Helena Matos, Observador:
O país teve um chilique: o Correio da Manhã divulgou um vídeo em que se verá uma agressão sexual – ou que se presume ser tal – e logo surgiu um vozear unânime de condenação. Pelos excessos a que os jovens da geração mais preparada de sempre são capazes? Não, de modo algum. Como se sabe os festejos dos jovens são assim uma espécie de inquérito à CGD: aconteça o que acontecer só se deve divulgar uma pequena parte porque se conhecêssemos a realidade ficaríamos muito traumatizados. E assim o ónus da questão recaiu sobre o Correio da Manhã numa tal onda de indignação que até a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) entendeu adequado “Apresentar queixa no DIAP da Comarca de Lisboa, contra o Jornal “Correio da Manhã”, no sentido de proceder às diligências que considere necessárias, tendo em vista o apuramento de responsabilidade criminal, uma vez que as imagens divulgadas indiciam a prática de crime contra a honra ou contra a reserva da vida privada.” Portanto a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género apresenta queixa contra o jornal que divulgou as imagens onde alegadamente se vê uma agressão sexual a ser praticada por um homem contra uma mulher. Mas não foi precisamente para lutar contra estas situações que foi criada a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género? Quanto à “reserva da vida privada” que tanto preocupa a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género chamo a atenção que o Correio da Manhã ocultou a identidade dos protagonistas.
Dir-se-á que era bem escusada a divulgação da imagens e que o Correio da Manhã apenas queria aumentar a leitura das suas páginas. Do último ponto não tenho dúvidas. Quanto ao primeiro vamos lá deixar de ser hipócritas: o que está aqui em causa é apenas a divulgação dessas imagens ter sido feita pelo Correio da Manhã, um jornal popular detestado pela elite progressista e pelos meios activistas do costume.
Estes últimos consideram-se detentores do monopólio da indignação, logo não só determinam aquilo com que nos devemos indignar mas também o quando e em que moldes. O problema do vídeo divulgado pelo Correio da Manhã é mesmo esse: ter sido divulgado pelo Correio da Manhã.
O que está em causa é a divulgação daquelas imagens e mais: a permanente busca da sensação noticiosa, capaz de suscitar a apetência para comprar o jornal. Um euro, custa o jornal impresso, apoiado depois, à noite, pela informação detalhada e comentada na CMTV por verdadeiros especialistas ( entre outros, Rui Pereira e Carlos Anjos, respectivamente professor universitário de direito penal e antigo polícia da PJ, ambos pagos para comentar assuntos de que entendem por força da actividade profissional que exerceram).
A publicação das imagens em causa e a própria notícia eram necessárias para sustentar o direito de informação? Não, não eram e deveriam ter sido censuradas internamente, no jornal. Porque não o foram? Só vejo uma razão e que é a primeira apresentada: económica, vender mais papel, sem qualquer fundo moral acompanhante ou critério de escolha sensato e equilibrado. Ao mesmo tempo alimentando instintos primários de voyeurs que se pelam por sensações desse género e que irão sempre mais longe nas experiências.
Será isto digno do jornalismo e defensável apenas com base no critério da hipocrisia alheia? Não me parece.
Terá o jornal viabilidade económica se deixar de publicar este tipo de notícias e chafurdar permanentemente nestes assuntos bisonhos ou de baixa extracção?
Não sei. Poderá sempre experimentar e continuar a publicar as demais notícias, mesmo sensacionais, mas sem o recorte trash que acompanha agora, com maior frequência, o relato deste tipo de notícias.
A indignação dos Marques Lopes e quejandos é postiça, acredito. Não gostam do Correio da Manhã porque lhes expõe podres e vícios da corte de que fazem parte.
Porém, as notícias que os incomodam e o Correio da Manhã publica, com generosidade filantrópica, será o menino que está no banho. A água suja do resto é que será para deitar fora, nada mais.