhecido, nos últimos 40 anos. Não admira que na altura em que o tal banco se encontrou na falência, muito por culpa do seu máximo gestor, se o poder político fosse socialista, teria novamente ajudado o tal gestor, como da primeira vez...apesar de já não existir o "ami Miterrand" ou outros mecenas da sociedade civil. 



A pergunta que queima, agora, é esta: como é que o tal "gestor bancário" agradeceu ao antigo político, putativo pai da democracia que temos? Em géneros ou serviços?

"E esta, hein?"

O combate à corrupção segundo este Governo

CM de hoje:


A técnica legislativa amadrinhada por uma ministra que foi magistrada de topo do MºPº, com classificações de serviço do melhor que há ou possa haver, casada com um putativo fundador do PS ( Eduardo Paz Ferreira e ele o disse) é isto que acima fica exposto por um magistrado que sabe o que se passa ( processo Face Oculta e Marquês).

Ninguém se incomoda por várias razões. Uma delas aparece explicada nesta crónica de um polícia que desmonta a táctica ártica de certos advogados que são sempre defensores de direitos dos arguidos, et pour cause...( é assim que enriquecem ou mesmo levam a vidinha).


segunda-feira, setembro 04, 2017

Políticos e Jornalistas, Cª Lda

Em França a nomeação de um jornalista -Bruno Roger-Petit- como porta-voz do chefe de Estado deu que falar esta semana.

A revista Marianne escreveu assim, mostrando que em França o incómodo é demasiado grande para passar em claro:


Por cá, o assunto não é  notícia, desde que um jornalista chegou a primeiro-ministro, ganhou balanço e conseguiu fundar uma estação de televisão através de uma aldrabice que pelos vistos pouco importa a quem quer que seja.

Triste país este, de galambas em série.

domingo, setembro 03, 2017

Morreu a metade dos Steely Dan

 Morreu Walter Becker, um músico americano que fundou com Donald Fagen os Steely Dan no início dos anos setenta.
Os Steely Dan iluminaram o meu panorama musical dos anos oitenta e em tempos, escrevi sobre o grupo, mais ou menos assim:

(...)
Ora bem…o engate do bar acaba em casa  e depois a convencer a  parceira  a ouvir a  musiquinha do novo disco, recente e que lembra a música do bar de tal modo que ela nem repara muito bem na mudança de ambiente.
A música vai amolecendo, vazia e inútil, enquanto se aperta o joelhinho da cúmplice, cada vez mais perto, e com a orelhinha lentamente, lentamente, cada vez mais perto da mordiscadela, quando…
“Acabou!” Diz ela, a olhar o copo cheio, onde marina um aprisionado cubo de gelo, e com um recuo estudado…Ah, sim! O disco! Rápido, voo para o prato cromado, e um saxofone de gritos lança o tema de “Gaucho”…Os gajos atacam! Ei-la de novo bem desperta, atenta…Mas não, as palavras embalam-na e, em arrebatamento, de cabeça apoiada neste ombro, distraída do movimento que lhe destapa as pernas bronzeadas, a cantarolar o refrão com o coro, da-du-didididadaaaaa, acaba-se a pensar que Steely Dan é um grande grupo e que os seus detractores…Peraí! Tocaram?! A esta hora? Não…quem é que poderá ser? Ah! Ah! Era apenas Donald Fagen a aflorar as percussões! Aaaaaaaahh! Quando o órgão manhoso de “My Rival” se lança na luta corpo a corpo com a sonoridade viva e brincalhona da guitarra, retira-se, numa toada toda reggae, a minúscula peça de roupa interior que cai até aos tornozelos finos da donzela…e para o fim de “Third World man”, não haverá muito mais a fazer…virar o disco e tocar o mesmo ou tocar o disco e virar ao mesmo,  sendo de novo tudo  possível! 

Obrigado, Walter Becker, obrigado Donald Fagen. Álbuns assim, deste classe e deste calibre, gostaríamos de ouvir e comprar mais vezes.E quando isto digo, sei que os velhos cotas rezingam. Mas as moças compreendem.

