Chuck Berry morreu ontem à hora do almoço na sua casa em St. Louis, no Missouri americano. Hoje os
jornais impressos nada trazem de notícia e muito menos de primeira página, o
que é estranho para quem publicou fotos inteiras de página dedicada aquando da
morte de Bowie ou Lou Reed.
Porém, sem Chuck Berry, a música daqueles não seria a mesma
coisa porque muito lhe ficaram a dever.
Não tenho nenhum disco original de Chuck Berry mas tenho
muita música com sequências de acordes inventados por Chuck Berry, ouvida ainda
sem saber tal facto.
Quando comecei a ouvir música rock, nos finais dos anos
sessenta já Chuck Berry tinha produzido tudo por que se tornou celebrizado e
copiado e já outros músicos e conjuntos tinham aprendido a tocar as suas
músicas, sendo os casos mais notórios os
Beatles e os Rolling Stones.
Chuck Berry tinha ficado para trás, nos anos cinquenta em transição para a década
seguinte em que o rock n´ rol se trasmudou em rock, muito por influência
daqueles grupos britânicos e das editoras Sun ( que gravava os discos de Elvis
Presley, Carls Perkins e Jerry lee Lewis) e Chess ( que gravava Chuck Berry e Muddy
Waters, antes dele) e Atlantic que gravava Ray Charles e outros cantores
pretos, americanos.
Chuck Berry foi provavelmente a maior influência singular na
música rock que então surgiu. Maybellene, em Junho de 1955, foi uma das primeiras
composições do músico. A canção cujo nome fora escolhido num frasco de
brilhantina, foi passado por Alan Freed, a pedido dos irmãos Chess, polacos
emigrados que convenceram esse animador
de rádio em Nova Iorque a transmitir a música e foi logo um êxito, segundo se
conta. Mesmo sem o nome do artista no disco ( informação tirada do livro Rock & Indústria de Steve Chapeple e Reebee Garofalo, de 1977-Caminho da Música 1989).
O Beatles ligaram logo a canção de Berry, Roll over
Beethoven, a um sucesso de vendas, em finais
de 1963 no Lp With the Beatles. Os Rolling Stones já o tinham feito em meados
desse ano, com a canção Come on, aliás o seu primeiro disco single. E
continuaram a fazê-lo durante toda a carreira, copiando e adaptando mais de uma
dúzia de canções de Berry.
Mas não foram apenas os Beatles e os Stones a tocarem músicas de Chuck Berry. Os Beach Boys, no início de 1963 compuseram Surfin´in the USA depois de terem escutado muito bem Sweet little sixteen, daquele músico. A melodia era tão semelhante que foi preciso dar-lhe o crédito respectivo após litígio judicial. A história é contada por Mike Love na sua autobiografia Good Vibrations, my life as a beach boy, de 2016, um magnífico livro, por sinal.
Mas não foram apenas os Beatles e os Stones a tocarem músicas de Chuck Berry. Os Beach Boys, no início de 1963 compuseram Surfin´in the USA depois de terem escutado muito bem Sweet little sixteen, daquele músico. A melodia era tão semelhante que foi preciso dar-lhe o crédito respectivo após litígio judicial. A história é contada por Mike Love na sua autobiografia Good Vibrations, my life as a beach boy, de 2016, um magnífico livro, por sinal.
A primeira vez que ouvi Roll over Beethoven e me chamou a
atenção foi em 1973 numa versão da
Electric Light Orchestra do seu segundo disco (II) que tenho e guardo como magnífico,
muito por causa dessa canção e respectivo tratamento sonoro)
Por causa desse fenómeno as canções originais de Chuck Berry
surgiram como recriações de outros grupos e artistas fazendo esquecer muitas
vezes o artista original que as criou e agora faleceu aos noventa anos. Além da
ode a Beethoven, Maybellene, Sweet Little sixteen, Johnny B. Goode, Memphis
Tennessee, You never can tell e muitas outras foram entretanto ouvidas em
versões originais ou adaptadas.
É por isso que a ausência de Berry dos obituários de hoje se
torna estranha e revela uma incompreensível desatenção mediática a um fenómeno
de cultura popular com um relevo superior a muitos outros.
Ao mesmo tempo revela bem a natureza dos critérios
jornalísticos e o efeito rebanho que suscita.
Com a notícia de ontem não se gerou a onda mediática que
noutros casos assumiu proporções de tsunami e neste morreu logo numa praia
longínqua, da América distante. Por outro lado, os directores de jornais não
estão sensibilizados para a importância do agora desaparecido Berry. Pouco ou
nada lhes diz, mediaticamente. Musicalmente será igual, provavelmente.
A melhor representação da importância de Chuck Berry na
música surgiu em 1986 no primeiro filme da trilogia Regresso ao Futuro.
Numa cena antológica, o artista Michael Fox, num palco e com
uma guitarra idêntica à que Berry utilizava nos anos de fama de 1958 ( uma
Gibson ES 345, encarnada). O tema é o magnífico Johnny B. Good com a introdução fantástica na guitarra, inventada por Chuck Berry:
A parte final do tema apresenta um resumo da evolução do som da guitarra até ao tempo dos Van Halen...o que o torna ainda mais interessante.
Também memorável é a canção You Never can tell tal como apresentada no filme Pulp Fiction, disponível no You Tube