domingo, dezembro 11, 2011

Pois…isto está tudo ligado.

Na Antena Um, à hora de almoço tardio, uma entrevista com José Niza recordou um passado distante e o reflexo do que somos socialmente por força da influência de alguns notáveis que marcaram as últimas décadas.

José Niza veio da Covilhã, nos anos cinquenta, para Coimbra. Estudar. Aí conheceu o meio artístico e musical, designadamente o fado coimbrão, feito de serenatas na Sé Velha e com os velhinhos fadistas da academia, os Bettencourt e os Machados Soares. Ao mesmo tempo conheceu um novato nas lides, José Afonso que em pouco tempo passou do fado mais coimbrão para a balada socialmente esquerdizante, acompanhado de Adriano Correia de Oliveira e outros que se lhes seguiram.

No meio estudantil e musical destacavam-se outros artistas diletantes, entre os quais um certo Rui Ressurreição e um tal Proença de Carvalho conhecido então pela incipiente habilidade em baixar notas instrumentais.

José Niza conhece-os a todos porque com todos conviveu, incluindo “o Daniel”. Desse leque de conhecimentos que passou depois para Lisboa e o meio artístico-musical, nasceu o movimento dos baladeiros e os discos que precederam o acontecimento do 25 de Abril de 74, a par dos festivais de cançonetismo com touradas e até depois do adeus. “Isto está tudo ligado” disse José Niza no programa.

É notório e publicamente reconhecido que esses artistas eram todos de Esquerda, incluindo comunistas, extremistas da esquerda e eventualmente socialistas democráticos, antes do socialismo ser metido na gaveta. José Niza, também médico estava entre estes. Manuel Alegre também, esse expoente tonitruante da vacuidade intelectual. E conta Niza que conheceu o Cenoura quando foi para Lisboa e entrou nas lutas estudantis dos anos sessenta. O Cenoura era Jorge Sampaio.

Eram todos de oposição ao regime de Salazar/Caetano que combateram nas canções, nas letras, nos espectáculos, nos discos.

Para além deste panorama artístico-musical que se reflectia em programas de rádio especializados e já orientados por afectos à mesma luta “antifascista”, havia toda a caravana que passava tranquila, na televisão da noite e no rádio das horas quase todas, dedicadas às “donas de casa” ou aos “serões para trabalhadores”. O triste fado, o cançonetismo que aqueles prosélitos da luta antifassista classificaram depreciativamente como nacional ( João Paulo Guerra) e os ídolos da bola, do ciclismo e de outras modalidades, não foram suficientes para relegar os jovens turcos da oposição ao regime para as franjas da irrelevância social.

Nos jornais, quase todos de oposição, tirando os oficiosos do regime, os baladeiros e os vários cenouras da luta política escreviam em parábolas mas sem grandes enigmas nas entrelinhas. E conspiravam politicamente, sendo presos alguns deles por actividades subversivas contra a legalidade vigente.

Ainda assim, uma cantiga como “Venham mais cinco” tornou-se um êxito em 1973 e as canções de Sérgio Godinho, fugido à tropa, em França, eram sucessos de audiência radiofónica nos programas certos.

Com o advento do 25 de Abril e a liberdade de reunião, associação e a democracia ocidental constitucionalmente conquistadas, quem tomou conta do discurso oficial e, como agora se diz, da narrativa histórica e social?

Aquele grupo de jovens turcos que saíram de Coimbra e se juntaram aos de Lisboa, formaram partidos, entraram em governos, redigiram leis e fizeram a Constituição de 1976. Denominador comum: a ideia de Esquerda, de igualdade e o antagonismo ideológico-político ao capitalismo nacional da CUF, dos Melos e Champallimauds, à famigerada “Direita” e ao “condicionalismo industrial”; às famílias ligadas ao antigo regime e a tudo o que religasse o “obscurantismo” de 48 anos de “repressão fassista”. Este discurso perdura há décadas no nosso meio social e mediático.

Durante mais de uma dúzia de anos este pathos e este ambiente intelectual foram as pedras angulares do novo regime saído do 25 de Abril de 74. Nessa dúzia de anos fomos ajudados pelo FMI duas vezes, porque quase entramos em bancarrota, mas a ideologia que lhe subjaz e a intelectualidade antifascista dos vários cenouras da nossa política que são quem a suporta, nunca assumiu os encargos das dívidas ideológicas. Têm sempre razão, continuam convencidos da superioridade moral da aparência que ostentam e continuam a senda baladeira da vida para além dos défices.

Depois dessa dúzia de anos de experiência de um cripto-comunismo cientificamente frustrado lá entramos no concerto das nações europeias e começou outro regime.

Ora, quem são as novas figuras do novo regime democrático? Quase as mesmas de sempre, noutras circunstâncias, mas com preponderância daqueles que surgiram das lutas estudantis dos anos sessenta.

As circunstâncias foram alterando ao longo dos anos e as empresas que produzem já não são todas do Estado que aqueles tinham garantido para si e para os seus, mas ainda assim permanecem com acções suficientemente douradas para os cenouras lá porem os filhos.

A alta-finança dos bpns voltou ao que era dantes e com novos arrivistas, incluindo alguns baixistas da Covilhã e sem a vigilância e controlo éticos do antigamente. São eles, os novos senhores que ocupam as poltronas altas da administração em assembleias gerais. E que acumulam às dezenas num exercício periclitante de tempo indisponível.

Como o ensino era a pedra de toque do obscurantismo fassista, a nova ideologia tratou de o democratizar à sua maneira: universidades em barda, privatizadas por alguns próceres do ensino público, vindos do antigamente e aproveitando a boleia da democracia para formarem cooperativas em que os lucros eram só para alguns e os prejuízos para todos. A qualidade do produto? Parece que um certo Marques Mendes foi professor universitário. E no ISCTE há vários Mendes. E noutro estabelecimento até um João Soares deu aulas. É preciso mais exemplos ou a meia-palavra de Rui Verde basta para o entendimento do panorama geral? No jornalismo caseiro já há escolas próprias e com os professores formados na Columbia da RTP...

A geração dos baladeiros, já integrados depois do apocalipse da queda de alguns muros, deixaram de se fazer ouvir como antigamente mas não marcaram nenhuma posição de relevo ideologicamente marcante. Foram absorvidos pelo vórtice da sua própria inconsequência e nem sabem como aconteceu.

Convertida aos novos valores do dinheiro fácil de propinas em turbo aceleração na profusão de escolas disseminadas por todos os cantos e esquinas da democracia participativa, alguns deles e seus rebentos prosperaram nesse meio.

O resultado de tal mistela apressada o que poderia ser, afinal? Uma geração medíocre, sem grande visão política é o que temos à vista e o vice-reitor da Universidade Independente denunciou: “a maior parte da geração actual da política veio de universidades privadas.”

Quem é que as formou? Quem ensina nelas? Com que programas? E com que resultados?

Isto anda tudo ligado, de facto.

sábado, dezembro 10, 2011

"As condições políticas alteraram-se"...


Rui Verde, o antigo vice-reitor da Universidade Independente, deu em falar do caso da licenciatura de José Sócrates agora, mais de quatro anos depois do assunto ser notícia. Na altura calou-se, provavelmente para não incomodar o largo do rato. O mesmo explica que " as condições políticas alteraram-se", o que diz muito sobre a coragem de algumas pessoas, incluindo os editores que segundo Verde não quiseram publicar o livro sobre o assunto na altura. Pois então se não queriam publicar havia os jornais, Rui Verde. Os jornais, pelo menos um ou outro, aceitariam de bom grado as revelações...
Portanto, com as condições políticas alteradas, agora é trombones por todo o lado.
Mesmo assim, o que diz continua a ter interesse como se comprova por esta passagem da entrevista que deu ao Correio da Manhã de hoje. Ao ler o que diz Rui Verde percebe-se que há muitos telhados de vidro nos políticos que mandam em nós: " a maior parte da geração acutal da política veio de universidades privadas."
Pois...

O jornalismo do bacalhau com todos

O caso DSK, os seus desenvolvimentos e o modo como são noticiados pelos media portugueses, com destaque para a imprensa, pode servir de exemplo do modo como se faz jornalismo para quem é bacalhau basta ou, pior, bacalhau com todos os ingredientes da opinião, notícia, manipulação e orientação ideológico-politico-partidária.

Esta semana, uma tv francesa mostrou um video gravado na altura dos acontecimentos, comentando as imagens e atribuindo-lhes um sentido que está longe de se tornar consensual ou mesmo verdadeiro nos seus pressupostos. O mínimo que se esperaria de um jornal decente e que respeita os leitores seria algo que Ben Bradlee, director do Washington Post na altura do Watergate diz, no D.N. de hoje, sobre o jornalismo: "um interesse imenso na verdade".

Vejamos como é que três jornais nacionais relatam a notícia do video e a sua circunstância.