Este excerto da crónica de discos, assinada por Phillipe Manoeuvre, na Rock & Folk, de Janeiro de 1981, segue um estilo de escrita que pouco ou nada tem de musical e resvala nos esteiros de outras leiras. Contudo, foi essa crónica que me ficou na memória, como exemplo do modo original de criticar discos de música popular. No caso, Gaucho, dos Steely DanEste disco de Steely Dan, Gaucho, saído no final de 1980, na mesma altura do assassinato de John Lennon, marcou a continuidade do disco anterior Aja, gravado em 1977.
A música dos Steely Dan, começou a interessar-me no final dos setenta, com a audição repetida de Do it again, do LP de 1972, Can´t buy a thrill ou eventualmente Bodhisattva, do Lp seguinte, Countdown to ecstasy, de 1973. As canções, eram temas obrigatórios de recolhas como o Greatest Hits saído em 1978. Como aliás o era o tema Reeling in the years, do mesmo primeiro LP que lembro de passar na rádio em 1979 e lembro como o tema que me relançou o interesse antigo mas presente na música do Dan.
A canção Reeling in the years, um corridinho sobre o tempo que passa sem apelo nem agravo, contém um solo de guitarra que fixa a atenção que quem ouve solos de sempre, de Hendrix, passando por Townshend e Clapton, até chegar a Eddie Van Halen.
Durante uns segundos breves, a guitarra soa e sincopada e nessa altura nem sabia quem a fizera assim soar, mas o nome de Elliot Randall, não tinha eco no coro dos guitarristas conhecidos, apesar de mercenário das sessões de gravação em estúdio.
Foi com o eco desse solo que me despertei para a sonoridade que aparecia logo em 1979, ao ouvir Aja, gravado dois anos antes.
O disco de capa preta e fita vermelha e branca, deixa entrever o som de gravação de luxo, digna do rádio FM e foi aí que passei a ouvir os primeiros acordes de piano, vibrafone e baixo ronronante da canção que afinava com sininhos a voz de Donald Fagen a falar em  banjos angulares, rematada com um solo de sax de Wayne Shorter.
Descobri mais tarde que só guitarristas eram sete: Larry Carlton, Walter Becker, Denny Dias, Jay Graydon, Steve Khan, Dean Parks, Lee Ritenour. Ainda mais recentemente, através de um dvd, descobri o modo de gravação e a técnica de perfeccionismo da dupla, com os depoimentos dos músicos.
A repetição sonora desse tipo de experiências, aliado à vontade de ouvir sonoridades bem gravadas, mesmo em rádio FM, levou-me à curiosidade em descobrir o som que se seguiu. Animado pela releitura de um artigo assinado pelo grande Philipe Garnier, quando saiu Gaucho, o LP que me traz a este texto, já estava conquistado para a sonoridade dos Steely Dan.
Foi sem surpresa que ouvi o tema do título, puxado logo a saxofone swingante que passava com frequência na rádio da época.
Contudo, o tema fetiche, ouvido repetidas vezes, só meses depois se tornou a gravação preferida: Third World man é o último tema do último disco dos Steely Dan na década de oitenta e foi com alguma ânsia musical que esperei a repetição da sonoridade do tema que trata do pequeno drama do rapaz pequeno burguês urbano, convertido às delícias do delírio romântico da revolução terceiro-mundista. A musicalidade do tema, no entanto, com predominância de teclados cheios de som, intercala pequenos solos de guitarra que sendo da autoria de Larry Carlton, também misturam sonoridades que soube depois tratar-se da Strato de Mark Knopfler, obrigado a repetir vezes sem conta, em estúdio, pequenos fraseados que passam despercebidos ao ouvido desatento e sem significado no disco, com excepção para Time out of mind.
A musiquita fixou amarras no ouvido e só obteve algum lenitivo quando descobriu uma emulação anterior e publicada no LP de 1978, Greatest Hits. O tema Here at the Western World, composto em meados dos setenta, na altura de Katy Lied, Royal Scam ou mesmo Pretzel Logic (74), só saiu nesse disco, ficando escondido dos ouvidos até aos primeiros anos dos oitenta. Contudo, aparece na minha lista curta de músicas dos Steely Dan que apesar disso comporta ainda mais de uma dúzia.
Na sequência dessas descobertas, acabei por ouvir toda a discografia, com destaque para o LP Pretzel Logic, de 1974, acústico qb e com belíssimas canções que nunca passaram de moda na minha juke box particular. Rikki don´t lose that number, Any major dude will tell you, Barrytown e East st. Louis toodle-oo, com um solo de guitarra de imitação de trompete com surdina ( a composição é de Louis Armstrong e a guitarra procura a imitação perfeita do solo de trompete), Pretzel Logic rodou horas e horas no prato do gira discos, na rodela de prensagem espanhola, tal como os demais, aliás, porque as edições nacionais há muito se tinham esgotado e o cd só apareceu como novidade, na segunda metade dos oitenta, e em força, verdadeiramente, já nos noventa.
O LP Gaucho foi assim subsistindo na discoteca, em formato sucessivo e em acumulação.
Primeiro no LP da prensagem espanhola, de 1980, da Ariola-Euridisc, sem as letras das canções; depois, o LP na reedição alemã, da Record Service GmbH, já com letras impressas na capa interior.
A seguir, no CD primitivo de 1984, a que se juntou a colectânea de finais de 1993, Citizen Steely Dan, em CD e ainda o CD dourado da Mobile Fidelity. Finalmente, em tempos mais recentes, a verdadeira obra de arte da reprodução sonora que é a prensagem em SACD, do disco original, para audição em multicanal, mas com aproveitamento para o stereo tradicional. A audição desta última versão do disco, recoloca a memória sonora do que deve ser um disco como Gaucho de Steely Dan. Ou Aja, também.

