segunda-feira, 8 de junho de 2009

A roubalheira afectiva

A pesada derrota de Vital Moreira nestas eleições, alvitra-lhe um obituário político, por motivos óbvios: nenhum comentador, incluindo os mais facciosos, lhe atribuiu mérito político de relevo positivo, nesta disputa eleitoral.
O jornal i, de hoje, retrata-o assim: " O antigo comunista revelou-se um mau orador e um péssimo candidato. Começou a pedir que se elevasse o debate e acabou a falar na "roubalheira" no BPN. Foi punido pelo eleitorado".
Rui Moreira escreve a sua crónica no Público de hoje, referindo-se à campanha eleitoral de Vital, designadamente o assunto da "roubalheira" , para dizer que este poderia ter aproveitado o assunto para questionar o "porquê" e o "como" do enriquecimento de tantos políticos e governantes que não tinham fortuna quando chegaram à política, que foram sempre mal pagos enquanto faziam o sacrifício de se dedicarem à causa pública, e que depois se tornam inexplicavelmente muito ricos."
"Só que isso", acrescenta Rui Moreira, "é um milagre das rosas que também abençoa muitos dos seus correligionários".
Pois...e Vital sabe bem como são estas coisas que aliás deveria esclarecer. Já como candidato a deputado ao PE, disse que ia perder dinheiro ao ir para fora.
Perder dinheiro, quando se sabe que um deputado pode ganhar com facilidade mais de 7 mil euros mensais, a duplicar e com acrescentos vários.
As incompatibilidades, por seu turno, só o atingem de raspão, em cargos supostamente de confiança para-política, como sejam as pertenças a alguns Conselhos Consultivos ou de Supervisão, das grandes empresas públicas ou em que o Estado tem parte determinante.
Portanto, o caso de Vital, seria precisamente um daqueles que melhor exemplificariam a ascensão social pela política em paralelo e através de partidos afectivos.
A nomeação de Vital Moreira para os diversos cargos politicamente afectivos, só ocorre em função da actividade política de influência, seja na escrita, no apoio expresso a medidas governamentais avulsas; seja na participação em fora e realizações de carácter para-político, seja em participações em organizações de âmbito governamental ou de empresa sujeita ao capital público de relevo.
A categoria intelectual é manifestamente insuficiente para tais escolhas ( Canotilho é o exemplo) , assim como o prestígio académico conta quase nada ( há vários mestres ignorados da política e outros que não o sendo, aparentam o que não são). Os exemplos são inúmeros e explicam o mecanismo da ascensão política de topo, dos vários apaniguados da oportunidade.
O que conta, acima de tudo e de todos, é a pertença e participação afectiva nas realizações, novas oportunidades e apoios a lideranças em ascenção ou por visibilidade política.
Tudo isso se contabiliza em fretes práticos e indentificáveis, em manifestações de apoio pontual e oportuno, em solidariedades fraternas e em cumplicidades seguras.
O poder custa isso. E Vital Moreira paga, há muito tempo, esse tributo obrigatório para chegar à mesa do Orçamento de Estado, onde se distribuem vitualhas aos convidados da política.
Com o resultado das eleições de ontem, há uma conclusão óbvia: o eleitorado roubou-lhe a legitimidade para tal, mesmo que o tenha eleito para um lugar no PE que lhe vai impedir de ganhar o que ganha, do modo que ganha.

2 comentários:

diconvergenciablog disse...

Bom post.

100anos disse...

O PS foi à procura de uma personagem pedagógica e mobilizadora e saiu-lhe na rifa um trauliteiro da quinta casa, o que aliás só espanta quem não tenha acompanhado o percurso público do cidadão.
Que fique lá por Bruxelas, que aqui não faz falta nenhuma.