sexta-feira, maio 12, 2017

Um Portugal de há 50 anos, desconhecido para muitos

Vou tentar mostrar aqui uma imagem de um Portugal de há 50 anos através de alguns recortes de revistas dessa época.

As publicações periódicas, como jornais e revistas, fixam muitas vezes certos acontecimentos ou mostram determinadas imagens ou ainda relatam aspectos da vida quotidiana que servem de referência para quem viveu esse tempo, lembrar como era e poder contar como foi.

Esse relato, sendo subjectivo permite, se acompanhado de documentos, sindicar o mesmo e permitir a discussão sobre tal. Sendo necessariamente fragmentário o panorama pode desse modo ser manipulado por quem o mostra e é isso que acontece sempre nos relatos que hoje temos nos media em geral, condicionado por décadas de deturpação histórica de factos ou mesmo de acontecimentos relevantes. Estes costumam ser apresentados do ponto de vista, não de quem os viveu, mas de quem agora os relata segundo versões ideologicamente impregnadas de preconceitos ou enviesamentos que deturpam a realidade vivida por quem não se situava politicamente numa esquerda oposicionista do regime vigente.

O Portugal de 1967 não era necessariamente aquele que nos querem mostrar os que chamam fascismo ao regime em que o presidente do Conselho se chamava Salazar.

Nestes recortes, todos do ano de 1967 e um ou outro dos primeiros meses de 1968, das revistas Século Ilustrado e Flama,  que passo a seguir nem uma única vez aparece a referência a Salazar ou até ao Governo, explicitamente. E por uma vez há referência à guerra no Ultramar através de um dos seus aspectos mais emblemáticos: o regresso dos militares das mobilizações e comissões de serviço "lá fora".



Assim, poderia começar esta série de amostragens de "tranches de vie" pela apresentação de uma escola pública da região da grande Lisboa, Sintra, no caso: o Liceu de Sintra que funcionava num edifício adaptado. Os alunos que se mostram poderiam ser os de hoje? Ainda não havia baleias azuis...e por isso eram provavelmente mais alegres, mas pode ser apenas um engano.


A propósito de ensino e educação, um pequeno apontamento sobre os castigos corporais, a violência sobre crianças que era encarada de um modo totalmente diverso do que sucede hoje em dia e permite relativizar e contextualizar o problema da autoridade paternal. No caso, tratava-se de mencionar um estudo que decorria em França acerca dos castigos corporais, ainda em uso nesse país que nem era fassista...


 Do ensino numa zona urbana pode passar-se para o panorama de uma zona remota no Portugal de então: o nordeste transmontano, antes das vias rápidas e ainda no tempo de que "para lá do Marão mandam os que para lá estão"...


O Portugal rural de então ainda estava muito atrasado em desenvolvimento de técnicas agrícolas e o trabalho era mais para subsistência do que para acumulação de capital. Porém, notam-se já alguns sinais de mudança. Por exemplo nos postos de saúde, já modernos e funcionais.
Apesar de tudo, o subdesenvolvimento ( pouco mais de vinte anos depois do fim da II GG, é preciso lembrar)  obrigava a imigração interna e foi por isso que apanhámos depois nas grandes cidades os transmontanos que vinham estudar e que alguns deles deram em Sócrates e Varas e até Proenças e Monteiros, alguns já num período tardio dos anos setenta.

Mesmo às portas da capital havia bolsas de miséria impressionante que se descreviam de um modo natural, ou seja, sem dramatismos de maior. Roma e Pavia não se fizeram num dia e estas cenas de miséria não eram exclusivas do Portugal de então. Por exemplo na Itália do Sul, ou na Espanha galega, também havia disto:


O desenvolvimento que despontava mostrava isto que poucos se lembram: o recrutamento de enfermeiras para o serviço público dos hospitais. É ver as condições de salário e comparar com os dias de hoje...


Ainda no domínio do trabalho havia progressos que hoje aparentemente só existem em algumas unidades industriais, mas então eram mostradas como exemplo:


E as condições de trabalho em geral não sendo tão boas como hoje, tinham aspectos que merecem lembrança. Por exemplo, as mulheres ( eram geralmente mulheres cujos maridos trabalhavam no caminho de ferro, na conservação das linhas) sinalizavam os combóios e fechavam as cancelas quando ainda eram manuais...


E nas cidades quando havia problemas nos transportes podia acontecer isto, sem problemas de maior...o que hoje seria impossível.
Não conhecendo isto e não contextualizando isto não é possível falar da realidade de então com o acerto devido. Pergunte-se à Rita Rato o que pensará disto...


 Quanto aos problemas urbanos havia até reuniões ibéricas de arquitectos! E um deles era o pai do Portas...e se um outro, na foto mais acima, não é o Siza Vieira, imita muito bem:


A propósito das aldeias e respectivo desenvolvimento apareceu nessa altura uma iniciativa nacional, assim publicitada. Faça-se as contas ao preço e compare-se com o dos continentes actuais:


E depois do trabalho, o lazer! No Norte,  as festas populares eram assim, em certos sítios. Ainda hoje o são, aliás. Em lugar das vinhas de vinho verde, há agora campos sem cultivar e casas construídas por emigrantes. Quanto aos cestos floridos, continuam a ser as moças novas que os carregam, mas têm menos força hoje que naquele tempo. As raparigas de então trabalhavam muito mais na lavoura...:


Nos divertimentos, o futebol, claro, era rei e Eusébio a figura mais destacada, tal como Ronaldo o é hoje:



Mas em Coimbra que agora se diz ( na A1) que é "a cidade do conhecimento" , os estudantes que jogavam na Académica eram...amadores, mesmo. E estudavam, antes de serem jogadores:


E mais para o Sul os divertimentos tinham outro estilo que ainda se manterá, mas mais discreto e ameaçado pelos defensores dos direitos dos animais de agora que conseguiram tirar os ditos do reino das coisas:


De resto havia corridas de carros:


Via-se televisão com alguns programas de muito boa qualidade.


Podia ir-se ao teatro ver algumas das actrizes que despontavam para o género  que não seria confundível com a revista:


E, claro, por esta altura havia o festival da Eurovisão. Nesse ano de 1967, o participante nacional era Eduardo Nascimento.

E quem quisesse podia ir ao Cais de Sodré, como hoje:


De resto as autoridades, no caso a temível PVT, ( Polícia de Viação e Trânsito), um reflexo do fassismo, também fazia a sua festa, com a colaboração de antifassistas do teatro de revista e da televisão, dos Zips e assim...



Portanto, sempre que alguns democratas queiram dizer mal do Estado Novo do tempo de Salazar lembrem-se que é preciso falar nestas coisas também...

Questuber! Mais um escândalo!