Já nos anos 2000, o mais recente opus dos Steely Dan, de 2003, intitulado Everything must go, é um portento sonoro, com músicas interessantes. Em DVD-Audio, pode considerar-se uma maravilha da técnica de gravação, ainda da responsabilidade do engenheiro Roger Nichols. A qualidade das composições deixa um pouco a desejar, relativamente aos álbuns Aja e Gaucho, mas ainda assim conserva uma identidade sonora que não existia no cd de 2000, dos S.Dan, Two against nature.

Walter Becker publicou ainda discos a solo e um deles- 11 tracks of wack, de 1994- vale mesmo a pena ouvir, ainda que seja em cd.

Ao longo dos anos de colecção de artefactos com a marca Steely Dan, os discos originais, de prensagem americana:


Tudo começou na audição do tema Third World Man, em 1981, no rádio Popular de Vigo.  A imersão sonora, logo nos primeiros acordes das teclas de Rob Mounsey e Joe Sample desaguava nas guitarras de Larry Carlton e Steve Khan e pedia repetição e busca de outros temas idênticos. Numa incursão a uma discoteca no Porto, na rua de Cedofeita lá desencantei um disco - Pretzel Logic, em edição espanhola- que pensei conter o tema. Nem procurei mais e afinal descobri outras pequenas maravilhas como Rikki don´t loose that number ( vem daí o jogo de palavras num postal sobre o BES...) e Any major dude will tell you. 
Até chegar ao álbum Gaucho que é o sítio do tema em causa, experimentei outros e a conclusão a que cheguei é que se trata de grupo de que é preciso ter os cromos todos, incluindo o Greatest Hits de 1978 que é onde aparece a composição gémea daquela Third World Man: Here at the Western World, composta para o disco The Royal Scam, de 1976.

Esta contracapa de Countdown to ecstasy mostra o ambiente musical em modo de retrato: um estúdio de gravação e alguns dos melhores músicos da época ( 1973)


 Em Março de 1981 por ocasião da promoção de Gaucho, a revista Musician dedicou-lhes a capa e uma entrevista longa em que confessam abertamente a arte do plágio descarado.

Em 1993 a mesma revista voltou ao assunto a propósito de um putativo regresso da banda após a separação por ocasião de Gaucho, em 1980. 

 
Nesse tempo o grupo tinha dito quase tudo em forma de música e o outro elemento da banda  já tinha acrescentado um disco a solo à colecção, em 1982. The Nightfly, de Donald Fagen já tinha rodado muito, sendo um dos primeiros discos a ser gravado digitalmente. Em 1993 seguiu-se-lhe Kamakiriad, mas sem o mesmo glamour, definitvamente perdido no tempo dos anos oitenta do século que passou. 
Quanto ao agora falecido Walter Becker, logo a seguir a Gaucho foi para o Havaí e lá continuou a compor. Em 1994 saiu 11 Tracks of Wack, em cd e definitivamente também um disco menor relativamente aos do grupo, mas com temas cuja audição repetida provoca adição temporária.
Bye, Bye, Walter Becker. Devo-te muitas alegrias na música.


Quem quiser saber mais tem vários sítios na internet, embora não tenha consultado nenhum para escrever isto. E tem este livro:


O Correio da Manhã faz a folha a Balsemão

Hoje:


O borrão da SIC é insuportável e não sai com qualquer branqueamento. Mas ninguém se importa...

