domingo, 12 de maio de 2019

A Direita em Portugal perdeu o pé

O Diabo de Sexta-Feira passada:



Nunca tinha lido nada de Pedro Soares Martinez que fosse tão explícito relativamente a uma participação num golpe de Estado, mascarado de "plano",  susceptível de arredar Marcello Caetano do poder, em 1974. Um golpe de direita apostada em manter os territórios ultramarinos, indefinidamente sob controlo nacional da Metrópole e sem alternativa de eventual ponderação e muito menos negociação em contrário.

Ou seja, nas vésperas de 25 de Abril de 1974, a direita portuguesa apostada na manutenção da integralidade territorial nacional, incluindo as províncias ultramarinas que a esquerda designa como colónias, preparava um golpe com o apoio do então presidente da República, Américo Tomás. Os "conjurados" seriam, para além do presidente, o subscritor do artigo e ainda Kaulza de Arriaga e Basílio Caeiro da Mata.

Soares Martinez não acreditou na eficácia do plano, porque "os revolucionários andariam mais depressa". Andariam se os deixassem. Se tal direita tivesse poder e força suficientes, com armas, pessoas e apoios. Não tinham e Soares Martinez percebeu que estavam sozinhos.

Quem é esta direita portuguesa que assim pensava e que continuou a manifestar-se em círculos restritos, cada vez mais concêntricos?
Salazar pertenceria a esta direita? Duvido muito porque Salazar, no seu tempo de lucidez e poder,  tinha uma inteligência que esta direita nunca teve.

Esta direita não era a de Marcello Caetano e também não era fascista, de extrema-direita, mesmo que Soares Martinez implique um tal General Malheiro Reymão, um aristocrata, numa conjura de extrema-direita revolucionária, disposto a aliar-se até com comunistas para correr com Marcello Caetano do poder.

E esta direita também não era a do General Spínola que optou igualmente por aderir ao golpe revolucionário, contra Marcello Caetano.

Esta direita é apenas uma corrente ideológica que tem de Portugal uma ideia mítica que engloba concepções anacrónicas e pouco fundamentadas teoricamente.

Dizer que Portugal sem as províncias ultramarinas acabou, como disse Franco Nogueira, outro dos elementos do grupo, é nada porque Portugal não acabou nos séculos que levou a chegar até aqui e passou por muitas outras vicissitudes, incluindo a perda temporária de independência real, através da ligação ao reino de Espanha, nosso vizinho e inimigo desde os tempos de Aljubarrota.

Portugal é a nossa cultura, a nossa língua, a nossa vivência colectiva e tradicional durante séculos. Portugal é D.Afonso Henriques, D. Dinis, D. Duarte, D. João II e D. Manuel e os reis que se lhe seguiram e depois os que tomaram o respectivo trono, como Salazar.  Antes de D. Manuel, no século XVI,  ainda não existia o Portugal ultramarino e já existíamos como Nação há séculos. Não foram as possessões ultramarinas que nos deram identidade, porque essa vinha de trás, dos que fizeram os Descobridores. Foi a cultura que tínhamos e o conhecimento que organizamos que nos deram a identidade que apresentamos no Oriente ainda mais antigo que nós. Foi nessa altura que nos destacamos no panorama de outros povos e por isso a importância dessa época é enorme e deveria ser ainda mais estudada.
O que nos conduziu ao Ultramar foi o que já éramos e não foi o Ultramar que nos deu identidade ou mesmo poder.
O Ultramar, na evolução histórica dos séculos XVIII e XIX, foi um fardo porque deixamos de ser o que éramos nos séculos anteriores e fomos ultrapassados pelos anglo-saxónicos protestantes, do Norte. Perdemos poder, influência, saber e cultura.

Esse foi o fim do nosso período áureo, se assim se quiser dizer e se considerarmos a importância do que então fizemos. Não foi a perda do Ultramar. Já o tínhamos perdido nessa altura, com a perda de saber, conhecimento e influência que tivemos durante um século. No período do sec. XV-XVI.

Para mim o mais interessante da História de Portugal é o conhecimento do que nos conduziu à dimensão planetária que hoje assumem outros povos, como o americano, anglo-saxónico e chinês e como lá chegamos e  o perdemos.

A celebração dos Centenários, em 1940 teve esse condão: o de mostrar o que fomos, mesmo com alguma fantasia.  Não chegou a mostrar como o conseguimos. Porém, só por isso,  o Salazarismo, nesse aspecto nacionalista e celebratório do que tivemos de melhor, merece respeito.

A nossa identidade nunca foi tão respeitada e assumida de modo coerente, como nessa altura.  Isto não tem a ver com direita. Tem a ver com identidade de um povo que se procura a si mesmo para entender para onde há-de seguir.

Marcello Caetano tinha esta dimensão de entendimento, segundo julgo.
Por isso entendo que a visão ideológica de Soares Martinez está errada. Porém, neste artigo manifesta a dúvida porque se recusa a julgar os militares que partilhando a ideia de Portugal antigo alinharam com os revolucionários que conduziram o país a esta esterqueira ideológica onde se encontra.

Este A. Costa, filho de um goês e de uma jornalista esquerdista e alienada,  é bem o exemplo disto, desta nulidade de entendimento. Nem sequer é um bastardo da nossa cultura. É um estrangeiro à mesma, um ignorante.

Em  Dezembro de 1977 ainda havia uma quantidade apreciável de gente a pensar que Portugal precisava de se rever no passado para enfrentar o futuro que se vislumbrava negro, como estes últimos 40 anos aliás o demonstraram.

O jornal O Diabo costumava, nessa altura e depois, organizar uma manifestação no dia 1 de Dezembro de cada ano, data da Restauração, para lembrar tal necessidade premente. Debalde...

A edição de 6 de Dezembro de 1977 mostrava tal manifestação na Avenida da Liberdade. Hoje, como seria?



Nas contas do ano anterior, segundo o jornal, o panorama era este: de falência do Estado e de bancarrota.


Mais: um caso singular mostra como eram tratados os portugueses que viveram nos territórios ultramarinos. A alguns nem sequer a própria nacionalidade lhes era reconhecida. A outros- e estou a lembrar-me da actual ministra da Justiça- abriram-se-lhes as portas, mesmo depois de terem regressado ao território de origem para aí singrarem num lugar ao sol, assumindo forçosamente uma nacionalidade diversa da que tinham. A dita chegou a inscrever-se no MPLA, como instruenda ou algo parecido.
Quando o poder desse mesmo MPLA, dirigido por facções adversas, lhes fechou as portas e os levou a temer pela vida, regressaram a penates e foi uma passadeira vermelha, propriamente dita, a que lhes estenderam.
Estas histórias estão por contar...


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