Fui comprar o livro de José Milhazes- As minhas aventuras no país dos sovietes- agora publicado pela Oficina do Livro e que pretende relatar "A União Soviética tal como eu a vivi".
Movia-me a curiosidade em saber a razão pessoal e concreta de alguém da minha geração, de um meio social que julgo conhecer e com experiências de infância parecidas ou mesmo semelhantes às minhas e de milhares de outras pessoas, aderir ao PCP numa altura em que o comunismo surgiu em Portugal, logo depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, como força política viável e inserida na mudança operada.
Nessa altura o PCP tinha muito poucos militantes, embora fiéis e indefectíveis, alguns dos quais foram presos e até deportados nos anos 30 e depois, para os campos de S. Nicolau e Tarrafal, por pertencerem à organização subversiva e que era proibida até então. Eram e são os sumo-sacerdotes da seita, mas os neófitos impressionavam mais pelo fervor e dedicação à causa.
A leitura das primeiras 35 páginas do livro ( que tem 332) dá um panorama de uma infância e adolescência numa pequena cidade do Norte ( Póvoa de Varzim), próxima do sítio onde também vivi e cujas referências avulsas a personagens do quotidiano daquele poderiam muito bem ser as minhas. As brincadeiras, a televisão a preto e branco e os jogos de futebol, a leitura dos livros de "cóbois", a frequência da escola, catequese e pessoas a elas ligadas poderiam ser as minhas, sem tirar nem pôr.
O meio "social" de Milhazes era o piscatório da Póvoa e das Caxinas dos anos sessenta e setenta que não era diferente de outros meios que conheci bem porque vivi no seu seio e experimentei as mesmas coisas e convivi com pessoas iguaizinhas às retratadas. O Norte de Portugal, nessa altura era suficientemente homogéneo para quem viveu esse tempo perceber perfeitamente o que Milhazes escreve. A cultura era a mesma, o meio o mesmo e as pessoas tinham os mesmos hábitos e costumes.
José Milhazes em determinada altura decidiu estudar para padre, missionário, nos Combonianos de Famalicão e Maia, por influência do "Padre Amorim" de quem porventura também ouvi falar, em Braga, no Seminário Menor por onde também andei.
Portanto, qual a razão pela qual José Milhazes escolheu ser comunista numa altura em que o comunismo era ideologia já bem conhecida na Europa e com os seus efeitos perversos também nessa altura bem divulgados lá fora e menos por cá, mas ainda assim, suficientes para quem quisesse mesmo saber?
José Milhazes deve ter conhecido o padre jesuíta Fernando Leite, dinamizador da "Cruzada" e do seu fervor místico ao "Imaculado Coração de Maria" e a Fátima e ainda a sua aversão visceral ao comunismo, certamente inoculada na sua infância depois da primeira República jacobina e maçónica que tinha jurado acabar com a religião em duas gerações.
Milhazes viveu o dia 25 de Abril e os que se lhe seguiram ainda no Seminário. Conta que os primeiros contactos com "membros de círculos católicos antifascistas do Porto contribuíram também para despertar em mim o interesse pela política".
Portanto, uma primeira explicação.
Mas José Milhazes conta que gostava de ler ( e gostava particularmente da História ensinada pelo professor Cunha) e a pergunta que surge é se alguma vez, nessa altura, se interessou em ler algo sobre o comunismo, no sentido de se esclarecer sobre a sua natureza.
Soljenitsine tinha sido publicado em Portugal, em 1974, embora o fulgor revolucionário comunista apagasse a sua chama de denúncia das arbitrariedades e crimes, sem comparação com o que Salazar tinha feito por cá. Não ouviu falar nessa altura disso? Ou ouviu e desvalorizou como sendo propaganda fascista ou da CIA?
E não se interrogou se seria mesmo isso ou coisa diversa? Aparentemente não, porque nem fala nisso e apenas refere os tais "contactos" e as leituras fervorosas dos breviários marxistas-leninistas.
Portanto, José Milhazes terá sido mais uma das vítimas da ideologia e propaganda comunista sem questionar a sua essência. Ora é isto que suscita curiosidade, esta adesão espontânea e consentida ao comunismo do PCP, já sem paralelo na Europa ocidental de então.
José Milhazes abandonou o desejo de ser padre missionário de forma "brusca, súbita" depois de um sonho e de uma aparição de figura sobrenatural que lhe indicou "outro caminho".