Um patife da política

Este gajo sem vergonha, segundo se indicia nas escutas do Marquês, andou a comer jantares à borla e a expensas de uma mais que putativa corrupção que não poderia ignorar sob pena de atestado supremo de estupidez.
Para além disso, avisou o antigo primeiro-ministro de que iria ser alvo de "qualquer coisa que se preparava contra ele" , num exercício claro de violação de segredo de justiça que tanto gosta de denunciar...aos outros.

Este tipo continua por aí, a sujar o espaço público,  precisamente porque não tem um pingo de vergonha e tem as costas quentes de quem acompanha outros patifes como ele.



Eppure...


sábado, setembro 02, 2017

Copy, it´s all right!

 Observador, artigo de Maria João Avillez sobre Balsemão:

Hoje já não sorrimos assim. Mas nesta primavera de 1981, Francisco Balsemão sorria para a jornalista do Expresso, que acabava de receber um prémio internacional, devido a uma reportagem publicada nas suas páginas. E eu olhava para o fundador do jornal e na altura primeiro-ministro, como se aquilo que me ocorria fosse uma coisa a meias. E de certo modo era. O Expresso, ele, eu, alguns colegas mais, tínhamos sido, por esses tempos, uma espécie de entidade quase indesligável, tanto oficiáramos em conjunto: a revolução, os militares, o Conselho da Revolução, Soares, Sá Carneiro, Cunhal, os partidos, o PREC, os quartéis… Essa vida que vivemos entre dois mundos, duas realidades, balançando entre o possível e o impossível.
Toda a grande imprensa internacional rumava ao Expresso. A rua Duque de Palmela era um porto de abrigo para os incrédulos directores dos media que vinham do estrangeiro e a quem Francisco Balsemão tentava explicar essa quadratura do círculo que era um país ocidental (e da NATO) onde eleições ordeiras com resultados que exprimiam uma saúde democrática, coexistiam, em excesso e desconcerto, com um demencial processo revolucionário.

Sim, toda a imprensa estrangeira ali rumava e aportava. Dos diretores do Le Monde, L’Express e Le Nouvel Observateur, aos gigantes norte-americanos, aos nossos vizinhos espanhóis, aos alemães, ingleses, italianos. (Como foi, por exemplo, o caso de Oriana, não a fada mas a Fallaci, que lá foi expressamente contar ao dr. Balsemão que Cunhal, dez minutos antes, acabara de lhe dizer que nunca haveria em Portugal uma democracia burguesa). Sim, e essa grande plateia internacional da comunicação pasmava ao ouvir aquele diretor suis generis, doublé de proprietário, doublé de político… Ao mesmo tempo que abria a boca de espanto face ao que fora daquele edifício de esquina, com vista para o Marquês de Pombal, ia ocorrendo país fora: golpes, inventonas, prisões, a ocupação do vespertino “A República”, o assalto à Rádio Renascença, o assalto à embaixada de Espanha, greves diárias, um Parlamento sequestrado, a quase asfixia de Lisboa.
Enquanto isto, no Expresso, nós ouvíamos, reportávamos, contávamos, entrevistávamos, 24 horas non stop. De tal forma que um dia até foi preciso inventar o Expresso Extra que existiu no fogo de 1974/5 e “saía” às quartas-feiras! Uma invenção do dr. Balsemão para escoar a prodigamente vertiginosa informação que a Rua Duque de Palmela atraía como ninguém no país, mas que não durava até ao sábado seguinte!
Mas agora, ao tempo da foto que abre esta história, a política levara-me um excelente diretor que no dia em que ela foi tirada era um primeiro-ministro feliz.

Aprendi muito com ele. Respirava informação, possuía um agudo sentido da notícia, sabia construí-la, tinha a boa perceção dos tempos e dos ritmos da entrevista, uma curiosidade imparável, cheirava bem o ar, aspirava bem o tempo. Tinha faro, intuição, talento. Tinha paixão. Sempre ofegante, apressado, desorganizado, impontual — nunca o conheci de outra maneira — era por vezes leve, por vezes ligeiro. Mas era um jornalista dos pés à cabeça que adorava o que fazia e foi por isso um ótimo diretor do Expresso.
E era hábil. Ao conviver tão placidamente numa espécie de tácita “aliança” entre um assanhado MRPP maioritário na redação e o então PPD, que ele fundara com Francisco Sá Carneiro em maio de 1974, tinha o Expresso pouco mais de um ano. Os comunistas do PCP eram os odiados “revisionistas”, o PS um partido “fascista”, o PSD não tinha direito de cidade, vomitava-se o CDS. Mas no número 37 da nossa rua, o casamento de conveniência entre o maoismo militante e os patrões do PPD vigorou com felicidade: espantando o mundo produzia-se o melhor jornal desse tempo (e do seguinte).


                                                             Uma edição do Expresso de Agosto de 1975

 Não sou da fundação do Expresso, entrei no primeiro dia de setembro de 1974. Entrei, é como quem diz: “Vens fazer o mês de setembro, o mapa de férias foi mal organizado mas depois não te encostas à nossa amizade, não preciso de mais gente”, disse-me o diretor com moderado entusiasmo.

Não me encostei, o 28 de setembro é que se encostou a mim. A fatídica data desabou-me sobre a cabeça como um bem vindo prémio e devo ser das raras pessoas no país a ousar tal desabafo. Mas a verdade é que a minha conquista do Expresso se fez à conta das aventuras vividas naquela indecente, armadilhada, longa noite: o dr. Balsemão gostou do que fiz, reconsiderou e incluiu, coitado, mais um (parco) ordenado na sua “pesada” (dizia ele) folha de pagamentos.
“Aqui escreve-se sempre dos dois lados do papel de máquina…”, disse-me um dia, logo no início, no seu amplo gabinete, enquanto me “ditava” uma notícia com o objetivo de testar os meus (sofríveis) conhecimentos na matéria. “É para poupar”. O efeito era horrível, mas que importância tinha? Poupava-se.
Com o país a arder, mandava-me a todo lado: que reportasse o que visse e ouvisse! Dos quartéis que eu frequentava como se fossem pastelarias, às noitadas no Restelo, no prédio alto onde então habitava o Conselho da Revolução; do COPCON, aos comandos militares do país; dos Passos Perdidos da Assembleia da República às sedes dos partidos políticos onde entrevistava, um após outro, Freitas do Amaral, Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal. Ou Zenha, ou Almeida Santos, ou Amaro da Costa, ou Gama e… toda essa gente pronta a construir o edifício da democracia civilista e pluripartidária que tão a custo se tentava erguer.

Fique-se por aqui, para mostrar o que quero dizer:

Este artigo de MJA é um testemunho pessoal acerca de Balsemão e do Expresso. A passagem transcrita reporta-se ao período do PREC, altura em que a jornalista começou a trabalhar "à peça" e à experiência, na redacção. 
 A  produção da imagem da edição do Expresso de Agosto de 1975 é da minha autoria, publicada aqui no blog.
Como se alcança através de um click no Google, na secção de "imagens" e com as indicações "Expresso portadaloja",  esta, como outras, torna-se pública e sem restrições de copy-right e não será isso que fica em causa.
A imagem resulta de uma cópia feita em scanner da edição original do Expresso que comprei em Agosto de 1975 que ainda guardo e encontra-se visivelmente deteriorada. Nem isso impediu a reprodução pelo Observador sem qualquer menção de origem...
Passados 42 anos sobre a aquisição dessa propriedade  sobre um exemplar de um jornal, o direito de reproduzir a imagem desse exemplar parece-me juridicamente indiscutível. A imagem, sendo da minha autoria reporta-se a um objecto que então adquiri e que era um jornal que então se vendia às dezenas de milhar. Quem guardou o respectivo exemplar poderá fazer o mesmo. Então, como agora, o Expresso não reserva direitos de reprodução do conteúdo e por isso me sinto à vontade em reproduzir a imagem do meu exemplar, comprado e que contribuiu então para que os jornalistas e empresa tivessem avviamento, incluindo o actual PR. Conclusão lógica, nessa perspectiva: deve-me mais a mim do que eu a ele, o que é sempre confortável...

Porém, pode colocar-se a questão, assim formulada e que traz outras à ilharga: temos o direito de reproduzir livremente imagens que são propriedade intelectual de outrém e andem à solta na internet?
Pois se andam à solta...podemos. Mas deveria existir uma ética básica, a de indicar o sítio de proveniência, para se esconjurar o espectro do furto virtual. Confesso que convivo mal com tal espectro e procuro sempre obviar a tal maleita, indicando a proveniência da imagem, sempre que possível.

O Observador optou por não o fazer o que diz algo sobre quem administra o Observador ou quem pratica o acto de furto virtual.

Esta mesma edição do Expresso de 23 de Setembro de 1975 revela ainda outra coisa interessante: nessa altura,  cerca de 30 jornalistas do Diário de Notícias, dirigido efectivamente pelo nóbél Saramago, subscreveram um manifesto de protesto contra a manipulação partidária do jornal pelo PCP e MDP/CDE, satélite daquele.


Na parte da secção Gente que então seria animada pelo actual presidente da República, escrevia-se assim a propósito de Saramago, do DN e de certos próceres da esquerda que colaboraram com o anterior regime...



 Hoje, para assinalar a efeméride dos 80 anos do dono do Expresso, Balsemão e a propósito da biografia não autorizada, de Joaquim Vieira, o semanário publicou estas duas páginas de recensão do livro, assinadas por uma tal Rosa Pedroso Lima: uma demolição em forma do livro e do seu autor.


  O Sol, pelo contrário, consagra várias páginas ao assunto e a quase totalidade do suplemento b.i. em homenagem ao antigo patrão do actual director do Sol...


Curioso...

sexta-feira, setembro 01, 2017

A vergonhosa formação da GNR dá nisto...

Esta notícia do CM de hoje suscita um comentário e a publicação de outro.


Segundo se indicia pelas notícias já de hoje, "depois de ter estado desaparecido desde quinta-feira da semana passada, o carro de Pedro Palma acabou por ser encontrado esta terça-feira, em Sintra, sendo que o corpo só viria a ser encontrado um dia depois, dentro da bagageira do mesmo carro. Esta quarta-feira, o Observador dava conta de que o cadáver de Pedro Palma tinha sido encontrado com uma garrafa de uma bebida alcoólica ao lado e sem quaisquer lesões ou indícios de luta.o carro foi encontrado terça-feira, mas só um dia depois é que o cadáver foi descoberto, o que fez com que os restos mortais de Pedro Palma só tivessem chegado ao Instituto de Medicina Legal na quarta-feira já durante a noite. A autópsia só foi feita esta sexta-feira, sendo que o funeral só poderá realizar-se sábado. Segundo o Correio da Manhã, a análise ao corpo indica que estaria em coma alcoólico, tendo resistido pelo menos até segunda-feira.
Pedro Palma foi encontrado descalço, mas com os sapatos junto ao corpo, assim como a chave do carro e os documentos. A PJ está a investigar os cenários de suicídio e homicídio. 

O cenário apresenta-se assim:

O fotógrafo desapareceu e pouco depois descobriu-se o seu carro estacionado junto a casa. Ninguém achou por bem mexer no carro para perceber o que teria acontecido e preferiram avisar a polícia, no caso a GNR, para a ocorrência. O cabo de serviço depois de tomar conta da ocorrência tomou conta do carro e não deixou que mais ninguém lá tocasse, não tendo também tocado no mesmo, à espera que aparecesse a polícia de investigação que tem competência para tal, a PJ.
Resultado: o corpo do fotógrafo estava dentro da bagageira do carro e eventualmente poderia ainda estar vivo quando o carro foi encontrado.  Mercê do excesso de zelo do bravo GNR, o coma alcoólico em que o fotógrafo aparentemente se encontrava foi fatal e terá morrido disso.

Se assim foi, a estupidez da actuação da GNR é de tal ordem que só pode obrigar a consequências: ensinar o básico a quem já o deveria saber e principalmente ensinar  que a preservação de indícios não deveria impedir o dono do próprio veículo a mexer nele, sem que ordem válida nesse sentido fosse emitida.
Há ainda outro ensinamento básico que a GNR no caso omitiu: a preservação de indícios passa precisamente pela investigação sumária e urgente, em caso disso, independentemente da intervenção da Polícia Judiciária, mais tarde, como polícia competente par ao efeito.

Então qual a razão da actuação canhestra da GNR? Só vejo uma: deficiente formação e ainda mais deficiente inteligência de quem interveio...a par do jacobinismo que apresenta a lei e regulamentos como medida de todas as coisas, mesmo as mais estúpidas.

Neste sentido é a crónica do antigo agente da PJ, sindicalista e comentador actual da CMTV: uma vergonha, evidentemente.


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso