Páginas

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A canção de um mundo

Segundo anuncia o Público de hoje, antecipando o dia do Autor, a revista Mundo da Canção vai ser homenageada pela SPA, organização de índole maçónica e que tem como presidente um antigo comunista, José Jorge Letria, ele mesmo um antigo cantor ou baladeiro de protesto e alvo da atenção da revista in illo tempore. Tudo em casa, portanto.


A Mundo da Canção foi uma revista aparecida pela primeira vez em finais de 1969 e durante vários anos foi uma das principais publicações sobre música em popular, em Portugal, a par do jornal Disco, música & moda, aparecido em Fevereiro de 1971 e a revista Música&Som, surgida em 11 de Fevereiro de 1977.


O Mundo da Canção de 1969 era um pequeno mundo para além das canções: o da oposição ao regime deentão, de Marcello Caetano que tinha iniciado uma abertura política após o afastamento de Salazar, por doença, do exercício do poder.
O número um da revista tinha na capa um padre cantor, comunista da extrema-esquerda, Francisco Fanhais e que chegou a ir ao programa de tv, desse ano,  Zip Zip. A letra de uma das suas canções, À saída do correio, precisamente, foi editada num disco lp pela etiqueta Zip, em Setembro de 1969 e é reveladora do fenómeno de então, de quem escrevia para passar uma mensagem comunista: dissimular o discurso em modo parabólico para enganar a Censura.
Mesmo assim, o número 34, de data incerta ( o anterior era de Novembro de 1972) não chegou a ver a luz das bancas da altura e só treze meses depois foi publicado, já depois de 25 de Abril de 1974 como diz a tarjeta que o envolve. Portanto seria de Março de 1973. O que trazia de especial? Nada que os anteriores não tivessem já mostrado. Para além do mais, as letras integrais do disco do actual director da SPA, Até ao pescoço, mais as letras do disco de José Mário Branco, Margem de certa maneira e o de José Afonso, Eu vou ser como a toupeira, para além de outros. A Censura não queria que os portugueses que então compravam a revista soubessem que havia comunistas de extrema-esquerda a quererem derrubar o regime com palavras e canções. Mas não proibiu os restantes números que se seguiram. O seguinte, 35, comprei-o na época e tinha na capa Gary Brooker, dos Procol Harum que nessa altura visitara Cascais, para um concerto memorável. Na crítica de discos aparecia o de Sérgio Godinho, Os Sobreviventes e o Fala do Homem Nascido, um disco colectivo com orientação de José Niza e outros, com a referência a cada tema, por Tito Lívio.
Quando se chega a 25 de Abril de 1974, o primeiro número ( o que se mostra acima com a capa branca e um texto a todo o espaço, assinado por um "colectivo de acção popular") já é dominado pelo MRPP, os doidos que ainda andam por aí à solta. A citação de abertura da revista é de Mao-Tse Tung e é assinada por um tal António José Fonseca. É nesse número que aparece um texto de Correia da Fonseca, da República, sobre "O fascismo já faz queixinhas"...por aqui já publicado.


Desde o primeiro número a revista foi um instrumento gramsciano de influência cultural da esquerda, particularmente a comunista. Nesse primeiro número já se destacava a figura de José Afonso como artista de canções baladeiras e não só. Lendo o texto percebe-se onde estávamos culturalmente, em finais de 1969: nas mãos da intelligentsia de esquerda comunista.


A revista, no entanto, tinha uma virtualidade incomparável: trazia as letras de canções da música popular de maior qualidade que então se produzia no mundo ocidental. Beatles, Stones, Dylan, Moody Blues. E também dos festivais da canção completamente dominados pelos autores de esquerda como J.C. Ary dos Santos, José Niza, Pedro Osório e outros.

Em 1979 a revista fez um balanço dos dez anos de actividade, assim:


Por aí se podem ver os autores publicados e a petite histoire acerca do "social-fascismo" e da guerra de esquerda que se desencadeou logo a seguir a 25 de Abril de 1974 e que a revista espelhou fielmente.
Há um fenómeno que me intriga nisto tudo: a Banda do Casaco, provavelmente o grupo de música popular mais importante em Portugal, na década de setenta do século que passou não é mencionado...nunca percebi porquê, mas acho que pensavam que era um grupo fassista.

O Público de hoje, em vez de contar esta história ou outra que mencione tais factos, conta esta, da carochinha, como dantes acontecia:


O jornalista que a assina, Nuno Pacheco se calhar é muito novo para saber aquelas coisas.É triste viver num país em que a Censura acabou e existe uma outra ainda pior: a que escamoteia factos que deveriam ser conhecidos do Público.

6 comentários:

muja disse...

A SPA que fez cobrar aos cidadãos uma taxa aplicável a tudo quando sirva para copiar e armazenar informação digital, sob pretexto de que pode - pode; talvez; eventualmente - ser usado para copiar e reproduzir as preciosas obras de arte criadas pelos autores supostamente representados pela dita sociedade.

A SPA que colabora e colaborou com misteriosas e obscuras organizações para organizar o mais expedito processo de bloqueio e restrição da Europa a sítios "pirata". Tendo em conta a realidade das coisas, o mais que se lá há-de piratear é o que sai de Hollywood e da "indústria" "musical" americana em borbotão.

Donde se é forçosamente obrigado a concluir que a SPA e demais nebulosa não passa de correia de transmissão dessa meca do capitalismo imperialista cultural (e não só) e de fiel caseiro dessa "indústria" aqui para o rectângulo.

Enfim... hábitos. De comuni$tas.

muja disse...

Piratas de todo o mundo: uni-vos!

muja disse...

Ainda bem que a malta no geral não assobia em alta fidelidade, quando não só os mudos se safavam da taxa. E mesmo esses só se fossem manetas, não fossem piratear o último ite em linguagem gestual...

Floribundus disse...

sobre a trampa que é o português

estive a reler a introdução de
Casa grande e senzala de Gilberto Freire

Maria disse...

"Um projecto que tantos autores 'divulgou'??? autores 'divulgou'??? Que espécie de português é "este"?!?
Francamente.

Karocha disse...

Pois !!! José