Em primeiro lugar, o Expresso. Em modo retórico mas ideologicamente bem demarcado pergunta se DSK não terá sido vítima...está-se mesmo a ver de quê e de quem: da "direita" e dos famigerados serviços secretos franceses conluidados sabe-se lá com quem e que só queriam apanhar o temível e inocente DSK, para o "tramar". Uma conspiração em forma de notícia.

O Público, esse, desde o início do caso nem esconde a preferência: as interrogações e as dúvidas, por mais pequenas que sejam e não tenham qualquer possibilidade de abafar o escândalo maior, o da "relação sexual consentida" e admitida apenas porque os indícios deixados no lugar não podem ser refutados, são sempre de vulto e de modo a desculpar e a inverter o caso, transformando em vítima quem nunca o foi, antes pelo contrário. Já vimos isso no caso Casa Pia e veremos sempre que a direcção do jornal continuar na senda do jacobinismo. Jornalismo deste é abaixo-de-cão, mas continua na fila, sem qualquer vergonha que se note.

O Correio da Manhã, fiel a um princípio de sensacionalismo, não explora o filão da vitimização de DSK, antes pelo contrário. E acaba por ser o mais isento de todos...

ADITAMENTO em 11.12.2011:

Em abono da verdade deve dizer-se que o Público de hoje dà à estampa um artigo de duas páginas, ( sem chamada de primeira página) sobre " a outra vida de Strauss-Khan revelada num caso de proxenetismo".
O artigo baseia-se num outro do semanário L´Éxpress desta semana e com citações do Libération ( o jornal modelo do actual Público). Um dos factos contados pela revista é que em Fevereiro de 2009, durante um almoço em Paris, no restaurante L´Aventure, após proferir discurso num fórum sobre a crise e as políticas macro-económicas, DSK "tentou fazer sexo na casa de banho com uma das mulheres, que o rechaçou. Ora esta mulher é Béa, ou Beatrice Legrain, companheira de Dodo Salmoura ( de ser verdadeiro nome Dominique Alderweireld) um proxeneta francês que tem uma dezena de casas de alterne e bordéis na Bélgica."

O Público dá conta ainda que havia "um rumor que há muito circulava pelas redacções" sobre a procura de prostitutas por DSK.
Este "rumor" no entanto, não deve ter chegado a nenhuma ou a nenhum dos jornalistas que mandam no Público. E se chegou, "isso agora não interessa nada". O que interessa é o proselitismo político-ideológico sempre no mesmo sentido: a esquerda dos amanhãs que riem para o malvado liberalismo.
É por isso que mal apareça qualquer facto que possa ser usado como arma de desinformação ou que por si mesmo, com o colorido ideológico emprestado, possa desmentir a verdade intuída ou insofismável, a notícia ardentemente desejada será sempre transformada como sendo genuinamente de homem a morder no cão.
No caso, perante as evidências de comportamento desviante dos padrões éticos socialmente aceites, DSK já passou a ser tratado mediaticamente como doente. E os franceses já são apresentados pela jornalista Clara Barata, que assina o artigo do Público, como tendo "nojo" do antigo patrão do FMI. Primeiro acreditam nas aparências que lhes convém ideológica ou afectivamente. O espírito crítico está ausente. A seguir, perante evidências que contradizem essas fézadas afectivas, descrêem e "desiludem-se". E passam ao campo oposto, porque neste jornalismo a objectividade, espírito crítico, distanciamento e entendimento da vida real é uma fantasia.
Portanto, as fases deste jornalismo que olha para os factos como potenciais inimigos das suas idiossincrasias, em relação a este caso, já passaram pelo seguinte: em primeiro lugar as notícias de estupefacção com factos crus e nus como as imagens de um DSK algemado, sempre mediáticas e funcionais. Depois, a referência às dúvidas e à conspiração baseadas em circunstâncias nunca escrutinadas ou revistas com espírito crítico e de jornalismo isento. A vítima escrutinada à porta de casa ( a RTP2 da Felgueirinhas arranjou dinheiro para ir ao local tocar à campainha e mostrar a patética reportagem de coisíssima nenhuma, com laivos de grande feito) e apresentada como indigna de qualquer confiança. A seguir a narrativa da acusação sempre acompanhada pela narrativa da defesa que se sobrepõe, igualmente sem espírito crítico e com títulos de enviesamento ideológico e afectivo que a razão não conhece. Por fim, o alívio com a libertação da "vítima" que afinal pode muito bem ter sido "tramada" e cuja hipótese se busca à outrance nos interstícios da defesa do imputado, com o relevo de uma indignação ideológica. Em continuação, perante a defesa do suspeito, os factos apresentados pelo mesmo como sendo o espelho da verdade e sem qualquer espírito crítico de contradita, de sopeso, de reflexão sobre os motivos e razões das contradições evidentes.

Este percurso é exactamente o mesmo que foi percorrido com o caso Paulo Pedroso, o que prova que esta gente jacobina não tem emenda, não aprende e só envergonha o jornalismo verdadeiro.

O dito certo

Esta pequena crónica de João Pereira Coutinho, o marcoense que escreve no Correio da Manhã, é imperdível porque apanha o tom certo sobre mais uma aldrabice Inenarrável:

José Sócrates é o típico aluno medíocre que ‘apanha’ umas ideias e depois debita-as com grande autoridade. Conheço vários. Felizmente, nenhum deles chegou a primeiro-ministro, embora o futuro seja uma surpresa constante.

Agora, de Paris, Sócrates resolveu abismar o mundo com uma teoria que aprendeu: pagar a dívida é ideia de criança. Dito assim, a coisa exigia um cordão sanitário nas fronteiras para impedir o retorno ao país – e, quem sabe, a Belém – de semelhante génio financeiro. Mas depois Sócrates corrigiu esta teoria com uma versão igualmente mal colada: infantilidade é pagar a dívida por inteiro e de imediato.

Quase, José, quase. A lição completa é outra: a dívida de certos países só pode ser ‘eterna’ quando existe crescimento económico para a ir ‘eternizando’. Quando um país não cresce e só contrai mais dívida, o resultado é a bancarrota.

Eis um pensamento melancólico que o estudante Sócrates teria aprendido se não andasse a faltar às aulas.

O caso Miguel Relvas

Miguel Relvas tem uma entrevista de duas páginas no Expresso de hoje. A uma pergunta sobre se é da Maçonaria, responde assim:

" A vida privada de cada um, a cada um diz respeito. Sei é que, neste Governo, nem maçonarias nem Opus Dei têm nenhum peso."

Ora bem. A pertença a uma obediência maçónica, de um membro do Governo com responsabilidades de poder muito elevadas, não é apenas um assunto do foro privado. Por uma razão singular: a Maçonaria, como os seus dirigentes recentes declararam publicamente em entrevistas, interfere directa e continuadamente nas opções políticas de governo e até legislativas. Há diplomas legislativos que foram discutidos nas lojas maçónicas antes de serem leis e perante pessoas que legislavam. Logo, não é apenas uma associação recreativa tipo clube de futebol. Aliás, se perguntassem a Miguel Relvas qual o clube a que pertence não teria qualquer pejo em revelar a preferência. Logo...deveria, na resposta ter dito outra coisa.
Quanto ao facto de as maçonarias não terem qualquer peso no actual governo, tendo a acreditar que assim seja, com uma ressalva: Miguel Relvas é um dos escolhedores políticos, uma espécie de provador de competências políticas e portanto escolhe outras pessoas para integrar cargos de governo, de confiança política e não só. E é nesse interstício que se coloca a possível influência à obediência maçónica, de modo sério. Particularmente em certas instituições do Estado, como os organismos de supervisão e as polícias.
Em nome da transparência do Estado de Direito democrático deveria assumir que pertence efectivamente à Maçonaria, a que Loja e se nela se discutem nomes para cargos de poder. O que aliás seria apenas a revelação de um segredo de polichinelo, mas que permite entender que não é inócua e irrelevante a pertença a obediências maçónicas. Melhor seria para Relvas, desvincular-se efectivamente dessas obediências e dar conta disso.

Outra passagem da entrevista que suscita perplexidades é esta, a propósito de uma frase de Paulo Eloísio de Sousa, presidente da Associação Industrial do Rio, à Sábado, num número de há meses, aqui citado e na qual o referido indivíduo dizia que "Miguel Relvas ajuda a identificar oportunidades".
Miguel Relvas, a propósito responde assim:

" Eu saí da vida empresarial quando vim para o Governo. Trabalhei no Brasil e sempre que posso ajudar o meu país com a mais-valia do que conheço hoje na economia e na sociedade brasileiras, faço-o. Sou uma pessoa de consciência tranquila. Tenho vida além da política e acho que isso ajuda muito. Ao contrário de outros que por aqui passaram, se um dia sair do Governo, sei o que vou fazer. Não quero mais carreira política."
Muito bem. Miguel Relvas tem uma vida para além da política mas conseguiu-a por causa da política, é bom que o refira também.
Se não fosse ligado ao partido desde novo e ainda sem "estudos" ( acabou-os muito tarde numa universidade privada) provavelmente não teria a tal vida para além da política e não lhe seria fácil arranjar emprego que rendesse o que lhe rendeu, na ordem das centenas de milhar de euros em depósitos bancários. Portanto, uma pergunta se impõe, directa ao coração destas trevas: se Relvas fosse um mero profissional de qualquer coisa, sem ligação à política partidária, a Alert teria dado por ele? Que responda claramente e sem tergiversar, se quiser mostrar boa-fé declarativa.

É muito raro que alguém sem qualificações académicas especiais ou qualificações empresariais especiais também, consiga o que Relvas conseguiu em acumulação com a vida política, sempre: " ajudar a identificar oportunidades".
Essa ajuda pode confundir-se facilmente com uma vulgaridade na vida política de topo: o tráfico de influências, actividade criminalizada desde 1995.
Se Miguel Relvas tem uma noção ética da actividade política diferenciadora e de tal modo transparente que lhe permite contar como ganhou o que tem, óptimo, porque estamos perante um caso raríssimo de político de primeira água e de pessoa de Estado.
É assim?

No melhor pano...

"Quem viu a procissão de automóveis numa ordem impecável regorgitar à porta da Cimeira a enorme legião dos poderosos da "Europa" ficou provavelmente a pensar que lá dentro as coisas se passariam com a mesma eficiência e regularidade."

Esta frase é da autoria de Vasco Pulido Valente na sua crónica de hoje, no Público. Quando li "regorgitar" estanquei e pensei: humm...será erro genuíno ou mero lapsus calami? Imputável ao autor ou ao editor?
Tendo em atenção o elevado "standard" a que VPV nos habituou na sua escrita escorreita, fica o reparo. O facto não tem qualquer importância a não ser para quem lê e exige, no caso e a este autor, uma ausência completa de erros ortográficos.
No meu tempo de quarta classe, um erro destes era considerado de palmatória.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Marcelo, o "professor"

Marcelo Rebelo de Sousa é agora conhecido como "professor", epíteto que manifestamente lhe agrada. E parece que será um bom professor universitário para quem queira tirar um curso de Direito sem grandes voos teóricos.
Porém, nem sempre Marcelo foi "o professor" da TVI. Em meados dos anos setenta era qualquer coisa entre o jornalismo e a política que então se vivia em que mandavam "os políticos" em detrimento dos tecnocratas.

A revista notícias TV do Diário de Notícias publica hoje esta capa em que pergunta porque é que Marcelo é tão influente...
Uma resposta possível reside na leitura deste pequeno texto assassino de Artur Portela Filho, na Opção de 19.8.1976 e na sequência de outros em que Portela Filho ficcionava algumas situações reais, como por exemplo o incêndio, alguns anos antes, de um Porsche pertencente a um tal Balsemaia.

Marcelo é muito influente porque conseguiu ultrapassar a imagem daquilo que Portela Filho escreve e quem o vê e ouve na tv ou nem sabe como era ou já nem se lembra.


Uma lição de jornalismo desportivo

O Sol de hoje dedica página e meia, logo a abrir, a este jornalista desportivo do panorama dos nossos media.
O que é um jornalista, para Marcelino que frequentou um curso de Geologia que abandonou logo no início e acabou nas páginas dos jornais da bola? Alguém com " curiosidade, espírito informativo, capacidade pessoal e cultura." Eis a receita!
A entrevistadora do Sol, imbuída certamente dessas qualidades não lhe perguntou a talhe de foice como foi aquela coisa das escutas ao presidente da República no início do Verão de 2009, altura em que decorriam outras escutas, mais sérias e reais, aos beneficiários das notícias que Marcelino não se coibiu de dar aos leitores, mesmo violando códigos éticos e deontológicos relacionados com correios electrónicos de colegas de profissão.
E porque não lhe perguntou? Por falta de curiosidade, certamente. Ou de espírito informativo. Ou de capacidade pessoal. Ou de cultura.

Marcelino só lamenta na vida profissional ter autorizado uma manchete falsa, induzida por uma fonte inquinada. Era um polícia " e acabou expulso da PSP", o que deixa de fora outra pergunta necessária: foi o jornalista quem o "deu à morte" profissional?
De resto, quanto ao papel do jornal que actualmente dirige desportivamente, o Diário de Notícias, nos seis anos de regime socialista de José Sócrates, nem uma palavra. Outra vez falta de curiosidade? De capacidade pessoal? De espírito informativo? De cultura?
E sobre as vendas do jornal, sempre a descer e sempre no vermelho das contas do patrão muito comprometido com o antigo governo de seis anos de um inenarrável José Sócrates que o considerava o "amigo Joaquim"?

Sobre isso não vai nada nada nada? Não?! Hurra!

quinta-feira, dezembro 08, 2011

RTP1 sem emenda possível

O jornal da noite que acabou de passar na RTP1, da responsabilidade de um tal Adelino Faria, deu-me vontade de vomitar o jantar por duas vezes.

Em certa altura passou um video sobre o caso D.S-K. A notícia não podia ser mais encomendada e explícita: D.S-K terá sido apanhado numa armadilha e a prova apresentada é um video em que dois seguranças do hotel Sofitel rejubilam não se sabe bem com quê, mas logo a seguir à comunicação à polícia do caso.
A conclusão que o jornalista de encomenda retira é simples: os seguranças estão a comemorar a armadilha pregada ao pobre D.S-K. Portanto, uma conspiração pura e simples que o tal jornalista apadrinha de bom grado na RTP paga por todos nós. Em nome de quê e de quem? Esta é fácil: dos apaniguados do tal D.S-K. Da Esquerda em geral que arranjou um autor de livros de conspiração, chamado Edward Jay Epstein e que escreveu no New York Review of Books um artigo extenso assegurando que o caso tem todos os recortes de conspiração contra o pobre D.S-K, vítima de forças obscuras, provavelmente da "direita" francesa, próxima de Sarkozy. Ora esta teoria é sopa no mel para os vários adelinos da nossa informação diária.

Como o jornalismo por cá é do tipo para quem é bacalhau basta, nem quiseram saber de mais nada: requentam estas notícias vindas sabe-se lá de onde e colocam-nas no prime time televisivo para os papalvos verem e acreditarem piamente. O que passa na tv é quase sagrado para essa gente e é assim que a opinião pública se forma. Quase ninguém mais lê ou procura saber outras coisas, além do mais sobre o tal Edward Epstein, jornalista de profissão. Este indivíduo tem um sítio na Internet e é um adepto ferrenho de várias teorias de conspiração. 11 de Setembro, Kennedy ( quatro livros sobre o assunto), tentativas de assassinato de Fidel Castro pela CIA, etc. Com 75 anos, já escreveu sobre " a guerra invisível entre a CIA e o KGB" e agora aparece o caso D.S K que o mesmo agarrou como gato a bofe.
A tese de Epstein baseia-se em três factos: o primeiro é o desaparecimento do telemóvel Blackberry, logo após o sucedido no Sofitel. Foi este desaparecimento que alertou as autoridades para o lugar onde o mesmo se encontrava, ou seja, no aeroporto onde foi preso. Se DS-K não tivesse telefonado do aeroporto para o hotel, para saber do Blackberry não tinha sido preso porque seguiria para França. O telemóvel , fornecido pelo FMI, segundo consta estaria sob escuta o que acrescenta à teoria o laivo de conspiração adequada. E nunca mais foi encontrado, tendo sido desligado o GPS logo a seguir ao desaparecimento.
Outro facto: um quarto ao lado do ocupado por DS-K foi visitado pela camareira e era ocupado por uma homem de negócios francês. O visita ao quarto foi omitida pela camareira e a polícia não o inspeccionou. Nada tem de extraordinário, mas para quem conspira tem tudo.
Terceiro facto: o tal video que agora a RTP dá honras de parangonas televisiva para lançar a suspeita de conspiração. Segundo Epstein a celebração entusiástica dos seguranças dura oito minutos. Segundo a realidade factual e observável, dura alguns segundos. E nem se sabe o motivo da celebração, mas nem isso chega para afastar a conspiração teórica.
É isto que há para sustentar o tão almejado caso de conspiração, ardentemente desejado por quem ficou órfão da candidatura do dito herói à presidência da República francesa, dada como favas contadas. É sempre a Esquerda no seu melhor que aqui se mostra. A Esquerda que vê sempre cabalas em todo o lado e se recusa a olhar de frente para os factos.
Se lhes disserem que é igualmente possível arquitectar conspiração na tentativa de erigir Epstein como arauto de uma verdade oculta, ficarão perplexos, mas parece igualmente factual que o interesse de alguém em vender um livro que se anuncia, de um tal Taubmann ( Affaire DSK: la contre-enquête) em que aparece pela primeira vez a versão do próprio DSK é evidente. Acontece, por acaso certamente, que Epstein é amigo chegado de um primo do tal Taubmann e a que este apresentou igualmente como seu amigo.
Toda esta factualidade não chegou para que uma tal Clara Ferreira Alves, do Expresso e da SIC tenha escrito na última Única uma crónica em que nao tem dúvidas: "DSK foi tramado". E escreve depois uma resenha de factos copiados do artigo do tal Epstein, cuja credibilidade merece tanta atenção, ou mais, que a empregada do Sofitel...