Abandonada a vocação religiosa dedicou-se logo à vocação revolucionária, por assim dizer. O tal "outro caminho" e foi logo parar ao PCP porque "a extrema-esquerda nunca me atraiu, pois era um bando de meninos de boas famílias que queriam salvar à força a classe operária e os trabalhadores". Milhazes também pretendia essa salvação forçada, mas por "outro caminho" e para isso aproximou-se de amigos comunistas, também estudantes da mesma turma que o levaram para a UEC. E aí leu os textos fundamentais: Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels; O Estado e a Revolução, de Lenine, etc.
"O principal era convencer as massas populares da nossa verdade- sim, porque a verdadee a história estavam do nosso lado".
Estavam? Para José Milhazes, com menos de 20 anos, sim. E porquê? Não tendo sido verdade revelada, nem proveniente directamente do sonho, como é que lá chegou a esse sentimento de pertença?
Os familiares directos, todos do meio piscatório e da pobreza da época, não foram pelo mesmo caminho, nem sequer com a influência do comunista-novo. Milhazes escreve agora que se regiam pelo "pensamento sábio de que quando a esmola é grande o pobre desconfia"...
Portanto é indubitável: durante o PREC, José Milhazes entregou-se de alma e coração à causa comunista do PCP. Depois do 11 de Março de 1975 "os acontecimentos que se seguiram-derrota da reacção fascista, fuga de António de Spínola,nacionalização da banca e das grandes empresas capitalistas, reforma agrária- tudo isso incutiu em mim a convicção de que tinha encontrado o caminho certo para uma sociedade mais justa".
Ora cá temos a explicação: "uma sociedade mais justa"! E que o convenceu mesmo de que em determinada altura do PREC "defendia cegamente que a insurreição armada era a melhor solução para pôr fim ao impasse em que o País se encontrava".
Onde é que estava então a injustiça da nossa sociedade e que tal determinou essa atitude de um Milhazes mal saído da adolescência? Será essa a chave para encontrar a razão para "o outro caminho". E julgo perceber em duas ou três passagens o motivo real para tal.
O primeiro é a rebeldia demonstrada, a vontade de rebelar-se contra uma ordem estabelecida em nome de uma justiça hipotética e sempre contra os "poderosos" ou "ricos". O episódio da lota da Póvoa de Varzim, com uma greve de protesto contra uma modernização de métodos, quando tinha 12 anos será um prelúdio dessa revolta interior contra o poder de quem tem mais.
Em plena adolescência, saído do Seminário, sentia um "forte complexo de inferioridade, devido à minha origem social". O Comunismo do PCP deu-lhe o antídoto perfeito para tal maleita.
Por último, um indivíduo aparentemente pacífico se bem que dado a rebeldias ( e o abandono do comunismo será outra faceta da mesma personalidade) estava disposto a pegar em armas, coisa que nem sabia, para defender a "revolução armada", única via para o socialismo, em pleno PREC.
O PRP e as FP25 não andam longe deste entendimento prático da vida política...
E tudo porquê? Porque os pais e a família eram pobres e não tinham dinheiro que lhes permitisse uma vida que outros-os "meninos de boas famílias- tinham.
Só isso, parece-me.
Conheci casos idênticos na minha aldeia, logo em 1974, uma semana depois do 25 de Abril. Tal como Milhazes, a política, antes nada lhes dizia. Depois passou a ser o leit-motiv de tudo o que faziam e diziam. Impressionante mesmo. E tal fervor neófito era apanágio apenas dos comunistas ortodoxos, digamos assim. Impressionante e com uma explicação plausível: a última palavra dos Lusíadas...
Milhazes não o confessa, naturalmente, mas deve ser isso e apenas isso.
E isso explica cabalmente a razão pela qual nenhuma contra-propaganda poderia surtir efeito. De nada valia publicarem-se relatos históricos do que acontecera em 1956 na Hungria ou em 1968 na Checoslováquia ou o que se passava na realidade dos países da "cortina de ferro". Tudo isso era desvalorizado como propaganda fascista e da cia e ainda hoje assim é.
De nada valiam as denúncias de Soljenitsine ou Sakarov. Nada disso importava um chavo para quem acreditava piamente num sistema que iria acabar com a exploração do homem pelo homem, começando por atacar os "ricos" e desfazendo a propriedade privada.
De pouco valia argumentar que a utopia que isso representava nunca se iria realizar porque nunca se realizara até então. Em Portugal todos os comunistas acreditavam que tal iria acontecer, com um modo próprio e adequado à realidade nacional. O mito e a ilusão ainda duram no comité central do PCP.
José Milhazes perdeu a fé. Primeiro em Deus e a seguir em Estaline, Marx ou Lenine. Que tragédia pessoal!
Acredita em quê, agora, José Milhazes? Nos ricos ou nos pobres? Isso que vale para o caso?