A notícia acerca do cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto, por pressão da Associação de Estudantes da Universidade Nova ( FCSH) foi até agora divulgada em modo de komentadoria, essencialmente.
O Público não achou o assunto digno de notícia de primeira página ( tem mais interesse saber coisas sobre o que diz Arménio Carlos, por exemplo) mas consagra hoje um editorial que é um must a que nem falta a referência às opiniões que são "bafientas e ressumam um passado odioso", referindo-se a alguém que o editorialista ( Manuel Carvalho) não nomeia, num expediente muito arejado e de passado muito simpático.
Por outro lado, o cronista de "direita" do Público, João Miguel Tavares considera a Constituição de 1933 como "fascista" e portanto arreigada à extrema-direita. Por consequência tivemos 48 anos, aproximadamente, de extrema-direita no poder. O fascismo, em suma. Tal como o PCP anda a proclamar desde que surgiu, nos anos trinta, das brumas do estalinismo mais sanguinário e internacionalista do Komintern.
E chama palermas a quem tal proclama... o que lhe assenta neste caso muitíssimo bem.
Comecemos então por este préclaro komentador de "direita":
A Constituição de 1933 não era fascista porque... não era fascista. Basta isso e se quiser saber porquê então vá estudar mais.
O artigo atinente à liberdade de expressão que aparece na Constituição de 1933 na versão em vigor no ano de 1961,em pleno salazarismo, é este, no Título I, artº 8º que elencava os direitos, liberdades e garantias individuais dos cidadãos portugueses e no parágrafo 2º explicava que "leis especiais regularão o exercício da liberdade de expressão do pensamento, de ensino, de reunião e associação (...)".
As leis especiais eram as leis avulsas, incluindo a de imprensa. A primeira, específica para os media, surgiu em 1971 ( Lei 5/71, Lei de Bases), após intensa discussão acerca da Censura.
O relato dessa discussão pode ser lido aqui e interessa particularmente o que o Francisquinho de então dizia acerca da Censura e que não foi censurado por isso...
Vida Mundial de 6.8.1971 e 29.10.1971. A discussão era "aberta", arejada e pouco bafienta.
Sobre a liberdade de associação e reunião, em 1973 organizou-se um congresso da oposição "democrática".
Tal foi noticiado assim na revista Observador, de 20.4.1973. O assunto já foi comentado aqui e aqui e quem quiser ler, basta folhear os recortes e perceber que Mário Soares só não esteve presente porque não quis. Mas estiveram outros democratas, alguns de pacotilha, incluindo revolucionários de vão de escada.
O que é manifesto nestes opinadores mofentos é a menção ao Estado Novo como o Estado que vigorava antes de 25 de Abril de 1974. Ora Salazar tinha perdido o poder de facto em Setembro de 1968 e o Estado Novo mudou para Estado Social, numa "evolução na continuidade.
Os cinco anos que separam esse tempo do advento do 25 de Abril de 1974 são sistematicamente escamoteados pelos mofentos do regime que falsificam a História para amalgamar todo um "passado odioso"de que se alimentam, sustentado em mitos e lendas criados por aqueles que pretendiam impor um passado alternativo e modelarmente copiado das "democracias" do Leste europeu de então.
Este mito e este equívoco são sistematicamente alimentados pelos media que temos e pelos papagaios habituais que aprenderam nas escolas de jornalismo esta versão falsificada da História.
Conta a Sábado de hoje:
"Em Novembro de 1965, Salazar foi assistir aos ensaios do Auto da Alma, no Teatro São Carlos e convidou Almada para procurador à Câmara Corporativa. Ele aceitou, embora não tenha ido a qualquer reunião".
Almada Negreiros, outro bafiento, mau exemplo do "passado odioso"...