Sobre este caso, os jornalistas do para quem é bacalhau basta, poderiam ter lido o que disse Robert Littell, um escritor de romances policiais e também antigo jornalista, da Newsweek: à revista francesa Le Point, desta semana, em edição sobre as teorias de conspiração, disse claramente que "não dou crédito à tese de um complot contra DSK." E acrescenta Littel: " é preciso que se saiba que Epstein é um grande adepto de complots"...

Aditamento às 22:36: para não ficar atrás, a Felgueirinhas da RTP2 ( como é possível continuar a apresentar um jornal televisivo?) retoma o tema e também não tem dúvidas sobre o caso do video que comprova a conspiração. É de mais! E a camareira, não terá também festejado o tal encontro "consentido" de cariz sexual com DSK?

O segundo caso de nojo desta noite é a passagem na RTP1 de José Sócrates, de Paris. Basta o que basta!
Esta gente não tem vergonha na cara e esta RTP1 não tem remissão alguma.

O efeito Sócrates

Sol:

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, disse hoje que teve de ler duas vezes as declarações de José Sócrates sobre o pagamento de dívidas «para acreditar que um antigo primeiro-ministro tinha dito isso».

As palavras de José Sócrates não tardaram a repercutir reacções em algumas das principais figuras políticas do país. Paulo Portas manifestou a surpresa com que recebeu as declarações.

«O único comentário que me ocorre, com toda a franqueza, é que está explicado como é que o sector público e as empresas públicas atingiram o nível de dívida absolutamente astronómica que se atingiu em Portugal: é porque o primeiro-ministro pensava que não se pagava», disse.

Paulo Portas comentava em Bruxelas, à margem de uma reunião de chefes de diplomacia da

NATO, uma declaração proferida por Sócrates em Paris durante uma palestra, e hoje reproduzida pelo Correio da Manhã, segundo a qual «para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança», pois «as dívidas dos Estados são por definição eternas».

As palavras do antigo primeiro-ministro português motivaram igualmente reacções a António José Seguro, seu sucessor na lideranção do PS. O secretário-geral socialista afirmou «desconhecer» as palavras proferidas pelo homem que durante seis anos esteve à frente do executivo português.

O ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do CDS-PP disse que, ao ser informado dessa declaração, teve «que a ler segunda vez para acreditar que um antigo primeiro-ministro tinha dito isso», e acrescentou que, «infelizmente, como as pessoas sabem», porque estão a sofrer sacrifícios, «as dívidas pagam-se».

Evidentemente que José Sócrates não quis dizer literalmente o que estes comentadores políticos dizem que pode ter dito. Mas tal não invalida a possibilidade de interpretação qua tale, o que equivale a dizer que um político e um aluno de Ciência Política não pode ser tão palerma que diga coisas destas sem pensar duas vezes no efeito que podem ter.

José Sócrates já chumbou em Ciência Política, com este tipo de declarações. Melhor lhe teria sido entrar em Filosofia como pretendeu e anunciou e aldrabou, afinal de contas. Filosofia soava melhor e por isso anunciou a coisa em surdina que certos media amplificaram. A sabujice do costume funcionou, como agora funciona em obliterar essa realidade, essa aldrabice e mais essa inconsequência.

Os media nacionais, com destaque para a RTP2 por exemplo, enviaram repórteres de feira para a porta de casa da empregada do Sofitel, aquando do escândalo DS-K. Chegaram lá, tocaram à campainha e fizeram disso reportagem. Uma tal Sandra Felgueiras, "apresentadora" de telejornal fez gala dessa reportagem.

Agora, com José Sócrates em sítio esconso mas de luxo, segundo consta na zona de Saint Germain des Près, em plena Paris rive gauche, já não conseguem lá chegar; não o encontram e têm dificuldade em arranjar motivo para noticiar como é que um ex-ministro português, responsável por uma catástrofe económica que se avizinha para milhões de portugueses, ganha a vida para pagar a renda de casa, os estudos do filho e fazer ainda uma vida de rico em Paris. Parece que tal não é notícia...porque para estas alunas de uma Fátima Campos Ferreira, notícia é saber onde mora a empregada do Sofitel. Vergonha de jornalismo como este? Isso era se soubessem o que é a vergonha...

Mas voltando a José Sócrates, para quem andava a ler Niall Ferguson há uns meses, tal significa que de Economia política saberia o que aprendeu nas reuniões no largo do Rato e em casas particulares a conspirar para ser líder partidário.

José Sócrates evidentemente é um ignorante, um analfabeto em muitas matérias e o modo como conseguiu a licenciatura na Independente diz mais do que isso: diz tudo sobre um carácter. E no entanto, teve muitos cientistas, catedráticos, homens e mulheres de cultura e saber a mostrarem-lhe os sorrisos e ademanes próprios de quem dependia profissionalmente do que o indivíduo fizesse.

Tal diz mais sobre os portugueses em geral que muitos tratados de sociologia, mesmo sem serem do ISCTE. E sinceramente, tenho mais nojo dessa gente de "saber" do que do próprio José Sócrates que ainda não pagou o que fez e por uma questão de justiça elementar deve pagar, mas que não passa de um pobre diabo a quem deram o poder de bandeja.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

A verdadeira crise da justiça, enésimo exemplo

Daqui:

Ministério Público sente-se «asfixiado» pelos pagamentos que tem de fazer à Polícia Judiciária.

O Ministério Público (MP) passou a pagar à Polícia Judiciária (PJ) por todos os exames e perícias requisitados durante uma investigação. Segundo a directora do DIAP, Maria José Morgado, disse ao «Correio da Manhã», a nova tabela de pagamentos «asfixia o MP e mata a investigação criminal».

A medida vem do anterior Governo e tem agora aplicação prática. A despistagem de escutas telefónicas, por exemplo, tem um custo de 306 euros por hora. Morgado reconheceu que esta realidade faz com que o seu departamento já esteja «a pedir menos perícias», limitando o seu alcance.

As perícias e exames a equipamentos informáticos e de telecomunicações têm um custo de 72,42 euros por hora. Também a extracção de fotogramas com CD ou DVD incluídos passa a custar 72,42 euros por hora.

TVI24 07-12-2011

Coisas como esta dão-nos a imagem mais aperfeiçoada do mal que os governos de José Sócrates fizeram à Justiça. Deliberadamente.

Aditamento: Talvez seja preciso corrigir alguma coisa na notícia e escrevo por dedução. Não me parece que seja a PJ quem reclama pagamentos dos custos de análise e exame a equipamento informático e de telecomunicações. O problema é que o conteúdo dessas comunicações provavelmente será alvo de "outsourcing", ou seja de encomenda a entidades privadas para fazerem o trabalho que deveria competir à polícia que não terá meios para tal.

É esse o problema, a meu ver e é por isso que as opções políticas de esvaziar de fundos as entidades públicas redunda no enriquecimento de alguns privados. É um sistema de vasos comunicantes que de socialista tem nada e de ultra liberal tem quase tudo. E quem o gizou foram os socialistas.




Assim não pode ser, digam o que disserem

Daqui:

Estão com um pé na Assembleia da República e outro no sector privado: dois parlamentares do PSD e um do CDS prestam serviços remunerados de consultoria a empresas privadas que têm contratos com o Estado.

Ricardo Baptista Leite, deputado do PSD e membro da Comissão de Saúde, é simultaneamente colaborador de uma empresa que presta consultoria na área da saúde a Glintt Healthcare Solutions. Desde que Baptista Leite assumiu as funções de deputado, a 20 de Junho de 2011, a Glintt celebrou 22 contratos de prestação de serviços com o Estado, por ajuste directo. Questionado pela SÁBADO, Baptista Leite rejeita a eventual incompatibilidade no exercício das funções de deputado e de consultor: “Não participo em quaisquer acções comerciais.”

Na bancada do PSD há outro caso: trata-se de Duarte Pacheco. O deputado é consultor da DHV e da Leadership, empresas que têm dezenas de contratos com o Estado. Confrontado pela SÁBADO, o parlamentar afirma que as suas funções “abrangem apenas uma actividade técnica”. Adolfo Mesquita Nunes, do CDS-PP, também é consultor da sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva Sc Associados, onde trabalhou até tomar posse como deputado, a 20 de Junho de 2011. Desde então, a referida sociedade celebrou três contratos por ajuste directo com outras tantas entidades públicas. À SÁBADO, diz que cessou o vínculo que mantinha com a sociedade e que requereu a suspensão da sua inscrição na Ordem dos Advogados. Assume que presta consultoria à mesma sociedade, “sem exclusividade e sem qualquer vínculo ou subordinação”, e rejeita qualquer incompatibilidade.

O presidente da Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, Mendes Bota, recusa analisar casos concretos, mas em declarações à SÁBADO considera que a lei é muito clara, ao estipular que deputados que estejam nesta situação têm de optar entre a actividade parlamentar e a actividade de consultoria. “As duas ao mesmo tempo é que não”, sublinha.

Gustavo Sampaio Sábado 07-12-2011

As aldrabices inenarráveis continuam, claro está

C.M.

"O ex-primeiro-ministro José Sócrates comentou em Paris a crise na Europa, durante uma conferência com colegas universitários da Sciences Po, onde estuda Ciência Política.
"Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei", disse.


Afinal, José Sócrates não está em Paris a estudar Filosofia, como apregoou, com intuito deliberado. É a primeira grande aldrabice e é de tomo porque ciência política não é necessariamente filosofia e qualquer estudante sabe disso, incluindo os antigos alunos de Fátima Campos Ferreira e Judite de Sousa. Podemos então perguntar porque não dão importância ao assunto e a resposta é tentadora: cúmplices das aldrabices é uma hipótese bem plausível. Porquê? Porque percebem muito bem o espírito aldrabão. Aliás é por isso mesmo que no jornalismo caseiro, "para quem é, bacalhau basta."

Depois, outra aldrabice: passados uns escassos dois ou três meses, já é mestre em palestras de "ciência política". Para dizer coisas tautológicas que não precisam de estudo, mas apenas de cultura geral e leitura de jornal, mesmo do género para quem é bacalhau basta. Da afirmação de que "as dívidas dos Estados são eternas" para a conclusão que não é preciso pagar nada e portanto o crédito é quase ilimitado, é apenas um passo que um aldrabão de feira, em exercício de trafulhice, pode dar com a maior das facilidades.

Na mesma notícia de jornal, o devoto de Salazar, Freitas do Amaral, como é seu costume ( Marcelo Caetano que o diga) dá uma facada nas costas daquele Inenarrável. Diz que "Todos sabemos que é uma situação muito difícil, para a qual fomos empurrados, em primeiro lugar, por uma crise internacional e, em segundo lugar, pelos três últimos anos de governação de José Sócrates, que foram muito mal orientados".

Nos tais "últimos três anos" o antigo devoto de Salazar concedeu diversas entrevistas, uma delas, ao DN para denunciar a campanha contra José Sócrates por causa do caso Freeport. Nunca se pronunciou assim como agora o faz.
Este indivíduo parece que vai ocupar lugar de administrador numa das maiores empresas públicas. É assim a vida política que temos.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Filosofias privadas e políticas públicas

Porque é que o assunto da ida de José Sócrates para Paris, “estudar filosofia” é um assunto com relevância pública?
Pelo seguinte:

José Sócrates foi primeiro-ministro de Portugal durante vários anos e foi inequivocamente um dos responsáveis políticos directos pelo estado calamitoso que Portugal atingiu nas Finanças públicas. Portugal depende do estrangeiro mais do que devia em grande parte devido a políticas dos seus governos.
José Sócrates continua a ser, por isso mesmo, uma figura pública cujos actos privados podem ainda reflectir o que ocorreu enquanto foi primeiro-ministro e legitimam também por isso mesmo o interesse público naquilo que faz e publicamente proclamou iria fazer, numa vida privada que aliás não se desligou da vida política portuguesa, como ainda há pouco foi notícia.
Por outro lado, não é de afastar a possibilidade real de o mesmo indivíduo entender que merece lugar, novamente, na ribalta política portuguesa e tal reforça a legitimidade em se questionar o que anda a fazer alegadamente em privado estreitamente conexionado com virtudes públicas proclamadas e não suficientemente sindicadas.

O caso do “estudo de filosofia em Paris” foi propalado pelo próprio. Foi o mesmo quem, servindo-se dessa intenção putativo e futura a apresentou como moldura da sua imagem pós-governo, o que legitima de modo ainda mais reforçado, o interesse público em sindicar tal eventualidade.

Portanto, o que António Caldeira faz publicamente no seu blog tem todo o interesse e legitimidade. Mais uma vez procura detectar nos propalados comportamentos públicos do ex-primeiro-ministro português, a coerência entre a realidade e a proclamação de factos apresentados com manifesto interesse e em favor da imagem pública daquele. O mesmo sucedeu com o caso rocambolesco e triste da licenciatura pela Independente.
Agora, quem proclamou o retiro sabático foi o próprio e a razão genuína por que o fez permanece numa obscuridade que só tem paralelo com o curso universitário que realmente frequenta.

Desta vez, o percurso para a inscrição e frequência do curso misterioso na afamada Sciences Po, em Paris, já tem igualmente os ingredientes próprios da esquisitice e da total falta de transparência, para não ir mais longe.
Nada é transparente nesse percurso e por aquilo que se vai sabendo, o modo de inscrição, no qual, malgré lui ou não, se viu envolvido um diplomata, numa escusada e mal esclarecida promiscuidade com alguém que passou à vida privada.
Não é transparente a admissão no respectivo curso, de pós graduação, doutoramento ou outro grau de ensino universitário. Neste aspecto a obscuridade é completa e nem se percebe porquê, na medida em que o cabal esclarecimento só militaria a favor do visado.
Não é transparente o procedimento de admissão através de exames que são exigíveis, para além da documentação afixada publicamente como requisito de admissão.
Não é transparente quem admitiu e ajuizou tecnicamente válida tal admissão.

Isso no que se refere ao dito curso, porque há outras perplexidades que se desenham em perfil ainda mais relevante:
Por exemplo, como é que um indivíduo que foi político de topo, primeiro-ministro, com um poder quase absoluto em algumas áreas muito importantes da política portuguesa durante anos a fio, sem meios económicos declarados, porque é público que não poupou ou ganhou suficientemente para suportar as despesas de uma estadia em Paris como a que se anunciou, aguenta tal estadia, em termos económicos?
Isso não merece esclarecimento cabal? É assunto da vida particular do dito?
Quem responder que sim, tem o dever de demonstrar, argumentando devidamente, que assim é...

Por outro lado já se percebeu que este é um assunto de "margens". Não interessa muito ao mainstream do jornalismo caseiro, o que aprende na escola de uma Fátima Campos Ferreira ou uma Judite de Sousa. É assunto do género descartável, "isso agora não interessa nada" e substituido por outros temas mais interessantes, como sejam a discussão de temas gerais em que nada se apura em concreto por incompetência natural dos comentadores.
Tudo aponta para se tornar assunto maldito, deixado para os anónimos curiosos e à margem do circuito político da esquerda reinante nos media, à semelhança do ataque dos hacker nacionais ao sítio do PS.
Ao jornalismo caseiro do tipo indicado, com os enchidos do costume, estes assuntos não interessam porque um Bloco ou um PC ou outras forças políticas não lhe dão importância e portanto, não aparecem na opinião publicada por esses media.
Além disso, suspeitam ainda que podem ter origem em obscuras manobras de extremistas que não se identificam com as correntes habituais do politicamente correcto. E isso é fatal para o jornalismo do Público. Se fosse o Bloco a agitar o caso, já tinha primeira página garantida. Assim, nem em roda-pé.

A verdadeira crise da Justiça, enésimo exemplo

InVerbis:

Os tribunais portugueses podem perder 300 dos actuais oficiais de justiça, já que foi anulado o concurso, lançado em 2007 pelo Ministério da Justiça, através do qual foram recrutados. A decisão é do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa (TACL), que se baseou no facto de o concurso excluir os candidatos habilitados com o curso de Técnicos Superiores de Justiça, uma formação que é legalmente exigida para aceder ao quadro dos funcionários judiciais

A sentença surge numa altura em que os tribunais reclamam novo reforço de funcionários para combater os crónicos atrasos processuais, tendo a ministra Paula Teixeira da Cruz prometido há dias a contratação de mais 400 profissionais. O anúncio foi feito durante o recente congresso dos funcionários judiciais, mas a questão é que a governante deu a entender que o recrutamento deveria seguir os moldes do concurso que agora foi declarado ilegal.

A anulação deve-se ao facto de o concurso ter admitido apenas as candidaturas de "funcionários e agentes da administração pública habilitados com o 11.º ano de escolaridade ou equiparado", um mecanismo encontrado pelo ministério então liderado por Alberto Costa para contornar a proibição de aumento dos quadros da função pública. O problema é que excluía, assim, todos aqueles que estavam habilitados com a formação específica e legalmente exigida depois da aprovação do Estatuto dos Funcionários de Justiça (Decreto-Lei 348/99). E esta legislação não só estabelece o modelo de formação como impõe um protocolo entre os ministérios da Justiça e da Educação com esse objectivo.

