domingo, janeiro 11, 2015

Os franceses são Charlie? Nem tanto...

Estes três últimos dias, em Paris, foram de alguma apreensão geral, sentida realmente pela população e em resultado do ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo, de esquerda libertário-anarquista, animado por alguns desenhadores fantásticos, de ascendência judaica. Este pedigree foi fatal para o ataque ad hominem contral o jornal, como aliás o foi para o ataque ao supermercado nas redondezas da cidade. Os judeus estão  no centro deste ataque e os que o perpetraram são indivíduos de ascendência árabe,  fanáticos do Islão e que foram dizimados sem grande cerimónia pelos crs franceses, para alívios dos autóctones.

Ontem, Sábado, o momunento da L´Étoile, nos Champs Elysées estava encimado por uma faixa a dizer que era "Charlie". O mesmo sucedia com alguns locais específicos, como o Palais Tokyo, junto ao Sena e mesmo pegadinho ao edifício da Av. Président Wilson, particularmente ao nº 15, onde um certo recluso 44, teve esperança de um dia vir a ocupar. Sítio de luxo...

Hoje, Domingo de tarde, desenrolou-se uma gigantesca manifestação internacional que reuniu mais de um milhão de pessoas em prol da "Liberdade" e contra o terrorismo deste tipo. Dificilmente alguém encontraria motivo para não se integrar numa manifestação deste tipo, mas o assunto vai mais fundo e mais longe do que simplesmente a ideia de "liberdade de expressão".

Alguns jornais e revistas franceses, nestes últimos três dias, escreveram coisas  notáveis, de análise do fenómeno e como habitualmente, a qualidade e pluralidade informativa, muito mais ampla do que por cá acontece, torna-se um regalo e uma pequena maravilha.

Em primeiro um artigo no Le Point saído no dia dos acontecimentos.



E um artigo no jornal "liberal" L´Opinion:


 E ainda outro na Marianne ( esquerda moderada)  de Sexta-Feira, dia 9.



Para perceber o que era o jornal Charlie Hebdo e este espírito francês de um humor único é preciso recuar aos anos sessenta, como já tentei mostrar em postal anterior.

Mas parece que é preciso também entender que o Charlie e a Hara-Kiri ou a Actuel, ou mesmo uma série de revistas que apareceram durante os anos setenta, o foram na sequência do sucesso da banda desenhada franco-belga, do Tintin, Astérix e Lucky Luke. No fundo todo começou nesse caldo de cultura condimentado pela revista Pilote, nos anos sessenta e continuado por uma série de outras, aparecidas na sequência da modificação cultural pós Maio 68.

O esquerdismo comunista, maoista e trotskista tem aqui um campo de batalha específico em boa parte perdido para a tendência marxista de feição groucho.

É este aspecto artístico e cultural que se torna relevante e que contextualiza o aparecimento daquelas revistas de desenhadores humorísticos.

Senão, vejamos como a revista Actuel ( dirigida pelo esquerdista Bizot) , no seu número de adeus, da primeira fase, em Outubro de 1975, descrevia esse fenómeno que os nossos esquerdistas maoistas e trotskistas de antanho conhecem de ginjeira.

É sintomático que uma boa parte dos desenhadores da Charlie fosse já sexagenária e para cima disso. É um mundo cultural que tende a desaparecer  mas que me parece importante conhecer para se entender o contexto destes factos e a tristeza que tal desaparecimento pode suscitar em que se habituou, como eu, a conviver com estas pessoas e desenhadores que aprecio e cujos continuadores não são suficientes para lhes ultrapassar o talento, como eles ultrapassaram os seus antecessores.

Nesse número de despedida ( temporário, porque regressaram cerca  de dez anos depois, mais modernaços e exótico-eróticos) o artigo sobre as divergências entre a esquerda clássica e comunista e os "anarcas" é bem patente e notável porque o argumentário era exactamente o que então se produzia. Este é um documento único por isso mesmo. O Pacheco que escreve em jornais é que devia falar disto...



E para entender melhor este tipo de humor, dois números da Charlie-Hebdo de 1979 e 1980.

No primeiro de 23 de Março de 1979, o "pai" da União Europeia era assim tratado:


E no número de 6 de Fevereiro de 1980, o então secretário-geral do PSF, Marchais, um estalinista como Cunhal apanhava esta que em portugal seria impensável na época ( e agora também), o que comprova muito do que é o espírito "Charlie" de um Público e quejandos quase todos.



Por outro lado, assunto do conflito  "árabe-israelita" e a "crise do petrólio" eram vistos de uma outra perspectiva pelo desenhador Reiser, da mesmíssima escola, no número daquele jornal, de 23 de Março de 1979. Ainda não havia fanatismo religioso como ameaça e o problema era circunscrito ao aspecto militar que o "Ocidente" poderia resolver facilmente...
Curiosamente é um problema que é abordado pelo escritor Alaa El Aswany, mais abaixo...



Torna-se notável como nestes últimos 40 anos as coisas mudaram e assumiram a feição que hoje conduziu à manifestação gigantesca de Paris.

Talvez a explicação se possa encontrar nos desenhos de Reiser e ainda nesta entrevista com um intelectual  árabe, publicado na mesma Le Point.


E mais este da mesma revista:


Julgo que está aí o essencial para se entender o que se passou. E continuo a dizer que não me sinto Charlie algum. Por estas e por outras...

E como bónus para se ver como era o humor em desenhos na década de setenta, fica aqui a contra-capa da revista Ah Nana, uma publicação gémea da revista Métal Hurlant, mítica, dessa altura.


Este exemplo é suficientemente eloquente para se perceber como o mundo mudou, entretanto e a Liberdade para se ser Charlie, afinal, é um mito hipócrita.

E aqui fica mais um Reiser contra a corrente, da edição do Charlie Hebdo de 6.2 1980. Antes de Chernobil e em plena guerra fria, com ameaça de bombismo nuclear. Israel já tinha a sua bombita, desde o ano anterior, salvo o erro. Obtida misteriosamente sem mistério algum: foram os americanos judeus que a financiaram, montaram e prepararam. Para assegurar a paz na região...



Ah! E outra coisa que já me esquecia e que ninguém agora quer lembrar: um certo Dieudonné, preto, foi caricaturado no jornal de Cabu, Charb e Wolinski, em 2011. Assim, neste modo particular de usar a liberdade de expressão, para combater a mesma ideia que afinal só é digna se for usado deste modo:
Qual o problema de Dieudonné a quem a "liberdade de expressão" foi censurada em sátiras e ataques variados nos média que agora são "tous Charlie"?
Pois...atacou os judeus. Foi só isso...e teve isto como resposta:



Bofetada de luva branca: o dito Dieudonné apoiou a manifestação de ontem, pela "liberdade de expressão"...

Questuber! Mais um escândalo!