domingo, 3 de setembro de 2017

Morreu a metade dos Steely Dan

 Morreu Walter Becker, um músico americano que fundou com Donald Fagen os Steely Dan no início dos anos setenta.
Os Steely Dan iluminaram o meu panorama musical dos anos oitenta e em tempos, escrevi sobre o grupo, mais ou menos assim:

(...)
Ora bem…o engate do bar acaba em casa  e depois a convencer a  parceira  a ouvir a  musiquinha do novo disco, recente e que lembra a música do bar de tal modo que ela nem repara muito bem na mudança de ambiente.
A música vai amolecendo, vazia e inútil, enquanto se aperta o joelhinho da cúmplice, cada vez mais perto, e com a orelhinha lentamente, lentamente, cada vez mais perto da mordiscadela, quando…
“Acabou!” Diz ela, a olhar o copo cheio, onde marina um aprisionado cubo de gelo, e com um recuo estudado…Ah, sim! O disco! Rápido, voo para o prato cromado, e um saxofone de gritos lança o tema de “Gaucho”…Os gajos atacam! Ei-la de novo bem desperta, atenta…Mas não, as palavras embalam-na e, em arrebatamento, de cabeça apoiada neste ombro, distraída do movimento que lhe destapa as pernas bronzeadas, a cantarolar o refrão com o coro, da-du-didididadaaaaa, acaba-se a pensar que Steely Dan é um grande grupo e que os seus detractores…Peraí! Tocaram?! A esta hora? Não…quem é que poderá ser? Ah! Ah! Era apenas Donald Fagen a aflorar as percussões! Aaaaaaaahh! Quando o órgão manhoso de “My Rival” se lança na luta corpo a corpo com a sonoridade viva e brincalhona da guitarra, retira-se, numa toada toda reggae, a minúscula peça de roupa interior que cai até aos tornozelos finos da donzela…e para o fim de “Third World man”, não haverá muito mais a fazer…virar o disco e tocar o mesmo ou tocar o disco e virar ao mesmo,  sendo de novo tudo  possível! 

Obrigado, Walter Becker, obrigado Donald Fagen. Álbuns assim, deste classe e deste calibre, gostaríamos de ouvir e comprar mais vezes.E quando isto digo, sei que os velhos cotas rezingam. Mas as moças compreendem.

Este excerto da crónica de discos, assinada por Phillipe Manoeuvre, na Rock & Folk, de Janeiro de 1981, segue um estilo de escrita que pouco ou nada tem de musical e resvala nos esteiros de outras leiras. Contudo, foi essa crónica que me ficou na memória, como exemplo do modo original de criticar discos de música popular. No caso, Gaucho, dos Steely DanEste disco de Steely Dan, Gaucho, saído no final de 1980, na mesma altura do assassinato de John Lennon, marcou a continuidade do disco anterior Aja, gravado em 1977.
A música dos Steely Dan, começou a interessar-me no final dos setenta, com a audição repetida de Do it again, do LP de 1972, Can´t buy a thrill ou eventualmente Bodhisattva, do Lp seguinte, Countdown to ecstasy, de 1973. As canções, eram temas obrigatórios de recolhas como o Greatest Hits saído em 1978. Como aliás o era o tema Reeling in the years, do mesmo primeiro LP que lembro de passar na rádio em 1979 e lembro como o tema que me relançou o interesse antigo mas presente na música do Dan.
A canção Reeling in the years, um corridinho sobre o tempo que passa sem apelo nem agravo, contém um solo de guitarra que fixa a atenção que quem ouve solos de sempre, de Hendrix, passando por Townshend e Clapton, até chegar a Eddie Van Halen.
Durante uns segundos breves, a guitarra soa e sincopada e nessa altura nem sabia quem a fizera assim soar, mas o nome de Elliot Randall, não tinha eco no coro dos guitarristas conhecidos, apesar de mercenário das sessões de gravação em estúdio.
Foi com o eco desse solo que me despertei para a sonoridade que aparecia logo em 1979, ao ouvir Aja, gravado dois anos antes.
O disco de capa preta e fita vermelha e branca, deixa entrever o som de gravação de luxo, digna do rádio FM e foi aí que passei a ouvir os primeiros acordes de piano, vibrafone e baixo ronronante da canção que afinava com sininhos a voz de Donald Fagen a falar em  banjos angulares, rematada com um solo de sax de Wayne Shorter.
Descobri mais tarde que só guitarristas eram sete: Larry Carlton, Walter Becker, Denny Dias, Jay Graydon, Steve Khan, Dean Parks, Lee Ritenour. Ainda mais recentemente, através de um dvd, descobri o modo de gravação e a técnica de perfeccionismo da dupla, com os depoimentos dos músicos.
A repetição sonora desse tipo de experiências, aliado à vontade de ouvir sonoridades bem gravadas, mesmo em rádio FM, levou-me à curiosidade em descobrir o som que se seguiu. Animado pela releitura de um artigo assinado pelo grande Philipe Garnier, quando saiu Gaucho, o LP que me traz a este texto, já estava conquistado para a sonoridade dos Steely Dan.
Foi sem surpresa que ouvi o tema do título, puxado logo a saxofone swingante que passava com frequência na rádio da época.
Contudo, o tema fetiche, ouvido repetidas vezes, só meses depois se tornou a gravação preferida: Third World man é o último tema do último disco dos Steely Dan na década de oitenta e foi com alguma ânsia musical que esperei a repetição da sonoridade do tema que trata do pequeno drama do rapaz pequeno burguês urbano, convertido às delícias do delírio romântico da revolução terceiro-mundista. A musicalidade do tema, no entanto, com predominância de teclados cheios de som, intercala pequenos solos de guitarra que sendo da autoria de Larry Carlton, também misturam sonoridades que soube depois tratar-se da Strato de Mark Knopfler, obrigado a repetir vezes sem conta, em estúdio, pequenos fraseados que passam despercebidos ao ouvido desatento e sem significado no disco, com excepção para Time out of mind.
A musiquita fixou amarras no ouvido e só obteve algum lenitivo quando descobriu uma emulação anterior e publicada no LP de 1978, Greatest Hits. O tema Here at the Western World, composto em meados dos setenta, na altura de Katy Lied, Royal Scam ou mesmo Pretzel Logic (74), só saiu nesse disco, ficando escondido dos ouvidos até aos primeiros anos dos oitenta. Contudo, aparece na minha lista curta de músicas dos Steely Dan que apesar disso comporta ainda mais de uma dúzia.
Na sequência dessas descobertas, acabei por ouvir toda a discografia, com destaque para o LP Pretzel Logic, de 1974, acústico qb e com belíssimas canções que nunca passaram de moda na minha juke box particular. Rikki don´t lose that number, Any major dude will tell you, Barrytown e East st. Louis toodle-oo, com um solo de guitarra de imitação de trompete com surdina ( a composição é de Louis Armstrong e a guitarra procura a imitação perfeita do solo de trompete), Pretzel Logic rodou horas e horas no prato do gira discos, na rodela de prensagem espanhola, tal como os demais, aliás, porque as edições nacionais há muito se tinham esgotado e o cd só apareceu como novidade, na segunda metade dos oitenta, e em força, verdadeiramente, já nos noventa.
O LP Gaucho foi assim subsistindo na discoteca, em formato sucessivo e em acumulação.
Primeiro no LP da prensagem espanhola, de 1980, da Ariola-Euridisc, sem as letras das canções; depois, o LP na reedição alemã, da Record Service GmbH, já com letras impressas na capa interior.
A seguir, no CD primitivo de 1984, a que se juntou a colectânea de finais de 1993, Citizen Steely Dan, em CD e ainda o CD dourado da Mobile Fidelity. Finalmente, em tempos mais recentes, a verdadeira obra de arte da reprodução sonora que é a prensagem em SACD, do disco original, para audição em multicanal, mas com aproveitamento para o stereo tradicional. A audição desta última versão do disco, recoloca a memória sonora do que deve ser um disco como Gaucho de Steely Dan. Ou Aja, também.

Já nos anos 2000, o mais recente opus dos Steely Dan, de 2003, intitulado Everything must go, é um portento sonoro, com músicas interessantes. Em DVD-Audio, pode considerar-se uma maravilha da técnica de gravação, ainda da responsabilidade do engenheiro Roger Nichols. A qualidade das composições deixa um pouco a desejar, relativamente aos álbuns Aja e Gaucho, mas ainda assim conserva uma identidade sonora que não existia no cd de 2000, dos S.Dan, Two against nature.

Walter Becker publicou ainda discos a solo e um deles- 11 tracks of wack, de 1994- vale mesmo a pena ouvir, ainda que seja em cd.

Ao longo dos anos de colecção de artefactos com a marca Steely Dan, os discos originais, de prensagem americana:


Tudo começou na audição do tema Third World Man, em 1981, no rádio Popular de Vigo.  A imersão sonora, logo nos primeiros acordes das teclas de Rob Mounsey e Joe Sample desaguava nas guitarras de Larry Carlton e Steve Khan e pedia repetição e busca de outros temas idênticos. Numa incursão a uma discoteca no Porto, na rua de Cedofeita lá desencantei um disco - Pretzel Logic, em edição espanhola- que pensei conter o tema. Nem procurei mais e afinal descobri outras pequenas maravilhas como Rikki don´t loose that number ( vem daí o jogo de palavras num postal sobre o BES...) e Any major dude will tell you. 
Até chegar ao álbum Gaucho que é o sítio do tema em causa, experimentei outros e a conclusão a que cheguei é que se trata de grupo de que é preciso ter os cromos todos, incluindo o Greatest Hits de 1978 que é onde aparece a composição gémea daquela Third World Man: Here at the Western World, composta para o disco The Royal Scam, de 1976.

Esta contracapa de Countdown to ecstasy mostra o ambiente musical em modo de retrato: um estúdio de gravação e alguns dos melhores músicos da época ( 1973)


 Em Março de 1981 por ocasião da promoção de Gaucho, a revista Musician dedicou-lhes a capa e uma entrevista longa em que confessam abertamente a arte do plágio descarado.

Em 1993 a mesma revista voltou ao assunto a propósito de um putativo regresso da banda após a separação por ocasião de Gaucho, em 1980. 

 
Nesse tempo o grupo tinha dito quase tudo em forma de música e o outro elemento da banda  já tinha acrescentado um disco a solo à colecção, em 1982. The Nightfly, de Donald Fagen já tinha rodado muito, sendo um dos primeiros discos a ser gravado digitalmente. Em 1993 seguiu-se-lhe Kamakiriad, mas sem o mesmo glamour, definitvamente perdido no tempo dos anos oitenta do século que passou. 
Quanto ao agora falecido Walter Becker, logo a seguir a Gaucho foi para o Havaí e lá continuou a compor. Em 1994 saiu 11 Tracks of Wack, em cd e definitivamente também um disco menor relativamente aos do grupo, mas com temas cuja audição repetida provoca adição temporária.
Bye, Bye, Walter Becker. Devo-te muitas alegrias na música.


Quem quiser saber mais tem vários sítios na internet, embora não tenha consultado nenhum para escrever isto. E tem este livro:


4 comentários:

Floribundus disse...

os FdP não morrem

El País
ENTREVISTA AL MINISTRO DE ECONOMÍA DE PORTUGAL
Caldeira Cabral: “Portugal va tener el mayor crecimiento del siglo”
El ministro portugués de economía asegura que el fin de la austeridad, con aumento de salarios y pensiones, ha sido clave para la llegada récord de inversión extranjera

zazie disse...

Grande artigo. Devia ser pago por ele

eheheh

josé disse...

Pago? Já me contentava em ler alguém que me mostrasse algo de novo sobre o assunto.Experiência pessoal.lsso é que gosto de ler. Ando a ler a biografia do Keith Richards,Life.

zazie disse...

Maravilha!