A sentença do TACL é, por isso, particularmente dura: "Não se compreende da atitude do réu [Ministério da Justiça] que, para além de frontalmente violar a lei aplicável, tornou inútil o protocolo celebrado entre o Ministério da Justiça e o Ministério da Educação", lê-se no documento. Conclui, por isso, que o aviso do concurso "mostra-se eivado do vício de violação de lei, impondo-se a sua anulação".
O processo foi instaurado pelo Sindicato dos Oficiais de Justiça, que já anunciou para hoje uma conferência de imprensa (17h30) sobre o assunto .

Aqui, a questão é esta: os tribunais não são apenas magistrados; são essencialmente também, os funcionários administrativos, os que movimentam processos e escrevem neles para os concluir aos magistrados para despacho ou notificar as partes, pelos meios formais, que controlam no que se refere a prazos e junção de documentos. Os funcionários judiciais são uma parte essencial e imprescindível da máquina da justiça. Pode haver advogados que trabalhem sem secretariado, mas não pode haver tribunais sem funcionários de justiça. Os funcionários judiciais dependem quase inteiramente dos organismos do Ministério da Justiça. Não dependem quase nada dos magistrados que nem sequer têm poder disciplinar sobre os mesmos, ao contrário do que sucedia há uns anos.
Pois bem. Em 2007, o ministério da Justiça, conhecendo bem as carências endémicas do sistema, lançou um concurso e o mínimo que se lhe exigia ( sem pareceres de firmas de advogados) era que o fizessem de modo adequado às próprias regras que instituiram.
Não o fizeram. O Ministério da Justiça da altura, do governo de um Inenarrável, organizou um concurso para admissão de funcionários e cometeu um erro básico, grosseiro, de palmatória como foi objectivamente considerado pelo tribunal administrativo que anulou o concurso.
De quem é a responsabilidade deste descalabro? Do principal responsável, ou seja do ministro da Justiça da época? Ora, é para o lado em que dorme melhor, como agora se diz. Do gabinete que lançou o concurso? Ora, ora. Vão lá falar com eles que apontam logo para " a tutela".
Portanto, estamos como estamos por alguma coisa. E a crise da Justiça tem mais pano para mangas.

Os pontos

D.N.:

O Estado gastou mais de cinco milhões de euros, sem concurso público, com serviços contratados a escritórios de advogados. Empresas, Governo e outros organismos públicos contratam as maiores sociedades de advogados para pareceres e outros serviços jurídicos. Metade dos cinco milhões de euros gastos em ajustes directos em 2011 foram entregues a quatro escritórios.

A Sérvulo Correia, que lidera a lista dos ajustes directos, recebeu no ano passado quase 800 mil euros. O bastonário da Ordem dos Advogado, Marinho e Pinto, defende que a norma seja o concurso público “com regras e cadernos de encargos transparentes” e estranha que o Estado nunca reclame dos honorários pagos às sociedades de advogados. A actual lei estabelece limites: o primeiro-ministro pode utilizar 7,5 milhões de euros num ajuste directo, um ministro pode gastar até 3,7 milhões, enquanto um director-geral pode ir até aos 750 mil euros.

Um contrato com o Banco de Portugal (BdP) rendeu este ano à sociedade de advogados Vieira de Almeida 650 mil euros. O mesmo organismo, no ano passado e também por ajuste directo, celebrou um contrato com a Sérvulo Correia de 650 mil euros. Genericamente, ambos foram descritos por “prestação de serviços jurídicos”. O universo dos ajustes directos continua a ser uma boa fonte de rendimento para os escritórios de advogados. Até ao presente mês, os organismos públicos (administração central, local e empresas públicas) já gastaram mais de cinco milhões de euros com advogados.
Que serviços, em concreto, é que ambas as sociedades de advogados contratadas pelo BdP prestaram? Segundo informação enviada pelo BdP ao DN, os 650 mil euros pagos à Vieira de Almeida foram para representação da entidade supervisora “nos processos judiciais instaurados por diversas entidades, em litígios relacionados com o Banco Privado Português”. Já o montante pago à Sérvulo Correia tem a ver com a representação judicial nos processos de contraordenação contra a antiga administração do Millennium BCP. O BdP referiu ainda que, apesar do valor de 650 mil euros inscrito no ajuste directo, o valor final “varia em função do tempo efectivo neles utilizado”. Questionado pelo DN se antes do ajuste, consultou outros escritórios de advogados, o BdP respondeu negativamente, justificando que se trata de serviços de representação forense “que envolvem prazos curtos de primeira intervenção judicial”. Ainda este ano, a Sérvulo Correia, que lidera o top dos ajustes directos a escritórios de advogados (ver Protagonistas), ganhou ainda um contrato de 320 mil euros da Estradas de Portugal (EP) para assessoria jurídica. O DN também questionou a EP sobre os serviços prestados, mas não obteve qualquer resposta.

A questão essencial a colocar a esta gente é esta: isto tem que ser assim? Precisa de ser assim?
Quando se pedem sacrifícios às pessoas comuns que pagam impostos, estes indivíduos que lograram assento permanente à mesa do Orçamento, ainda que atrás de resposteiros a soprar linhas da peça em representação permanente, quais pontos de um teatro improvável, recebem sem cortes, por inteiro e por vezes à hora.
Até quando se vai permitir o Estado este esportular de dinheiro público, aos milhões e sem controlo algum, mormente de tribunais de contas?
Nem se trata de arranjar uns concursos públicos para mascarar estas coisas. Trata-se pura e simplesmente de acabar com isto, de uma vez. Voltar ao antigamente e recrutar quem sabe dos assuntos.
Aliás, nessas firmas, quem trabalha não são os sócios de capital, como é bem sabido. São os assalariados por quase tuta e meia. E para isso podem muito bem ser pagos directamente pelo Estado, em organismos adequados, como dantes havia.
Ninguém discute isto. Porque não interessa, porque não sabem e portanto nem perguntam ou porque é o habitual "para quem é, bacalhau basta"?

segunda-feira, dezembro 05, 2011

JPP em prime-time: ridendo castigat mores

Link
Do blog 31 da Armada, este pequeno video sobre uma figura nacional dos media: José Pacheco Pereira, um indivíduo cujo perfil incita ao modo de ser.

O nacional-parolismo

Económico:

No espaço de um ano, a Católica-Lisbon School of Business & Economics e a Nova School of Business & Economics catapultaram-se para a elite do ensino superior europeu, aparecendo ambas no top 40 da edição de 2011 do ‘ranking' europeu de escolas de negócios do Financial Times, que será divulgado hoje.

Mais do que apenas as posições conseguidas, destaca-se neste ‘ranking' a velocidade com que as escolas portuguesas escalaram esta hierarquia. Com uma subida de 29 posições, a Católica-LinkLisbon passou do 62º para o 33º lugar, enquanto que a Nova SBE passou da 73ª posição para a 39ª, naquele que foi o maior salto na edição deste ano do ‘ranking'.

Há umas semanas atrás, a revista francesa Le Figaro magazine publicava um extenso artigo dando conta das melhores universidades para se estudar,actualmente, reproduzindo um estudo do Times Higher Education.

Entre as escolas de economia, fora dos Estados Unidos, não figurava nenhuma das portuguesas apontadas, nos vinte e cinco primeiros lugares. Mas havia três-espanholas-três, logo nos primeiros lugares. E uma mexicana...

Portanto, deixem-se destas parolices. Continuem a entrevistar o professor Boaventura...grande mestre da escola de Coimbra, do CES e arredores.


domingo, dezembro 04, 2011

LulzsecPortugal

Quando a Justiça não funciona como deve ser e a corrupção tem via livre mesmo sem scut, aparecem movimentos sem rosto visível cuja função procura substituir as instituições que se demitiram, através dos seus chefes principais, de cumprir o que devia ser um simples dever: o de garantir que todos, mas mesmo todos, são iguais perante a lei. É o que diz a nossa Constituição.

Em Portugal, há pouco tempo apareceu o movimento de anónimos na Rede, conhecido como LulzsecPortugal/Anonymous.

Desejo-lhes sucesso, dentro da legalidade possível e que se lembrem sempre do dito de Bob Dylan: "...but to live outside the law, you must be honest".
Amanhã, por causa desta imagem que pirateou o sítio do PS na Rede, vai cair o Carmo e a Trindade. Vamos ver quem são os hipócritas do costume e quem são os entalados de sempre. O que não iremos certamente ver é a Verdade que se oculta nas faces da corrupção endémica que atingiu o coração do Estado português, há uns anos a esta parte.
Se o LulsecPortugal contribuir para essa justiça fundamental que falta fazer, não serei eu quem lhes atira pedras. Antes pelo contrário.



Aditamento em 5.12.11: O assunto não traz notícia...

Para entender melhor o jornalismo caseiro e porque está em decadência acelerada, podemos ler as primeiras páginas dos jornais de hoje. Dos cinco diários, quais os que destacam na primeira página a notícia sobre a pirataria informática ao site do PS? Apenas dois: o Correio da Manhã e o i.
Dos restantes, as suas magníficas redacções editoriais acharam por bem não dar qualquer destaque de primeira página ao assunto e relegar para notícias online a referência ao facto. O Público nem sequer se lhe refere em lado algum, no jornal impresso.
É assim o jornalismo português actual.
No Sábado, no suplemento Actual do Expresso, uma jornalista chamada Inês Lopes Gonçalves escrevia numa pequena coluna "Fora da caixa", umas frases assombrosas sobre o jornalismo. " O jornalismo é uma profissão imprevisível , de sangue, suor e lágrimas." Esta não é da tal Inês. É da professora dela, uma certa Fátima Campos Ferreira. Quando li que era professora de jornalismo, fiquei elucidado. Com professores assim, os alunos não podem ser assado.
Portanto, para quem é, bacalhau basta. Quando a crise lhes bater à porta com falências ainda vão dizer que a culpa é do mercado.

Uma corrupção sem corruptos

"Duarte Lima apesar de estar em exclusividade de funções no Parlamento e de ter a inscrição suspensa na Ordem dos Advogados,mantinha uma intensa e profícua relação com muitas empresas.
Na investigação são detectados dezenas de depósitos feitos pelos administradores da então Mota e Companhia para as contas controladas por Duarte Lima. A um ritmo mensal, Manuel António da Mota, fundador da empresa já falecido, e o seu filho, António Mota, actual patrão da Mota-Engil, pagaram perto de 150 mil contos a Duarte Lima entre 1991 e 1993. "

" A criminalização do branqueamento e do tráfico de influências só ocorrem depois de Outubro de 1995, quando o Governo já é do PS e liderado por António Guterres. A bancada do PSD chefiada por Duarte Lima várias vezes recusou criminalizar este tipo de crimes."

Estes dois excertos são de um artigo na revista de Domingo do Correio da Manhã de hoje, assinado por Eduardo Dâmaso e Paulo Pinto Mascarenhas e referem em sensacionalismo de jornal " como é que o advogado Duarte Lima fazia a lavagem de dinheiros e enriquecia.", transcrevendo partes do relatório final de um inquérito crime, subscrito por agentes da PJ de então, em 1994.

Em Janeiro de 1998, Duarte Lima concorreu à Distrital de Lisboa do PSD ( e ganhou, vencendo Passos Coelho e Pacheco Pereira); foi deputado entre 1999 e 2002 e 2005 a 2009.
Em 1998, antes daquelas eleições o director do Público José Manuel Fernandes assinalou em artigo a "imagem pública tão negativamente marcada como Duarte Lima", recordando os "20 volumes e 11 apensos" do processo crime, contabilizando o dinheiro que então tinha passado pelas contas de Duarte Lima: "em oito anos, mais de um milhão de contos" e a maioria ( 640 mil contos) entre 1992 e 1994.

Duarte Lima então respondeu assim, no Público de 3.1.1998:

No Público de hoje, numa reportagem assinada por São José Almeida e sobre o fenómeno da corrupção em Portugal, são ouvidas a directora do DCIAP, Cândida de Almeida, Luís de Sousa da associação cívica "Transparência e Integridade", Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas e também do Conselho de Prevenção da Corrupção e ainda João Cravinho.

João Cravinho acha que " a corrupção mudou em Portugal e já não é o que era". Porque só nos últimos 10-15 anos subiu a reprovação da pequena corrupção." Cravinho acha ainda que " O grande problema é a corrupção por tráfico de influências. Há a ideia de que as decisões são tomadas por interesses. Isso mostra que há uma impossibilidade das instituições democráticas atacarem o sistema. Há até uma protecção pretoriana para esses interesses por parte de uma rede colocada no aparelho de Estado, com participação dos partidários, que é pluripartidária, em que, a cada eleição, muda quem decide, mas a rede está lá. Há um grupo de avençados, que são pagos em carreiras políticas e que até podem achar que não participam na rede de corrupção, que não se reconhecem como agentes e beneficiários, mas são-no."

Este discurso de João Cravinho, redundante e algo deletério, deixa sempre tudo por dizer. Não nomeia evidentemente ninguém e deixa à imaginação de quem lê, a identificação dos não nomeados para estes óscares da corrupção.
É portanto uma corrupção sem corruptos.
E contudo, a João Cravinho é preciso perguntar o seguinte: quando se lembrou de desmantelar a antiga JAE, por ser um couto de corrupção, o que veio a seguir? As parcerias público-privadas, além do mais. Sôfregamente defendidas por luminárias tipo Paulo Campos, outro inenarrável da nossa cena política, antes disso vivamente acolitados por advogados tipo José Miguel Júdice e Proença de Carvalho.
O que aconteceu com estas PPP? Cravinho saberá dizê-lo em modo claro e frontal? O que sobra da sua acção no antigo ministério das obras públicas? Qual o papel de um tal Lino, antigo comunista arrependido, neste lamaçal? Saberá dizê-lo, João Cravinho? Ou prefere continuar com este discurso que nada adianta e só confunde?

sábado, dezembro 03, 2011

O jacobinismo em estado puro

O que é a Benetton? Uma empresa de roupa casual para venda em mercado global. Um símbolo do capitalismo tal como o entendemos nos dias de hoje, na vertente produtiva de mercadorias. Roupa, essencialmente. Para vender o maior número possível e aumentar os lucros, com as famigeradas mais valias, dantes tão vilipendiadas pelos marxistas, o que faz esta empresa? Além do produzir a mercadoria nos lugares onde lhe parece mais rentável fazê-lo, publicita-a o melhor que sabe e pode.
Algumas das campanhas publicitárias da Benetton provocaram polémica e protestos variados pelo efeito pretendido pela empresa de chocar as pessoas.
Os publicitários italianos e os donos da firma não acharam melhor estratégia de marketing comercial do que publicar grandes pancartas publicitárias com imagens-choque sob a capa artística e com laivos de pretensa evolução artística revolucionária. O mau-gosto não importa, desde que sirva para vender o produto- é essa a lógica inexorável que os marxistas sempre entenderam e por isso vituperam o capitalismo.
Mas há marxismo e marxismo e a esquerda portuguesa tão bem exemplificada no artigo de São José de Almeida no Público de hoje, jacobino até mais não, encontrou outra bête-noire para malhar, para além daquele fenómeno que "agora não interessa nada": a Igreja Católica, cujo Papa lhes é hostil ao ponto de perderem as noções básicas da realidade mais comezinha e começarem a tergiversar em eloquências patéticas.

A última campanha-choque da Benetton encontrou novamente um motivo de escândalo de que tanto precisa para vender camisas de noite e roupas de dia: supostamente inspirada numa ideia de "paz e amor", com recendências hippies, entendeu hostilizar abertamente a Igreja Católica, ofendendo a sensibilidade à flor da pele da sua hierarquia mais elevada.
Sabiam que tal ia suceder, quiseram-no expressamente para aparecerem nas notícias de todo o mundo que compra roupa nas suas lojas e não recuaram senão após ameaças de procedimentos judiciais por ofensa à imagem do Papa. O efeito estava conseguido e por isso, cederam. Tudo nos conformes dos compêndios do marketing e da avidez do lucro.

Eis senão quando, aparecem estas abencerragens da esquerda florida hippie e serodeamente jacobina a protestar contra a Igreja Católica por ter sido "intolerante". E com argumentos de um peso intelectual de fazer vergar uma mula velha carregada de alfarrábios. A Igreja ( a que apodam de ICAR rebuscando o acrónimo) "demonstrou ignorância em relação às simbologias de poder e à história " ( sic) e "também porque passou para a opinião pública a imagem de que o que estava em causa na campanha seria a erotização da casta imagem de um líder religioso, resvalandoo aqui na mais opressora homofobia " ( sic again).

Esta ideia primária sobre a ignorância do Papa ou do Vaticano, além de estúpida é ignominiosa e reveladora mais de quem a profere do que de quem pretende atingir. E mesmo não descobrindo no comunicado do Vaticano qualquer laivo da imputação, o processo intencional já foi levantado e terminado com acusação à boa maneira inquisitorial ou mesmo estalinista.

E toca depois a tecer o panegírico mais uma vez de uma estupidez flagrante, à campanha publicitária de uma empresa multinacional cujo único desiderato é vender roupa. Mistura a "simbologia do poder" com a cultura europeia e procura explicar fenomenologicamente a ocorrência histórica de um beijo na boca dado por dois marmanjos do poder socialista do antigo bloco soviético, em nome de uma tradição e de um folclore que foi explorado iconicamente e até ridicularizado, mas cujo valor simbólico é agora recuperado em nome de uma lógica capitalista.
Maior estupidez pode existir, assim?
Só mesmo no jacobinismo...



E depois disto, ocorreu-me uma ideia: e se aparecesse por aí, em pancartas a publicitar, sei lá!, por exemplo a campanha da esquerda contra a "troika", uma imagem de Álvaro Cunhal nestes mesmos preparos com Honneker, o que aliás é muitíssimo plausível ter sucedido?

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Graças a Deus!

R.R.

"Os seis tripulantes da embarcação “Virgem do Sameiro”, desaparecida há três dias, foram encontrados vivos esta manhã numa balsa de salvamento. Helicóptero transportou-os para a base de Monte Real."

E agora, o que é que este jornalismo merece? O opróbrio e a vergonha públicas? É para o lado que dormem melhor, como agora se diz. Gatos-pingados chega? Ou, antes, abutres, uma vez que exploram a desgraça mesmo antes dela acontecer?

Um vídeo que explica a nossa dívida pública.

É em francês mas está traduzido. E dura alguns minutos. Tenta explicar o que os media em geral não explicam.

A justiça inglesa é que é! Dêem-nos juizes ingleses, já!

Vale e Azevedo encontra-se em Londres, em liberdade, fugido à Justiça portuguesa. Parece que há um pedido de extradição que corre termos nos tribunais londrinos e até um mandado de detenção europeu, imagine-se!
Ontem, o tribunal de Westminster ouviu o extraditando clamar pelo desrespeito pelos seus direitos humanos.
Antes, outro tribunal de Londres não se compadeceu dessa figura pública e arrestou-lhe bens móveis para pagar dívidas antigas que outras vítimas reclamavam há muito.

O tribunal de Westminster, sufragando os argumentos do visado, decidiu, ao fim de quatro horas de intenso labor, adiar a decisão. Para o próximo dia 26 de Janeiro. Essa eventual decisão, se não voltar a ser adiada com fundamento naqueles inefáveis direitos humanos, pode ainda ser objecto de recurso para o High Court, um tribunal superior.

Espero que todos os que clamam sempre por juízes ingleses, se lembrem disto da próxima vez que o fizerem.

A justiça é para a classe média

O Sol de hoje reporta que Isaltino Morais, no âmbito dos processos penais em que é arguido já interpôs 29 recursos de decisões judiciais, desde 2009. Gastou, "entre custas e impostos", mais de 90 mil euros, com tais peças processuais que passam por recursos propriamente ditos, arguições de nulidades, requerimentos avulsos, pedidos de aclaração etc.
O jornal não esclarece quanto gastou Isaltino em honorários de advogados com tais expedientes processuais que visam apenas um objectivo: evitar a prisão decretada em sentenças. Provavelmente uma quantia superior a essa.

Fica deste modo provado uma coisa, em processo penal: em Portugal, alguém que tenha meios económicos suficientes, pode valer-se de expedientes variados e profusos nas leis penais para atrasar ou impedir o efeito das decisões judiciais.
Essa evidência será a prova que sobeja para que se possa dizer abertamente que há uma justiça para ricos e outra para pobres?
Nem tanto. Há uma justiça que os ricos podem sustar, mas os pobres também: basta que tenham apoio judiciário e os advogados oficiosos queiram ou saibam fazer o mesmo.
Portanto quem tem uma justiça diferenciada, neste aspecto, é a classe média, a que não pode socorrer-se do apoio judiciário.
Essa, não tem meios suficientes para impedir a marcha inexorável, ainda que lenta, incerta ou iníqua por vezes, da justiça.

A latere coloca-se outra questão: Isaltino não era rico antes de entrar para a câmara. Parece que tem uma conta calada na Suíça. Ainda assim, com o que ganha na autarquia que não dá para mandar cantar um cego, como dizia há algum tempo outro autarca-modelo de Santarém, Moita Flores e que compõe o ordenado com os direitos de autor ( apesar de um António Victorino de Almeida também ter dito recentemente que ninguém vive disso em Portugal), como é que Isaltino paga estes balúrdios à "justiça" para se livrar da cadeia?
É outro mistério.

Uma avaliação

No Sol de hoje, à pergunta- "Portugal sair do Euro?", Fernando Adão da Fonseca, presidente da Unicre, ex-quadro do BCP e que tentou salvar o BPP mas não foi capaz, responde assim: "Como académico que sou, nunca posso colocar essa hipótese de parte. Mas espero que os portugueses não aceitem isso e não dêem ouvidos aos que, para chamarem a atenção sobre si próprios, só dizem asneiras."

O recado vai, inteirinho, para um comentador televisivo chamado Ferreira do Amaral. Além de outros, claro.

A treta do costume

"O serviço público de televisão não é, ao contrário do que tantas vezes se propaga, um problema de custos nem de financiamento, mas antes de visão e de estratégia." - Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, citado pelo Público de hoje.

Claro. Claríssimo. 300 milhões de euros por ano são uma bagatela. Um terço das comparticipações totais que o Estado concede às empresas onde participa, é nada, para o Carrilho. Dêem-lhe a batuta da estação e teremos a visão estratégica do jacobinismo e o assento almofadado do erário público para definir o serviço público.
Foi precisamente com este tipo de ideias que nos afundamos economicamente o que demonstra que a filosofia é uma treta que nem sequer permite pensar melhor.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

O assunto não traz notícia nem laivos de indignação...


Estas são as capas dos principais diários portugueses de hoje. Sobre o assunto "Independente" e a sua relação com a licenciatura de José Sócrates, obviamente o tema mais "quente" e por isso mesmo a merecer a atenção do homem que morde no cão.

Alguns jornais, ainda assim, entendem que é apenas caso de cão que morde em homem...vá lá saber-se porquê. O i nem sequer menciona o caso. Porquê? Não é notícia? Ficou na gaveta? Auto-censurou-se? O JN, obviamente não traz capa com o caso, por uma simples coerência de princípios jornalísticos. Quem apoiou politicamente o anterior primeiro-ministro continua a ser leal à figura Inenarrável e dizem nada. Lá sabem porquê, também.
O Diário de Notícias segue o mesmo rumo de ignomínia, pela mão avisado do amigo Marcelino.
O Público, como habitualmente, tergiversa. O assunto que traz notícia é o caso político sublimado do caso de aldrabice e simplesmente de polícia. Numa coluna, no entanto, o principal jornalista do assunto, José António Cerejo, foi ouvido pela redacção e lá vem a história principal: a falsificação de documentos, em que obviamente José Sócrates é forte suspeito de comparticipação.
Um assunto destes não é notícia? É, claro que é, em todos os jornais do mundo.
E só o Correio da Manhã lhe dá o destaque devido: "Morais salva curso de Sócrates" é a notícia principal com menção às pautas apócrifas. É esse o assunto e ainda bem que há quem o saiba.
É por estas e por outras que o jornal vende mais em Portugal, destacado dos outros todos. O Público anda em contenção e qualquer dia, neste rumo sem destino, acaba. Para já são apenas alguns jornalistas que vão ser dispensados, mas lá mais para a frente, com este tipo de jornalismo que cada vez menos gente quer ler, não se sabe. O Público é uma desgraça, assim, porque ainda continua a ser o melhor jornal português, mais bem feito graficamente e com potencial de implantação maior. Falta uma coisa apenas: uma direcção capaz e à altura do assunto das notícias. A administração prefere fazer de conta que não vê, vai alimentando a visão jacobina da sociedade espelhada nas páginas do jornal e a par de reportagens fantásticas e notícias bem elaboradas aparecem os Miguéis Gaspar e Bárbaras Reis a estragar tudo. Que pena!

A pergunta, por isso: por que razão misteriosa os demais jornais diários não querem saber do caso, nesta perspectiva incontornável de homem que morde no cão? Porque são da sociedade protectora dos animais?

No mesmo jornal Público, no entanto, é dada notícia a outro assunto quase do mesmo teor: o doutoramento de um filho de Kadhafi na London School of Economics. A notícia aparece incompleta porque não tem o "quando", relativamente aos factos relatados. Mas a informação está disponível noutros lados ( um excelente e extenso artigo na New Yorker de 7.11.2011 e na Teia em geral, e que o jornalismo do Público, pelos vistos, dispensou de consultar...) e por isso respeita ao ano de 2008, em que Saif al-Islam ( a espada do Islão), filho e herdeiro de Kadhafi obteve um doutoramento na prestigiada escola de negócios inglesa. Curiosamente, um doutoramento em...Filosofia política.
Faz lembrar alguém? Talvez, se se souber, como agora se sabe ( e a revista ainda não sabia) que o doutoramento foi completamente aldrabado e a tese escrita por um terceiro a rogo. A escola de negócios recebeu pouco depois um donativo de $ 2.2 milhões e tudo corria bem se não fosse a maldita gente da Líbia que apeou o ditador. Desse modo também foi apeado o reitor da escola, um prestigiadíssimo professor que se deixou arrastar no lamaçal dessa pouca-vergonha. Os ingleses fizeram um inquérito, sério e a valer, com um procurador independente e os resultados foram publicados agora. Lá, os que asseguram voos aos crocodilos são atirados às feras mediáticas. Aqui, são promovidos a directores de circo.

Lições para nós? São evidentes, não são?

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso